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23 de fev de 2010

da eternidade finita

As coisas que amamos
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra maneira se tornam absoluta
numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho eterno fica esse gozo acre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar"

Carlos Drummond de Andrade


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***pra quem percebeu que blogs vão desaparecendo ali da barra lateral, é o seguinte: exceto amigos muitíssimo pessoais que conheço pessoalmente, mais de dois meses sem atualizar eu retiro o blog dali (ou seja, nada pessoal com ninguém)***

20 de fev de 2010

Lula me faz rir

Em discurso no Congresso do PT na noite de ontem aqui na Capital, Lula e dirigentes petistas lembraram de momentos difíceis da legenda durante o escândalo do mensalão, em 2005. Segundo o presidente, "a elite" tentou, mas não conseguiu destruir o partido.

Ok, não há provas de que o mensalão realmente ocorreu, assim como também não há provas de que ele não ocorreu. Logo, se a tal "elite" é mentirosa por afirmar que sim na ausência de provas, o PT também é mentiroso por afirmar que não na ausência de provas.

Nem era de mensalão que eu queria falar, então vamos lá:

Sério, eu rio toda vez que vejo algum petista falando mal da "elite". Lula então...rs... Nosso presidente é o quê? Ele faz parte do povão trabalhador que tem que ralar muito, enfrenta hospitais públicos, utiliza transporte público, etc? Me poupe! Esse homem é um travesti de metalúrgico! No mínimo há mais de 20 anos ele já é mais "elite" do que eu. Traveco de homem do povo, isso sim.



Ainda no mesmo discurso, o presidente também lembrou a importância da política de alianças adotada pelo partido em 2002 para chegar ao poder, e disse que o PT tem que continuar a fazer alianças para se manter no comando de estados e do país.

Existem alianças e alianças... E isso que vejo atualmente está mais pra formação de quadrilha do que pra alianças legítimas em favor da governabilidade.

Quando das Diretas Já e morte do Tancredo eu era muito pequena, lembro de ver tudo na Globo mas não entendia nada daquilo. Em 89 eu já entendia o que era o mundo ao meu redor, assisti na tv o massacre da Paz Celestial sem acreditar que aquilo era verdade, vi um Pedro Bial ainda respeitável na transmissão da queda do muro de Berlim... e no Brasil acompanhei aquela disputa eleitoral bem sujinha e a eleição do Collor. Após aquelas eleições, acompanhei a história sendo feita até o dia de hoje.

Há 20 anos eu já entendia o mundo. Ao olhar o cenário político atual, às vezes penso que estou sob efeito de LSD ou outro alucinógeno bem potente. Lula defende Sarney, seu cão de guarda e ataque é Collor, e sua guarda pessoal tem Renan Calheiros, Romero Jucá e Gim Argello, os três mosqueteiros "do mal" (W. Bush).

Sarney resiste na Presidência do Senado Federal e do Congresso Nacional, "com a força inquebrantável daqueles que têm fé" (MMMG), enquanto é massacrado pelos meios de comunicação, com a divulgação de escândalos sucessivos, há meses. Collor, "babá do PAC", dá medo só de olhar. Quando fala difícil, ambiciona-se membro da ABL; que nem Sarney, seu antecessor na Presidência da República.


Um último comentário: ADOOOROOO hipocrisia!!! (óbvio que estou sendo irônica né =P)


*algumas partes deste post vieram DAQUI

18 de fev de 2010

elite desinformada

Texto publicado na Folha de São Paulo:

ELITE DESINFORMADA
Gilberto Dimenstein


Está em fase de conclusão uma pesquisa, realizada pela Ipsos, mostrando que 31% dos brasileiros com ensino superior não sabem citar corretamente o nome de pelo menos um ministro -vamos repetir, apenas um nome. Estamos falando aqui das pessoas com maior nível educacional.

Esse grau de desinformação ajuda a explicar um estranho fenômeno da política brasileira. Consigo entender que o prestígio de Fernando Henrique Cardoso não brilhe na população em geral, gerando um alto grau de rejeição: foram várias as crises que explodiram em sua gestão, especialmente no segundo mandato, entre as quais o apagão.

Grave, de fato, para o ex-presidente, é que sua credibilidade, mesmo entre a ínfima minoria dos diplomados em faculdade, esteja abaixo de celebridades como Zezé Di Camargo, Ronaldo Fenômeno, Gugu Liberato, Ivete Sangalo ou Hebe Camargo -o ranking da credibilidade foi montado pelo Datafolha.

Qualquer indivíduo com um mínimo de informação e equilíbrio, mesmo que não goste de Fernando Henrique, certamente reconhecerá que essa posição é historicamente injusta. Nesse ranking, Lula está, em geral, em primeiro lugar; entre os diplomados, em terceiro lugar. É justamente em cima disso que se está montando, nessa sucessão presidencial, uma empulhação marqueteira.

*

Até considero apropriado que Lula esteja nos primeiros lugares de credibilidade. Ao final de seu mandato, o país poderia estar muito melhor: reformas deixaram de ser feitas, a gestão das obras é muito menor do que sua visibilidade publicitária, inchou-se e aparelhou-se a máquina pública.

Mas o fato é que o resultado final está acima do regular: o país cresceu com inflação baixa e ampliaram-se os investimentos sociais. Isso significa menos gente miserável. Houve avanços significativos na área educacional.

Não tenho registro de uma situação no Brasil em que tivéssemos, ao mesmo tempo, democracia, crescimento econômico, inflação baixa e tantos investimentos sociais.

*

Só que Lula não seria o Lula que está aí sem Fernando Henrique. Ele herdou uma inflação baixa, reformas que favoreceram o crescimento econômico, leis que reduziram a indisciplina de gastos estatais e a base para a construção do Bolsa Família. No final mandato de FHC, seis milhões de famílias recebiam bolsas associadas à escola, à saúde e ao trabalho infantil, e já havia projetos para a unificação de todos esses programas.

Lula assegurou a estabilidade econômica e ampliou os gastos sociais. Em essência, é um governo de continuidade. É a imagem de uma corrida de bastão.

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A empulhação marqueteira está no seguinte: o corredor que pegou por último o bastão vangloriar-se de ter conseguido ir muito mais longe. Não que os dois governos não possam ser comparados. Do jeito que está colocada, porém, a comparação pode servir para dar voto, mas pouco ajuda para uma análise crítica do país -e aí está um "desserviço" educacional.

O levantamento da Ipsos indica que, apesar de todos os avanços da democracia, a desinformação é generalizada. Se pouca gente sabe indicar corretamente um único nome de ministro, menos ainda sabe avaliar as políticas públicas, cujos processos são complexos. São raros os eleitores capazes de discorrer sobre o papel de cada nível de governo.

*

O resultado disso é que um dos principais responsáveis por um dos marcos históricos nacionais -o controle da inflação- não seja visto, mesmo por pessoas com educação mais avançada. O mesmo ocorre com alguém que mereça mais credibilidade do que celebridades fugazes. Para completar, tudo isso é transformado no principal mote de toda uma eleição presidencial.

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PS- A julgar pela saraivada de críticas, misturadas com provocações, desferidas por FHC contra Dilma Rousseff, parece que o ex-presidente está desejando colaborar com o PT em sua estratégia de marketing.

Coloquei no www.dimenstein.com.br informações preliminares da Ipsos e o recorte por escolaridade sobre o ranking da credibilidade no Brasil.

15 de fev de 2010

palmas pro STJ

Não que eu seja fã do nosso judiciário... muito menos que eu o ache de fato independente dos outros poderes e menos ainda que eu ache que ele funciona bem. Porém, contudo, todavia... Semana passada o STJ tomou duas decisões que merecem aplausos.

1- Decretou a prisão do ladrão aqui do DF, Arruda, e mais alguns. Por mim todos os corruptos deste país teriam este mesmo fim, mas nada de cela na PF (que fiquem em prisões igual todo mundo ué... por que um Arruda da vida merece tratamento diferencial?).

Apesar desse afastamento involuntário do Arrudão, não vejo muitos motivos pra comemorar. Um cara pior que ele assumiu o governo (só acredita em Paulo Otávio incorrupto e bonzinho quem acredita em papai noel e coelhinho da páscoa). A corja-organização criminosa está, em sua maioria, livre, leve e solta. Rorizão deve ser eleito novamente pra continuar roubando. A câmara distrital deve continuar cheia de ladrões, corruptos e afiliados.

Isso só falando em nível de DF, porque se formos pensar em nível dos outros estados e em nível federal, a desgraça aumenta bastante e a opção que resta é rir da maioria que aprova um presidente que esteve envolvido em escândalo de mensalão e que faz campanha eleitoral antecipada junto com sua ministra querida (dois criminosos por já estarem fazendo campanha... e o STE imóvel sem fazer nada).

Fazer o quê? Depois não reclamem. Quem elegeu um cara que já esteve envolvido em violação do painel do senado junto com o fofíssimo ACM? Quem elegeu Collor, Sarney, Maluf e outras criaturinhas de ficha mais suja do que meu gato quando resolve rolar na terra? Eu não sou desmemoriada de votar em pessoas com manchinhas no currículo. Infelizmente, sou minoria.



2- Menos falada na imprensa (aliás, praticamente ignorada) uma outra decisão do STJ que considero importante e digna de palmas: o STJ concedeu a um gay o direito de receber pensão de um fundo de previdência privada após a morte de seu companheiro.

Uma sociedade preconceituosa que exclui determinadas categorias dos direitos básicos dos cidadãos não merece ser chamada de democrática e, pra mim, não é nem um pouco evoluída. O ideal é que as pessoas sejam tratadas da mesma forma e os casais homossexuais tenham os mesmos direitos que os casais heteros. Se eles ainda precisam recorrer à justiça para terem seus direitos reconhecidos, é sinal de que nossa sociedade ainda é bastante retrógrada.

Nesse quesito também faço parte da minoria. Pra mim pouco importa a sexualidade alheia, cada um que seja feliz da forma que achar melhor e pronto. Infelizmente, a maioria dos brasileiros ainda vive numa bolha machistinha patriarcal pseudo-religiosa autoritária, achando que os gays são seres inferiores, pecadores e querendo impor sua própria opção aos outros.

Que decisões como esta do STJ se multipliquem!!! E que um dia nossa sociedade seja democrata de verdade.

5 de fev de 2010

fã de carteirinha

Simplesmente AMO essa companhia de dança!!! (pra horror dos 'flamencos' tradicionalistas xiitas...rs...). Ah, eles estarão no Brasil em maio.







***Dica pra quem gosta de flamenco: revista eletrônica La Flamenca. Vale o click!!!

3 de fev de 2010

anti cristo

Comecei o ano com a auto promessa de rever em dvd os filmes do Almodovar (já vi todos, sou fã né) - como parte dos meus estudos em espanhol. Esta semana, quando fui pegar Volver, vi a caixinha do AntiCristo, de Lars Von Trier (outro diretor que eu gosto muito)... não resisti e peguei também - este filme, junto com Bastardos Inglórios e Abraços Partidos, está no topo dos melhores filmes que assisti ano passado.

Quando assisti no cinema, foi comum algumas pessoas levantarem-se antes do final e saírem da sala. Normal: é Lars Von Trier e nem todo mundo gosta, e o filme é pesado mesmo.

O filme já começa atípico - preto e branco, trilha sonora de ópera, com a apresentação de uma temática pesada e complexa, um belíssimo trabalho estético. O primeiro ato é pesado mas, ao mesmo tempo, poético. Uma cena que conta a história da tentação da carne como um pecado que leva a morte (sexo e morte se misturam). Enquanto o casal transa no chuveiro, com direito a close na penetração vaginal, o filho deles deixa o berço em direção à janela, onde acaba caindo e falecendo. Conforme a vida dos personagens perde cor, o filme, por sua vez, ganha. É um filme permeado de contradições, que não parece ser feito para amar ou odiar, sim para amar E odiar.

AntiCristo é dividido em capítulos. O prólogo, assunto do parágrafo anterior, marca o surgimento de um casal em luto. Ela é uma historiadora; ele, um terapeuta. Incapaz de superar o luto, ela afunda-se na cama, enquanto ele resolve assumir a responsabilidade pela terapia que vai tirá-la da depressão. A seguir seguem-se 4 capítulos.

Para tentar recuperar a mulher, entregue ao trauma da morte do filho e ao sentimento de culpa, o homem a leva para Éden, sua cabana na floresta. Ele é terapeuta e impõe seus métodos nesse Éden que pouco tem de paraíso, onde a natureza parece inimiga. Realidade, sonho e pesadelo se misturam de tal forma que, para muitos críticos, AntiCristo foi visto como um filme de terror – uma classificação que não dá conta de sua complexidade... e foi mal, mas eu sou fã de filmes de terror também, e esse filme é tudo, menos terror... é bem mais complexo do que isso.

Um antagonismo conduz o filme: o bem e o mal. Opõe-se o céu ao inferno, o claro ao escuro, a mulher ao homem, a esquerda à direita. Estes antagonismos revelam-se como uma ferramenta importante para compreender os antagonismos da vida, e a duplicidade do caráter humano, condenada pelo diretor como uma espécie maldosa.

O filme trata de temas polêmicos e surpreende até alguém que, como eu, já viu outros filmes do diretor, como Dançando no Escuro, Dogma, ou Dogville. Há cenas muito violentas e de mutilação sexual, capazes de agredir algumas pessoas. Religião, crendices e cultura fazem uma mistura envolvente e assustadora ao longo do filme.

No epílogo, parte final do filme, a última cena mostra um personagem que pode ter encontrado a salvação para o inferno de sua vida, ou que pode estar descendo a montanha de encontro a ele (o inferno), enquanto, na contramão, milhares de pessoas ascendem a uma vida de paz (ou ao inferno da vida). Assim como a duplicidade presente no filme, é impossível distinguir o lado trágico do da salvação nesta película anti-ser humano.

É uma obra de cenas belas e chocantes, de sensações, nada fácil de racionalizar. É difícil um cineasta conseguir causar esse tipo de emoção – goste-se ou não do filme - num momento em que grande parte do cinema mundial se preocupa em explicar e passar a mão na cabeça do espectador, e ser de fácil degustação. Lars Von Trier não faz isso. Thanks God!