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15 de jun de 2012

atenção senhores passageiros

Transcrevo abaixo, na íntegra, excelente texto de um grande amigo:


ATENÇÃO SENHORES PASSAGEIROS

Fomos criados para entrar na escola ainda cheirando a cueiro. E daí em diante estudar muito, evitar a repetência, nos preparar bem para encarar o vestibular, entrar numa faculdade, aprender uma profissão, batalhar um emprego estável – de preferência no serviço público – e garantir um futuro adequado como empregado modelo até a tão sonhada aposentadoria. A educação no ...Brasil, e em boa parte do mundo ocidental, é desenhada para forjar servidores ao invés de empreendedores. A nossa realização profissional está na segurança e não na satisfação em si. Somos programados para evitar riscos e não para enfrentá-los. Nos vemos impelidos a evitar o comando e navegar apenas na zona de conforto. A viver como passageiros, se possível e com o devido esforço, na primeira classe.

Crescemos alimentando o sonho de trabalhar na Coca-Cola, na Pepsi Co ou na Ambev, quando poderíamos pensar na criação de uma nova marca de bebidas. Desejamos uma posição de destaque na Procter & Gamble ou na Gessy Lever, quando poderíamos aproveitar nossas aulas de química para desenvolver produtos que possam ser vendidos para essas empresas ou para concorrer com elas. Almejamos a estabilidade de vagas nobres no Senado, na Câmara dos Deputados, nos tribunais superiores, nas autarquias federais e nas grandes empresas públicas. Os exemplos a serem seguidos, saudados pela mídia e pela imprensa, são os primeiros colocados nos concursos públicos. E, assim, estabelecemos uma visão parcial, mas conveniente, de sucesso.

Nossas ambições pessoais, de modo sutil e gradual, são alinhadas por baixo. Empresários bem-sucedidos como Eike Batista, Sílvio Santos, Antônio Ermírio, Abílio Diniz, Nizan Guanaes, Washington Olivetto, Luciano Huck, Victor Civita, Paulo Skaf e tantos outros são pontos fora dessa curva. Alguns foram impulsionados por heranças, outros por rebeldia e inconformismo, outros pelo talento natural. Seja como for, todos eles tem uma característica em comum: receberam uma educação diferenciada. E não se trata apenas da educação formal, mas também daquela que recebemos em casa. Entre outros problemas, ainda vemos o sucesso como pecado e confundimos lucro com falta de escrúpulos. No nosso país, no lugar de orgulho, encaramos as grandes realizações com olhares desconfiados e até uma certa repulsa.

Erramos duas vezes ao optar por uma educação voltada à conquista de um bom emprego e à segurança do salário garantido no final do mês. Primeiro ao podar o ímpeto empreendedor do nosso povo, desperdiçar sua criatividade e, com isso, criar barreiras sociais para o desenvolvimento. Segundo ao formar um sem números de servidores avessos a desafios e despreparados para assumir papéis de liderança. Entramos na faculdade sem saber noções básicas de administração. E, muitas vezes, saímos dela praticamente da mesma forma. A ignorância estimulada, somada ao medo de arriscar, resulta em profissionais medianos, subservientes e cumpridores de tarefas. Um perfil inócuo para um país repleto de desafios e oportunidades. Um perfil indesejado para qualquer empresário com um mínimo de conhecimento e autoconfiança que aposta em talentos.

Descontado qualquer traço de otimismo, o Brasil de fato já decolou. Mas sem o combustível da educação, em especial da educação empreendedora, nossa autonomia de vôo será curta. E, lá na frente, quando recolhermos as caixas pretas e analisarmos seus conteúdos, nos restará lamentar o desastre anunciado e especular em vão sobre os culpados. Quais sejam: todos nós que ignoramos o problema ou que o conhecemos, mas damos de ombro.

Autor: Carlos Grillo
Sócio-Diretor da Fermento Promo
E-mail: grillo@fermentopromo.com.br
Twitter: @carlosgrillo