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30 de dez de 2012

fui estuprada

Todas as pessoas que não vivem em uma realidade paralela alienada tomaram conhecimento do caso da indiana que, recentemente, foi vítima de um estupro coletivo em um ônibus e acabou morrendo. Aqui no Brasil, muita gente ficou estarrecida com o caso, dizendo que lá é assim mesmo. Não se engane, coisas parecidas acontecem por aqui e, enquanto você lê este texto, alguma mulher está sendo estuprada em algum lugar.

Acho estupro um dos piores crimes que podem ser cometidos contra uma pessoa. A pior parte é ser um crime no qual quem sofre acusações, caso resolva denunciar, é a vítima. Estava no lugar errado. Estava com a roupa errada. Estava provocando. Não devia ter bebido. Fez sexo e depois se arrependeu. Tinha uma vida sexual promíscua. Tudo é justificativa para atenuar o crime e culpabilizar a vítima. É um crime que, quando noticiado, vem sempre acompanhado da palavra “suposto”.

Hoje, ao ler ESTA NOTÍCIA, sobre a estagiária de advocacia que se matou após ter sido estuprada, só ri para não chorar. Um suicídio ser noticiado como “morreu” porque “caiu” da janela após “suposto” estupro seria cômico se não fosse trágico. Jornalistas queridos, USEM AS PALAVRAS CORRETAS!

A notícia do SUICÍDIO de uma jovem que SE JOGOU da janela após ter sido ESTUPRADA deveria, como tantas outras notícias sobre este tipo de crime, abrir os olhos das pessoas – infelizmente, parece que as pessoas preferem continuar usando vendas nos olhos. Estupro é um crime hediondo sim, violento sim e, ao contrário do que o senso comum acredita, na maioria dos casos o estuprador conhecia a vítima.

Me assusta quantos filhos de chocadeira existem soltos por aí, sempre tentando achar alguma justificativa para o estupro, culpabilizando as vítimas. Vocês não têm mãe? Me assusta mais ainda a quantidade de mulheres que faz o mesmo. Vocês não percebem que, amanhã, pode acontecer com vocês?

Sou estuprada cada vez que alguém joga o ônus da prova sobre a vítima e tenta atenuar ou justificar o crime. Sou estuprada cada vez que alguém ensina sua filha a evitar o estupro, mas não ensina seu filho a não se tornar um estuprador. Sou estuprada cada vez que uma mulher deixa de denunciar a violência sofrida, embora entenda porque desistem da denúncia.

Há alguns anos, acompanhei uma colega de trabalho à delegacia e ao IML. Ela foi estuprada (os detalhes não vêm ao caso). Não bastasse até a mãe acusá-la de ter provocado o estupro, o atendimento das autoridades foi, no mínimo, insensível. Pedir para uma pessoa ficar sem tomar banho para fazer os exames de corpo de delito e deixá-la esperando quase 4 horas é surreal (e isso é só um pequeno exemplo do ótimo atendimento que ela recebeu neste dia). Quem perdeu a paciência e teve um chilique no IML fui eu – lembro de gritar com policiais e chamá-los de “seus filhos da puta, será que é difícil ver que ela está se sentindo suja e precisa tomar um banho? Custa fazer logo esse exame?”. Neste dia, teria sido presa por desacato sem nenhum peso na consciência, feliz da vida.

Por fim, sou estuprada cada vez que uma mulher busca auxílio das autoridades para denunciar a violência sofrida e é tratada com descaso. Todas somos. Amanhã, todas podemos ser a vítima.




*Sobre o SUICÍDIO pós-ESTUPRO: Abra as pernas, feche a boca e tente não morrer: como ser uma jovem mulher em São Paulo

*Excelente artigo desmistificador sobre estupro (para quem entende inglês): 50 Actual Facts About Rape

*Sobre cultura do estupro: O que um estupro não é