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30 de jan de 2010

M.E.D.O.

Estava eu lendo jornais nacionais e importados, alguns blogs com análises políticas... e eis que parei pra pensar nas eleições de outubro... M.E.D.O.

Sério, o quadro é desanimador... Não voto em Serra nem que me paguem, muito menos em Dilma. Dos prováveis candidatos à presidência, votaria apenas em uma, e ela não tem chance de ir pra um segundo turno.

O pior é que como a maioria das pessoas é o TYPICAL CITIZEN do Olson e esta mesma maioria não pára pra pensar racionalmente e sem viseiras ideológicas (logo não escolhem bem o seu candidato), provavelmente teremos um novo presidente pior que o FHC e o Lula.

A saída é emigrar...rs... Deixemos o barco antes que ele afunde...rs...

Parabéns Brasil!!!

direitos humanos

Ao lado do meu orientador, o Cançado Trindade é uma das pessoas que conheci na academia que mais me influenciaram. Tive aulas com ele na graduação e na pós. Daquelas raras pessoas que têm um currículo desses e que tratam a todos, do faxineiro ao chefe de Estado, da mesma forma. Um dos raros acadêmicos dessa envergadura que é totalmente acessível e disposto a ajudar.

Reproduzo abaixo a parte final de um artigo do Cançado Trindade, de 2006. Se você não sabe quem é ele, basta clicar no nome (aviso que o lattes está desatualizado e que ele agora é juiz na Corte Internacional de Justiça, na Haia). Convém prestar atenção à data da Emenda Constitucional n.45 (2004) e refletir um pouquinho – PNDH III surge do mesmo governo... mas contradições não devem ser faladas não é mesmo...rs... Mimimi... foi o parlamento que aprovou? Sim... mas quem sansiona ou veta?... Oops, esqueci, não posso falar mal do Lula. Ah, mas ele não lê né, prefere assistir tv (declaração do próprio), então nem deve ter lido o que assinou.




Diante das insuficiências e carências do direito interno, muitos casos de direitos humanos, que as instâncias nacionais não conseguiram resolver, só têm encontrado solução graças ao concurso das instâncias internacionais. É significativo que as decisões destas últimas tenham tido um real impacto no ordenamento interno dos Estados demandados, mostrando-se valiosas na luta contra a impunidade, verdadeira chaga que corrói a crença nas instituições públicas e que gera a anomia e a apatia sociais.

(...)

Depreendem-se avanços logrados pelo Brasil nas duas últimas décadas. No entanto, tais avanços têm, por vezes, mostrado-se entremeados de retrocessos, exemplificados pela decepcionante regulamentação no direito interno brasileiro do crime de tortura, pela bizarra denúncia pelo Brasil da Convenção 158 da OIT (sobre garantia no emprego) e, ainda há pouco, pela bisonha Emenda Constitucional n 45/2004. Esta última outorga status constitucional tão só aos tratados de direitos humanos que sejam aprovados por maioria de 3/5 dos membros tanto da Câmara como do Senado (passando, assim, a ser equivalentes a emendas constitucionais).

Mal concebida, mal redigida e mal formulada, representa um lamentável retrocesso ao modelo aberto consagrado pelo artigo 5(2) da constituição de 1988. No tocante aos tratados anteriormente aprovados, cria um imbróglio, tão a gosto dos nossos publicistas estatocêntricos, insensíveis à proteção do ser humano. Em relação aos tratados a aprovar, cria a possibilidade de uma diferenciação tão a gosto de nossos publicistas autistas e míopes, tão pouco familiarizados – assim como os parlamentares que lhes dão ouvidos – com as conquistas do Direito Internacional dos Direitos Humanos. Esse retrocesso provinciano põe em risco a interrelação ou indivisibilidade dos direitos protegidos em nosso País (previstos nos tratados que o vinculam), ameaçando-os de fragmentação ou atomização, em favor dos excessos de um formalismo e hermetismo jurídicos eivados de obscurantismo.

(...)

Os triunfalistas da recente Emenda Constitucional n 45/2004 não se dão conta de que, do prisma do Direito Internacional, um tratado ratificado por um estado o vincula, aplicando-se de imediato, quer tenha ele previamente obtido aprovação parlamentar por maioria simples ou qualificada.

(...)

A decisão do Brasil de aceitar a competência da Corte Interamericana (1998) em matéria contenciosa constituiu uma manifestação do compromisso do país com a proteção dos Direitos Humanos e haverá de contribuir para a busca da prevalência dos direitos humanos e do fim da impunidade no País.

(...)

Na verdade, é, sobretudo, das medidas nacionais de implementação que depende em grande parte o futuro da proteção internacional dos direitos humanos em relação ao Brasil. Trata-se da adequação do ordenamento jurídico interno à normativa internacional, prevista nos próprios tratados que vinculam o Brasil.

28 de jan de 2010

randa kamel

Eu tenho uma relação de amor e ódio com a dança do ventre. Amo as músicas, amo a dança. Odeio o meio da dança (já falei um pouco sobre isso AQUI). Hoje não vou falar mal do meio...rs... Fiquemos só com a parte do amor.

Assistir a vídeos de dança é muito diferente de assistir ao vivo. Pouquíssimas pessoas que eu já assisti ao vivo me marcaram: uma delas é a Randa Kamel, bailarina egípcia que eu tive a oportunidade de assistir em São Paulo e no Cairo. Também tive a oportunidade de fazer aulas com ela em um festival internacional de dança em São Paulo.

Ela é baixinha, não é bonita, bem uma pessoa comum que ninguém nem prestaria atenção se visse andando na rua. Pra completar, se veste de uma forma, digamos, meio breguinha. Mas essa mulher no palco é simplesmente indescritível! Daquelas pessoas que têm uma presença de palco sem igual, que parece que estão sentindo a música e conseguem transmitir o sentimento para quem está assistindo.

Já vi muita gente dançando... bailarinas egípcias, brasileiras, argentinas, americanas... mais bonitas, com roupas melhores... com a técnica mais perfeita... Já vi muita bailarina muito boa... mas alguém que tenha uma presença de palco espetacular, carisma, que faça uma leitura musical ótima e que pareça estar sentindo a música e consiga transmitir esse sentimento... Voto na Randa. Fã dessa mulher.

Vai um videozinho (embora em vídeo não tenha a menor graça...rs...).



26 de jan de 2010

programa nacional de direitos humanos

Ao contrário de muita gente por aí, eu não acho o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH III) uma babaquice. E ao contrário de muita gente por aí, minhas opiniões sobre este plano não partem do que vi na imprensa – inclusive sugiro a quem quiser criticar ou falar bem que leia antes de fazê-lo (PDF ou txt).

A Diretriz 22 deste Programa é uma das que mais geraram falação por aí, por causa especificamente deste ponto:

d) Elaborar critérios de acompanhamento editorial a fim de criar um ranking nacional de veículos de comunicação comprometidos com os princípios de Direitos Humanos, assim como os que cometem violações.

Responsáveis: Ministério das Comunicações; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República; Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República; Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República; Ministério da Cultura; Ministério da Justiça.
Recomendação: Recomenda-se aos estados, Distrito Federal e municípios fomentar a criação e acessibilidade de Observatórios Sociais destinados a acompanhar a cobertura da mídia em Direitos Humanos.


Por um lado, não acho que haja razão para tanta histeria da mídia. Por outro lado, a legislação que já existe (calúnia, infâmia, difamação; artigos 220 a 224 da constituição), torna esta diretriz 22 em seu todo, e não apenas esta letra d, totalmente desnecessária e, levando em consideração nossa história política, dá sim margens a interpretações estatais e judiciárias que possam levar à censura.

Voltando ao 1º parágrafo, o PNDH III em si não considero babaquice, possui diretrizes criticáveis, assim como louváveis. O que acho uma babaquice gigantesca são nossos governantes gastarem tempo e recursos (financeiros e de pessoal) na elaboração disso. Bastaria concentrar-se em cumprir os artigos 5 a 11, 14 a 16, 193 a 232 da nossa constituição... mas por aqui gosta-se de criar projetos e legislações (e, de quebra, aparecer como defensor dos pobres e oprimidos), ao invés de simplesmente colocar em prática leis que já existem.

Entre os que já existem, incluem-se os tratados internacionais dos quais somos parte e que são solenemente ignorados ou vítimas de emendas constitucionais bizarras (sobre isto posto ainda esta semana).


Por sinal, sobre esse PNDH III, um artigo legal AQUI.


***Nunca se deu ao trabalho de ler nossa constituição que só existe pra enfeitar? AQUI.


***Dica de blog: Fermento Cínico (de vez em quando a gente acha alguém são na internet, que consegue falar de política, história e coisa e tal pragmaticamente, sabendo do que está falando, e sem cair nos extremos direitistas e esquerdistas dos cegos que povoam o mundo).

23 de jan de 2010

crise climática e econômica

Tenho à disposição digitalizado, pra quem quiser cópia, o relatório TOWARDS A GLOBAL GREEN RECOVERY, de 2009.

Os autores, Ottmar Edenhofer e Nicholas Stern, são autoridades reconhecidas internacionalmente e neste relatório fazem uma análise do que chamam de dupla crise, econômica e climática, e das ações necessárias para superar a(s) crise(s).

Leitura obrigatória para todos que se interessam por Política Internacional do Clima (Regime Internacional do Clima não é o nome adequado!).

Quem quiser cópia do relatório, basta deixar comentário com seu email que envio.



P.S.: para segurança e privacidade das pessoas que pedirem a cópia, não aceitarei os comentários que contenham email. Envio a cópia, mas deleto o comentário ok. Motivo: tem muito doido à solta na internet né, melhor não facilitar.

pão e circo para todos II

Pra quem não gosta, política e economia são um saco. Eu gosto, muito. Seria mais feliz se não gostasse, fato. Mais feliz ainda se eu fizesse parte do que Olson chama de TYPICAL CITIZEN e, consequentemente, dos 80% que aprovam o governo Lula. Infelizmente pra mim, no meio em que eu estou, com a quantidade de coisas, acadêmicos e profissionais a que tenho acesso, e com a quantidade de estudos sérios que preciso ler... não dá pra cair na mediocridade e na ingenuidade de bater palmas pra este governo e esperar pra votar na Dilma.

O typical citizen não consegue enxergar uma coisa bem básica: quem reduz o indivíduo a povo, é porque quer usá-lo em benefício próprio. Guardadas as devidas proporções, o que se tenta fazer por aqui e as pessoas não enxergam ou porque usam viseiras ideológicas ou simplesmente porque são ignorantes mesmo, é o que todos os regimes que desaguaram em autoritarismo fizeram antes de tornarem-se autoritários. Onde está o cuidado de perceber como nasce o autoritarismo?

Estudem as origens de todos os regimes autoritários antes de achar bonitas as iniciativas dos nossos governantes usando como guarita proteção aos direitos humanos, antes de achar linda a distribuição de bolsas isso e aquilo, antes de bater palmas pra nossa nova política externa que está acabando com mais de 100 anos de tradição com várias iniciativas equivocadas. Só a título de exemplo, este meu post - que tal prestar atenção no tal lay-out socialista que eles usavam?

Três textinhos curtos e legais também: O Brasil é um país surreal, O PT mudou o Brasil ou foi o contrário? e O PT de volta às origens.

É comum encontrar afirmações falando que a distribuição de terras tem um papel a cumprir, elogios à defesa da pequena propriedade na Europa e, ao mesmo tempo, acusações aos países ricos por seu protecionismo e pelos subsídios concedidos aos agricultores... sem entender que é tudo a mesma coisa. Pois eu elogio e bato palmas ao protecionismo desses países; eles estão na verdade defendendo interesses dos seus cidadãos, coisa que não se faz por aqui. Basta examinar os fatos e despir-se de ideologias esquerdistas ou direitistas.

Em todas as agriculturas do chamado 1º Mundo, a grande empresa e o trabalho assalariado tornaram-se apêndices de uma massa de estabelecimentos de médio porte tocados essencialmente pelo trabalho familiar. A tal ponto que grandes fazendas e assalariados agrícolas são ótimos indicadores de subdesenvolvimento. Na Europa, é fácil encontrá-los no leste, em Portugal ou na Grécia, mas é preciso paciência para achá-los na França, na Alemanha ou na Inglaterra. Na América do Norte, ainda são numerosos nas áreas próximas ao México, mas tornam-se cada vez mais raros à medida que se sobe em direção ao Canadá. No Japão, só com uma lupa é possível achar assalariados agrícolas.

O que se defende por aqui quando se acusa os países ricos de serem protecionistas e pede-se o fim dos subsídios são, na verdade, os interesses do nosso agrobusiness, já que são os grandes empresários os beneficiados com o fim destes subsídios. Mas as pessoas não conseguem ver isso e preferem falar bem do governo e mal dos países imperialistas maldosos que nos mantêm subdesenvolvidos.

Aliás, nosso país tem diante de si riscos e oportunidades importantes, economicamente falando... mas infelizmente, tirando a internacionalização de empresas, com Petrobrás, CSN, Vale do Rio Doce e algumas outras investindo no exterior (coisa que sim, dessa vez pode-se falar que o atual governo foi o grande responsável por este feito), parece que caminhamos diretamente para os riscos... e, pra variar, o typical citizen é incapaz de perceber isso.

Os riscos podem ser sintetizados na idéia da QUALIDADE desse novo ciclo potencial de expansão que se abre. No plano produtivo, a forte demanda chinesa por matérias-primas associada à crescente concorrência de sua produção manufatureira podem levar a uma perda importante de densidade do parque produtivo industrial. Com isso o país poderia retomar uma situação equivalente à vivida no auge do modelo agro-exportador, se inserindo internacionalmente como fornecedor de commodities e importador de produtos industrializados. Tal padrão concentrava renda, riqueza e oportunidades, reduzia as possibilidades de incremento dos salários reais e não requeria avanços na QUALIFICAÇÃO de recursos humanos. Sua reprodução, no século XXI, poderia piorar um quadro já desconfortável de elevada desigualdade distributiva.

Nosso principal desafio neste século será o de produzir uma trajetória de crescimento capaz de se traduzir em desenvolvimento, sob bases ambientais e sociais mais sustentáveis. Infelizmente, a julgar pela falta de investimentos sérios na qualidade da educação e pela falta de investimentos sérios no desenvolvimento de ciência e tecnologia, não acho que temos um futuro muito brilhante. E viva o pão e circo para todos!!!




Pra terminar deixo uma linda frase pra todos que classificam o mundo entre direita e esquerda (más ou boas, dependendo de quem as está classificando):

“NADA É TÃO PERIGOSO QUANTO A CERTEZA DE TER RAZÃO. NADA CAUSA TANTA DESTRUIÇÃO QUANTO A OBSESSÃO DE UMA VERDADE CONSIDERADA ABSOLUTA”.
François Jacob

20 de jan de 2010

a bíblia

Devo confessar que quando comecei a ler os originais, e durante as primeiras páginas, senti-me entusiasmado. Ali há ação pura e tudo o mais que o leitor de hoje exige de uma obra de evasão: sexo (muitíssimo), com adultério, sodomia, homicídio, incesto, guerras, etc.

O episódio de Sodoma e Gomorra, com os travestis que pretendem violar os anjos, é digno de Rabelais; as histórias de Noé são o mais puro Emilio Salgari; a fuga do Egito é uma história que, mais cedo ou mais tarde, acabará sendo filmada... Em resumo, trata-se do verdadeiro roman-fleuve bem estruturado, que não economiza efeitos, pleno de imaginação com aquela dose de messianismo que agrada, sem chegar ao trágico.

Mais adiante, no entanto, percebi que se trata, na verdade, de uma antologia de vários autores, com muitos, excessivos, trechos do poesia, alguns francamente lamentáveis e aborrecidos, choradeira sem pé nem cabeça.

O resultado é um feto monstruoso que corre o risco de não agradar a ninguém, porque tem de tudo. Além disso, será cansativo estabelecer a questão dos direitos de tão diferentes autores, a menos que o representante de todos eles se encarregue da tarefa. Mas nem no índice encontrei o nome desse representante, como se houvesse da parte dos autores interesse em manter seu nome oculto.

Talvez fosse possível publicar separadamente os primeiros cinco livros. Aí estaríamos pisando em terreno firme. Com o título: Os Desesperados do Mar Vermelho.

Umberto Eco


***
UMBERTO ECO propõe uma brincadeira: algumas obras, hoje consagradas, são submetidas a um hipotético editor. E, analisadas em "fichas de leitura", são, finalmente, recusadas. Leia AQUI.

16 de jan de 2010

holocausto

Um dos temas de história que sempre me interessou bastante é a Segunda Guerra Mundial e, em particular, o Holocausto. Não por acaso, fui à Berlim e outras localidades buscando saber mais sobre o assunto. Motivo simples: meus avós participaram da guerra dos dois lados e perderam tudo durante e após a guerra... e assim vieram parar no Brasil.

Contrariando quem afirma que os fascismos foram fenômenos típicos do entre-guerras e floresceram naquela conjuntura específica, o cenário político europeu dos anos 90 mostrou-se tensionado pela presença de partidos e agrupamentos neo-fascistas, como, por exemplo, o Front National, de Jean Marie Le Pen, na França, e a Aliança Nacional, na Itália. A explicação histórica se enfraquece diante destas circunstâncias.

Não cabe em um simples blog que, por sinal, nem foi feito pra isso, fazer ainda mais explicações teóricas e históricas sobre fascismos do que já fiz no post enorme anterior. Mas... Limpar o país dos antinacionais (ontem) ou expulsar o imigrante estrangeiro (hoje) é um objetivo que apenas restabelece, num nível imaginário, uma ordem voltada para o passado, expulsa o debate em torno das causas do mal-estar e identifica um alvo para a realização do ódio.

Canalizando a potência do indivíduo para odiar, transferindo para um estranho as causas do seu próprio mal-estar e afagando um ego aniquilado nas suas possibilidades de felicidade, o fascismo rompe com a tradição de participação política do Ocidente e aproxima-se de posturas místicas e cultiva cerimoniais cívicos coletivos.


Quem se interessa pelo tema:
Theodor Adorno. 1986. "A educação após Auschwitz". In Cohn, G (org.)
Norbert Elias. 1997. "Os Alemães".



"Para a educação, a exigência que Auschwitz não se repita é primordial... Mas o fato de a exigência e os problemas decorrentes serem tão subestimados testemunha que os homens não se compenetraram da monstruosidade cometida. Sintoma esse de que subsiste a possibilidade da reincidência, no que diz respeito ao estado de consciência e inconsciência dos homens."
Theodor Adorno

"Em vez de se ficar consolado com a idéia de que eventos recordados pelo julgamento de Eichman foram exceções à regra, seria mais proveitoso investigar as condições nas civilizações do século XX, as condições sociais, que propiciaram barbarismos desse gênero e que poderiam favorecê-los de novo no futuro."
Norbert Elias

10 de jan de 2010

internautas perigosos

Tem um tipo de internauta solto por aí que é bastante perigoso: os esquerdistas xiitas! O Luciano escreveu um ótimo post sobre isso (AQUI), mas em meu momento de ócio lendo coisas na internet, resolvi escrever sobre eles também...

É preocupante entrar em blogs desse tipo de internauta, ler os comentários que as pessoas deixam e ver quantas pessoas acreditam 100% no que eles falam! Mais gente ignorante dividindo o mundo entre bem e mal, demonizando a mídia, achando que os EUA são a encarnação do mal e que a esquerda é a salvação do mundo. Isso me dá medo, não porque eu seja de direita, coisa que não sou; sim porque é mais gente acrítica sendo criada. Senso crítico não tem lado, como pensam estes esquerdistas.

Essa galera que divide o mundo entre bem e mal é tão manipuladora quando a direita que eles tanto criticam e os seguidores deles não conseguem perceber isso. São incapazes de criticarem a esquerda, mesmo quando a esquerda faz merdinha. Claro, quem os critica é logo rotulado de direita né, por mais que seja alguém que, como eu, não seja de direita e tenha postado aqui criticando uma das maiores merdinhas já praticadas pela direita (refiro-me a este post sobre o nazismo).

Já que todo mundo que não pensa como eles é rotulado, dou um rótulo a esses internautas politicamente engajados: acéfalos! Ter cérebro indica ter capacidade de pensar, que indica ter senso crítico, que indica não ter lado e perceber as coisas boas e ruins que todos os lados fazem ou fizeram.

Fiz um post enorme sobre a maior merdinha já feita pela direita, o nazismo. Poderia fazer outros posts sobre outras merdinhas direitistas como, por exemplo, as cruzadas, a invasão do Iraque, golpes militares na América do Sul, etc. Assim como também poderia fazer muitos posts sobre merdinhas esquerdistas e, só pra citar algumas: o stalinismo, o regime comunista na China, a ditadura cubana, nosso vizinho Chavez, fundamentalismo islâmico. O problema é que os acéfalos que andam soltos pela internet e conquistando seguidores não conseguem perceber que a esquerda boazinha que eles amam não existe, assim como também não existe a direita malvada que eles tanto criticam.

Muito medo dessas pessoas e da quantidade de novos acéfalos que eles conquistam...

9 de jan de 2010

totalitarismo no Brasil?

Já disse aqui que acho uma palhaçada lançarem um filme sobre a vida do presidente em ano eleitoral. É ridículo e mesmo que o filme não tenha um teor político claro, acaba sendo político exatamente por despolitizar.

Mas também não posso concordar com o que andei lendo por aí nessas minhas andanças pela internet. Pode-se ser contra o lançamento de um filme sobre o presidente em ano eleitoral, pode-se até ser contra o Plano Nacional de Direitos Humanos, mas... comparar o que está sendo feito hoje com o que foi feito nos anos 30 na Alemanha pelo nazismo é leviano em vários sentidos. Porém, aconselho a todos que prestem muita atenção no modo pelo qual a sociedade alemã e os trabalhadores alemães foram "conquistados" pelo regime (qualquer semelhança com a realidade atual brasileira não é mera coincidência). Vejamos:

O nazismo inclui-se no rol dos chamados fascismos, que tinham como características comuns serem regimes autoritários antiliberais, antidemocráticos e anti-socialistas, cada um com suas próprias especificidades nacionais e histórias específicas. Os fascismos tinham procedimentos do conjunto do aparelho político (partido, Estado, forças armadas, polícia secreta, etc), liderança e condução inconteste do grande líder e mobilização das massas contra um inimigo comum. Todos eles foram marcados por historicismo, entendido como a busca de raízes nacionais ou raciais.

Na interpretação do líder, os novos tempos exigiam um Estado forte, dominador, que impediria o conflito social no plano interno e fortaleceria o país no plano externo. O Estado apresentava-se como fator de coesão nacional, capaz de reerguer a Nação e restaurar a identidade nacional. A divisão de poderes oriunda do Iluminismo era descartada, com a captura do judiciário pelo Estado identificado com o partido. A fonte do direito residia na vontade do líder e num conceito de bem-estar social que era interpretado pelo próprio líder.

O príncipio nullum crimen sine lege (não há crime sem prévia definição legal) foi substituído por nullum crimen sine poena (não há crime sem punição), dando ao Estado enorme liberdade de repressão.

O parlamentarismo e a vida partidária, com autonomia do legislativo, foram eliminados e substituídos pelo Estado autoritário. Em 1933, a Alemanha foi declarada país de partido único e a manutenção ou organização de outros partidos era punida por lei. A luta partidária era considerada origem das fraquezas do Estado.

O Estado fascista era expansivo, desconhecia as fronteiras do Estado de direito liberal, intervia e regia os domínios público e privado, inclusive a economia e a família. No caso alemão, existia a teoria da conquista do Lebensraum, do espaço vital capaz de garantir a existência da raça superior e, simultaneamente, remover o maior obstáculo para tal conquista, com o Holocausto.

Essa concepção do Estado como potência expansiva implicava a subordinação da sociedade civil aos objetivos identificados como nacionais pelo Estado: é ele que organizava, normatizava e dirigia a sociedade, desprezando qualquer esfera exclusiva do privado. Procurava-se cessar as causas da desagregação social surgida com o liberalismo e dotar os indivíduos de uma identidade autêntica. A recuperação da integridade do homem era proposta por meio de instituições, rituais e cerimônias. A vida urbana moderna, dominada pelos judeus, era fonte de dissolução e corrupção da comunidade patriótica.

No caso alemão, a retórica precisava levar em conta um poderoso movimento operário e sindical, daí a apropriação pelo regime de um lay-out socialista. Discurso de Hitler em 1943: “O Estado nacional-socialista trabalhará ainda mais energicamente no futuro a fim de realizar um programa que deve conduzir à eliminação das diferenças de classes e ao estabelecimento de uma verdadeira comunidade socialista”. Em Tricks im Kampf um den Wähler (truques na luta pelos eleitores), Hitler explica como os nazis deveriam se apoderar dos métodos marxistas de propaganda: “1- Da mesma forma que os partidos marxistas, devemos utilizar cartazes políticos em vermelho gritante; 2- devemos ter caminhões com alto-falantes, e saturados de cartazes com muitas bandeiras vermelhas; 3- devemos cuidar para que os membros do partido não compareçam às reuniões de terno e gravata e também não muito bem-vestidos, para evitar a desconfiança dos trabalhadores [...]”.

Na Alemanha, os sindicatos foram substituídos pelo Deutsche Arbeitsfront (Frente Alemã do Trabalho) para controlar melhor os trabalhadores. O Estado também organizava festas e diversões públicas para dar a impressão de melhoria da condição operária. Após a conquista do estado, vinha o restabelecimento da ordem, a valorização da produção que correspondia à eliminação da luta de classes, aos interesses coletivos, evitando-se os particularismos da vida e da luta sindical, criando as condições de governabilidade.

Ao contrário do socialismo marxista, apelava-se para valores místicos, inquestionáveis. Uma idéia força, raça ou nação, tornava-se o único valor moral em torno do qual erguia-se um poderoso código de ação. Os antinacionais que se destacavam (judeus e ciganos), por serem universais, cosmopolitas e falarem línguas distintas, impediriam a coesão nacional. Esses inimigos deveriam ter alguns requisitos de veracidade para que o convencimento das massas pudesse funcionar; no caso dos judeus, eram estrangeiros, identificavam-se com o capitalismo e ao mesmo tempo com o comunismo, eram a avant garde artística em geral, tinham uma religião específica, etc. O Holocausto filia-se a uma concepção de mundo que nega a possibilidade de um contra-tipo ao seu tipo padrão.

Exaltava-se a virilidade, o companheirismo e a vida em comum, distante das mulheres (a elas cabia gerar mais filhos, embora sem mantê-los junto a si além dos 10 ou 12 anos, para que não enfraquecessem com uma educação afeminada). Criava-se um imaginário falocrata ao mesmo tempo em que reprimia-se o homossexualismo. As qualidades negativas femininas (passividade-nervosismo) eram localizadas no judeu, identificado como refinado, urbano, nervoso e feminino. O homossexualismo era identificado como uma peste estrangeira, vinda do mesmo continente de origem dos judeus.

Em resumo, identificam o fascismo enquanto regime: antiliberalismo, antimarxismo, organicismo social, liderança carismática e negação da diferença. O fascismo tinha caráter metapolítico, mobilizado para a incorporação da nação, dos corações e mentes da massa, numa concepção de mundo única, excludente.



O post ficou enorme... aliás, eu tive que cortar mais da metade porque é muita coisa a ser dita sobre fascismos. Mas pra quem teve paciência e conseguiu chegar até o final, fica o meu comentário do início: comparar o que está sendo feito hoje por aqui, com o que foi feito na Alemanha nos anos 30 é, em muitos sentidos, leviano. Mas convém prestarmos muita atenção em como o regime age para "conquistar" a sociedade e, assim, manter-se no poder.



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Dica de documentário: "Muito Além do Cidadão Kane". No departamento de Comunicação da UnB tem uma cópia muito boa, mas pra quem não tem acesso:

4 de jan de 2010

compre seu candidato

2010 entre outras coisas é também ano de eleições... e, infelizmente, vários políticos incompetentes, ladrões, mentirosos, e outros adjetivos positivos, devem ser eleitos. Além de não ter memória, os eleitores em sua maioria também não têm educação e, o que é pior: têm preguiça! Essa preguiça os impede de pesquisar a vida pregressa do candidato e do partido, o que é fato e o que é discurso, etc.

Não vou aqui discutir política... mas apenas lembrar que numa perspectiva sem memória, sem educação e com preguiça, grande parte dos eleitores vota baseando-se na propaganda que é feita sobre determinado candidato e/ou partido, guia-se pelo que aparece nos meios de comunicação (isso sem falar na galera que vota em troca de misérias como bolsas isso e aquilo que, no longo prazo, não melhoram a vida de ninguém... mas, brasileiro não pensa a longo prazo né?).

Desmemoriados acabam seguindo o tempo da comunicação de massas, que é o presente, isto é, o que há de mais efêmero, a referência menos sólida, destituída, segundo Umberto Eco, de ordem histórica. Sua vida é realizada por meio do novo, inserido em determinada interpretação da realidade... aqui, interpretação feita para vender um produto (neste caso, o produto é o candidato).

Todo discurso procede de alguém, dirige-se para alguém e procura convencer ou persuadir alguém. Um discurso que deseja convencer é dirigido à razão por meio de raciocínio lógico e provas objetivas. O discurso que visa persuadir tem um caráter mais ideológico, subjetivo e intemporal: busca atingir a vontade e o sentimento do interlocutor por meio de argumentos plausíveis ou verossímeis para obter a sua adesão. Convencer é um esforço direcionado à mente; persuadir é domínio do emotivo.

Fica claro que, num país de deseducados, o objetivo é persuadir as pessoas a votarem neste ou naquele candidato. E para isso usa-se uma arma muito importante: a publicidade. Pros desavisados, publicidade não é só comercial de tv e inclui mais coisas do que qualquer pessoa que nunca tenha trabalhado com isso pode imaginar! A publicidade é um exemplo de discurso persuasivo, com a finalidade de chamar a atenção do público para as qualidades deste ou daquele produto/serviço. O objetivo é informar e persuadir, principalmente persuadir... por isso promete algo ao destinatário, mesmo que este algo seja abstrato.

Aristóteles, em Arte da Retórica, afirma que existem 3 grandes gêneros da retórica: deliberativo, judiciário e demonstrativo. O deliberativo, que aconselha ou desaconselha sobre uma questão de interesse particular ou público, é dominante em publicidade. O intuito é aconselhar o público a julgar favoravelmente um produto/serviço (aqui, candidato).

Outras características básicas da publicidade são usadas para vender um candidato. Em resumo:

- Estrutura circular – texto em circuito fechado evita o questionamento e objetiva levar o (e)leitor a conclusões definitivas;
- Escolha lexical – a construção de uma mensagem persuasiva é fruto de uma cuidadosa pesquisa de palavras, empregada tanto na propaganda quanto na imprensa, objetivando provocar reações emotivas no (e)leitor;
- Estereótipos – como verdade já aceita pelo público, o estereótipo impede o questionamento a respeito do que está sendo comunicado;
- Substituição de nomes – publicidade e jornalismo mudam certas palavras que podem influenciar positiva ou negativamente o destinatário;
- Criação de inimigos – discursos persuasivos criam frequentemente algum opositor;
- Apelo à autoridade – utilização de citações de especialistas para validar o que está sendo afirmado.

Vale a pena pensar um pouco antes de comprar qualquer candidato por aí, né?... Você pode estar comprando um produto estragado e com defeito sem nem prestar atenção nisso.



Postagem antiga que cabe nesta: LINK

*não fui ao cinema assistir o filme sobre o Lula e nem pretendo ir (se alguém for, me conte se o filme presta!). Acho uma palhaçada em ano de eleições lançarem este tipo de filme. E mais: o ingresso devia ser de graça né (propaganda eleitoral tem que ser gratuita!).