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10 de fev de 2011

Black Swan


Saindo do cinema, ouvi uma pessoa falar que o filme era perturbador, mas menos do que Anti-Cristo. De fato, o último do Lars Von Trier foi um dos filmes mais perturbadores que já assisti... porém, Cisne Negro conseguiu me perturbar um pouco mais. Filme altamente aconselhável a bailarinos e atletas já que, certamente, em algum momento se reconhecerão ali, talvez até mais do que gostariam – foi o que aconteceu comigo.

Pra quem já conviveu no meio da dança ou esportivo, o filme não tem nada de sádico, como ouvi algumas pessoas dizerem: é real, perverso, cru. Um tapa na cara. Um ser humano normal, leigo, não imagina o que é a pressão de ir além dos limites que seu corpo agüenta, que seu emocional agüenta. Um espetáculo perfeito não mostra o que os envolvidos no processo passam diariamente para que aquele espetáculo seja perfeito... Um jogo bem sucedido não mostra o que os jogadores têm que passar diariamente para serem vencedores... Nenhuma atividade dessas, passando por teatro, dança, lutas, jogos, mostra o que aqueles profissionais têm de passar diariamente para tentar atingir a perfeição. E é isso: a gente não quer atingir nada que seja menos-que-perfeito, se possível, que cheguemos ao mais-que-perfeito.

O público não imagina a cobrança... A externa, mais fácil de lidar. A interna, às vezes, nos leva aos limites do suportável, aos limites da sanidade. Isso explica bem porque parei de treinar vôlei quando começamos a treinar pra competições, ou porque larguei o tae-kwon-do após a 1ª competição séria, ou mesmo porque troquei ballet por dança do ventre e flamenco e, mesmo assim, levo-as mais como hobbie do que como profissão. Contudo, também explica porque estou sempre insatisfeita, porque vou duas vezes por dia à academia ou, se não é à academia é ao estúdio de dança, porque posso estar completamente destruída após um treino de flexibilidade e, mesmo assim, vou me exercitar, com dores no corpo inteiro. Famosa cobrança interna, busca de perfeição, busca de ultrapassar seus próprios limites. É aí que Cisne Negro, pra mim, soa bem mais perturbador do que Anti-Cristo.

Auto-reflexões à parte, é um filmaço. Natalie Portman está perfeita, caminhando naquele fio tênue que separa a doçura da luxúria, o bem do mal, conseguindo não se fixar em nenhum dos lados e, ao mesmo tempo, estar em ambos. Atuação que merece, sim, o Oscar. O Filme desmistifica aquela idéia de lirismo e pureza que as pessoas têm ao pensar no ballet clássico e mostra que aquelas lindas bailarinas magras, flutuantes, são seres humanos cheios de defeitos como qualquer outro, mostra a imperfeição que há por trás da perfeição. Inveja, lesbianismo, assassinato, incesto...? Essas e outras coisas estão ali, às vezes apenas como sugestão. Vários ingredientes que poderiam resultar em um filme deselegante ou apelativo. Neste caso, resultaram em um filme lindo e angustiante, que vale a pena ser visto e revisto.

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*** Excelente review do filme
AQUI.