Páginas

31 de dez de 2013

livro aleatório - desejo para 2014

“Não existe sociedade multicultural possível sem o recurso a um princípio universalista que permite a comunicação entre indivíduos e grupos social e culturalmente diferentes. Mas também não há sociedade multicultural possível se esse princípio universalista comandar uma concepção da organização social e da vida pessoal que seja julgada normal e superiora aos outros. O apelo à livre construção da vida pessoal é o único princípio universalista que não impõe nenhuma forma de organização social e de práticas culturais. Não se reduz ao lasser-faire ou à pura tolerância, primeiro, porque impõe o respeito da liberdade de cada um e, por isso, a recusa da exclusão; em seguida, porque exige que toda referência a uma identidade cultural se legitime pelo recurso à liberdade e à igualdade de todos os indivíduos e não por um apelo a uma ordem social, a uma tradição ou às exigências da ordem pública.”
Alain Touraine. Poderemos Viver Juntos? Iguais e Diferentes.


Abri este livro, outro dia, na página deste trecho. Acabei relendo quase o livro inteiro novamente. Recomendo muitíssimo. A globalização nos mistura e, ao mesmo tempo, não ajuda em nossa própria compreensão a respeito de nós mesmos. Muitos, quando buscam abrigo em uma identidade ou comunidade com a qual se identificam, acabam rejeitando o outro. A diferença, nestes casos, aparece como uma ameaça.

Dentro da globalização, as inovações das tecnologias de comunicação derrubaram as barreiras que separavam a vida pública e a privada. Cada pessoa, à sua maneira, tenta combinar essa participação em um mundo globalizado com a afirmação de suas heranças culturais e pessoais, buscando a construção de uma vida individual.

O recado deste último livro aleatório, neste último dia do ano, é para que não nos isolemos e não cedamos ao egoísmo puro e simples. Como diz o autor: que lutemos simultaneamente contra a dominação dos mercados e contra os poderes comunitários, reconhecendo ao outro e a si mesmo o direito de ser um sujeito. Que coloquemos a democracia, o direito e a educação a serviço da liberdade de cada sujeito.

Como eu já disse AQUI: repetem tanto por aí que devemos amar uns aos outros... Esquecem que o amor é irmão do ódio e que a linha de separação entre eles é bem tênue, fácil de ser cruzada já que são sentimentos com enorme carga de irracionalidade. Odeio, genuinamente, certos tipos de gentes. Acho-as um câncer para o planeta e para a própria humanidade... mas não tenho o direito de querer tirar-lhes quaisquer direitos. Ninguém precisa amar ninguém, apenas respeitar a liberdade e a existência plena dos outros.

Esse é meu desejo para 2014: que ninguém se ame, mas que todos se respeitem para que possamos, todos, viver juntos. Iguais e diferentes.





O último livro aleatório teve João Ubaldo Ribeiro, foi sobre sexo e pode ser lido AQUI.



NOTA: eu escreveria um texto um pouco mais elaborado ou mesmo uma retrospectiva deste ano que está acabando... mas esse último mês do ano foi tão pintado com cores surrealistas que hoje, por exemplo, meu carro morreu (não liga nem com macumba!). Ou seja, só quero que dezembro descanse em paz e suma de vez. R.I.P. 2013!!! (texto sobre esse mês infernal AQUI)

23 de dez de 2013

mulheres na Idade Média

Durante os primeiros séculos da Idade Média, antes da reintrodução dos princípios do Direito Romano, as mulheres tinham alguns direitos, garantidos pela lei e pelos costumes. Quase todas as profissões, assim como o direito de propriedade e de sucessão, eram acessíveis. Há registros, inclusive, de mulheres da burguesia participando de assembléias, com direito a voto.

Estudos demográficos revelam que havia predominância do contingente feminino adulto (na distribuição da população por sexo). O afastamento dos homens era freqüente, devido às constantes guerras, longas viagens ou recolhimento à vida monástica. As mulheres assumiam os negócios da família em sua ausência. Historicamente, a maior participação da mulher na esfera não doméstica esteve sempre ligada ao afastamento do homem por motivo de guerras.

A mulher participou também das Corporações de Ofícios, atuando como aprendiz e, por morte do marido, como mestre. O acesso às Corporações significou a possibilidade de receber instrução profissional, direito que ela viria a perder nos séculos posteriores. Como nem tudo são flores... A ascensão da mulher ao cargo de mestre tinha restrições: viúva, só poderia ocupá-lo pelo período de um ano em alguns burgos e, em outros, enquanto não mantivesse relações sexuais com outro homem (oi?).

Há registros de mulheres exercendo tarefas masculinas, como a serralheria e a carpintaria, embora se concentrassem nas profissões femininas: tecelagem, costura, bordados. A indústria doméstica, ligada à tecelagem e à produção de alimentos, era dominada pelas mulheres. Diversas vezes, essa indústria doméstica era a principal fonte de renda ou uma complementação necessária do orçamento familiar. Participavam do comércio ao lado dos maridos e, viúvas, freqüentemente permaneciam comerciantes. Não era incomum uma herdeira gerir sua própria herança, ainda que casada. Mulheres economicamente autônomas, comerciantes ou exercendo outras atividades, aparecem nos registros de Corporações e nos registros administrativos – independente de seu estado civil.

O trabalho feminino, entretanto, sempre recebeu remuneração inferior ao do homem. Cabe lembrar que, na Idade Média, diferente do que acontecerá no Renascimento e na Reforma, o trabalho, as artes e o conhecimento científico não eram então considerados como valores em si, nem eram instrumentos de ascensão social. O poder, monopólio da nobreza e do clero, baseava-se na posse da terra e na ascendência espiritual. Desta forma, a participação da mulher no mercado de trabalho não conferia a ela qualquer prestígio social.

Na educação, registros de mulheres freqüentando universidades são (quase) insignificantes. No século XIV, (o número impressionante de) 15 mulheres estudaram medicina e exerceram a profissão em Frankfurt (em Bolonha, algumas mulheres se formaram em Medicina e Direito).

Christine de Pisan, escritora francesa no século XIV, foi a primeira mulher a ser indicada como oficial da corte. Tinha um discurso conscientemente articulado em defesa dos direitos da mulher. Defendia a igualdade entre os sexos. Afirmava a necessidade de se dar às meninas uma educação idêntica à dos meninos: “Se fosse costume mandar as meninas à escola e ensinar-lhes as ciências, como se fazem aos meninos, elas aprenderiam da mesma forma que estes e compreenderiam as sutilezas das artes e ciências, tal como eles”.

Viúva aos 25 anos, Christine sustentou a família: mãe, 2 irmãos e 3 filhos. Manteve-se economicamente independente como escritora. Escreveu A Cidade das Mulheres, no qual afirma serem homens e mulheres iguais por sua própria natureza. Refutava as generalizações que imputam inferioridade ao sexo feminino e condenava a dupla moral (pela qual o mesmo ato é crime quando praticado pela mulher e apenas pequeno defeito quando pelo homem).

Apesar da participação da mulher na vida social e econômica da Idade Média, a idéia que prevaleceu foi aquela transmitida pelo romantismo de cavalaria: uma mulher frágil, à espera de seu cavaleiro (some things never change...). Esta imagem, que por um lado exclui a grande massa de mulheres até de uma representação simbólica, por outro reflete uma visão distorcida do que seria o cotidiano da própria castelã. Existe uma defasagem entre a posição concreta da mulher na vida cotidiana e a representação simbólica de seu papel (incrível como isso se repete, não?).



Faltou escrever sobre a Caça às Bruxas – fica para a próxima (afinal, o texto já ficou grande). Para quem tiver interesse, outros textos sobre o passado e relacionados ao assunto:

18 de dez de 2013

o negócio

Em 2013, foram muitas as séries que entraram na minha vida – algumas delas não terão direito a uma segunda temporada, ao menos não para mim. Anos 80, vampiros, serial killers. Assuntos diversificados no cardápio de seriados que gosto de assistir. Sobre sexo, foram duas as novidades do ano: O Negócio e Masters of Sex. Aqui no Brasil, essas duas séries passaram na HBO e, para mim, foram as grandes surpresas de 2013.

Escrevi sobre Masters of Sex AQUI – já que, inevitavelmente, acabarei fazendo alguma referência à série, recomendo a leitura prévia. Fica a critério do leitor. Aviso a quem gosta de seriados que nem toda surpresa é boa ou positiva. O Negócio foi a decepção do ano. Meu pensamento quando via as chamadas na HBO era “nossa, parece interessante”. Comecei a assistir e dá-lhe surpresa ruim.

Enquanto Masters of Sex consegue tirar o foco de atenção das cenas de sexo e nos transportar para a época, para como era tratado esse tabu... bem, a coisa menos pior de O Negócio são as cenas de sexo. Algumas soam, inclusive, falsas. Tentou-se uma sutileza que não acontece, um realismo que diversas vezes soa inverossímil. Se nem nas cenas de sexo os atores convencem...

O elenco é, em geral, um equívoco – a começar pela protagonista: Rafaela Mandelli não convence no papel de Joana/Karin. Suas companheiras no tal negócio, Maria Clara/Luna e Magali, vividas pelas atrizes Juliana Schalch e Michelle Batista, são possivelmente as únicas atuações convincentes, juntamente com o Oscar (par de Luna, vivido pelo ator Gabriel Godoy). O resto... eu diria que, de vez em quando, aparece algum coadjuvante convincente, quase sempre algum cliente das moças. As atuações, em geral, parecem forçadas.

Masters of Sex surpreende, positivamente, com estereótipos presentes em narrativas com temas batidos. O Negócio, ao contrário, conseguiu a proeza de estereotipar os estereótipos e, em diversas ocasiões, torná-los obsoletos, não críveis, sem personalidade. Clichês não se resumem às personagens, porém. Até mesmo o marketing e a publicidade acabaram sendo clicherizados, estereotipados. O roteiro, em suma, é ruim e não apresenta muitos desenvolvimentos interpessoais. Uma história pessoal com personagens impessoais.

Sobrevivi ao ritmo de narrativa sem agilidade, arrastado. Resisti às atuações pífias de um roteiro ruim. Agüentei a edição mal feita (em alguns momentos, parece ter sido feita com pressa). A fotografia, às vezes, deixa a impressão de não ter sido pensada, pesquisada, feita com capricho. O figurino? Nada de especial, bom ou ruim. Sim, assisti a todos os episódios – esperança é a última que morre, não é isso?

Chega-se ao final sem que haja conquista. O Negócio, definitivamente, não me conquistou. A esperança de que a série melhorasse foi morrendo a cada episódio (alguns, inclusive, não consegui assistir inteiros). O mercado da prostituição de luxo é um tema que poderia ser explorado de variadas formas. A idéia da série era muito boa. O resultado? Não valeria, em minha opinião, uma segunda temporada.







>Leia AQUI uma resenha sobre a série que saiu à época do lançamento/estréia – hoje, após a já finada primeira temporada, devo discordar do autor dessa resenha: não é interessante de assistir nem na meia dúzia inicial de episódios<

16 de dez de 2013

masters of sex

Há quem assista novelas e reality shows... e há quem, como eu, seja aficionada por séries. Está chegando ao fim da primeira temporada de um novo vício adquirido em 2013. Não é sobre sexo, mas é sobre o ser humano e a sociedade – sexo não os definem, mas o modo como lidam com ele diz muito sobre quem são. Essa é Masters of Sex, série estreante em 2013 e na qual já viciei.

Não é simples falar de sexo sem resvalar em clichês, mas a série, versando sobre a era pré-revolução sexual, consegue surpreender mesmo utilizando estereótipos conhecidos em narrativas sobre algum tema batido. Estão presentes, por exemplo, dois perfis femininos claros, centrais. De um lado, a esposa controlada e submissa, do outro, a mulher divorciada, com filhos para criar e que vê o sexo como fonte de prazer. Também estão presentes, entre outros, o pai de família gay enrustido, o doutor garanhão, a prostituta sarcástica, o médico sexualmente reprimido. Nenhum desses estereótipos, entretanto, soa falso ou fora de lugar. Ao contrário, constroem bem a sociedade daquela época.

A confusão na mente do Dr. Haas, ao perceber que a mesma mulher que faz loucuras com ele na cama o chama de amigo na vida social cotidiana... sua reação agressiva, em uma discussão, dando um soco no rosto de Virginia... estas coisas (e tantas outras presentes na série!) mostram o choque do homem daquela época diante da mulher à frente do seu tempo (qualquer semelhança com dias atuais não é mera coincidência!).

Masters of Sex conta a biografia do obstetra William Masters e de sua assistente, Virginia Johnson – vanguardistas no estudo da sexualidade humana nos Estados Unidos. Por meio do relacionamento entre o par, a série explora o furor e a surpresa das descobertas. As cenas de sexo são, ao mesmo tempo, realistas e sutis. A produção de época é um charme à parte. A série consegue tirar atenção dos corpos nus e transportar-nos para a sociedade americana das décadas de 40 e 50. Naquela época, preconceitos, tabus e hipocrisias limitavam da vida privada à própria ciência (qualquer semelhança com o século XXI não é mera coincidência!).

Apesar de abordar um tema considerado tabu (até hoje minha gente, até hoje!) e de não dispensar cenas de relações sexuais, a série consegue colocar o sexo como algo acessório diante da complexidade das personagens e das relações interpessoais. Paradoxalmente (ou não!), as personagens não existem dissociadas de seu sexo, de seu gênero e de seu papel naquela sociedade. A transgressão e/ou a manutenção do status quo estão presentes em cada personagem – com o positivo e o negativo que cada um destes papéis possa ter, sem grandes maniqueísmos ou lições de moral.

Masters of Sex é baseada em um livro que não li, portanto não falarei dele (consulte o Google se quiser informações sobre isso!). Posso falar apenas sobre a adaptação para a TV após assistir aos 11 primeiros episódios (são 12 nessa primeira temporada que está acabando). Atores nos papéis certos, confortáveis com a pele (da personagem!) que estão habitando. Fotografia, cenografia, figurino, edição... tudo está bem cuidado na série, mas não seriam convincentes, por si só, sem atores que imprimissem veracidade às personagens e um roteiro bem feito.

Seja para puro entretenimento, seja para fazer um comparativo antropológico com a sociedade atual... Série recomendadíssima.






>Se não tem HBO em casa, a série pode ser baixada com facilidade AQUI e AQUI, além de assistida online AQUI.

>Para quem gosta de ler, uma dica de livro que fala de sexo é ESTE, do João Ubaldo Ribeiro - coloquei até link para o pdf lá hein... não tem desculpa para não ler este livrinho delicioso sobre a Luxúria (e, consequentemente, sobre o ser humano). 

21 de nov de 2013

viagens e aprendizados

Quando viajo, tento me desconectar do mundo. Conheço pessoas, lugares, descubro coisas (sobre mim mesma, inclusive). Minha conexão é com aquela realidade, com aquele lugar. Uma cidade, mesmo quando visitada pela enésima vez, sempre tem coisas novas a oferecer. Cores, odores, sabores, sons.

Dificilmente acesso redes sociais quando viajo – seja qual for o motivo da viagem. Acho desperdício de tempo. Para alguns, certamente é um atestado de solidão. Para outros, palco para auto promoção e massagens no ego. Há aqueles que apenas empregam mal seu tempo.

Sou a favor de compartilhar. Em viagens, pessoas cruzam nosso caminho para que compartilhemos aqueles momentos irreproduzíveis com elas. O ser humano parece ter desaprendido a compartilhar sons, odores e sabores. Só se interessa pelas imagens. Mostra-se ao mundo e deixa de abrir-se a pequenos mundos.

Cada pessoa que conheço por aí é um pequeno novo mundo, um aprendizado. Não as troco por elogios, admiração ou mesmo inveja das redes sociais. A obsessão que algumas pessoas têm em exibir o grande feito de terem viajado lhes fecha a percepção. O importante não é o outro lado da tela quando existem pessoas cara a cara. Sei que exposição ao vivo é complicada de controlar, mas é ela que propicia mudanças, aprendizado.

Em minha última viagem, aprendi que até uma das maiores empresas do mundo (no seu segmento de atuação) pode ser extremamente desorganizada e empregar gente despreparada. Lógica, planejamento e gerenciamento de tempo para quê, se pode-se criar uma versão curta metragem de um reality como No Limite? Bate papo e entrevista olho no olho para quê, se pode-se ficar de cabeça baixa olhando para uma tela de computador e digitando?

Há muito entendi que seleções são, quase sempre, jogos de cartas marcadas. Idéias feministas e sobre sexualidade livre agradam sim – desde que embaladas para serem palatáveis, causar polêmica, estejam sob controle ou não causem choque e estranheza. Eu queria ganhar dinheiro para tirar férias, conhecer o apresentador que não posso dizer o nome (talvez até dizer-lhe certas verdades em rede nacional) e, de quebra, ser ouvida. O problema é que eu e minhas idéias jamais estaríamos sob controle.

Não sigo regras das quais discordo, não faço alianças por interesse, não entro em matilhas, não interpreto personagens. Quais meus maiores defeitos e qualidades? Aí estão – e por isso quem me conhece de perto geralmente me ama ou me odeia. Sabe o que mais se pode adicionar na lista? Sou incapaz de sentir-me a vontade e ter uma conversa solta, franca, com quem não olha nos olhos. Minha sensação é de que a pessoa não está interessada e nem prestando atenção – na maioria das vezes, não está mesmo. Na moral: como você quer conhecer alguém se você sequer olha para a pessoa enquanto fala com ela?

Claramente, não faço parte das cartas marcadas. Seja como for, sempre pago para ver. Não foi diferente agora: paguei. E valeu. Não fosse pelo breve confinamento, não teria conhecido a Luana, as Maris, os dentistas, a fisioterapeuta – pessoas lindas que conversam olhando no olho. Tornaram tudo mais colorido e suportável – até as horas de estômago vazio em uma sala quente. Lamento pelos que genuinamente se de decepcionaram ao ver como as coisas funcionam por dentro e ficaram tristes ao perceber que não são uma das cartas marcadas do jogo. Bem vindos à realidade!

Liberta da ilusão, utilizei a desculpa de uma seleção para viajar. Reforcei laços de uma amizade que perdura há 26 anos. Aprendi que amor por alguém e estar aberto a alguém independe de os defeitos desse alguém serem os mesmos há 26 anos. Revi minha birra com o Woody Allen por meio de uma aula de interpretação da Cate Blanchett. Reencontrei amigos antigos e, por meio deles, conheci novos. Ganhei amiga que certamente levarei para a vida. Refleti sobre mudanças – internas, externas e geográficas.

Não ser uma das cartas marcadas – e saber-se como tal – tem a vantagem de nos permitir aproveitar até mesmo a comprovação de uma tese. Ou teses, à escolha do cliente. Quais sejam: uma pessoa como eu jamais seria escolhida para ser mico adestrado de circo (é, não sou adestrável) e as pessoas por aí, quando viajam, empregam mal seu tempo (despender esforços para conectar-se ao virtual, a imagens? Really?).


Disconnect and be happy people! A fábrica de ilusões, seja ela qual for, é só isso: uma fábrica de ilusões. Desconectar-se disso e viver a realidade, conhecer pessoas e lugares, embriagar-se de cheiros, sabores, sons, idéias... Vale a pena e recomendo. Mas se você gosta, almeje sem culpa ser um produto descartável e seja feliz à sua maneira.

8 de nov de 2013

as cotas e o circo

“As palavras tem poder, presidenta! Arcar com as consequências da escravidão requer de seu governo – e dos futuros, posturas que nenhum outro teve coragem ou interesse em promover. Um bom início de conversa tem relação com sua segunda afirmação: reconhecer o genocídio da juventude negra como ação promovida pelo estado brasileiro. E combatê-lo de fato.

Arcar com as consequências da escravidão passa por reordenar as forças produtivas e econômicas do país. Passa, por exemplo, por inverter a lógica da posse da terra e garantir a titulação dos territórios indígenas e quilombolas. Passa por efetivar a tão protelada reforma agrária ou, em outras palavras, acabar com a força do agronegócio e investir em uma agricultura familiar e socialmente comprometida.

E poderíamos seguir: E quanto aos bancos e seus lucros exorbitantes? E quanto ao setor empresarial privado e seu poder de mando? E quanto aos meios de comunicação? E quanto às mega construtoras e às corporações internacionais? E quanto à taxação das grandes fortunas? E quanto à qualidade da escola pública brasileira, em todos os níveis, à aplicação da Lei 10639 e o acesso às universidades de ponta? E quanto ao modelo de segurança pública?

Arcar com as consequências da escravidão, presidenta, significa colocar xeque os pilares de sustentação do modelo econômico vigente, tudo que o cerca e o alimenta. Mas você está certa. A sociedade brasileira nos deve isso. Como você pensa em começar quitar essa dívida?”


O trecho acima foi retirado DAQUI e refere-se à assinatura do projeto de lei que reserva 20% das vagas em concursos públicos de órgãos do governo federal para negros (reportagem AQUI).

As reações nas redes sociais foram várias. É, no mínimo, engraçado observar como a maioria dos classe-medianos fica ouriçada. Uma parte defende ferrenhamente as cotas, sem maiores reflexões. Argumentos rasos, que sequer percebem a dimensão do debate. Outra parte defende ferrenhamente a si mesmos – racistas ou não, o que fazem é isso: defendendo uma meritocracia ilusória, pensam estar defendendo a si mesmos. Pouca lucidez, de modo geral.

Diante de perguntas como “quem é verdadeiramente branco neste país?”, respostas como “pergunte a um policial que ele sabe diferenciar direitinho”. Nem sempre perguntas e respostas são feitas de má fé, porém. O que vejo bastante é ignorância, pura e simples, seja qual for o tema do debate. O genocídio contra jovens negros da periferia é uma realidade, o fato de que todos viemos da África também. Sigo a ciência, então diria que até prova em contrário, somos todos afro-descendentes, evolucionariamente falando. Esses PMs (e seus 'simpatizantes') eu não classificaria como 'homo sapiens', sim 'homo irracionalis'.

...Disse a loira cansada de argumentar com estatísticas, dados históricos, referências, etc... Confesso meu cansaço argumentativo nesse assunto, assim como em tantos outros. Em geral, as pessoas só vêem o que querem ver. Desculpem, é que sou reaça, embora eu desconfie de qualquer direita. As direitas nos deram Hitler, Mussolini. Também sou esquerdista, embora eu desconfie de qualquer esquerda. Sabe como é, elas pariram Stalin, Mao. Pilhas de corpos, à direita e à esquerda. Pilhas de fodidos, em todas as direções.

Quando falo que sou contra as cotas, sozinhas, sem que medidas sérias sejam paralelamente tomadas, uns me chamam de reaça, outros de esquerdista. Ignoram a palavra ‘sozinhas’. Investimentos sérios para uma educação universal de qualidade, aparentemente, nenhum dos lados quer discutir. Medidas urgentes e necessárias, em todas as áreas, continuarão sendo urgentes e necessárias por quantas outras décadas? Para os ‘istas’ que se acusam mutuamente e não se olham no espelho, dou os parabéns! Após décadas governado por PSDB e PT, o país finalmente se transformou numa Dinamarca. Às avessas, se me permitem opinar.

Em minha opinião, esse país está condenado! Parte do povo é analfabeto funcional e a outra parte é de covardes intelectuais que têm medo de se insurgir contra a "República da Boa Vontade" ou acreditam estar se beneficiando com ela. 

Dica: não se resolvem séculos de escravidão com cotas, sem que outras medidas, urgentes há décadas, sejam implementadas, como, por exemplo, educação universalizada e de qualidade. Infelizmente, por aqui, só se tem interesse pelas medidas de curto prazo que não resolvem as desigualdades no médio e no longo prazos. Assim como não se resolve o problema da saúde pública com importação de médicos, ignorando outras medidas que já são urgentes e necessárias há décadas. Senhores que acreditam na benevolência e nas boas intenções deste governo: bem vindos ao picadeiro. O circo para 2014 está firme e forte. Oremos.

Ademais, o que digo não é de direita ou de esquerda: é apenas lógico. Cotas, sejam do que for, sozinhas, não resolvem. Atenção na sutileza, geralmente ignorada quando outros privilegiados concordam com o que eu disse. Não sou contra cotas: sou contra cotas sozinhas, como tem sido feito - é só essa minha crítica ao apaziguamento de desigualdades históricas pelo sistema de cotas no Brasil. É urgente e é necessário, há décadas, que se tomem medidas sérias e qualitativas na educação de níveis fundamental e médio, e isso continua sendo sistematicamente ignorado por PT, PSDB...

Finalizo essa pequena exposição dizendo algumas coisas para os branquinhos coitadistas que vi reclamando das cotas e falando em meritocracia. Não dá para comparar a opressão e as dificuldades que homens brancos heterossexuais (ainda que pobres!) sofrem, na sociedade atual, com a opressão e as dificuldades que um homem negro heterossexual sofre (a não ser que você acredite na inexistência de racismo, aí dá para comparar qualquer coisa). São coisas incomparáveis! Isso é o mesmo de eu querer comparar a opressão que eu sofro, advinda do machismo, com a opressão que uma lésbica ou uma mulher negra sofrem... São coisas incomparáveis e, assim como eu preciso aceitar e entender que sou uma privilegiada em nossa sociedade, os homens heteros brancos também, pois são ainda mais privilegiados. É difícil entender isso?


Para terminar, um recado para dona Dilma: eu ficaria muito feliz se fosse implementada uma cota de 20% de parlamentares honestos no Congresso Nacional.


Não acredita que o circo está de pé? Prestaram atenção em outro fato interessante dessa última semana? Os senadores derrubaram projeto obrigando a divulgação de gastos e doações nas campanhas eleitorais (leia AQUI). Enquanto isso, os palhaços vão as ruas pedir o fim da corrupção. Justo. Ou esperneiam porque terão menos vagas no seu american dream à brasileira. Focas adestradas aplaudem medidas ineficazes e silenciam quanto às medidas nocivas. Justíssimo.


> Leitura sempre recomendada: O Ovo da Serpente










7 de nov de 2013

feminismo e relações internacionais

Não há, exatamente, uma teoria feminista das Relações Internacionais; o que há são várias concepções teóricas que chamam a atenção para diferenças sociais baseadas em gênero. Busca-se entender como o universo patriarcal constrói discursos e práticas violentas nas relações entre os Estados e dentro deles.

As perspectivas feministas enxergam a construção histórica das Teorias de Relações Internacionais como uma experiência masculinizada. As fronteiras do Estado, a globalização e a militarização são exemplos de estruturas patriarcais criadas pelo discurso dominante masculino, que é reproduzido e justificado pelas teorias. Dessa forma, expõe-se a exclusão das mulheres do discurso teórico das Relações Internacionais e a construção sexista e androcêntrica das Relações Internacionais.

Parêntese
O que foi dito até aqui serviria, acredito, para qualquer campo teórico-acadêmico. A construção histórica de algum deles inseriu a visão feminina? Ou melhor: inseriu a visão de alguém que não fosse homem, branco, livre? Por isso é importante que os excluídos conheçam sua própria história, para entender o seu presente. Especificamente relacionado a mulheres, escrevi recentemente sobre Grécia e Roma antigas, nossos berços do Ocidente.
Fecha parêntese

O debate sobre a segurança internacional é central nas Relações Internacionais. A perspectiva feminista de segurança questiona a visão tradicional voltada para a relação entre os Estados (e volta a atenção aos indivíduos que são vítimas da violência). O feminismo critica a ausência da ótica feminina dentro dos estudos de segurança internacional, traz a questão do gênero para as discussões e chama atenção para a ideologia patriarcal por trás da violência e dos discursos acadêmicos sobre o tema.

As diversas formas nas quais as mulheres são vítimas de violências internacionais são expostas. As violências podem ser diretas (como no caso de estupros), ou estruturais (quando as mulheres são vítimas da exploração econômica ou são impedidas de tomar decisões sobre si próprias, caso de países que obrigam o controle de natalidade e de países que impedem que elas abortem).

Susan Brownmiller, em Against our Will, chama a atenção para o uso do estupro como instrumento de violência internacional. A Convenção de Genebra reconhece o uso do estupro como arma de guerra. Na Bósnia, ele foi usado sistematicamente como parte da limpeza étnica, por exemplo. O estupro não é somente uma forma de violência de um grupo em relação a outro: é mais uma forma de reafirmação da dominância masculina, que objetifica a mulher e a transforma em pilhagem de guerra.

Além do estupro, também a questão da violência doméstica raramente é expressa em termos de segurança internacional. O avanço da defesa dos direitos humanos em nível internacional, por outro lado, leva à consideração de que o direito da mulher é universal e a violência em seu lar é, desse modo, um tema internacional.

Existem, também, trabalhos de investigação da questão de gênero na construção das estruturas de poder. J.Ann Ticker, em Gender in International Relations, expõe a construção masculino-sexista das concepções realistas, marxistas e liberais das Relações Internacionais, pois elas consideram dadas as estruturas patriarcais sociais do Estado e do sistema internacional. Como alternativa, a autora propõe um processo de inclusão, de baixo para cima, que inclua as experiências femininas dentro do campo da segurança internacional.





> para quem tiver interesse no tema feminismo e relações internacionais, deixo o link para a dissertação de uma colega da minha turma do mestrado: Gênero e Relações Internacionais: uma crítica ao discurso tradicional de segurança


Depois do assunto pesado e antes da nota pesada, um pouco de arte, daquelas que arrepiam!




NOTA – para quem se interessa, autoras feministas pós-Guerra fria:

Cynthia Enloe – um dos grandes nomes do campo feminista das Relações Internacionais. Do seu trabalho, depreende-se que a base para a high politics é dada pelas mulheres como um todo, sejam elas esposas, namoradas, prostitutas, trabalhadoras ou consumidoras.

Sua obra clássica é Banana, bases and beaches. Destaca a experiência das mulheres como centrais ao entendimento das relações internacionais. Mostra uma visão sexista de sete arenas nas quais se realiza a política internacional: turismo, nacionalismo, bases militares, diplomacia, força de trabalho feminina na agricultura, têxteis e serviços domésticos. A autora argumenta que a estabilidade do sistema econômico internacional depende das relações políticas e militares entre os Estados que, por sua vez, dependem de comunidades políticas e militares estáveis que são de responsabilidade de esposas, namoradas, prostitutas e anfitriãs. No turismo, o uso da imagem das mulheres facilita a venda de viagens e o turismo sexual aparece como mais uma forma de dominação masculina internacional. Nas bases militares, as esposas dão suporte aos maridos em longas missões no exterior e, como operárias e consumidoras, sustentam o comércio internacional.

Na obra The morning after: sexual politics and the end of the Cold War, a autora chama a atenção para o papel das mulheres russas no final da Guerra Fria, em que as mães, cansadas dos sacrifícios de seus filhos na Guerra ex-URSS-Afeganistão, passaram a deslegitimar o poder militar soviético. Em relação à Guerra do Golfo, ela quebra com a tradicional visão de aliados x Iraque, para contar a experiência de empregadas domésticas filipinas que, vítimas da pobreza em seu país, foram obrigadas a procurar trabalho no Kuwait e lá foram vítimas de abusos sexuais nas casas de seus patrões. Com a guerra, foram vítimas de estupros cometidos por soldados iraquianos. Apesar de vítima, o Kuwait é criticado por ser um país agressor das mulheres, excluídas da vida política e constantemente vítimas de agressões masculinas.

Jane S. Jaquette – uma leitura interessante de ser feita e, guardadas as devidas proporções, relacionada à situação do Brasil atual, com várias mulheres entrando cada vez mais na política.

Na obra Feminism and the challenges of the post-Cold War, a autora mostra que, apesar da democratização pós-Guerra Fria que em muitos lugares produziu um aumento das mulheres na vida política (especialmente onde foram implementadas cotas), as políticas neoliberais continuam a predominar e as mulheres estão longe de sua emancipação. A preocupação é que o aumento da participação feminina na política ainda não produziu resultados transformadores. Isso seria parcialmente explicado pela agenda político-econômica construída ainda durante a Guerra Fria, na qual as mulheres se tornaram adesistas ou radicalistas (procurando reformas mínimas dentro da estrutura existente ou opondo-se a tudo que saía dos Estados). Para ela, é preciso produzir rapidamente avanços na Teoria Feminista que lidem com as crescentes desigualdades.

5 de nov de 2013

reis do quê mesmo?

Minha irmã gêmea, sobrevivente dos meus 20 e loucos anos, queria escrever uma carta para o "rei do camarote"... mesmo sabendo que ele é muito importante vip e jamais leria qualquer coisa escrita pela plebe. É que a capital do país está cheia de “reis da balada”, desses que acham que toda mulher sonha com uma Ferrari. Há as que sonham... e há as que, como eu, preferem os Porsches (alemãzinha e fã de James Dean, fazer o quê?). Estou falando do carro, não do motorista ok. Carro por carro, quero MEU Porsche e não uma Ferrari. É, sou uma mulher invejosa, mal amada, egoísta: quero as MINHAS coisas, não as alheias. Já sonhos com o motorista...  dependem de quem ele é e independem do que ele dirige (consigo até dirigir meu próprio carro até a casa do gato, vejam só!).

Antes de qualquer outra coisa, devo dar parabéns. À Veja São Paulo, por me dar aquela estranha sensação de vergonha alheia. Juro! Quando me deparo com essas coisas, em veículos de comunicação, tenho vergonha de ter feito graduação em Jornalismo (as bizarrices da Publicidade ficam para outro dia). Parabéns, sobretudo, ao autor dos 10 Mandamentos! Moço, você conseguiu uma façanha dupla! Saudades do Thor Batista! Saudades da Bíblia! Ambos menos risíveis... Sabe como é, chutar cachorro morto é covardia.


Sabe uma coisa? Mas aí eu acho que é pesado falar. Eu já transei com mulher na balada. No banheiro. Fora dele também. E com homem. Sabe como é, já vivi meus 20 e loucos anos. Solteira e monogâmica (na maior parte do tempo, a última opção). Universidade Federal, época de experimentação. De tudo. Sexo, drogas, rock n’ roll. Rodinhas de violão na Praça dos 3 Poderes. Rodinhas de violão no Pontão. Rodinhas de violão everywhere. The Doors, sinuca, fumaça e um CA subterrâneo qualquer. Os pés sujos da vizinhança...

As pessoas faziam sexo. Sem dramas. Foda-se. De vez em quando, aparecia um babaca. Muitos, como em qualquer lugar. Deal with it and no mimimi. Aprende-se cedo que nós, quebrados classe-medianos não herdeiros, temos que ter personalidade. Ou não ter nenhuma e seguir a manada, a depender do caso. Seja como for, me amarão ou me odiarão por quem eu sou – sorry, moça desprovida de bens. Não sei nem como pagarei o cartão de crédito, ou seja...

Nada tenho, senão meu cérebro e meu corpo. Acho que é pesado falar, mas nem toda mulher bonita na balada está à venda. Algumas (e conheço várias!), gostam de se jogar na pixxxta, conhecer gente de verdade, sabe? No mínimo, ganhamos novos amigos. Muita gente prefere uma Hering básica baratinha e gosta de dirigir o próprio carro, inclusive. Champagne é para os fracos, gostamos de Bourbon! Entretanto, te entendo. Eu não sou seu alvo, o tipo de companhia que você busca.

Deve ser difícil ser desinteressante. Você já pensou em fazer análise, terapia? Quais são as causas dessa falta de auto-estima? Suas ações e suas falas entregam o que seu sorriso de botox tenta esconder, meu caro. Não sei se é o caso mencionar, mas acho que você poderia usar um pedacinho do dinheiro que gasta em baladas e fazer análise, terapia... e, se achar isso uma bobagem, ou coisa de invejoso, contrate um personal stylist pelo amor de Cher! É um pecado ter tanto dinheiro, comprar marcas fodas, e, ainda assim, vestir-se tão mal! Por gentileza, mude de esteticista/dermato/cirurgião/whatever: para um milionário de 39 anos, o senhor está bem acabadinho viu?!

Especulações... mas se você pode especular que sou invejosa, posso especular que talvez, se você não tivesse levado aquele fora na quarta série, as coisas tivessem seguido um rumo diferente. Talvez, hoje, você estivesse satisfeito dirigindo algo mais modesto... um Audi? Um TT, pelo que vejo em minha cidade, dispensaria os seguranças, não os interesseiros. Se tens muitos convidados, amigos e mulheres... Afinal, o que há de surpreendente em transar na balada? Não viveste seus 20 e loucos anos?

Talvez você ache surpreendente que alguém queira fazer sexo com você. Tenho cá minhas dúvidas, mas acho que alguém que está acostumado a pagar para ter companhia não deve saber muito do que a palavra tesão é capaz. Ou do que um bom papo é capaz, no caso de amizades que não envolvam sexo. E sabe uma coisa? É meio pesado dizer... eu, assim como outras pessoas, não temos inveja de você. O que temos chama-se pena.

Nada de Veuve Clicquot para impressionar quem não gosta da gente. Somos chatos. Não precisamos impressionar ninguém. E gostaríamos de saber quanto você paga, por exemplo, à sua empregada? Curiosidade, apenas. De alguém que sim, gostaria de ter 50 mil para gastar como quisesse agora – mas que ao menos o faria de forma menos ridícula. Moço, você é rico, pelo amorrrr contrate um assessor pessoal... Quer ser um looser poser? Posa pelo menos de milionário com consciência social... está na moda, sabia? Umas aulinhas de português também pegam bem nesse momento em que se discute a educação no país.


Mim não faz nada. Porém, se mim fizesse alguma coisa, mim te daria um conselho. De grátis (eu sei, você não está acostumado a receber nada gratuito... tente entender como é). Tira férias, vai pra Mikonos e Santorini, Bali, Ibiza... Colega, tens dinheiro até para escalar o Everest! Reflita sobre ser patético e faça algo a respeito, for God fucking sake! Nem todo mundo vai lamber seu saco por causa da sua conta bancária, viu? E os que fizerem isso sem que haja dinheiro envolvido são aqueles com os quais poderá contar > fica a dica.

Ou ignore tudo que eu disse, afinal sou uma pobre invejosa.





NOTA: o que penso sobre as senhoritas que dão ibope para estes “reis das baladas” está implícito em quem sou. E moças: querem ser sustentadas? Ao menos arranjem ricos com cérebro e amor próprio. OH WAIT...







LEITURAS RECOMENDADAS:

Show do ridículo? NESSE TEXTO o autor conseguiu expressar bem o que penso dos pobres Alexandres, reis de camarotes.


Leia ALEXANDER, O GRANDE - E viva o neobarroco brasileiro! É pela ostentação que nos tornamos uma verdadeira catedral de nós mesmos, a ser consagrada por fiéis admiradores.

Caso se interesse por uma leitura mais social do tema – não está claro que gente apanha nas ruas para sustentarmos mais reis do camarote? – aconselho a leitura DESSE TEXTO





UPDATE: 
O babaca do camarote já está dizendo que era tudo brincadeira e que é tudo falso (leia sobre isso AQUIAQUI e AQUI). O que foi? Ficou com vergonha alheia de si mesmo? Fake ou não, deixo o texto exatamente como foi publicado. O motivo é simples: não me importa se esse reizinho em questão é fake ou não, pois já tive o desprazer de conhecer vários que são idênticos (releia o 1º parágrafo do texto). É, eles existem. E esse breve texto, para quem não entendeu, é sobre eles.

Nosso reizinho, para completar, é agressor de mulheres (leia AQUI). Não me surpreende, afinal esse tipo de cidadão trata as pessoas como coisas e costuma não ter nenhum respeito por mulheres, sejam elas daquelas que eles classificam como "interesseiras" ou não. E me dizem que exagero quando afirmo que é para fugir e ficar longe desse tipo de homem...

31 de out de 2013

adeus ano velho

Outubro é o mês em que, finalmente, percebe-se que outro ano acabará sem trazer grandes novidades. Trouxe alguma? Para o país, certamente não, se me permitem opinar. O picadeiro segue firme, forte, montado. A única mudança, se é que teremos alguma, é um novo embate de leões na jaula. O domador conseguirá segurá-los? Duvido. Canários talvez ajudem caso ganhem um campeonato. Improvável, porém.

Vejo as pessoas falando de 2014. O ano da Copa do Mundo no Brasil. O ano no qual o Circo será maior do que jamais foi: eleições, manifestações, embates, interpretações, manipulações. O ano em que, dizem, o Brasil mudará. Onde pega a senha para ganhar nariz de palhaço, pelo amor dos deuses?


Nós somos engrenagens substituíveis do sistema. Sejamos realistas. A grande maioria de nós é dispensável e substituível. Somos gado. Vinte e quadro são as horas de um dia. Recomendam dormir oito. Trabalho? Quarenta horas semanais, oito diárias. Já se foram dois terços do dia. Restam magníficas 8 horas para todo o resto. Oito fucking horas! Para ficar no trânsito, ir ao mercado, comer, estudar, praticar esportes, assistir TV, trepar, ouvir música, tomar banho, ir ao teatro e ao cinema, encontrar os amigos, etc. E há quem se surpreenda por estarmos estressados, sedentários, cada vez mais burros, infelizes.

Trabalhamos demais e trepamos de menos, esse é o problema da humanidade. Sempre fazendo planos para ganhar mais dinheiro e comprar mais coisas. Eu, pessoalmente, acho isso um equívoco. Nosso, não de quem montou o sistema e, de fato, se beneficia com ele. Lamento informá-lo, classe-mediano que sonha em passar em um concurso público: você não é o topo da cadeia alimentar. É, no máximo, uma peça que pode ser substituída. O equívoco é seu, ao acreditar que está se beneficiando do sistema.

No meu mundo imaginário, o criador do sistema deseja que tenhamos cada vez menos tempo. Quer que sonhemos com o salário de 20 mil, aquele que nos permitirá viajar para o exterior nas férias, ter o último iPhone, trocar o carro. O seu conceito de felicidade é ganhar muito dinheiro e não ter tempo nem para trepar com seu cônjuge ou ficar com seus filhos? É se matar de estudar para aquele concurso concorrido, depois passar o resto da vida em um trabalho que te subestima ou do qual você não gosta?

Boa sorte. Seja feliz em 2014, torça pela nossa lastimável seleção, acredite que sua vida mudará com as oportunidades que virão com a Copa, vote em algum candidato igual aos outros. O sistema agradece. Panis et Circenses e falta de tempo – logo, falta de reflexão e questionamento – trarão grandes mudanças. A indústria farmacêutica continuará lucrando com males causados pela vida moderna, estresse, sedentarismo, má alimentação... enquanto a escassez de tempo é domesticada pela necessidade de gerar riqueza para que o topo da pirâmide possa continuar no topo.

Ilusão é assim mesmo. Muitos se imaginam beneficiários enquanto poucos recebem os reais benefícios. Capitalismo sempre foi assim. Escravismo e Feudalismo também. Todos os sistemas, em realidade, funcionam dessa forma. Eles não mudam: quem deve mudar somos nós.

Tempo, para mim, não é dinheiro: ele vale bem mais do que pagam por ele. Neste novo ciclo, tempo é o que quero. Para ler, escrever, estudar, dançar, lutar, dormir, amar, viver. Trabalhar sim, com coisas nas quais acredito e que me façam feliz – sem essa de colocar o dinheiro antes da realização pessoal.

Como hoje se comemora o Ano Novo e meu conceito de felicidade é um pouco diferente, tenho grandes projetos para 2014: um jardim com girassóis e um cão. Eis meus planos diabólicos pro ano da Copa e do Circo (desculpa, eleições).







JABÁ: Já conhece a Sociedade Lacustre? Acesse, assista aos vídeos. Conheça o Plano Piloto como ele é, em tempo real, sem edição para parecer bonitinho e esconder os defeitos. A verdade nua e crua. Se for morador do Plano Piloto, antes de ficar ofendidinho, lembre-se: é o Plano Piloto sob as minhas lentes, apenas (e eu não coloquei carapuça em ninguém...)

29 de out de 2013

Roma das antigas exclusões

Acredito que, para entender o presente, é necessário entender o passado. Saber de onde viemos é importante para interferir em para onde vamos. Infelizmente, as pessoas em geral não se interessam por história, muito menos em saber sobre a história das exclusões. Eventualmente, algum ser humano se interessa em procurar informações sobre a parte da história que não foi contada pelos não-excluídos. Raramente, alguém relaciona esse lado B com as exclusões contemporâneas.

Talvez esteja no primeiro parágrafo a resposta àquela pergunta clássica: “como alguém pode falar mal do Feminismo estudando a história da humanidade?”. Às vezes, tenho a impressão de que pensar e refletir são verbos que causam profundo mal estar. Nos outros, não em mim. Felizmente, existem mais pessoas no mundo às quais estes verbos não causam transtornos estomacais. Para elas – e para mim – de vez em quando escreverei textos sobre a história das exclusões (como sou mulher, o foco acabará caindo na exclusão feminina).

A Grécia Antiga não era somente o berço da democracia que tanto defendemos hoje – era, também, o berço de exclusões que ainda permanecem, como dito NESSE TEXTO. Da mesma forma, a Roma Antiga não foi somente o berço de nosso direito moderno. O Direito Romano, essa maravilha que inspira nossos códigos legais até hoje, não era tão maravilhoso assim.

O código legal da civilização romana, entre outras coisas, legitimava a instituição jurídica do paterfamilias – a ele era atribuído todo o poder sobre mulher, filhos, servos, escravos. Qualquer semelhança com a discriminação da mulher em leis contemporâneas mundo afora não é mera coincidência. Diferentes culturas, através do tempo, utilizaram discursos institucionalizados para assegurar a sujeição da mulher. Antigamente, assim como hoje, houve resistência. No ano de 195 A.C., mulheres dirigiram-se ao Senado Romano. Motivo do protesto? Sua exclusão do uso dos transportes públicos e a obrigatoriedade de se locomoverem a pé.

Era um privilégio masculino, do homem livre, utilizar o transporte público. Haveria como relacionar essa antiguidade ao presente? A existência de vagões exclusivos para mulheres, para evitar que sejam assediadas/abusadas, não indicaria, ainda, privilégio masculino no uso dos transportes públicos? Ao contrário do que possa parecer, não é um privilégio ter vagão exclusivo; isso indica exclusão, opressão; privilegiado é aquele que pode utilizar qualquer vagão a qualquer hora, sem medo. Digressões a parte, vejamos como se manifestou o senador Marco Catão, diante do protesto das mulheres romanas:

"Lembrem-se do grande trabalho que temos tido para manter nossas mulheres tranqüilas e para refrear-lhes a licenciosidade, o que foi possível enquanto as leis nos ajudaram. Imaginem o que sucederá, daqui por diante, se tais leis forem revogadas e se as mulheres se puserem, legalmente considerando, em pé de igualdade com os homens! Os senhores sabem como são as mulheres: façam-nas suas iguais, e imediatamente elas quererão subir às suas costas para governá-los”.

Qualquer semelhança com legisladores em atividade no Brasil, em pleno ano de 2013 D.C., seria mera coincidência? Seja como for, estas palavras do senador expressam com clareza a relação de poder entre os sexos. Catão não fala de complementaridade. Ele fala de domínio, submissão, coerção e resistência. O Direito já aparece, em Roma Antiga, como instrumento de perpetuação da assimetria, legitimando a inferioridade da posição social da mulher romana.

Cronistas romanos registraram com surpresa a posição da mulher na Gália e na Germânia. Eram sociedades tribais. Seu regime comunitário designava às mulheres um espaço de atuação semelhante ao homem. Juntos faziam a guerra, participavam dos Conselhos Tribais, ocupavam-se da agricultura e do gado, construíam suas casas. As mulheres funcionavam, também, como juízas (inclusive de homens!). Registros de outras sociedades desmistificam a idéia de que a sujeição da mulher é um destino irrevogável, universal.

Um exemplo menos velho? Ao chegar à América, cronistas europeus do século XVI se surpreenderam com a relevância da posição da mulher entre algumas tribos, sociedades de caçadores e coletores, como os Iroqueses e Hurons, nas quais não havia uma divisão estrita entre economia doméstica e economia social. Inexistia o controle de um sexo sobre o outro na realização de tarefas ou nas tomadas de decisões. Nessas sociedades, as mulheres participavam ativamente de discussões nas quais estavam em jogo os interesses da comunidade.

Os princípios da Legislação Romana foram suspensos nos primeiros séculos da Idade Média e, até serem reintroduzidos (o que acontece do século XIII em diante), as mulheres possuíram alguns direitos, garantidos pelas leis e pelos costumes. Quase todas as profissões e os direitos de propriedade e de sucessão eram-lhe acessíveis, por exemplo. Porém, falar sobre a Idade das Trevas (que em alguns períodos não é tão ‘trevas’ assim) ficará para outro dia.




Para quem gosta de história, textos bacanas sobre mulheres de antigamente:

28 de out de 2013

Grécia das antigas exclusões

“O machismo começou quando decidiram que deus seria homem”, costuma repetir um amigo que, assim como eu, vai para o inferno.

Pois digo que, ao menos no Ocidente, quem inventou o machismo oficial e institucionalizado foi a democracia. Essa democracia que todos aplaudem quando citam a Grécia Antiga. A maioria absoluta da população era composta de escravos lá no berço da democracia. Antes de Cristo, a mulher já ocupava funções compartilhadas com escravos. Os trabalhos manuais, desvalorizados pelos homens livres, eram executados por mulheres e escravos.

A função primordial da mulher, em Atenas, era a reprodução da espécie. Além de gerar, amamentar e criar os filhos, a mulher ateniense produzia o que era diretamente ligado à subsistência do homem. Alimentação, fiação, tecelagem, trabalho agrícola. Aquela ágora, onde se desenvolviam atividades consideradas nobres – artes, política, filosofia – era reservada ao homem. A divisão do público e do privado já recebia valorações diversas na Grécia Antiga!

Estudamos história do ocidente para entender o que somos hoje, mas ignoramos aquela parte da história que diz respeito às permanências e continuidades das discriminações e das exclusões. Em Atenas, ser livre significava ser homem, ateniense (estrangeiros não) e, obviamente, livre. Nas raízes da democracia ocidental já havia xenofobia.

Isso quer dizer que sou contra estudar história grega e ler filósofos gregos? De forma alguma. Ao contrário, acho que devemos ler tudo. Os pensadores e os escritores de uma época são uma forma de conhecê-la. Mesmo em obras de ficção ou artísticas, nos mostram como eram a sociedade e o pensamento daquela época. Tucídides, ao narrar a Guerra do Peloponeso, nos mostra muito de como era o pensamento na área de segurança, por exemplo. Reconhece-se, nesse caso, a influência de Tucídides no Realismo (uma corrente teórica de Relações Internacionais que, suspeito, é seguida por muitos chefes de Estado por aí atualmente).

Sou a favor de prestar atenção nos detalhes, nas entrelinhas. Fazer uma leitura crítica de qualquer coisa. Contextualizar àquela época. Platão, ao afirmar “se a natureza não tivesse criado as mulheres e os escravos, teria dado ao tear a propriedade de fiar sozinho”, nos diz muito de qual era a posição da mulher naquela sociedade. Xenofonte, no século IV A.C., já utilizava argumentos naturalistas que ainda hoje são usados. Para ele, “os deuses criaram a mulher para as funções domésticas, o homem para todas as outras”. Lembrando: o homem que não era escravo e nem estrangeiro.

A exceção ao horizonte limitado da mulher grega eram as hetairas, cortesãs que cultivavam as artes (o objetivo era tornarem-se agradáveis companheiras para os homens em seus momentos de lazer). Embora falemos tanto do pensamento e do conhecimento que os gregos cultivavam, não custa lembrar: a mulher grega não tinha acesso à educação intelectual. O único registro histórico de um centro para a formação intelectual da mulher é uma escola fundada por Safo, poetisa nascida em Lesbos no ano de 625 A.C..

Só voltei a ler sobre história, filosofia e mitologia gregas após uma viagem à Grécia. Antes da atual crise, em 2005. Meu interesse ao ir lá não era Mikonos e Santorini. Eu queria estudar história, ir a todos os sítios arqueológicos. Para começar, aquela grandeza toda que os livros de história antiga me ensinaram era mentira. A mitologia me disse que Zeus era o fodão e os únicos deuses presentes em todos os sítios arqueológicos são Apolo e Atena? A acrópole de Micenas é do tamanho de uma superquadra da Asa Sul, for Christ sake! (se não for menor!). Esse país era aquela civilização iluminada? Essa última é a pergunta que me fez buscar releituras e leituras novas.

Prefiro viajar a comprar coisas. Observar o contraste do antigo com o novo. Observar como as pessoas relacionam-se no presente, como se comportam. Conhecer pessoas criadas em culturas diferentes. Conhecer a gastronomia local. No caso da Grécia, até a paisagem me gerava questionamentos. Nem sempre é assim. Às vezes, a paisagem gera apenas apreciação, embasbacamento. Gosto de ir a shows de danças típicas em seus países de origem, observar o papel reservado a cada um (homem e mulher) nessas danças. Sabiam que o ouzo, uma bebida grega, tem versão feminina e masculina? A mais fraca eles dizem que “é de mulher”. Acho que sou homem, pois preferi a mais forte. Sabiam que o interior da Grécia foi o único lugar, exceto a Itália, no qual me foi muito útil saber conversar em italiano? 

História me atrai. Pensar o presente por meio dela também. Sou aquela esquizofrênica que adorou o filme 300, mas toda vez que re-assiste tem alguma observação nova de erro histórico (e sobre os corpitchos “This is Sparta!”). Sinceramente? Acho um erro que se dê mais importância ao ensino de física, química, matemática... do que ao ensino de história. É um erro que o ensino não estimule a fazer conexões entre história, literatura, geografia, religião, artes, direito. O sistema está montado para que as pessoas não pensem sobre a condição do ser humano e, conseqüentemente, a própria. 

Melhor pensar que a Grécia é o berço da democracia, da liberdade. Pega mal ser o berço de exclusões. Pega mal que tais exclusões permaneçam no ano de 2013 D.C..

19 de out de 2013

carta aos beagles

Carta às pessoas que invadem laboratórios para libertar bichinhos fofinhos e aparecer bem na mídia – e também aos veganos que tentam me converter à sua religião:

Prezados,

Desculpem-me, mas a hipocrisia não me convém.

A marca de maquiagem que melhor se adapta à minha pele é a M.A.C. (uso sem dó, e é testada em animais... desculpem, sou um ser humano egoísta que pensa primeiro na própria pele, depois na dos bichinhos). Mesma coisa com os bloqueadores solares e cremes: sei que Neutrogena e La Roche testam em animas e continuarei usando estas marcas.

Confesso: sou um ser humano fútil. Gosto de maquiagem, ainda que pouca, só um batom mesmo para proteger os lábios da secura desértica da capital. Não posso dispensar proteção contra o sol ou contra o clima de deserto, entretanto. É a minha pele, muito branca, propensa a melanomas, manchas, envelhecimento precoce, desidratação, etc. Desculpa. Minha querida bepantol, salvadora da seca e das tatuagens, deve ser testada em animais. Talvez a tinta usada em alguma das minhas 11 tattoos possa ter sido testada em animais também. Uso sapatos, botas, cintos, bolsas e jaquetas de couro. Poderia dispensar estes itens, mas ainda não encontrei couro sintético tão bom quanto o verdadeiro.

Não gosto muito de carnes em geral, sejam elas brancas, vermelhas, gordas ou magras. Porém, como as poucas que gosto sempre que tenho vontade. Consumo derivados de leite, ovos, amo queijos. Meu organismo, para funcionar bem, estar saudável e forte, precisa de proteína de origem animal. Meus músculos, para sustentarem bem meu esqueleto e agüentarem bem minhas danças e lutas, precisam de proteína. 

Tenho certeza que já consumi medicamentos testados em animais. Provavelmente, até o fim da vida consumirei mais alguns. Ser humano egoísta pensa primeiro na própria vida. Ou na vida de pessoas queridas. Sou tão egoísta que, se precisasse escolher entre minha saúde e a saúde do meu gato (e o amo!), escolheria a minha. Acho que só não escolheria a minha em detrimento da de um filho... mas ainda não tenho filhos e, por enquanto, nunca pretendi tê-los.

Eu gostaria que não houvesse maus tratos a animais ou testes de laboratório com animais. Assim como também gostaria que a construção de uma represa, para a geração da eletricidade que consumo, não influísse no clima e não causasse prejuízo à biodiversidade. Não gosto de saber que a construção de uma estrada, por exemplo, impacta os ecossistemas por onde passa. Ou que a construção da capital, ao interiorizar o centro-oeste, ajudou a acabar com o cerrado. Devo mudar de cidade? Deixar de usar eletricidade? Nunca mais andar de carro ou ônibus?

Ademais, sou incapaz de citar um único produto de consumo humano que, em algum momento da cadeia de produção, não ocasione prejuízo, ainda que indireto, a alguma outra espécie animal. Fim.

Atenciosamente,
Um ser humano egoísta. Daquele que defende, sim, os direitos dos animais. Mas para o qual os direitos humanos vêm primeiro. Ser humano sincero, porém.

P.S.: resgatar beagles fofinhos também é jogar dinheiro público no lixo, viu? Leia AQUI. E se ficar chateado(a) com minha carta, por gentileza leia minha divagação passada AQUI.





Para quem quiser se informar:

18 de out de 2013

coisas desagradáveis

Aqui nós temos algumas pessoas, sentadas juntas, em uma mesa de bar. Encontraram-se para tomar uma cerveja e bater papo. Talvez almoçar ou jantar juntas.


O problema é que elas estão batendo papo, de cabeça baixa, via celular. Whatsapp, redes sociais... não importa. Elas se encontram com outras pessoas para ignorá-las.


Pessoalmente, acho isso bastante desagradável. Por que eu sairia de casa para encontrar alguém, se ficarei o tempo todo conectada? Fico logo confortável em casa, descalça. Ainda economizo dinheiro, gasolina e tempo de deslocamento.

Não me levem a mal. Adoro o desenvolvimento tecnológico. Não tenho nenhuma saudade da época na qual enviávamos cartas ou consultávamos a Barsa. Não tenho nostalgia alguma quanto aos telefones serem somente fixos ou precisar ficar na fila de orelhão para pedir um taxi após uma festa. Muito menos tenho saudade de esperar revelar um filme para saber como ficaria a foto. Acho sensacional poder acompanhar notícias em tempo real, manter contato rápido e fácil com os amigos que estão em outras cidades, países, continentes.

A geração tablet não sabe o que é ter internet discada e apenas um computador (enorme!) em casa: já nasceu com wifi! A internet e a mobilidade revolucionaram a comunicação. Minha opinião é que a mudança ainda não ocorreu e estamos vivenciando um período de transição. Não sei como será a comunicação, em seus mais diversos níveis, no futuro. Temos indícios. Eu diria que uma coisa é certa: a mobilidade é um caminho sem volta e tende a aprofundar-se.

Não sei que reflexos sociais essas mudanças podem ter nos relacionamentos entre as pessoas. Temos indícios. Um deles é que muitas pessoas estão fazendo uso excessivo da internet, das tecnologias de comunicação em geral. Será que esse uso excessivo não estaria as afastando, ao invés de aproximá-las? Questiono isso toda vez que vejo alguma reportagem como ESSA. Basicamente, a reportagem diz que Brasilia não é acolhedora, é difícil conhecer pessoas, mimimi, blábláblá. O que eu responderia a essa reportagem? Responderam por mim, AQUI.

Ainda não tive problemas para conhecer pessoas, seja aqui na capital ou em outras cidades. Basta estar disposta, dar bom dia, puxar conversa. Também há dias de indisposição, nos quais fico em casa ou, se saio, coloco fone de ouvido e óculos escuro para ninguém puxar papo. A escolha, bem ou mal, é minha. De repente, esse pessoal que reclama da dificuldade de conhecer gente está escolhendo errado.

Exemplos de escolhas erradas para solteiros não faltam. Entre elas, eu colocaria o uso excessivo da internet, do whatsapp, enfim, uso excessivo da tecnologia. Por quê? Colega, se você vai para um bar e fica de cabeça baixa, mexendo no celular, em vez de conversar com quem está na sua própria mesa... Quer conhecer gente como, se você sequer presta atenção ao entorno ou mostra-se aberto a aproximações? Colega, se você fica mais em casa, jogando videogame ou conectado, do que sai... Boa sorte aí conhecendo gente online! Depois vocês reclamam que não conhecem pessoas? Que os outros são muito fechados? Aham, senta lá!

Esse breve texto era apenas para desabafar o quanto acho desagradáveis essas pessoas que ficam a maior parte do tempo de cabeça baixa, ao celular... Mas já que descambou para escolhas erradas dos solteiros, façamos uma pequena observação. Colega, estar solteiro não é motivo para ser infeliz. De repente, você está gastando mais tempo se preocupando por estar solteiro, do que gasta curtindo a vida. De repente, você está tão preocupado em achar um par, que deixa de conhecer um monte de pessoas bacanas, de ganhar novos amigos.


Variações sobre o tema:

16 de out de 2013

alecrins, hortelãs e bagulhos

Título alternativo: manifesto pela liberdade de crença expressa no artigo 5º da Constituição ou, simplesmente, manifesto por todas as liberdades expressas no supracitado artigo e seu sistemático desrespeito por parte de ‘bons cristãos’ e ‘enviados de deus’.



Eu rezaria para um deus chocolate. A igreja seria igual à casa da bruxa de João e Maria. As criancinhas seriam atraídas para o culto desde cedo. Iriam por vontade própria. Ficariam impressionadas com as imagens do altar, feitas de chocolate belga e enfeitadas com confeitos, nozes, castanhas, amêndoas, etc. O Natal seria a época mais feliz do ano! Enfeites comestíveis nas árvores decoradas. Presépios com menino Jesus de chocolate! As vaquinhas, os presentes, a Virgem... tudo de chocolate!

Quando crescessem, as crianças apreciariam isso tudo acompanhado de vinho e água. Alguns pães e frutas. Seguindo o ensinamento do seu menino Jesus de chocolate. O primeiro milagre seria transformar água em vinho e multiplicar o pão. O deus chocolate enviou o filho certo para se sacrificar por nós. Ele nos quer felizes. Levemente sensuais, como diria uma amiga. Ou completamente embriagados, a ponto de não lembrar fatos, acreditar no que dissessem que vimos ou fizemos.

Não sei se as testemunhas da festa em honra a Baco estavam embriagadas, se haviam usado algum alucinógeno, ou se tomaram um boa noite cinderela. Se as testemunhas estavam sóbrias, não sei quais as intenções de Jesus. Provável que estivessem sóbrias: a abundância de vinho que provocaria a embriaguez foi posterior ao milagre. Não sei se a pessoa que escreveu a história descreveu, relatou ou interpretou os fatos. Não sei quantas alterações o texto sofreu ao longo dos séculos, sendo traduzido para muitas línguas diferentes. 

Eu gostaria do deus chocolate. Comeria pedaços dos bancos de sua igreja quando criança. Queria ser amiga do seu filho, chamá-lo para bater papo em minha casa. Ceia de Natal, bastaria abrir a torneira, comprar um croissant e alguns morangos – o presépio complementaria. Eu acho bacana uma planta ser diretamente associada à imagem de deus. Cacau é patrimônio da humanidade! Portanto, não entenda errado quando eu disser que tenho dúvidas sobre as intenções divinas e questiono as palavras de deus.

No texto que me ensinaram, deus não era de chocolate. Não pude acreditar, pois no meu texto ele seria. No texto que eu li e estudei, deus não era como me ensinaram e continuava não sendo de chocolate. O milagre dionisíaco era para fazer as pessoas felizes, não para condená-las. Definitivamente, prefiro minha versão dele, feito de chocolate. Descendente (seria ascendente?) de planta. Originário da América do Sul. Aí sim eu acreditaria em um deus brasileiro!

Infelizmente, na atual conjuntura, se eu inaugurasse o culto ao meu deus, provavelmente seria queimada em uma fogueira de São João fora de época. Eu seria a bruxa de João e Maria, atraindo as criancinhas inocentes para o imenso pecado da gula! Proibido que elas tivessem prazer comendo os bancos da igreja ou o bebê do presépio. A outra alternativa plausível é que eu fosse internada em um hospício e sofresse uma lobotomia. Não há definição, senão louca, para uma pessoa que acredita em um deus chocolate.

Sinto-me um cristão novo na época do Brasil colônia. Tendo que professar a fé em um deus único em público, enquanto professo a fé nos meus próprios deuses em particular. Em vez de imagens dos meus deuses (de louça, de pedra ou de metal), tatuagens. Crenças escondidas, tal como uma praticante de strega na Florença medieval. Uma consumidora de alecrins, hortelãs e bagulhos que deve ser detida. Algumas vezes, sinto-me uma árabe em Jerusalém, durante as cruzadas. Ou uma palestina, se fosse hoje. Fico em dúvidas.

Quer queiram, quer não, meu deus não é esse aí. Meu deus sequer é único e proíbe a existência de outros deuses. Ele é amor. E amor pode se materializar em chocolate. Vinho. Morangos. Dança. Música. Sexo. Pizza. Beijos. Abraços. Filmes. Festas. Jogos. Literatura. Conversas. Qualquer coisa que nos faça feliz e não tire dos outros uma das faces do amor: a liberdade.

Meu deus também é diverso por natureza. Mestiço e aceito. Cacau baiano. Leite de vaquinhas peludas rechonchudas holandesas. Especiarias para incrementar. Serve até leite de vaca genérica. Frutas tropicais. O importante é que ele é globalizado como vislumbrou Milton Santos, cosmopolita como preconizava Kant. Um deus bairrista não combina com a quantidade de possibilidades e de combinações possíveis para sua existência.


Se possível, além de rezar diariamente para o deus chocolate, eu faria campanha pelo presidente chocolate nas próximas eleições. Na impossibilidade de um Estado laico, que ele fosse ao menos dirigido pela religião chocólatra.