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3 de jun de 2012

a verdade nua e crua

Não assisto novelas e sequer sei quais são os folhetins atualmente em cartaz em nossas emissoras de TV. Em geral, só fico sabendo de qualquer polêmica relativa aos canais de TV aberta por meio de redes sociais – aí se o assunto me interessar, busco informações, vídeos e etc na internet antes de emitir alguma opinião.

Para quem não sabe, entre tantas outras coisas sou, também, bailarina. Provavelmente, a maior parte dos seres humanos não teve contato com pessoas indignadas a respeito desta cena de novela – eu tive, assim como a grande maioria das bailarinas de danças árabes deste país deve ter tido. O que pude ver é uma imensa maioria de pessoas revoltadas e indignadas com a Rede Globo. Eu não.

A Globo está apenas cumprindo seu papel de empresa que se resume, em última e derradeira instância, à palavra LUCRO. Não sejamos ingênuos quanto a isso ok, toda empresa visa ao lucro e suas ações, sejam quais forem, serão voltadas para isso. Certíssimo, do ponto de vista empresarial, é isso mesmo e nenhuma empresa é instituição de caridade que almeja ao bem social acima de qualquer outra coisa... Esqueçam a ideologia adolescente: uma empresa só terá ações que visem ao bem social se isso der lucro – o mesmo é válido para visar o bem do meio ambiente, dos animais, do que quer que seja. $$$$$. Fato. Indiscutível.

Não me causa nenhuma indignação a Rede Globo colocar moças bonitas, em trajes que despertam a fantasia masculina, em uma cena de despedida de solteiro. Sinceramente? O que me causa vergonha alheia são as
'pseudo-bailarinas' que se prestam a esse tipo de papel – tanto as que se prestam a isso para aparecer na Globo, quanto as que se prestam a isso na vida real (e nós sabemos que elas existem). Isso demonstra que essas moças não respeitam e, tão pouco, amam a dança e a cultura árabe – caso contrário, jamais fariam uma cena dessas em tal contexto.

Aproveitando o gancho do assunto – algo que vejo muitas praticantes de dança reclamarem é a tal 'cobrança quanto à beleza'. Em nossa sociedade, mulheres são cobradas o tempo inteiro para estarem belas de acordo com o padrão socialmente aceito. Em profissões que expõem diretamente o corpo, isso piora um pouco. Como mulher, e como bailarina, acho isso péssimo e não vejo nada positivo que essa 'cobrança' possa nos acrescentar... diria até que vejo o oposto: auto estima baixa, anorexia e bulimia, cirurgias plásticas e intervenções estéticas desnecessárias, depressão, etc... um universo de problemas ligados à tal 'cobrança quanto à beleza'. Esse é meu ponto de vista como bailarina, que entende que boa dança não está ligada à beleza e que acha ridículo excelentes bailarinas, apenas por estarem acima do peso ou não se encaixarem nos padrões de beleza, receberem muitos 'nãos' e terem o mercado diminuído para mostrarem seu trabalho.

Acontece que também sou publicitária, também já trabalhei com produção, com marketing promocional... e aí voltamos alguns parágrafos acima, à palavra LUCRO. A verdade é que um empresário que coloca dança em seu estabelecimento quer agradar ao público e, com isso, ganhar dinheiro. A verdade é que a maioria deste público não se importa muito com a técnica de dança da bailarina, sim com sua beleza. A verdade é que não cabe ao empresário mudar a imagem fantasiosa que o público tem da bailarina – ele quer $$$ e fim. A verdade é que cabe à própria bailarina se respeitar e exigir respeito... e isso começa, inclusive, não se apresentando em qualquer boteco ou festinha por aí, não se prestando a certos papéis como essas moças da cena da novela se prestaram...