Páginas

30 de nov de 2012

sobre Karina Veiga


Eliza Samudio mereceu ser assassinada porque era uma vadia – é o que dizem. Até fotos de mènage apareceram para provar que a moça era mau caráter e merecia tal destino. Absurdo, não?!? Repugnante, mas li muita coisa e muitos comentários na internet falando mal da vítima, achando desculpas para justificar o assassinato... como se houvesse alguma justificativa, exceto legítima defesa, para matar alguém.

A lógica de quem diz que Eliza mereceu é a mesma  de quem culpa a vítima pelo estupro. Estava usando roupas insinuantes. Estava bêbada. Estava no lugar errado. Tudo é usado como desculpa para justificar e atenuar a violência sexual... como se houvesse alguma justificativa para violar assim o corpo de alguém.

É a mesma lógica de quem, agora, está culpando a Karina Veiga pela divulgação de suas fotos e vídeos íntimos na internet. Traiu, então mereceu. Se deixou fotografar e filmar, agora aguenta. Deu o cu, é uma vadia. Como se houvesse alguma justificativa para a divulgação e a exposição da intimidade de alguém dessa forma.

Aparentemente, nossa sociedade aplaude vadias que são castigadas e punidas, especialmente se isso for feito publicamente. Fez um mènage? Usou roupas curtas? Fez sexo? Vadia, piranha, promíscua – merece tudo de ruim que vier, merece ser apedrejada em praça pública. Os cidadãos do sexo masculino que participaram do ato ou são comedores, ou não conseguiram se segurar, ou foram provocados.

Nesse caso da tal Karina, o assunto virou a traição – esqueceram que a menina está sendo humilhada publicamente e que seus vídeos e fotos já estão até em sites pornográficos! Esqueceram que ela tem apenas 16 anos. Não pensaram nela, em como deve estar se sentindo, em como está sendo tratada em família, em nada relativo a ela, afinal, é vadia, então merece. Inquisição em pleno século XXI!

Santa hipocrisia! Ou então, em vez de hipócritas, são todos uns frustrados que namoram frígidas... ou uns frustrados que não transam... ou uns punheteiros... ou umas frígidas recalcadas invejosas... são tantas as opções que me perco. Qual o problema de a menina ser uma puta na cama? Ah, claro, todos querem uma puta na cama – desde que nunca, jamais, os outros fiquem sabendo. Mais um pouco e estaremos fazendo fogueiras para queimar as bruxas!


"Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém"  - Nelson Rodrigues

Juízes e guardiões da moral e dos bons costumes, lembrem-se que vieram de repolhos ou foram trazidos por cegonhas e, já que prazer sexual é uma coisa tão ruim assim se partir de uma mulher, façam o seguinte:

HOMENS – nunca mais façam sexo com mulheres, afinal, mulher que faz sexo é puta, vadia, suja, não merece nenhuma consideração. Sugiro comprarem bonecas infláveis, brincarem com os animais do pasto, foderem o cu uns dos outros.
MULHERES – jamais façam sexo, afinal, mulher que faz sexo é puta, vadia, suja, não merece nenhuma empatia e nenhuma consideração. Sugiro, inclusive, aderirem à frigidez eterna para não caírem em tentação.




*Alguns textos que li sobre o assunto e com os quais concordo em gênero, número e grau:

29 de nov de 2012

cactos e bodes

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte.” 

A frase acima veio à minha mente muitas vezes enquanto eu olhava a paisagem – basicamente o que se vê na foto abaixo, tirada hoje enquanto cruzávamos o sertão para retornar ao litoral.



Anos após a primeira leitura de Os Sertões, finalmente entendi a descrição que Euclides da Cunha faz do sertanejo. Uma pessoa precisa ser muito guerreira para viver ali em Sousa ou em qualquer pedaço daquele caminho seco e quente, com aparência estéril, onde as plantas mais verdes que avistei eram os cactos, naquele cenário de desolação. Diante de um passeio pela caatinga, o cerrado onde vivo fica parecendo floresta tropical. Perdi a conta de quantas pontes sobre quantos rios cruzamos – todos secos. 

O sertão é bem mais do que um lugar sem chuva – nesse ponto, lembrei-me de Euclides, lembrei-me de Graciliano Ramos e suas Vidas Secas. Entendi porque se come tanto bode – é um animal mais resistente às condições climáticas locais do que o gado. Entendi o significado da expressão vacas magras ao olhar nossa vista do hotel (foto abaixo, tirada da porta do hotel).



O que ainda não entendo é como as pessoas conseguem viver ali, no meio do nada, cercadas pelo nada, um pouco esquecidas pelo mundo. Ali, no sertão onde encontrei a Praça do Meio do Mundo, o aspecto de abandono e desolação é tão forte que me levou a pensar durante todo o trajeto... Encontrei e conversei com pessoas simpáticas, receptivas, sorridentes, felizes... sem aquela paranóia e mau-humor que encontramos em cidade grandes. Cheguei no Vale dos Dinossauros, que está fechado, e o senhor que fica ali na portaria quis nos ajudar de qualquer forma, foi solícito, cheio de boa vontade. O normal foi essa solicitude se repetir por todo o sertão... 

Quais são, de fato, as vidas secas? Eles, que aprenderam a comer bode devido às condições e à escassez do local? Eu, que recuso uma picanha por ter nojo da carne? Você, que tem tudo e vive reclamando que sua vida é uma merda?




*fotos de Daniel Madsen, companheiro nessa viagem.

17 de nov de 2012

Caldas Country e o orgulho hetero

Na última semana, a publicação de um artigo na revista Veja, comparando gostar de gays a gostar de espinafre, casamento gay com relacionamento estável com cabras (e outros absurdos!) gerou inúmeras manifestações. Prefiro deixar na ignorância os textos que li defendendo o articulista da revista. Já entre aqueles que responderam ao tal artigo, o melhor texto, tanto na lucidez, quanto na elegância e na ironia, em minha opinião é este (vale a leitura!).

 Essa introdução toda para pedir que olhem bem para a foto abaixo:


O que te vem à cabeça quando olha esta foto?
(  ) que falta de noção
(  ) sacanagem colocarem as fotos deles no Facebook
(  ) não queriam ser expostos, não fizessem isso no meio da galera
(  ) peguem a chave de algum carro
(  ) get a room
(  ) todas as anteriores

Eu, particularmente, acho que, na falta de um carro ou quarto, que pelo menos fossem para um local menos exposto, mais privativo. Não, não sou santa, nunca fui e nem pretendo ser. Sim, sexo em locais públicos me excita – não dessa forma, não com essa exposição, não no meio da galera... Sim a sensação de poder ser visto, não o estar sendo visto por sabe-se lá quantas mil pessoas. Isso dito, não era sobre isso que eu queria falar.

Olhem novamente para a foto. Prestem atenção nas pessoas que estão observando o ato. Sabem qual a primeira palavra que me vem à cabeça quando vejo esta foto? HIPOCRISIA. E aí reler um artigo preconceituoso e de má fé como aquele da Veja me dá mais urticária ainda – não pelo artigo em si, sim pelos inúmeros defensores do articulista, aquela gente que acredita mesmo que os homossexuais têm os mesmos direitos que os heteros e que reclamam à toa.

O preconceito – e a hipocrisia de nossa sociedade – fica bem aparente quando um casal heterossexual vira atração ao transar em público em um Caldas Country da vida... enquanto casais gays são, na melhor das hipóteses, olhados torto ou convidados a se retirarem de um local e, na pior das hipóteses, espancados ou mortos (e isso tudo apenas por se beijarem, se abraçarem ou andarem de mãos dadas na rua – imagine se resolvessem transar no meio da galera!).

Pense nisso da próxima vez que achar que gays ficam de mimimi à toa e, principalmente, quando achar que deveria existir algo bizarro como orgulho hetero.

8 de nov de 2012

conte até 10


Hoje foi lançada a campanha "Conte até 10. A Raiva Passa. A Vida Fica". A proposta da campanha é conscientizar os brasileiros para o fato de que, quando se age por impulso, a violência pode levar à morte.

No Brasil, de cada quatro assassinatos, um foi cometido por motivo fútil. O agressor reage sem pensar, por descontrole emocional. O número de homicídios em alguns estados do Brasil mostra que as pessoas têm matado por impulso. Os crimes ocorrem em função da banalização da violência, da falta de tolerância, da raiva em situações como brigas em bares, nas escolas, no trânsito, em casa ou entre vizinhos.

Leia mais AQUI


Observação minha: Palmas para o Anderson Silva e os outros atletas participantes da campanha. Porém, pelo que vejo por aí, meu lado pessimista-realista duvida que esta campanha surtirá algum efeito prático.