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28 de mai de 2011

da não-democracia...

“A democracia no Brasil foi, desde a origem, um lamentável mal-entendido.” Sergio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil


Acho que alguém como eu não deveria nunca fazer o que resolvi fazer: reler, pela 3ª vez, Raízes do Brasil. Por quê? Motivo simples: cada vez que leio este livro fico mais pessimista em relação ao nosso país... E eu não o tinha relido ainda depois que o PT subiu ao poder.

Aconselho a leitura deste livro a todos que não têm um cérebro de ostra e nem são politicamente fundamentalistas (sabe esquerdistas ou direitistas xiitas?...). Aliás, aconselho combinar a leitura deste livrinho com a leitura de Sófocles – Rei Édipo e Antígone e, nos intervalos, descansar lendo crônicas do Machado de Assis do final do século XIX. E, se não der pra ler Raízes do Brasil inteiro, que leia-se ao menos os capítulos 5 e 7 bem.

Então que estes dias alguém muito próximo estava feliz, contando que a filha conseguiu entrar no laboratório X apenas por indicação, sem passar por nenhuma seleção ou avaliação juntamente com outras pessoas. Sei que a filha dela é competentíssima... mas soltei um “por isso que este país não vai pra frente! Todo mundo reclama que o governo faz isso, coloca amigos ou familiares, mesmo que incompetentes, pra exercer cargos... mas todo mundo faz a mesma coisa!”. Óbvio que não ficaram nada felizes com o que falei né...

E aí a gente cai nas reflexões que determinadas leituras, combinadas à observação da realidade e ao estudo da história, nos levam a ter (infelizmente, é pouquíssima gente que lê, menos ainda são os que refletem).

Talvez pela minha criação... ou pela minha experiência de vida... ou ambos... Sei lá porque, mas todas as vezes que entro em contato com Sérgio Buarque de Holanda me sinto finalmente compreendida! Para ele, nunca houve democracia no Brasil, e continuará não havendo enquanto as relações interpessoais forem pautadas no personalismo. O que acontece é que, por aqui, as pessoas agem passionalmente como em qualquer outro lugar do mundo, mas o brasileiro tem a particularidade de deixar isso transpor a esfera privada e influenciar a pública, afetando a coletividade.

Em resumo, enquanto os interesses individuais continuarem suplantando os interesses da coletividade, não haverá, de fato, democracia em nosso país. Sinto-me bem acompanhada em pensar dessa forma... afinal, tenho em minha cia autores da Grécia antiga e gente insignificante como Sérgio Buarque de Holanda e Machado de Assis.

25 de mai de 2011

destrua o português!

Acompanhando a polêmica gerada por um livro adotado pelo Ministério da Educação (MEC) para o aprendizado de jovens-adultos. Trechinho do livro, primeiro capítulo, página 15:

“Você pode estar se perguntando: ‘Mas eu posso falar ‘os livro’?”
“Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima do preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as normas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião.”


De acordo com o livro, ok falar errado, mas a pessoa poderá ser vítima de preconceito linguístico. Falar correta ou erradamente só depende da ocasião, sustenta a obra. Essa abordagem está no livro adotado pelo MEC e não concordo. Me chamem do que quiserem, mas discordo veementemente.

Pra mim, não faz o menor sentido qualquer livro que se destine a ensinar uma língua colocar as duas formas de falar no mesmo patamar. Linguagem coloquial a gente aprende no dia a dia, norma culta não. E dado o percentual de analfabetos funcionais que nossas escolas formam, não tem o menor cabimento falar em “preconceito linguístico”. Digam o que quiserem, pra mim não deve haver qualquer dúvida sobre a importância de falar e escrever bem nosso idioma. Imagine se eu tivesse escrito minha dissertação de mestrado da mesma forma que escrevo neste blog? Pior: lembrem-se que a maioria absoluta de nossa população, formada por analfabetos funcionais, não entende direito o que leu numa postagem mal escrita como esta! Para mim, isso é trágico...

Independentemente do que esteja escrito no tal livro, há a mensagem de "aceitação" para com quem fala errado. E desculpa, mas no mundo competitivo em que vivemos, deve-se baixar o padrão para a inclusão de todos, ou educar melhor para aumentar o nível e, aí sim, incluirmos todos?

Eu gosto muito de quem me acusa de elitista direitista e vários outros ‘istas’... mas estudou em escola particular ou coloca seu filho em escola particular, já que a situação geral do ensino no país é risível, quando não chorável. E infelizmente, eu sei do que falo... quando dei aulas para a graduação, em universidade federal, recebia trabalhos que me davam vergonha alheia! (e note-se que era universidade federal, onde não é qualquer um que entra, principalmente em curso concorrido...). Era corrigir erros crassos e receber mensagem do indivíduo reclamando de sua liberdade acadêmica... como se fosse liberdade acadêmica cometer erros primários de ortografia ou concordância.

Então meus queridos esquerdistas e/ou defensores do PT... eu sei que essa palhaçada começou a ser esquematizada no governo FHC, por volta de 1997... mas essa discussão de vocês, se fazendo de ofendidos e querendo acusar quem está contra o MEC de reacionário não faz o menor sentido! Sendo grossa: foda-se se FHC, Lula ou Dilma começaram ou continuaram com isso... é algo que deveria ser exterminado e fim, independente da vertente política que defende e corrobora com esse absurdo!

O Brasil é um país de analfabetos funcionais, e tem gente que acha bonito esse tipo de colocação em livros didáticos? Ok, a língua falada muda diariamente, se adapta, se molda... Não há certo ou errado no “falar”... mas sim, há certo e errado no “escrever”.



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P.S.: eu tenho pavor de português abaixo da linha da pobreza... e se isso é ser preconceituosa, ok, assumo meu preconceito! Mas continuo achando bem mais racional ensinar a todos a norma culta, tanto para a língua falada quanto para a escrita... e não defender o ensino irrestrito da norma culta é ser hipócrita: provas e redações discursivas em vestibulares e concursos pedem que tipo de utilização da língua? A vida profissional séria pede que tipo de utilização da língua? Façam-me o favor né...

6 de mai de 2011

palmas pro STF!

Dia 5 de maio vai entrar para a história! Neste dia, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a união civil entre homossexuais, assegurando a esses casais os mesmos direitos dos casais heterossexuais. A decisão dá aos casais homossexuais os mesmos direitos patrimoniais dos heterossexuais, como direito à herança, pensão por morte ou separação, declaração compartilhada do Imposto de Renda (IR), adotar crianças e adolescentes, entre outros. Com isso, os cerca de 20 milhões de LGBT do país passam a ter suas relações amorosas regidas e protegidas por lei.



Minha opinião? Nada mais justo! Nossa Constituição não tem, entre seus princípios fundamentais, a dignidade da pessoa humana, o direito à liberdade, à igualdade e o veto ao preconceito? Se o STF tivesse tomado qualquer decisão diferente da que tomou, estaria indo contra a Carta Fundamental da qual é guardião.

O que muda na minha vida com essa decisão? Absolutamente nada, continuo tendo os mesmos direitos que sempre tive e que só foram reconhecidos aos meus queridos amigos homossexuais agora. Daí me pergunto: por que tanta gente preconceituosa, incluídos aí CNBB e outras associações religiosas, ficou indignada, latindo absurdos, amaldiçoando o Supremo, os gays e os simpatizantes da causa? O que muda na vida dessa gente preconceituosa? Não continuam tendo os mesmos direitos que sempre tiveram?

Essa decisão do Supremo foi um avanço e bato palmas para o nosso Judiciário enquanto tenho vergonha alheia do nosso Legislativo, afinal, há anos existe um projeto em discussão no Congresso. Porém, uma coisa não muda: o preconceito continua sim arraigado em nossa sociedade, nas mentes pequenas das pessoas que não vêm todos os seres humanos como iguais e merecedores dos mesmos direitos.

As reações contrárias e os discursos raivosos pós decisão do STF demonstram que ainda há um longo caminho a percorrer para que de fato sejamos todos irmãos. Uso a palavra irmãos aqui propositadamente, pois a mim é contraditório e inconcebível uma CNBB da vida e gente que se diz cristã ficar indignada com o passo histórico que demos hoje... Vocês não seguem os ensinamentos de Cristo não? Ou só os seguem da boca pra fora? Cristo não afirmou que somos todos irmãos, não pregou o amor e não nos disse “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”?



***A decisão está sendo notícia lá fora também! Exemplo AQUI.***

3 de mai de 2011

notícias do picadeiro

Algumas considerações rápidas sobre o picadeiro no qual vivemos:

- Há alguns dias, postei um texto apoiando trocarmos 1 parlamentar por vários professores. Daí que um leitor assíduo me enviou um email para me informar que “desde dia 24 de fevereiro, o piso salarial pra professor da rede pública subiu para aproximadamente 1.180,00 para professores que lecionam 40h semanais para o Ensino Médio, e 558,00 para os que lecionam apenas 20h semanais.” Todos concordamos que, mesmo com este aumento, o salário dos professores continua sendo ridicularmente baixo? E eu que reclamava da minha bolsa de mestrado que era R$ 1.200,00... Ah, esqueci que moro no país circo e que é normal um Tiririca da vida ganhar mais de R$ 20 mil enquanto professores ganham salários ridículos.

- Tava demorando pra nossa digníssima presidente fazer uma palhaçada em política externa. Completo absurdo e retrocesso imenso a retirada do Brasil da Comissão de Direitos Humanos da OEA. Pergunto-me como uma presidente supostamente democrática pode ter feito isso, além de ignorar condenações internacionais por FLAGRANTES DESRESPEITOS AOS DIREITOS HUMANOS, como a recente condenação por não punir o massacre cometido na repressão à Guerrilha do Araguaia, donde deveria ter sido feita uma revisão da nossa lei de anistia? Aliás, como um país que tem o maior expoente de Direitos Humanos do mundo e que foi professor no Instituto Rio Branco e conselheiro jurídico no Itamaraty, age dessa forma com relação à OEA? A construção dessa Belo Monte já saiu do circo e entrou no puteiro: é uma putaria mesmo!
*Quem tiver interesse em entender melhor esta questão, achei ESTE TEXTO que está bem explicado.