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3 de fev de 2010

anti cristo

Comecei o ano com a auto promessa de rever em dvd os filmes do Almodovar (já vi todos, sou fã né) - como parte dos meus estudos em espanhol. Esta semana, quando fui pegar Volver, vi a caixinha do AntiCristo, de Lars Von Trier (outro diretor que eu gosto muito)... não resisti e peguei também - este filme, junto com Bastardos Inglórios e Abraços Partidos, está no topo dos melhores filmes que assisti ano passado.

Quando assisti no cinema, foi comum algumas pessoas levantarem-se antes do final e saírem da sala. Normal: é Lars Von Trier e nem todo mundo gosta, e o filme é pesado mesmo.

O filme já começa atípico - preto e branco, trilha sonora de ópera, com a apresentação de uma temática pesada e complexa, um belíssimo trabalho estético. O primeiro ato é pesado mas, ao mesmo tempo, poético. Uma cena que conta a história da tentação da carne como um pecado que leva a morte (sexo e morte se misturam). Enquanto o casal transa no chuveiro, com direito a close na penetração vaginal, o filho deles deixa o berço em direção à janela, onde acaba caindo e falecendo. Conforme a vida dos personagens perde cor, o filme, por sua vez, ganha. É um filme permeado de contradições, que não parece ser feito para amar ou odiar, sim para amar E odiar.

AntiCristo é dividido em capítulos. O prólogo, assunto do parágrafo anterior, marca o surgimento de um casal em luto. Ela é uma historiadora; ele, um terapeuta. Incapaz de superar o luto, ela afunda-se na cama, enquanto ele resolve assumir a responsabilidade pela terapia que vai tirá-la da depressão. A seguir seguem-se 4 capítulos.

Para tentar recuperar a mulher, entregue ao trauma da morte do filho e ao sentimento de culpa, o homem a leva para Éden, sua cabana na floresta. Ele é terapeuta e impõe seus métodos nesse Éden que pouco tem de paraíso, onde a natureza parece inimiga. Realidade, sonho e pesadelo se misturam de tal forma que, para muitos críticos, AntiCristo foi visto como um filme de terror – uma classificação que não dá conta de sua complexidade... e foi mal, mas eu sou fã de filmes de terror também, e esse filme é tudo, menos terror... é bem mais complexo do que isso.

Um antagonismo conduz o filme: o bem e o mal. Opõe-se o céu ao inferno, o claro ao escuro, a mulher ao homem, a esquerda à direita. Estes antagonismos revelam-se como uma ferramenta importante para compreender os antagonismos da vida, e a duplicidade do caráter humano, condenada pelo diretor como uma espécie maldosa.

O filme trata de temas polêmicos e surpreende até alguém que, como eu, já viu outros filmes do diretor, como Dançando no Escuro, Dogma, ou Dogville. Há cenas muito violentas e de mutilação sexual, capazes de agredir algumas pessoas. Religião, crendices e cultura fazem uma mistura envolvente e assustadora ao longo do filme.

No epílogo, parte final do filme, a última cena mostra um personagem que pode ter encontrado a salvação para o inferno de sua vida, ou que pode estar descendo a montanha de encontro a ele (o inferno), enquanto, na contramão, milhares de pessoas ascendem a uma vida de paz (ou ao inferno da vida). Assim como a duplicidade presente no filme, é impossível distinguir o lado trágico do da salvação nesta película anti-ser humano.

É uma obra de cenas belas e chocantes, de sensações, nada fácil de racionalizar. É difícil um cineasta conseguir causar esse tipo de emoção – goste-se ou não do filme - num momento em que grande parte do cinema mundial se preocupa em explicar e passar a mão na cabeça do espectador, e ser de fácil degustação. Lars Von Trier não faz isso. Thanks God!