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30 de abr de 2010

tá chegando...

Suavemente Maio se insinua
Por entre os véus de Abril, o mês cruel
E lava o ar de anil, alegra a rua
Alumbra os astros e aproxima o céu.

Até a lua, a casta e branca lua
Esquecido o pudor, baixa o dossel
E em seu leito de plumas fica nua
A destilar seu luminoso mel.

Raia a aurora tão tímida e tão fragil
Que através do seu corpo transparente
Dir-se-ia poder-se ver o rosto

Carregado de inveja e de presságio
Dos irmãos Junho e Julho, friamente
Preparando as catástrofes de Agosto...

Vinicius de Moraes

29 de abr de 2010

29/04 - dia internacional da dança

A DANÇA E A ALMA

A dança? Não é movimento,
súbito gesto musical
É concentração, num momento,
da humana graça natural.

No solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança - não vento nos ramos:
seiva, força, perene estar.

Um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado...

Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir a forma do ser,
por sobre o mistério das fábulas.


Carlos Drummond de Andrade




... e um videozinho de alguém que gosto muito como bailarina, professora e pessoa:

21 de abr de 2010

parabéns Bras-ilha

O último censo do IBGE aponta Brasília como 4º maior município do país, atrás de São Paulo, Rio e Salvador. Esse crescimento tem um preço: também estamos entre os 5 municípios mais violentos.

Pra quem nasceu no final dos anos 70, veio pra cá bebê e cresceu nas superquadras brincando embaixo dos blocos, é um pouco surpreendente e surreal que em tão poucos anos de vida uma cidade tenha se transformado dessa forma.

Minha adolescência foi jogando vôlei na rua, conversando embaixo dos blocos ou nos parquinhos até de madrugada, andando a pé a noite sem o menor problema, indo ao Pontão com a galera pra tocar violão em rodinhas e beber... Naquela época, tínhamos menos opções de tudo por aqui, então nos virávamos como a criatividade deixasse. A diversão era sempre garantida.

Numa época que praticamente ninguém tinha celular era mais fácil se encontrar com os amigos do que hoje, com toda a parafernália que temos à disposição. As pessoas estão bem mais sozinhas hoje, presas na ilusão de encontro que a internet gera, cheias de amigos virtuais que nunca encontram. Praticamente todo mundo tem celular e, estranhamente, também têm mais dificuldades pra encontrar os outros pessoalmente, estão sem tempo com muita frequência. O português vai empobrecendo nos emails e msns da vida (chegaremos num português abaixo da linha da pobreza?!? o.O.).

Ali na primeira metade dos anos 90, numa cidade ainda tranquila, sem trânsito, sem muita criminalidade, tínhamos uma turma que sempre se encontrava. Não tocávamos interfone, gritávamos "fulano, desce aí!", e fulano respondia na janela. Acabou o segundo grau, veio a universidade e cada um seguiu seu rumo.

Aquela Brasília que parecia uma cidade de interior também seguiu seu rumo, cresceu e desordenou-se... Aumentaram os problemas típicos de centros urbanos. Cresceu o mercado para franqueados da rede de restaurantes mais famosa do país, que encontrou aqui uma cidade ideal para expansão. A CPI (Choperia e Pizzaria Impunidade), mesmo que de vez em quando dê sinais de hipotrofia, continua firme e forte país afora, com sede na capital.

Niemeyer brincava de lego e um dia resolveu dar vida aos seus delírios. Assim nasceu a cinqüentona cidade moderna que já está velha, ultrapassada e decadente. A prisão a céu aberto, como disse Clarice. Uma ilha da fantasia onde as pessoas não têm contato com o mundo real e pensam estar em Berverly Hills. Um lugar muito fácil de odiar... e também de amar.

19 de abr de 2010

mais cazuza

Impressionante como o Cazuza continua tirando as palavras da minha boca... e ele as diz tão melhor que eu...

5 de abr de 2010

não usarás seu nome em vão

Só eu acho que as pessoas esqueceram o real significado da palavra amor? Só eu acho que, assim como a violência foi banalizada no nosso mundinho pós-moderno, o amor a cada dia é mais e mais banalizado e tratado como um sentimentozinho qualquer?



O SEU SANTO NOME

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão ( e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

Carlos Drummond de Andrade

1 de abr de 2010

liberdade

- Ela é tão livre que um dia será presa.
- Presa por quê?
- Por excesso de liberdade.
- Mas essa liberdade é inocente?
- É. Até mesmo ingênua.
- Então por que a prisão?
- Porque a liberdade ofende.

Clarice Lispector



*trechinho do livro "água-viva" da Clarice.