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29 de nov de 2012

cactos e bodes

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte.” 

A frase acima veio à minha mente muitas vezes enquanto eu olhava a paisagem – basicamente o que se vê na foto abaixo, tirada hoje enquanto cruzávamos o sertão para retornar ao litoral.



Anos após a primeira leitura de Os Sertões, finalmente entendi a descrição que Euclides da Cunha faz do sertanejo. Uma pessoa precisa ser muito guerreira para viver ali em Sousa ou em qualquer pedaço daquele caminho seco e quente, com aparência estéril, onde as plantas mais verdes que avistei eram os cactos, naquele cenário de desolação. Diante de um passeio pela caatinga, o cerrado onde vivo fica parecendo floresta tropical. Perdi a conta de quantas pontes sobre quantos rios cruzamos – todos secos. 

O sertão é bem mais do que um lugar sem chuva – nesse ponto, lembrei-me de Euclides, lembrei-me de Graciliano Ramos e suas Vidas Secas. Entendi porque se come tanto bode – é um animal mais resistente às condições climáticas locais do que o gado. Entendi o significado da expressão vacas magras ao olhar nossa vista do hotel (foto abaixo, tirada da porta do hotel).



O que ainda não entendo é como as pessoas conseguem viver ali, no meio do nada, cercadas pelo nada, um pouco esquecidas pelo mundo. Ali, no sertão onde encontrei a Praça do Meio do Mundo, o aspecto de abandono e desolação é tão forte que me levou a pensar durante todo o trajeto... Encontrei e conversei com pessoas simpáticas, receptivas, sorridentes, felizes... sem aquela paranóia e mau-humor que encontramos em cidade grandes. Cheguei no Vale dos Dinossauros, que está fechado, e o senhor que fica ali na portaria quis nos ajudar de qualquer forma, foi solícito, cheio de boa vontade. O normal foi essa solicitude se repetir por todo o sertão... 

Quais são, de fato, as vidas secas? Eles, que aprenderam a comer bode devido às condições e à escassez do local? Eu, que recuso uma picanha por ter nojo da carne? Você, que tem tudo e vive reclamando que sua vida é uma merda?




*fotos de Daniel Madsen, companheiro nessa viagem.