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19 de mai de 2010

corações partidos

OS CORAÇÕES PARTIDOS POR LULA NO MUNDO

por: Moisés Naím*

Em seu projeto de evitar a aprovação de sanções internacionais ao Irã, como punição à recusa do país em rever o seu programa nuclear, o presidente brasileiro agendou uma visita ao colega iraniano Mahmoud Ahmadinejad neste domingo, 16. Lula prometeu pedir a Ahmadinejad, "olho no olho", que aceite a proposta de receber urânio enriquecido de outros países, uma maneira de garantir que o material seja utilizado para fins pacíficos. O Irã usa encontros assim não para assumir compromissos, mas para ganhar tempo e escapar deles. A visita ocorre uma semana depois de o governo iraniano executar, por enforcamento, cinco ativistas políticos da minoria curda. Neste artigo, o analista Moisés Naím diz que a amizade com ditadores e aventuras diplomáticas como a de Lula no Irã são uma traição aos seus princípios democráticos, mancham o seu legado político e minam o poder de influência internacional do Brasil.

O primeiro admirador desiludido por ele foi George W. Bush. O segundo foi Álvaro Uribe. Em seguida, decepcionou Pascal Lamy, o chefe da Organização Mundial do Comércio. Depois, partiu o coração de Barack Obama. Mais tarde o de Hillary Clinton. Seguiram-se os opositores de Mahmoud Ahmadinejad, no Irã. Impôs também duros golpes de desânimo àqueles que enfrentam os abusos dos governantes de Cuba, Venezuela, Nicarágua e Bolívia e que o viam como um modelo em sua luta contra a autocracia. Depois veio a perplexidade dos devotos que não entenderam como é possível que num dia ele defenda a entrada de Cuba na Organização dos Estados Americanos (OEA) e, no dia seguinte, a expulsão de Honduras. Como pode num dia denunciar com eloquência e com lógica perfeita o irracional bloqueio americano a Cuba e, no dia seguinte, liderar o bloqueio da América Latina a Honduras? Não faltaram os admiradores que esperavam que ele tivesse uma posição menos complacente com Néstor e Cristina Kirchner. Nem a surpresa de seus fãs que não entendem a que se deve sua recente paixão por missões diplomáticas suicidas, como sua solitária defesa das ambições nucleares iranianas ou sua autocandidatura como mediador entre palestinos e israelenses.

Lula no mundo

Se é verdade que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem altíssimos índices de popularidade no Brasil, nos círculos mais influentes do mundo o aplauso é menos entusiasmado. Isso não quer dizer que fora do país Lula não seja admirado. O fato de ter sido escolhido pela revista Time como um dos personagens mais influentes é só um dos muitos exemplos do reconhecimento internacional às conquistas de Lula. Seu protagonismo no G20 contrasta com a invisibilidade de outros latino-americanos: o mexicano Felipe Calderón e a mulher de Néstor Kirchner. Não há dúvida de que Lula e o Brasil ganharam um papel relevante e merecido nas negociações internacionais mais vitais para a humanidade: clima, energia, comércio, finanças e proliferação nuclear. Isso foi possível graças ao tamanho do Brasil, ao seu progresso social e econômico admirável, à sua democracia, à fascinante biografia de Lula e ao seu inegável carisma. Todos os líderes querem ser amigos de Lula e desenvolver relações próximas com ele e o Brasil. Lula é amigo de todos e a todos seduz. Para depois partir-lhes o coração.

Bush e Obama acreditaram que Lula seria o seu aliado na América Latina. O presidente colombiano Álvaro Uribe tinha a ilusão de que alguém com os valores e a história pessoal de Lula reagiria com indignação ao ver a avalanche de evidências demonstrando que Hugo Chávez, da Venezuela, apoia e protege as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Os negociadores da Rodada Doha para o comércio internacional se frustraram com a rigidez de Lula, que – junto com outros países – levou o processo ao fracasso. Os opositores dos presidentes latino-americanos violadores das mais elementares práticas democráticas encontraram em Lula um líder que passou seus dois mandatos presidenciais ignorando-os, enquanto se entregava a frequentes e fraternais abraços com os autocratas que os governam. O povo cubano ouviu perplexo como Lula – o combatente social – explicava ao mundo que os que se suicidavam nos cárceres dos Castro, pedindo a liberdade para outros injustamente presos por décadas, não eram senão "delinquentes comuns". Os iranianos ouviram Lula explicando que seus massivos protestos contra a reeleição de Ahmadinejad lhe recordavam as rea-ções dos torcedores de futebol que se lançam às ruas quando perdem. Os milhares de mães dos venezuelanos assassinados pelo crime descontrolado, resultante da indolência crônica do governo, ouviram Lula explicar que Chávez é o melhor presidente que a Venezuela teve em 100 anos.

Tudo isso pode passar despercebido em um Brasil intoxicado pelo sucesso e apaixonado por Lula. Tudo isso será ridicularizado pelo aparato publicitário do presidente e minimizado pelo Itamaraty. Mas a conduta internacional do Brasil sob Lula tem custos. As traições de Lula à defesa da democracia; sua indiferença diante das violações de direitos humanos básicos em países governados por seus amigos; as decisões cujo propósito óbvio é demonstrar independência e que este é um "novo Brasil", que não apoia automaticamente os Estados Unidos; a busca por um protagonismo em áreas e temas em que o Brasil tem tudo a perder e nada a ganhar – essas posturas levarão à diminuição tanto da reputação de Lula como da influência mundial do Brasil.


Por que Lula faz tantos gols contra?

Os apologistas de Lula podem recorrer à famosa observação de que "as nações não têm amigos, apenas interesses". Lula concentrou-se em promover os interesses do Brasil, diriam eles. E podem corretamente acrescentar que muito mais hipócritas são as políticas americanas ou europeias do que as do Brasil. É verdade que todas as potências às vezes se esquecem de seus valores quando se trata de defender seus interesses. Mas nem sempre é assim. Verdadeiros líderes sabem que há certos momentos em que o interesse nacional só é servido quando a defesa dos valores universais se sobrepõe aos interesses econômicos imediatos. O silêncio de Lula quando Chávez impôs arbitrariamente um embargo comercial à Colômbia serve aos interesses do Brasil? Algumas empresas brasileiras lucraram ocupando o mercado venezuelano, antes suprido por companhias colombianas. Mas isso justifica a cumplicidade com a violação clara de regras que o Brasil defende? Claro que não. Justificam-se as aventuras de Lula no Oriente Médio e o seu entusiasmo pelos carniceiros que mandam em Teerã, pondo em perigo a possibilidade de o Brasil conseguir um posto permanente no Conselho de Segurança da ONU? Não.

Quando eu era garoto e me comportava mal na escola, minha mãe explicava às professoras que eu era um anjo e que a má conduta se devia à influência negativa dos meus amigos. Eu ficava quieto, mas ria por dentro, pois sabia que aquilo não era verdade. Estaria Lula rindo por dentro quando os seus admiradores explicam que ele, no fundo, é um grande democrata e que sua solidariedade fraternal com alguns dos piores líderes destes tempos se deve apenas à má influência dos que o cercam?

Nunca saberemos. O que sabemos é que um líder extraordinário chega ao fim de seus mandatos manchando desnecessariamente o seu legado histórico.

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* sobre o autor: MOISÉS NAÍM é ex-diretor executivo do Banco Mundial e ex-ministro venezuelano, é diretor da revista Foreign Policy e Observador Global do jornal espanhol El País, no qual escreve aos domingos.

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