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18 de fev de 2010

elite desinformada

Texto publicado na Folha de São Paulo:

ELITE DESINFORMADA
Gilberto Dimenstein


Está em fase de conclusão uma pesquisa, realizada pela Ipsos, mostrando que 31% dos brasileiros com ensino superior não sabem citar corretamente o nome de pelo menos um ministro -vamos repetir, apenas um nome. Estamos falando aqui das pessoas com maior nível educacional.

Esse grau de desinformação ajuda a explicar um estranho fenômeno da política brasileira. Consigo entender que o prestígio de Fernando Henrique Cardoso não brilhe na população em geral, gerando um alto grau de rejeição: foram várias as crises que explodiram em sua gestão, especialmente no segundo mandato, entre as quais o apagão.

Grave, de fato, para o ex-presidente, é que sua credibilidade, mesmo entre a ínfima minoria dos diplomados em faculdade, esteja abaixo de celebridades como Zezé Di Camargo, Ronaldo Fenômeno, Gugu Liberato, Ivete Sangalo ou Hebe Camargo -o ranking da credibilidade foi montado pelo Datafolha.

Qualquer indivíduo com um mínimo de informação e equilíbrio, mesmo que não goste de Fernando Henrique, certamente reconhecerá que essa posição é historicamente injusta. Nesse ranking, Lula está, em geral, em primeiro lugar; entre os diplomados, em terceiro lugar. É justamente em cima disso que se está montando, nessa sucessão presidencial, uma empulhação marqueteira.

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Até considero apropriado que Lula esteja nos primeiros lugares de credibilidade. Ao final de seu mandato, o país poderia estar muito melhor: reformas deixaram de ser feitas, a gestão das obras é muito menor do que sua visibilidade publicitária, inchou-se e aparelhou-se a máquina pública.

Mas o fato é que o resultado final está acima do regular: o país cresceu com inflação baixa e ampliaram-se os investimentos sociais. Isso significa menos gente miserável. Houve avanços significativos na área educacional.

Não tenho registro de uma situação no Brasil em que tivéssemos, ao mesmo tempo, democracia, crescimento econômico, inflação baixa e tantos investimentos sociais.

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Só que Lula não seria o Lula que está aí sem Fernando Henrique. Ele herdou uma inflação baixa, reformas que favoreceram o crescimento econômico, leis que reduziram a indisciplina de gastos estatais e a base para a construção do Bolsa Família. No final mandato de FHC, seis milhões de famílias recebiam bolsas associadas à escola, à saúde e ao trabalho infantil, e já havia projetos para a unificação de todos esses programas.

Lula assegurou a estabilidade econômica e ampliou os gastos sociais. Em essência, é um governo de continuidade. É a imagem de uma corrida de bastão.

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A empulhação marqueteira está no seguinte: o corredor que pegou por último o bastão vangloriar-se de ter conseguido ir muito mais longe. Não que os dois governos não possam ser comparados. Do jeito que está colocada, porém, a comparação pode servir para dar voto, mas pouco ajuda para uma análise crítica do país -e aí está um "desserviço" educacional.

O levantamento da Ipsos indica que, apesar de todos os avanços da democracia, a desinformação é generalizada. Se pouca gente sabe indicar corretamente um único nome de ministro, menos ainda sabe avaliar as políticas públicas, cujos processos são complexos. São raros os eleitores capazes de discorrer sobre o papel de cada nível de governo.

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O resultado disso é que um dos principais responsáveis por um dos marcos históricos nacionais -o controle da inflação- não seja visto, mesmo por pessoas com educação mais avançada. O mesmo ocorre com alguém que mereça mais credibilidade do que celebridades fugazes. Para completar, tudo isso é transformado no principal mote de toda uma eleição presidencial.

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PS- A julgar pela saraivada de críticas, misturadas com provocações, desferidas por FHC contra Dilma Rousseff, parece que o ex-presidente está desejando colaborar com o PT em sua estratégia de marketing.

Coloquei no www.dimenstein.com.br informações preliminares da Ipsos e o recorte por escolaridade sobre o ranking da credibilidade no Brasil.