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5 de set de 2011

puritanismo

O post anterior me levou a desenterrar vários textos e livros da época da graduação... Pra quê? Reler algumas coisas e ter um embasamento melhor para escrever alguns posts relacionados à repressão que nós, mulheres, sofremos atualmente. Este aqui ficou um pouco grandinho, mas espero que seja útil pra alguém.

O discurso moralista e puritano é herdeiro das tendências neoplatônicas que consideram que o caminho da humanização está na purificação dos sentidos mais baixos. A sexualidade deixa de fazer parte do homem integral e é confinada à alcova, ao silêncio. A visão platônico-cristã dissocia o amor espiritual do amor carnal e associa sexo ao pecado.

A Reforma Protestante retoma essa temática e o trabalho surge como a ocasião de purificação. Pela predestinação, a salvação ou a condenação das almas independe do próprio homem; as obras, a riqueza, a prosperidade, são sinais da escolha divina. Daí o trabalho ser o meio de fugir da tentação e a condição da purificação. “A ociosidade é a mãe de todos os vícios”. Está surgindo aí a moral burguesa.

O princípio de adestramento do corpo faz com que o trabalho não seja apenas um freio para o sexo, mas que promova um processo de dessexualização e deserotização do corpo. Há uma situação de dominação em que uma classe se encontra submetida a um trabalho alienado, fragmentado, repetitivo e mecânico, no qual não há mais prazer.

O trabalhador interioriza a necessidade de rendimento, de produtividade, preenchendo funções preestabelecidas e organizadas em um sistema cujo funcionamento se dá independentemente da participação consciente de cada um: eficiência e repressão convergem. O sexo é restrito a momentos isolados, nas horas de lazer. É submetido a um controle para que não se desvie da função de procriação.

Na família burguesa vão se tecendo os papéis destinados a cada elemento. O pai é o provedor da casa e seu espaço é público (o trabalho e a política). A mulher, protegida pelo homem, desempenha o papel biológico que lhe é destinado e fica confinada ao lar. A conseqüência é a chamada dupla moral, isto é, a existência de uma moral para a mulher e outra para o homem.

Para que a mulher possa desempenhar o papel de mãe, a educação da menina é orientada como se ela fosse um ser assexuado. Sua vida sexual deve começar apenas no casamento e, muitas vezes, sem os prazeres da carne. A virgindade é valorizada, o adultério punido e sempre se aceitou com naturalidade as justificativas de “matar para lavar a honra”.

Tem-se a dicotomia feminina: ou é santa ou é prostituta. A recusa de sexualizar a mulher se contrapõe à tendência de sexualizá-la de forma perversa. Veja, por exemplo, o uso dos adjetivos honesto e sério: o que se entende por “homem honesto” ou “sério” é muito diferente de “mulher honesta” ou “séria”. De um homem, no seu serviço, exige-se competência; de uma mulher, que também seja bonita e charmosa. A própria mulher tem em si mesma esse tecido ambíguo da exposição e da negação da sua sexualidade. É ensinada desde cedo a ser vaidosa e insinuante... mas deve ir até certo ponto, no limite da decência.

O papel da prostituta também é ambíguo: condenada e ridicularizada, é o contraponto da virgindade das donzelas de boa família. A geógrafa Marilena Chauí, em Repressão Sexual, essa nossa (des)conhecida, diz que “ inúmeros estudos têm mostrado como, na geografia das cidades, o bordel é tão indispensável quanto a igreja, o cemitério, a cadeia e a escola, integrando-se à paisagem. Nas grandes cidades contemporâneas, a localização torna-se central, mas sob a forma de guetos e, portanto, de espaço segregado. Em suma, a sociedade elabora procedimentos de segregação visível e de integração invisível, fazendo da prostituição peça fundamental da lógica social”.

A repressão sexual sempre existirá em sociedades onde persistem relações de poder baseadas na exploração... A sexualidade só se libertará caso possa ser desfeito o nó da dominação social. Entre outras coisas, seria necessária uma discussão política das condições dessa alienação na qual a humanidade encontra-se. Ou seja...