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27 de abr de 2012

hora de julgar o racismo

"O julgamento sobre cotas é uma boa oportunidade para se discutir um aspecto essencial da vida brasileira – o racismo.

(...)

Os negros estão nos piores empregos, nas piores escolas, nos piores bairros. Têm 30% da renda embora representem 50% da população.

(...)

É apenas indecoroso sustentar que vivemos num país onde o racismo não faz parte do cotidiano. Nem nossas leis anti-racistas, supostamente tão severas, conseguem ser cumpridas como se deve.

(...)

O racismo está na economia e na vida social, onde os negros foram discriminados na saída da escravidão, quando eram proibidos de ter acesso aos títulos de terra. E tiveram dificuldades muito maiores para conseguir empregos na indústria.

(...)

Impregnado em nossa cultura, em nosso modo de vida, o racismo é uma realidade que nem todos brasileiros admitem com facilidade. Como explica o psicanalista italiano Contardo Calligaris “o mito da democracia racial é um mito que serve unicamente aos interesses dos brancos. Os brancos estão perfeitamente tranquilos para dizer que o racismo não existe.”

Para quem se encontra do lado agradável do guichê, a democracia racial é uma necessidade ideológica. Ajuda a encobrir com proclamações sentimentais a dura realidade da discriminação e da desigualdade imposta de cima para baixo.

Nem Demétrio Magnoli, o mais ativo advogado da democracia racial de nossos dias, consegue negar a difícil e particular condição do brasileiro negro. “Ninguém contesta o fato de que, como fruto da escravidão, a pobreza afeta desproporcionalmente pessoas de pele mais escura,” admite o professor, em “Uma gota de sangue” (página 363).

A pergunta, então, é uma só: o que se faz com isso?

A resposta, até agora, tem sido a seguinte: não se faz nada e deixa o tempo passar que o mercado vai resolver o “fruto da escravidão.” Grande hipocrisia. É claro que não resolveu. Nem era para ter sido diferente.

Vamos combinar, meus amigos: a discriminação alimentada pelo racismo não é uma realidade espiritual nem um acidente de percurso. Faz parte de nossa estrutura, do modo de vida. Permite aos brasileiros de “pele mais clara” viver num país onde metade da população não compete pelos melhores empregos, pelas melhores escolas nem pela promoção ao longo da vida. A discriminação oferece uma imensa mão de obra barata e disponível, que irá fazer nosso serviço doméstico, aceitar empregos mal remunerados e pouco considerados. Vão ser os mais explorados, os mais indefesos, o chão de nossa sociedade, as funções que ninguém quer fazer, os que terão menor respeito.

(...)

Desde 1888 o país sabe o que seria preciso fazer para melhorar a sorte dos brasileiros negros, Nada se fez ao longo de doze décadas. São quantas gerações? Cinco? Dez? Doze?

Seria preciso dar escolas, distribuir renda, investir nas novas gerações. Aquilo que sempre se diz, até hoje. Nada acontece, nada se resolve. O país se industrializou, construiu universidades, hoje é a 6a. potencia mundial. Nada se faz de útil para metade dessa população. Por que?

Porque não interessa a quem tem o poder e o poder do dinheiro, embora o pais inteiro pudesse ser beneficiado com isso.

A vantagem material de manter uma parcela população subalterna, subjugada e superexplorada pode ser inconfessável – como o próprio racismo não se confessa – mas é inegável para quem se encontra do lado certo. Proporciona confortos vergonhosos, com poucos paralelos no mundo inteiro.

O julgamento que começa hoje no Supremo é um dos saldos positivos da democratização do país. Ela permitiu aos negros defender seus direitos e cobrar respostas diante de uma tragédia histórica. Se eles sofreram a mais prolongada e criminosa agressão histórica – a perda da liberdade, o confisco da cultura, o massacre social – e jamais foram reparados, é justo que tenham uma compensação.

O debate é político.

(...)

Mas a discussão é outra. Num país onde todos os cidadãos devem ser iguais, é preciso reconhecer com honestidade que para milhões de brasileiros o peso da história está acima das forças de um individuo e de uma geração.

(...)

É essa a ideia que estará em debate, hoje: somos um país de cidadãos iguais? Garantimos a competição, a justa recompensa pelo esforço de cada um, ou somos um país no qual metade da população já nasce em desvantagem histórica?

Não é um debate que só interessa aos negros, mas a todos os brasileiros preocupados com o futuro de seu país.

O país levou tempo mas aprendeu a encarar muitas dores de sua história. Ficamos menos hipócritas e, no fundo, menos covardes. Está na hora de fazer isso com o racismo e sua contrapartida, a discriminação."




*esse texto não é de minha autoria e pode ser lido na íntegra AQUI

26 de abr de 2012

equal pay day

Deixo um vídeo da Sasha Grey, a atriz pornô, para a campanha pela equiparidade salarial entre os gêneros (quem não entende inglês, desculpe, mas não encontrei legendado e estou com imensa preguiça de traduzir o que ela diz). Resumindo: ela diz que escolheu abandonar os estudos para virar atriz pornô e que tem consciência de que este é o único posto em que uma mulher consegue ganhar mais do que os homens.



Bom, não precisamos ir longe e nem precisamos partir apenas para o mercado do sexo, pornografia, prostituição... As mulheres mais ricas do mundo são, em geral, modelos internacionais e atrizes de Hollywood. São as únicas profissões nas quais as mulheres ganham mais que os homens, mas nem todas têm o biotipo para serem modelos ou talento (e beleza) para serem atrizes. Qualquer uma pode, porém, entrar para o mercado do sexo.

Fato é que as mulheres ganham menos entre profissões e também dentro de uma mesma profissão. No Brasil, mesmo no mesmo cargo e com as mesmas qualificações, as mulheres ganham cerca de 30% menos que os homens, segundo estatísticas presentes no site do IBGE.

24 de abr de 2012

descontraindo

Só para descontrair um pouco... (e porque eu ri do "fique com esse seu frango"...rs...)

21 de abr de 2012

"lei seca" pelo mundo

Enquanto por aqui tem muita gente descontente com a tal da Lei Seca, uma amiga que está morando em Quioto me informou que lá, em terras japonesas, motorista bêbado paga multa, assim como quem estiver no carro e o estabelecimento que serviu a bebida.

Quanto ao estabelecimento, não sei o que pensar: empresas vivem de lucro e, no caso das que vendem álcool, essa venda se traduz em $$$ e, ademais, seria responsabilidade do bar/boate/restaurante o cliente sair dirigindo? Já quanto aos passageiros do carro, acho justo: todos sabem que o motorista bebeu e escolheram entrar no carro... ou não?

Não serei hipócrita de dizer que nunca dirigi após ingerir álcool – já. E quem nunca? Porém, contudo, entretanto, todavia... sejamos um pouco advogados do diabo.

Nunca fui ao Japão (ainda!). Mas acho que, antes de simplesmente compararmos a legislação deles com a nossa, deveríamos pensar em alguns pontos e traçar alguns comparativos:

- transporte público (horário de funcionamento, abrangência geográfica, qualidade, segurança, disponibilidade);
- taxis (qualidade do serviço, segurança, preço);
- segurança pública nas ruas para que se possa, por exemplo, andar a pé de noite sem grandes problemas.

Não vou nem falar de outras cidades brasileiras nas quais já estive... Restringindo-me à capital, onde vivo, os pontos acima poderiam ser descritos da seguinte forma:

- transporte público deficiente e, em alguns pontos, inexistente. Horário de funcionamento do metrô, na ridícula e risível abrangência geográfica do mesmo, é insuficiente, para dizer o mínimo. Ônibus ganha na geografia e perde no resto. Ambos bastante inseguros de noite, principalmente se você for mulher.
- taxis mais caros que em qualquer outra cidade na qual estive no país e atendimento demorado quando ligamos para os disk-taxi. Além disso, corre-se o risco de ser assaltado pelo taxista e seus comparsas (conheço mais de uma pessoa que passou por isso).
- segurança nas ruas é complicado: já é inseguro de dia, quanto mais de noite! Descer de estação de metrô ou ponto de ônibus e andar até seu destino é perigoso, assim como voltar a pé para casa.

Ou seja...

Conclusão: leis duras para motoristas bêbados sim, mas que venham acompanhadas de melhorias no resto da estrutura das cidades.


*Isso me lembra a galera que defende o uso de bicicletas por aqui, para diminuir o impacto ambiental e também o trânsito... Sem ciclovias... sem segurança para "estacionar" sua bike e, ao voltar, ela estar inteira onde foi deixada... sem segurança nem pra andar tranquilo por aí né (quantas pessoas são assaltadas e têm suas bikes e outras coisas roubadas todo dia?...). É...

19 de abr de 2012

nudez democratizada?

Os criadores do site dizem que o Nakeit nasceu para democratizar a nudez e que querem pessoas reais... mas inauguram o negócio escolhendo a Pietra Príncipe e justificando a escolha dizendo que ela é “loira e gostosona, mas é nerd e gamer"? Querem pessoas reais que fujam dos estereótipos e a primeira é justamente um estereótipo, além de já ser razoavelmente conhecida?

Segundo os criadores do site, eles querem abrir espaço para todo tipo de pessoas posarem (homens inclusive) e todos estarão aptos a isso desde que haja quem pague pelo ensaio. Acho positiva a quebra de estereótipos de beleza, assim como a inclusão de homens – caso o site de fato faça isso, coisa que duvido. Fica a pergunta: será que o público em geral, acostumado às panicats e BBBs da vida, vai pagar para ver gente normal?

Eu, pessoalmente, não acho nada demais em a pessoa, voluntariamente, se dispor a posar nua. Honestamente, até eu que sou mega chata com esse tipo de exposição posaria se me pagassem, dependendo da situação. Por que não? Nudez, dependendo de como for utilizada, pode inclusive servir como fator de empoderamento. Não tenho preconceito com a mercantilização do sexo e da nudez e não acho que, necessariamente, impliquem em objetificação.

Deixando de lado qualquer papo filosófico... as revistas e os sites com os estereótipos que me desculpem, mas prefiro mil vezes um Suicide Girls.

Aqui um site bacana contra o tabu da nudez e a beleza fabricada: The Nu Project.

Pra quem gosta de nudez (e porque não, sexo?) mais, digamos, voltada para o público lésbico e no estilo girl next door, tem o Abbywinters. Há também o Ifeelmyself (o nome diz tudo), cuja proposta é bem interessante.

17 de abr de 2012

abuso sexual x imunidade

Uma notícia dessas, em que um diplomata abusa sexualmente de crianças e sai ileso, devido à sua imunidade, me faz questionar o Direito Internacional.

Resumidamente, para quem não está familiarizado com o tema: tal imunidade é regida pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, de 1961. Os diplomatas gozam de ampla imunidade de jurisdição penal e civil, são fisicamente invioláveis (suas residências idem), não podem ser obrigados a depor como testemunhas e têm, também, imunidade tributária. Esses privilégios em matéria penal, civil e tributária estendem-se aos membros de suas famílias que vivam sob sua dependência e tenham sido inclusos na lista diplomática.

A mesma Convenção diz que eles estão obrigados a respeitar o direito local e que sua imunidade penal não o livra da jurisdição de seu Estado – teoricamente, a polícia local pode investigar o caso e dar as informações para que o Estado de origem processe o diplomata ou seu familiar. Essa imunidade penal, assim como a civil, não pode ser renunciada por quem a detém (só quem pode renunciar à imunidade diplomática de alguém é o país de origem do beneficiário dela).

Ou seja...

Pois é, esse diplomata iraniano gente boa pode continuar abusando de quantas crianças quiser.

16 de abr de 2012

florence

Dedicado ao amor enorme da minha vida que está, agora, ali pertinho, no Japão.

Saudades IMENSAS e uma abstinência que nunca vai embora.

política - sempre pode ser pior

Muita gente no DF está decepcionada com nosso queridíssimo governador Agnelo... eu não. Mesmo no contexto ridículo que foram as últimas eleições por aqui (Weslian Roriz diz alguma coisa?...rs...), não votei nele, como aliás não tenho votado no PT desde que vi a mesma coisa que acontece com a maioria acontecendo com o nosso ex-presidente e o partido (poder corrompe né...). A minha crença em políticos é praticamente NULA, mas nada que não possa ser piorado – e foi.

Acredito que um bom medidor do caráter, da confiabilidade e da credibilidade dos políticos repousa sobre as pessoas que o assessoram. Além de avaliarmos o parlamentar em si, deveríamos, também, avaliar quem o cerca, quem recebe os famosos cargos de confiança, os DAS’s.

Um político que distribui cargos utilizando-se do nepotismo é alguém crível? A maioria das pessoas responderia não, certo? Então refaço a pergunta: uma mulher que levanta a bandeira, entre outras, da defesa dos direitos das mulheres, mas dá um cargo de confiança a um homem com ficha na polícia, denunciado por agressão em um JUIZADO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER, é crível? (confiram os processos nos quais um assessor da deputada é réu AQUI)

Acho que nós, mulheres, devemos lutar por mais espaço público e que deve haver cada vez mais mulheres nas esferas de poder, defendendo nossos direitos. Embora não tenha votado na Dilma, por acreditar que deve haver rotatividade de partidos no poder para um bom andamento da democracia no longo prazo (e por desacreditar no PT), votei em uma mulher nas últimas eleições, mesmo ela sendo do tal partido desacreditado. Hoje, me sinto enganada por alguém que deveria estar ali defendendo nossa classe, mas opta por entregar um cargo de confiança nas mãos de um machista da pior espécie, agressor com firma reconhecida em cartório. Ok, pode ser que ela não saiba disso, não conheça a biografia de quem trabalha com ela... e eu esteja fazendo um julgamento errôneo sobre seu caráter.

Faço uma sugestão de pauta aos jornais e revistas desse país: escolham alguns políticos, peguem seus discursos e programas de governo (aquilo que eles defendem publicamente) e depois investiguem seus assessores diretos... Óbvio que nenhum veículo de comunicação atenderá ou terá culhões para isso, mas a sugestão está dada.

13 de abr de 2012

palmas pro STF

Não me prolongarei no assunto, já que os posts anteriores foram sobre isso (quem quiser saber mais, leia AQUI)... Para quem vive desligado do que acontece: o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a interrupção da gravidez em casos de fetos anencéfalos.





“O grau de civilização de uma sociedade se mede pelo grau de liberdade da mulher”Ayres Britto

Eu acrescentaria e diria que o grau de civilização de uma sociedade se mede pelo respeito e pela empatia que seus membros têm uns com os outros – e isso está em falta em terra brasilis.

Sim, devemos festejar a decisão do STF. Porém, não podemos esquecer de todos aqueles que estão, ainda, desolados com tal decisão e usam falácias como, por exemplo, o fato de animais não abortarem (mas eles nunca colocam em seus argumentos, cheios de valores morais, que estes mesmos animais abandonam ou matam os filhotes que nascem doentes né...).

Estamos em 2012, século XXI... e o Brasil está discutindo se o estado pode obrigar uma mulher a carregar um cadáver em seu ventre?... Olha, como vi alguém dizendo por aí: isso é muito subdesenvolvimento mental viu.

11 de abr de 2012

ainda o aborto...

"E ah! Por falar em 40 anos… o Brasil está há exatamente 40 anos de distância dos países desenvolvidos nos quais as mulheres têm direitos civis plenos. Eu olho para as brasileiras que opõem a legalização do aborto e vejo a reflexão assustadora da alegoria do escravo de Platão. Eu me vejo, aos quinze anos.

Aborto não é uma questão moral de defesa do feto, é uma questão social dos direitos da mulher. A mulher, que foi considerada inferior pelos maiores pensadores da história.

De Platão a Hegel, minha amiga, você vale tanto quanto um escravo.

Malcolm X não lutou pelos direitos feministas. Martin Luther King não lutou pelos direitos homossexuais e judeus nunca fazem filmes sobre o holocausto armênio. Então, minha cara, não espere que algum homem lute por algo que, por essência, é sua batalha."



*o texto pode ser lido na íntegra AQUI

10 de abr de 2012

aborto de anencéfalos

Amanhã o Supremo Tribunal Federal deve votar uma ação que decidirá se as mulheres grávidas de um feto anencéfalo poderão interromper a gestação sem necessidade de autorização judicial.

Li alguns textos excelentes sobre o assunto, como o da Eliane Brum e esse AQUI, que apresenta a discussão vista por outro ângulo. E me deparei com alguns inclassificáveis, como o do Tio Rei, que chega a dizer que "O abortamento de anencéfalos, na linha de chegada, se encontra com a eugenia".

Parece que amanhã haverá várias manifestações cristãs, pró-vida, ali na Praça dos Três Poderes. Sinceramente? Esse povo não tem compaixão e nem humanidade... Na boa, querer obrigar uma mulher a levar uma gravidez, de um feto que invariavelmente morrerá, até o fim, é o cúmulo da falta de amor ao próximo. E se dizem cristãos? hahaha Faz-me rir!!! Como disse um amigo meu: “Engraçado, parece que existem muitos adultos anencéfalos também. Talvez por isso, lutem contra o aborto.”

Já que o nosso querido Reinaldo Azevedo publicou os emails dos ministros do STF pedindo que as pessoas que se opõem ao aborto enviem mensagens a eles, faço o mesmo, mas ao contrário:

E-mails aos ministros - Os que são favoráveis ao aborto de anencéfalos devem enviar mensagens respeitosas aos ministros do Supremo, expondo o seu ponto de vista. Seguem os respectivos endereços eletrônicos:

Celso de Mello - mcelso@stf.gov.br
Marco Aurélio de Mello - marcoaurelio@stf.gov.br
Gilmar Mendes - mgilmar@stf.gov.br
Cezar Peluso - carlak@stf.gov.br
Carlos Britto - gcarlosbritto@stf.gov.br
Joaquim Barbosa - gabminjoaquim@stf.gov.br
Ricardo Lewandowski - gabinete-lewandowski@stf.gov.br
Carmen Lúcia - anavt@stf.gov.br
Dias Toffoli - gabmtoffoli@stf.jus.br
Luiz Fux - gabineteluizfux@stf.jus.br


Nota: em minha opinião, essas pessoas que se dizem cristãs e pró-vida deveriam fazer uma lobotomia compulsória de extirpação total do cérebro para ver se existe vida sem ele. Mas isso é só a minha opinião...

9 de abr de 2012

chega de torturar mulheres

O texto abaixo é de autoria de Eliane Brum e pode ser lido na íntegra AQUI. Vale a leitura e a reflexão.


Depois de quase oito anos, o Supremo Tribunal Federal deverá votar nesta quarta-feira (11) uma ação que decidirá se as mulheres grávidas de um feto anencéfalo (malformação incompatível com a vida) poderão interromper a gestação sem necessidade de autorização judicial.

A pergunta que o Supremo responderá nesta quarta-feira é a seguinte: “Uma mulher, grávida de um feto anencéfalo, pode interromper a gestação sem necessidade de autorização judicial?”. Espero que a resposta da corte seja afirmativa. Acompanho o percurso dessas mulheres há quase dez anos e me parece claro que este é um debate de direitos humanos. Impedir uma mulher de interromper a gestação de um feto incompatível com a vida, se ela assim o desejar, é condená-la à tortura. Assim como também seria tortura obrigar uma mulher a interromper essa mesma gestação se ela desejar levá-la até o fim porque, por crença religiosa ou qualquer outro motivo, encontra sentido nesse sofrimento.

Este é o ponto: se o feto é incompatível com a vida, só quem pode decidir pela interrupção ou não da gestação é quem o carrega no ventre. Ninguém mais – nem as feministas, nem os padres, nem eu ou você. Em geral, olhar pelo avesso nos ajuda a enxergar o quadro com maior clareza. Imagine se a lei brasileira determinasse o oposto. Ou seja: pela lei, todas as mulheres grávidas de fetos anencéfalos fossem obrigadas pelo Estado a interromper a gestação assim que o diagnóstico tivesse sido comprovado. Se não quisessem, precisariam entrar na Justiça para impedir o aborto compulsório. Neste caso, a violação de direitos humanos seria a mesma. E eu estaria aqui, defendendo o direito dessas mulheres de levar a gestação até o fim com a mesma veemência.

Ninguém deveria poder decidir por uma mulher como ela vai lidar com a gestação, dentro do seu corpo, de um feto que não poderá viver. Só ela sabe da sua dor – e de que escolha será mais coerente com aquilo que ela é – e acredita. As estatísticas mostram que 100% dos anencéfalos morrem: cerca da metade ainda na gestação, a outra metade após o parto. O que acontece hoje – e é essa desigualdade de direitos que o Supremo vai anular ou cristalizar nesta quarta-feira – é que as mulheres que encontram sentido em levar essa gestação até o fim têm seu direito respeitado. E aquelas para quem é insuportável conviver, dia após dia, gerando a morte em vez da vida, são torturadas.

Nunca cometi a indignidade de julgar uma mulher que decide levar uma gestação de anencéfalo até o fim. O sentido só pertence a ela – e aqueles que a julgarem extrapolam limites de humanidade. Do mesmo modo, lamento aqueles que se apressam a condenar as mulheres para quem a gestação se tornou intolerável. Na tentativa de impor suas crenças para todos, com a soberba de quem acredita deter o patrimônio do bem, cometem barbáries contra pessoas já fragilizadas pela imensa dor que é gerar um filho condenado à morte por uma malformação.