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23 de jan de 2010

pão e circo para todos II

Pra quem não gosta, política e economia são um saco. Eu gosto, muito. Seria mais feliz se não gostasse, fato. Mais feliz ainda se eu fizesse parte do que Olson chama de TYPICAL CITIZEN e, consequentemente, dos 80% que aprovam o governo Lula. Infelizmente pra mim, no meio em que eu estou, com a quantidade de coisas, acadêmicos e profissionais a que tenho acesso, e com a quantidade de estudos sérios que preciso ler... não dá pra cair na mediocridade e na ingenuidade de bater palmas pra este governo e esperar pra votar na Dilma.

O typical citizen não consegue enxergar uma coisa bem básica: quem reduz o indivíduo a povo, é porque quer usá-lo em benefício próprio. Guardadas as devidas proporções, o que se tenta fazer por aqui e as pessoas não enxergam ou porque usam viseiras ideológicas ou simplesmente porque são ignorantes mesmo, é o que todos os regimes que desaguaram em autoritarismo fizeram antes de tornarem-se autoritários. Onde está o cuidado de perceber como nasce o autoritarismo?

Estudem as origens de todos os regimes autoritários antes de achar bonitas as iniciativas dos nossos governantes usando como guarita proteção aos direitos humanos, antes de achar linda a distribuição de bolsas isso e aquilo, antes de bater palmas pra nossa nova política externa que está acabando com mais de 100 anos de tradição com várias iniciativas equivocadas. Só a título de exemplo, este meu post - que tal prestar atenção no tal lay-out socialista que eles usavam?

Três textinhos curtos e legais também: O Brasil é um país surreal, O PT mudou o Brasil ou foi o contrário? e O PT de volta às origens.

É comum encontrar afirmações falando que a distribuição de terras tem um papel a cumprir, elogios à defesa da pequena propriedade na Europa e, ao mesmo tempo, acusações aos países ricos por seu protecionismo e pelos subsídios concedidos aos agricultores... sem entender que é tudo a mesma coisa. Pois eu elogio e bato palmas ao protecionismo desses países; eles estão na verdade defendendo interesses dos seus cidadãos, coisa que não se faz por aqui. Basta examinar os fatos e despir-se de ideologias esquerdistas ou direitistas.

Em todas as agriculturas do chamado 1º Mundo, a grande empresa e o trabalho assalariado tornaram-se apêndices de uma massa de estabelecimentos de médio porte tocados essencialmente pelo trabalho familiar. A tal ponto que grandes fazendas e assalariados agrícolas são ótimos indicadores de subdesenvolvimento. Na Europa, é fácil encontrá-los no leste, em Portugal ou na Grécia, mas é preciso paciência para achá-los na França, na Alemanha ou na Inglaterra. Na América do Norte, ainda são numerosos nas áreas próximas ao México, mas tornam-se cada vez mais raros à medida que se sobe em direção ao Canadá. No Japão, só com uma lupa é possível achar assalariados agrícolas.

O que se defende por aqui quando se acusa os países ricos de serem protecionistas e pede-se o fim dos subsídios são, na verdade, os interesses do nosso agrobusiness, já que são os grandes empresários os beneficiados com o fim destes subsídios. Mas as pessoas não conseguem ver isso e preferem falar bem do governo e mal dos países imperialistas maldosos que nos mantêm subdesenvolvidos.

Aliás, nosso país tem diante de si riscos e oportunidades importantes, economicamente falando... mas infelizmente, tirando a internacionalização de empresas, com Petrobrás, CSN, Vale do Rio Doce e algumas outras investindo no exterior (coisa que sim, dessa vez pode-se falar que o atual governo foi o grande responsável por este feito), parece que caminhamos diretamente para os riscos... e, pra variar, o typical citizen é incapaz de perceber isso.

Os riscos podem ser sintetizados na idéia da QUALIDADE desse novo ciclo potencial de expansão que se abre. No plano produtivo, a forte demanda chinesa por matérias-primas associada à crescente concorrência de sua produção manufatureira podem levar a uma perda importante de densidade do parque produtivo industrial. Com isso o país poderia retomar uma situação equivalente à vivida no auge do modelo agro-exportador, se inserindo internacionalmente como fornecedor de commodities e importador de produtos industrializados. Tal padrão concentrava renda, riqueza e oportunidades, reduzia as possibilidades de incremento dos salários reais e não requeria avanços na QUALIFICAÇÃO de recursos humanos. Sua reprodução, no século XXI, poderia piorar um quadro já desconfortável de elevada desigualdade distributiva.

Nosso principal desafio neste século será o de produzir uma trajetória de crescimento capaz de se traduzir em desenvolvimento, sob bases ambientais e sociais mais sustentáveis. Infelizmente, a julgar pela falta de investimentos sérios na qualidade da educação e pela falta de investimentos sérios no desenvolvimento de ciência e tecnologia, não acho que temos um futuro muito brilhante. E viva o pão e circo para todos!!!




Pra terminar deixo uma linda frase pra todos que classificam o mundo entre direita e esquerda (más ou boas, dependendo de quem as está classificando):

“NADA É TÃO PERIGOSO QUANTO A CERTEZA DE TER RAZÃO. NADA CAUSA TANTA DESTRUIÇÃO QUANTO A OBSESSÃO DE UMA VERDADE CONSIDERADA ABSOLUTA”.
François Jacob