Páginas

14 de nov de 2009

impostos

Devo admitir que tenho relido muito contos e crônicas do meu escritor preferido nos últimos tempos... Tenho a coleção completa dele em papel, pra quem não se importa de ler numa tela de computador, um bom site é este AQUI.

Mais uma crônica pra dizer que este país mudou muito pouco em mais de 100 anos:

IMPOSTOS

Machado de Assis - 16 de maio de 1885


Ontem, ao voltar uma esquina, dei com os impostos inconstitucionais de Pernambuco. Conheceram-me logo; eu é que, ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais gordos, não os conheci imediatamente. Conheci-os pela voz, vox clamantis in deserto. Disseram-me que tinham chegado no último paquete. O mais velho acrescentou até que, já agora, hão de repetir com regularidade estas viagens à Corte.
— A gente, por mais inconstitucional que seja, concluiu ele, não há de morrer de aborrecimento na cela das probabilidades. Uma chegadinha à Corte, de quando em quando, não faz mal a ninguém, exceto...
— Exceto... ?
— Isso agora é querer perscrutar os nossos pensamentos íntimos. Exceto o diabo que o carregue, está satisfeito? Não há coisa nenhuma que não possa fazer mal a alguém, seja quem for. Falei de um modo geral e abstrato. Você costuma dizer tudo o que pensa?
— Tudo, tudo, não; nem eu, nem o meu vizinho boticário, e mais é um falador das dúzias.
— Pois então!
— Em todo caso, demoram-se?
— Temos essa intenção. O pior é o calor, mas felizmente começa a chover, e se a chuva pega, junho aí vem com o inverno, e ficamos perfeitamente. Está admirado? É para ver que já conhecemos o Rio de Janeiro. Contamos estar aqui uns três meses, não pode ser que vamos a quatro ou cinco. Já fomos à Câmara dos Deputados.
— Assistiram à recepção do Saraiva, naturalmente?
— Não, fomos depois, no dia 13, uma sessão dos diabos. Ainda assim, o pior para nós não foi propriamente a sessão, mas o demônio do José Mariano, que, apenas nos viu na tribuna dos diplomatas, logo nos denunciou à Câmara e ao Governo. Não pode calcular o medo com que ficamos. Eu, felizmente, estava ao pé de duas senhoras que falavam de chapéus, voltei-me para elas, como quem dizia alguma coisa, e dissimulei sem afetação; mas os meus pobres irmãos é que não sabiam onde pôr a cara. Hoje de manhã, queriam voltar para Pernambuco; mas eu disse-lhes que era tolice.
— São todos inconstitucionais?
— Todos.
— Vamos aqui para a calçada. E agora, que tencionam fazer?
— Agora temos de ir ao Imperador, mas confesso-lhe, meu amigo receamos perder o tempo. Você conhece a velha máxima que diz que a história não se repete?
— Creio que sim.
— Ora bem, é o nosso caso. Receamos que o Imperador, ao dar conosco, fique aborrecido de ver as mesmas caras, e, por outro lado, como a história não se repete... Você, se fosse Imperador, o que é que faria?
— Eu, se fosse Imperador? Isso agora é mais complicado. Eu, se fosse Imperador, a primeira coisa que faria era ser o primeiro cético do meu tempo. Quanto ao caso de que se trata, faria uma coisa singular, mas útil: suprimiria os adjetivos.
— Os adjetivos?
— Vocês não calculam como os adjetivos corrompem tudo, ou quase tudo; e quando não corrompem, aborrecem a gente, pela repetição que fazemos da mais ínfima galanteria. Adjetivo que nos agrada está na boca do mundo.
— Mas que temos nós outros com isso?
— Tudo. Vocês como simples impostos são excelentes, gorduchos e corados, cheios de vida e futuro. O que os corrompe e faz definhar é o epíteto de inconstitucionais. Eu, abolindo por um decreto todos os adjetivos do Estado, resolvia de golpe essa velha questão, e cumpria esta máxima, que é tudo o que tenho colhido da história e da política, e que aí dou por dois vinténs a todos os que governam este mundo: Os adjetivos passam, e os substantivos ficam.

11 de nov de 2009

ah, os blogs...

Há uma idéia, talvez mais generalizada do que deveria, de que a história se resume a um conjunto de grandes feitos. Bela falácia! A história é feita fundamentalmente pelo cotidiano. Não nos damos conta deste fato porque cada acontecimento do dia-a-dia é apenas uma peça muito pequena do todo e porque, além disso, os acontecimentos sublimam-se tão rapidamente que, após pouco tempo, não nos lembramos mais deles.

Nesse universo, os blogs aparecem como exceção e nos oferecem relatos de acontecimentos que, se não fossem por eles registrados estariam perdidos. Não sei mensurar ao certo qual o impacto deste meio de comunicação (ou seria expressão?) na vida contemporânea, muito menos no futuro. No mínimo, servem para o divertimento (por que não até desabafo?) de quem escreve, distraem quem lê e são um meio bem democrático de expressar o que quer que seja.

À primeira vista, as memórias podem parecer restritas, por se concentrarem nas vivências e opiniões de cada pessoa que escreve um blog. Ao contrário, neles encontramos a mais variada amostragem do espécime humano possível. Acho que o desafio de cada pessoa que escreve é selecionar quais acontecimentos e personagens são significativos ou pitorescos o bastante para integrar um texto.

Não sei quanto aos outros blogueiros do mundo, pois cada um tem uma visão diferente a respeito da observação e das atitudes dos nossos semelhantes... Mas eu não escolho nada do que vou escrever e, todas as palavras não são senão o fruto do sentimento que, em determinado momento, apareceu (ainda que no minuto seguinte tal sentimento não exista mais).

Agora mesmo, eu estava lendo sobre política internacional e simplesmente comecei a viajar nisso que virou este post, sem motivo algum. Assim como quando falo de pessoas que conheço simplesmente porque deu vontade naquela hora. Não identifico ninguém, mas se alguém por acaso se identificar como personagem ao ler algum texto, deveria sentir-se lisonjeado (ok, faço piada e falo mal, sacaneio, dou risadas... mas a presença de alguém como personagem deveria ser interpretada como uma demonstração de que a pessoa merece lembrança... ou não?...rs...).

Ironia... nem escrevendo sério me livro dela né...rs... Whatever. Se alguém sentir-se ofendido ou ficar ‘putinho’, tenho duas sugestões: basta clicar naquele ‘X’ vermelho no canto direito (aquele mesmo, que fecha a tela), ou... me processe! Bem simples. Fazer o quê? Life is a Bitch!

6 de nov de 2009

analfabetismo

Esta semana passei uma de minhas noites no hospital... só um susto mesmo. Mil exames depois e nada, nenhuma infecção, só uma virose que foi rapidamente resolvida com medicação direto na veia (já falei que ODEIO agulhas?!!!?).

Levei um livro de crônicas do meu escritor favorito pra ler. Entre elas, uma em particular, datada de 1876, me chamou a atenção pelo fato de ser de uma atualidade política impressionante. A perplexidade é ler algo escrito há mais de 100 anos e constatar que nosso país moveu-se muito pouco, principalmente no que diz respeito à educação.

Divirtam-se. E reflitam.



ANALFABETISMO

Machado de Assis - 15 de Agosto de 1876


Gosto dos algarismos, porque não são de meias medidas nem de metáforas. Eles dizem as coisas pelo seu nome, às vezes um nome feio, mas não havendo outro, não o escolhem. São sinceros, francos, ingênuos. As letras fizeram-se para frases: o algarismo não tem frases, nem retórica.

Assim, por exemplo, um homem, o leitor ou eu, querendo falar do nosso país dirá:

- Quando uma constituição livre pôs nas mãos de um povo o seu destino, força é que este povo caminhe para o futuro com as bandeiras do progresso desfraldadas. A soberania nacional reside nas Câmaras; as Câmaras são a representação nacional. A opinião pública deste país é o magistrado último, o supremo tribunal dos homens e das coisas. Peço à nação que decida entre mim e o Sr. Fidélis Teles de Meireles Queles; ela possui nas mãos o direito a todos superior a todos os direitos.

A isto responderá o algarismo com a maior simplicidade:

- A nação não sabe ler. Há 30% dos indivíduos residentes neste país que podem ler; desses uns 9% não lêem letra de mão. 70% jazem em profunda ignorância. Não saber ler é ignorar o Sr. Meireles Queles: é não saber o que ele vale, o que ele pensa, o que ele quer; nem se realmente pode querer ou pensar. 70% dos cidadãos votam do mesmo modo que respiram: sem saber por que nem o quê. Votam como vão à festa da Penha, - por divertimento. A constituição é para eles uma coisa inteiramente desconhecida. Estão prontos para tudo: uma revolução ou um golpe de Estado.

Replico eu:

- Mas, Sr. Algarismo, creio que as instituições ...

- As instituições existem, mas por e para 30% dos cidadãos. Proponho uma reforma no estilo político. Não se deve dizer: “consultar a nação, representantes da nação, os poderes da nação”; mas – “consultar os 30%, representantes dos 30%, poderes dos 30%”. A opinião pública é uma metáfora sem base: há só a opinião dos 30%. Um deputado que disser na Câmara: “Sr. Presidente, falo deste modo porque os 30% nos ouvem...” dirá uma coisa extremamente sensata.

E eu não sei que se possa dizer ao algarismo, se ele falar desse modo, porque nós não temos base segura para os nossos discursos, e ele tem o recenseamento.

4 de nov de 2009

frase da semana

"Em cada época deve-se fazer a tentativa de arrancar a tradição do campo do conformismo que está sempre prestes a subjugá-la".

Walter Benjamin