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8 de set de 2011

liberação sexual?

O quadro anterior de nítida repressão sexual tem sido substituído, nas últimas décadas, pela valorização da sexualidade, o que nos levaria, num primeiro momento, a admitir uma liberação. Mas será que podemos falar em liberação numa sociedade onde a censura geralmente é mais rigorosa com filmes e revistas sobre sexo do que com os de violência?

O movimento estudantil de maio de 1968 foi importante no processo de procura da afirmação do direito à sexualidade. A dupla moral foi duramente criticada, assim como todas as formas hipócritas de relacionamento humano; os movimentos feministas tentaram recuperar a dignidade e a autonomia da mulher; houve a exigência de uma linguagem mais livre; iniciou-se a valorização do corpo. Estava começando a revolução sexual.

Como o capitalismo reagiu diante de formas emergentes de dissolução dos costumes? Incorporando-as para amenizar seus efeitos. Uma ampla produção de revistas, filmes, livros e peças teatrais veio atender ao interesse despertado pelas questões sexuais. Mas essa produção se acha voltada para o novo filão de dinheiro: o sexo torna-se vendável. No entanto, há apenas uma ilusão de liberação sexual; na verdade, continuam ocorrendo formas sofisticadas de repressão.

A sexualidade que se acha liberada é a sexualidade genital, centralizada no ato sexual. Isso é o empobrecimento da sexualidade humana. A canalização dos instintos para os órgãos do sexo impede que seu erotismo desordenado e improdutivo prejudique a boa ordem do trabalho. O alívio de fim de semana dado às necessidades sexuais cada vez mais “liberadas” faz as pessoas pensarem que, afinal, o mundo não é tão hostil assim aos seus desejos; mas, na verdade, o que está sendo ocultado é que o ambiente no qual as pessoas podiam obter prazer foi reduzido. Consequentemente, o universo de concentração de desejos libidinosos é do mesmo modo reduzido.

O papel do controle da intimidade coube, num primeiro momento, à religião; atualmente cabe à ciência, por meio da sexologia. Escreve-se muito sobre sexo, mas do ponto de vista científico. Os romanos tiveram a Ars amatoria, de Ovídio; os japoneses, a sua arte erótica; os hindus, o Kama Sutra. Nessas obras procura-se conhecer o sexo pelo domínio do corpo e pelo exercício do amor – trata-se de uma arte. A sexologia, por sua vez, procura explicar o sexo pelo intelecto – é uma ciência.

Segundo Michel Foucault, autor de História da Sexualidade, falar sobre sexo é uma maneira camuflada de evitar fazer sexo. Daí a mudança da ars erotica para a scientia sexualis. A ciência surge como uma forma controladora da sexualidade e, através do discurso da competência, busca a normalidade e a objetividade. O discurso científico, se dizendo além dos tabus e dos preconceitos, reduz o sexo a uma visão biologizante; mostrando-o como algo natural, estabelece padrões sobre o que é normal ou patológico, classifica os tipos de comportamento e aprisiona os indivíduos à última palavra do especialista competente, através do qual o sexo é vigiado e regulado.