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3 de ago de 2010

aborto

Há alguns anos, eu diria que sou totalmente pró-aborto e que eu mesma optaria por isso se a circunstância assim o pedisse. Hoje? Não sou pró e nem contra... Mas certamente eu não optaria por isso. O que as pessoas em geral ignoram é que aborto não é a escolha mais fácil; é a mais difícil. Mais fácil seria fazer o que todos esperam, ser mãe, enquadrar-se no papel que esperam das mulheres (perdi, por exemplo, a conta de quantas vezes ouvi que “mulher sem filhos é incompleta”). É mais fácil vestir o papel social esperado.

Antes de me jogar pedras, você tem alguma mulher bem próxima, com a qual tem muita intimidade, que fez um aborto? Difícil não é o julgamento alheio, sim o próprio. Difícil é pegar uma criança pequena no colo e seus olhos encherem de lágrimas. Difícil é acompanhar a gravidez de uma amiga, sentir-se feliz por ela e, ao mesmo tempo, triste consigo mesma. Difícil é 27 anos depois, quando sua filha engravida, lembrar do aborto que você fez e sentir-se mal (fato real com a mãe de uma amiga minha).

Não defendo o aborto, nem o abomino. O que não aceito é que seja considerado crime... Não bastasse a mulher que o pratica ter que conviver com isso pelo resto da vida, ela ainda é considerada criminosa? O que defendo é o direito de todas as mulheres fazerem suas escolhas. São elas que conviverão, pelo resto da vida, com as conseqüências de ter ou não um filho. São elas que deveriam ter o direito de decidir se querem ou não levar a gravidez adiante.

Abomino posições pró ou contra aborto em que a argumentação cai em religião, moralidade... Em primeiro lugar, pra mim isso é uma questão de foro íntimo... cada mulher que decida. Em segundo lugar, religião não deveria influenciar leis... infelizmente, somos um Estado laico apenas na teoria. Em terceiro lugar, não acho que o Estado deva tutelar questões estritamente pessoais, de foro íntimo (e aborto pra mim é uma delas). Em quarto lugar, tentar impor a moral de determinado grupo sobre a moral individual é imoral.

Ademais, essas discussões sobre onde a vida começa e termina não levam a nada. E pensando juridicamente: nossa legislação define morte como a cessação da atividade encefálica. Não seria, portanto, uma decorrência, considerar vida juridicamente protegida somente após a formação da rede neural? Eliminar um amontoado de células, ainda que potencialmente poderia vir a ser uma vida humana, embora não seja capaz de interagir com o meio ou sentir dor, não é ilegal. Não há, portanto, motivos para que a proibição do aborto persista.

Pra mim o problema se resume ao fato de que as pessoas são incapazes de aceitar posições contrárias às suas crenças. Religiões são crenças assim como o ateísmo, o cientificismo, etc. Qual a dificuldade de aceitar que cada um tem uma posição sobre este assunto, que todas deveriam ser respeitadas e que cada um tem o direito de decidir sobre seu corpo e sua vida? Civilidade de verdade é aceitar as diferenças e conviver bem com elas.