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23 de ago de 2010

sístoles e diástoles

Não sei bem o que é uma sístole ou uma diástole... o que sei é que trata-se de movimentos involuntários do músculo mais forte que há no corpo humano. Involuntariamente ele bate e bombeia sangue para o corpo inteiro, para todos os outros órgãos. Às vezes, involuntariamente ele perde o compasso e cria-se uma arritmia. Outras vezes, ele para... e a respiração tende a parar junto.

Difícil ter arritmia e parada cardíaca ao mesmo tempo? Talvez... só que, às vezes, é possível que esse músculo bata mais rápido e mais devagar ao mesmo tempo... mas só às vezes. Experimentar isso é experimentar o improvável... O que são números, probabilidades e porcentagens diante da realidade? Estatisticamente, a ocorrência de paradas cardio-respiratórias juntamente com batimentos irregulares incessantes é algo praticamente impossível, pra não dizer irreal.

O real, contradizendo a irrealidade possível das coisas, é a ocorrência daquele 0,5% de chance de resposta muscular involuntária. Na sala de musculação ali da academia a gente aprende que é necessário esforço para que nossos músculos reajam ao exercício. Só que nenhum instrutor jamais avisa que, em certos casos, o músculo age sozinho... O esforço necessário pra uma reação muscular resume-se a um sorriso.

Certas presenças, ainda que breves, são capazes de contrariar qualquer dado estatístico. Nunca se sabe qual será a reação muscular até que ela aconteça... Um sorriso, um abraço e cai-se nos 0,5%. A partir daí, não importa qual a duração da proximidade... minutos, horas, dias... se ela existe, o tempo perde importância. A ausência posterior não indica falta, mas sim, como bem o disse Marcel Proust, a mais certa, a mais eficaz, a mais intensa, a mais indestrutível, a mais fiel das presenças.



AUSÊNCIA

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

Carlos Drummond de Andrade