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26 de dez de 2014

au revoir


“Para se tornar quem você quer ser, você precisa sacrificar quem você é”

...Será?...

Só sei que já não sou mais. E aproveito o ano novo para dizer que o tesão (em escrever aqui!) se foi. Não me reconheço mais neste endereço, embora esteja em todas as linhas aqui rabiscadas. Aproveito o ano novo para me desligar da blogosfera. Aviso por consideração, afinal há leitores que passam para ver se tem novidade. Agradeço pelas visitas ao longo desses anos. Obrigada pelas dezenas de visitas diárias. Os textos permanecerão publicados para consulta – de repente, podem ser úteis aos que aparecerem aqui por acaso.


Au revoir.






NOTA: caso alguém esteja se perguntando, já que ainda faltam alguns dias para o 1º de janeiro... meu ano novo começa hoje, data do meu nascimento. E é esse o ano novo que, de fato, me interessa. E, embora eu saiba para onde quero ir, não tenho a menor pretensão de saber para onde vou. Quer me presentear? Sugestões AQUI. Quer presentear a humanidade? Sugestão AQUI – o desejo para 2014 continua atual como desejo para 2015.


31 de out de 2014

a banalidade do mal

Alexander Soljenítsin (1918-2008), escritor russo, autor do monumental “Arquipélago Gulag”, escreveu que os piores vilões de Shakespeare já não metiam medo aos homens do século 20. Os relatos de Soljenítsin, que sofreu na pele os crimes do regime soviético, demonstram o perigo e a tragédia do momento em que a ideologia substitui a consciência.

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Na era moderna, em especial no século passado, a política adquiriu cores de uma religião – ou de uma fé. Os modernos movimentos ideológicos de massa substituíram e aniquilaram a moral. Em nome de um ideal de sociedade, tudo torna-se possível: matar, roubar, mentir, corromper. Nada é pessoal. É tudo em nome do partido, da raça, da nação. Quando estamos munidos de uma ideologia, é possível eliminar da agenda moral a consciência do mal como parte de nós mesmos.

Václav Havel (1936-2011), escritor e político checo, ressaltou que a ideologia é uma forma ilusória de se relacionar com o mundo. Ela oferece os seres humanos a ilusão de uma identidade, de dignidade, de pertencimento e torna mais fácil a aceitação. Ela permite que as pessoas enganem a sua consciência e que a ocultem de si mesmos. É um véu, atrás do qual os seres humanos podem esconder a sua própria existência caída, sua banalização e sua adaptação ao coletivo. É uma desculpa que todos podem usar – desde o verdureiro, que esconde seu medo de perder o emprego por trás de um alegado interesse na unificação dos trabalhadores do mundo, até o mais alto funcionário público, cujo interesse em permanecer no poder pode ser camuflado em frases sobre o serviço para a classe trabalhadora e para a sociedade. A principal função da ideologia é, portanto, proporcionar às pessoas a ilusão de que a sociedade está em harmonia com a ordem humana e em rumo linear à salvação.

Considerações semelhantes foram feitas por Hannah Arendt (1906-1975), filósofa política alemã de origem judaica. Em tempo: quem puder, assista ao filme de Margarethe von Trotta. Ela narra especificamente os anos da vida de Arendt em que ela assistiu ao processo de julgamento de Eichmann e relatou sua experiência para os leitores da revista “The New Yorker” – que depois se transformou no livro “Eichmann em Jerusalém – um Relato sobre a Banalidade do Mal” (Companhia das Letras).

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Quando foi convidada para acompanhar o julgamento, Arendt já era uma filósofa renomada, especialmente pelo livro “Origens do Totalitarismo“, de 1951. Nessa obra, ela realçou a singularidade do totalitarismo como nova forma de governo baseada na organização burocrática de massas e apoiada no emprego do terror e da ideologia. Hannah Arendt coloca o nazismo e o stalinismo diante do mesmo tribunal – uma novidade para a época – e ressalta que as origens dos totalitarismos do século 20 estavam nas ideias, nas convicções e nos ideais, tanto das elites como dos povos.

No entanto, após assistir ao processo de Eichmann, Arendt teve certeza de que suas explicações anteriores não bastavam para esclarecer a transformação de um cidadão comum em um assassino genocida. O totalitarismo tinha sido possível não somente graças a uma tropa – mas graças a personagens quaisquer e banais, facilmente dispostos a abdicar sua faculdade de pensar em prol da fidelidade ao grupo ou do projeto político que tanto defendiam.

O que mais impressionou nos relatos de Arendt foi a caracterização de Eichmann. O tenente-coronel nazista não foi descrito como um monstro ou um exaltado. Se assim fosse, sua loucura poderia explicar o horror de seus atos e o manteria afastado das pessoas comuns, diferente de nós. Mas não. Era um banal – um primo, parente, amigo, acolhedor e colega. Era um cidadão comum – disposto a praticar atos monstruosos em nome da sua ideologia. O monstro cede lugar a um funcionário medíocre, um arrivista incapaz de refletir sobre seus atos ou de fugir aos clichês burocráticos.

Nada disso serve de desculpas, ressalto. A culpa original de Eichmann é usar a fidelidade ao grupo como justificativa para suprimir a capacidade de pensar. Graças a isso ele se torna capaz de agir como se não existissem considerações morais. Obedecia a ordens, sem considerar as implicações delas. Ao tornar-se instrumento do funcionamento coletivo, ele abriu mão de sua individualidade e do diálogo com sua consciência.

Como ressaltou Contardo Calligaris, psicanalista italiano radicado no Brasil, há algo na dinâmica de nossa subjetividade que faz com que parar de pensar seja uma tentação constante, como se qualquer desculpa (ideológica, por exemplo) fosse boa para fugir da solidão, que é a condição do diálogo moral de cada um com sua consciência. Calligaris afirma que “o coletivo (a nação, o partido, o sindicato, a torcida, a gangue, o grupo adolescente de amigos, a própria família) não oferece apenas ideologias e desculpas: ele fornece uma função para cada um de seus membros. Com isso, não preciso pensar para decidir minha vida – preciso apenas preencher minha função. É bom o que é funcional ao grupo – ruim, o que não é”.

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A história do século 20 ensinou que não há nada mais opressor do que tornar a humanidade em um projeto, que sempre será imposto de cima para baixo. A necessidade de criar o novo homem e de promover o bem comum está nas raízes de todos os totalitarismos do século passado. Criar nova sociedade por meio de um projeto político sempre exigirá que se esvaziem dos indivíduos todas as suas verdades e necessidades “egoístas” em nome da coletividade, que será representada por um partido ou por um condutor das massas – em certos casos, por ambos.

É apenas o foro íntimo que coloca os freios à banalidade do mal. Qualquer ofuscamento do indivíduo representa a morte da moral e da consciência. Pensem nisso antes de agitar uma bandeira, aderir a movimentos de massa, vestir a camisa de um partido ou de um clube. Deixem de usar a primeira pessoa do plural e comecem a escutar a primeira pessoa do singular: o solitário e insubornável “eu”.


*o texto acima não é de minha autoria e pode ser lido na íntegra AQUI



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27 de out de 2014

o saldo das eleições: luto

É tanto absurdo absurdante que tive o desprazer de ler nessa terra de ninguém – conhecida também como internet – ou presenciar ao vivo e em cores... que só me resta o luto. #R.I.P.racionalidade #R.I.P.lucidez #R.I.P.respeito Uma pena que respeito esteja em desuso – e que hipocrisia esteja tão ‘na moda’ (e de todos os lados!). Defendem a democracia pregando preconceito, ódio e pensamento único? Really?

Crianças mimadas que não sabem perder... Crianças mimadas que não sabem ganhar... Parabéns! Continuem canonizando candidatos e partidos com essa paixão cega inexplicável que cala qualquer razão. Iludidos, continuem preocupados com o destino do Lobão, o nariz do Aécio, a gagueira da Dilma... Talvez a fantasia transforme magicamente o que move a máquina e o Brasil se torne um conto de fadas. Ou o cérebro dessas crianças está em greve?

Continuem empobrecendo qualquer debate sério com rótulos. Coxinhas. Petralhas. Playboys. Comunistas. Infectados. Gayzistas. Reacionários. Continuem destilando preconceitos mesquinhos contra nordestinos ou, quem sabe, contra paulistas. Burros, todos eles. Continuem repetindo ad nauseum, como crianças birrentas, coisas como “chupa” ou “chora” ou pedindo a separação do país daqueles “nordestinos burros e miseráveis”. Isso lhes traz algum regozijo perverso?

Sabia que esses rótulos contribuem para a desumanização do outro? Dessa forma, não vemos o outro como um ser humano, com direitos, sonhos, planos, medos e esperança... Ah, esses jogos de palavras usados para denegrir e diminuir quem pensa diferente! O eleitorado se perdeu em meio a ofensas e discussões/argumentos sem sentido. Os próprios candidatos, alguns mais do que outros, esqueceram que o debate é feito de ideias e não de acusações pessoais...

Eleitores de Dilma não necessariamente são comunistas comedores de criancinhas e eleitores de Aécio não necessariamente são elitistas conservadores neoliberais. Muitos, em ambos os casos, são. Outros apenas tem uma visão diferente para alcançar o mesmo fim. Outros, ainda, votam coagidos por medo de perder o que conquistaram – seja um cargo, uma bolsa ou o lucro de sua empresa. Todos, porém, tem o mesmo direito de escolher o candidato que quiserem – e essa escolha, por mais que nos pareça péssima ou por mais que não seja de fato uma escolha, sim uma coação, não nos dá o direito de agirmos como seres primitivos, odiosos, indecentes e estúpidos.

Pessoalmente, acho mais do que equivocada a reeleição de Dilma. Gostaria de estar errada, mas prevejo tempos difíceis para o Brasil – econômica, social e institucionalmente. Gostaria de estar errada, mas prevejo que não teremos avanços em relação aos direitos humanos e das minorias. Gostaria de estar errada, mas prevejo crises graves nos próximos anos – política, econômica, institucional e social. Gostaria de estar errada, mas quem vai pagar a conta disso tudo é essa mesma população que reelegeu Dilma, com ênfase nos mais pobres e humildes.

"There's no such a thing as a free lunch". O projeto social do PT tem uma falha grave: não é economicamente sustentável. Alguém ou algo tem que pagar essa conta e, seja quem for, é um agente econômico que, como tal, depende da estabilidade econômica. Que me desculpem os crédulos, mas o PT já demonstrou ser incompetente nessa área (a economia)... Como defensora das causas sociais e por não acreditar que Dilma possa ser diferente de Dilma, votei no PSDB – e exatamente para salvar as condições econômicas que possibilitariam dar continuidade e sustentação aos projetos sociais iniciados na Era FHC e melhorados na Era PT.

Gostaria de estar errada em todas as minhas previsões – mas sinto que, no futuro, muita gente se arrependerá do ovo de serpente que ajudou a chocar... Espero estar errada. Até lá, que as pessoas possam comemorar ou lamentar sem serem babacas. Sabiam que dá para argumentar e defender seu lado sem ser babaca? Que dá para discordar sem babaquice e xingamentos/ofensas gratuitos aos outros? Que dá para ficar indignado ou muito feliz sem a necessidade de baixar o nível e misturar preconceitos mesquinhos à indignação ou à felicidade? #R.I.P.racionalidade #R.I.P.lucidez #R.I.P.respeito Uma pena que respeito esteja em desuso – e que hipocrisia esteja tão ‘na moda’ (e de todos os lados!).



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Democracia birrenta