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31 de dez de 2013

livro aleatório - desejo para 2014

“Não existe sociedade multicultural possível sem o recurso a um princípio universalista que permite a comunicação entre indivíduos e grupos social e culturalmente diferentes. Mas também não há sociedade multicultural possível se esse princípio universalista comandar uma concepção da organização social e da vida pessoal que seja julgada normal e superiora aos outros. O apelo à livre construção da vida pessoal é o único princípio universalista que não impõe nenhuma forma de organização social e de práticas culturais. Não se reduz ao lasser-faire ou à pura tolerância, primeiro, porque impõe o respeito da liberdade de cada um e, por isso, a recusa da exclusão; em seguida, porque exige que toda referência a uma identidade cultural se legitime pelo recurso à liberdade e à igualdade de todos os indivíduos e não por um apelo a uma ordem social, a uma tradição ou às exigências da ordem pública.”
Alain Touraine. Poderemos Viver Juntos? Iguais e Diferentes.


Abri este livro, outro dia, na página deste trecho. Acabei relendo quase o livro inteiro novamente. Recomendo muitíssimo. A globalização nos mistura e, ao mesmo tempo, não ajuda em nossa própria compreensão a respeito de nós mesmos. Muitos, quando buscam abrigo em uma identidade ou comunidade com a qual se identificam, acabam rejeitando o outro. A diferença, nestes casos, aparece como uma ameaça.

Dentro da globalização, as inovações das tecnologias de comunicação derrubaram as barreiras que separavam a vida pública e a privada. Cada pessoa, à sua maneira, tenta combinar essa participação em um mundo globalizado com a afirmação de suas heranças culturais e pessoais, buscando a construção de uma vida individual.

O recado deste último livro aleatório, neste último dia do ano, é para que não nos isolemos e não cedamos ao egoísmo puro e simples. Como diz o autor: que lutemos simultaneamente contra a dominação dos mercados e contra os poderes comunitários, reconhecendo ao outro e a si mesmo o direito de ser um sujeito. Que coloquemos a democracia, o direito e a educação a serviço da liberdade de cada sujeito.

Como eu já disse AQUI: repetem tanto por aí que devemos amar uns aos outros... Esquecem que o amor é irmão do ódio e que a linha de separação entre eles é bem tênue, fácil de ser cruzada já que são sentimentos com enorme carga de irracionalidade. Odeio, genuinamente, certos tipos de gentes. Acho-as um câncer para o planeta e para a própria humanidade... mas não tenho o direito de querer tirar-lhes quaisquer direitos. Ninguém precisa amar ninguém, apenas respeitar a liberdade e a existência plena dos outros.

Esse é meu desejo para 2014: que ninguém se ame, mas que todos se respeitem para que possamos, todos, viver juntos. Iguais e diferentes.





O último livro aleatório teve João Ubaldo Ribeiro, foi sobre sexo e pode ser lido AQUI.



NOTA: eu escreveria um texto um pouco mais elaborado ou mesmo uma retrospectiva deste ano que está acabando... mas esse último mês do ano foi tão pintado com cores surrealistas que hoje, por exemplo, meu carro morreu (não liga nem com macumba!). Ou seja, só quero que dezembro descanse em paz e suma de vez. R.I.P. 2013!!! (texto sobre esse mês infernal AQUI)

23 de dez de 2013

mulheres na Idade Média

Durante os primeiros séculos da Idade Média, antes da reintrodução dos princípios do Direito Romano, as mulheres tinham alguns direitos, garantidos pela lei e pelos costumes. Quase todas as profissões, assim como o direito de propriedade e de sucessão, eram acessíveis. Há registros, inclusive, de mulheres da burguesia participando de assembléias, com direito a voto.

Estudos demográficos revelam que havia predominância do contingente feminino adulto (na distribuição da população por sexo). O afastamento dos homens era freqüente, devido às constantes guerras, longas viagens ou recolhimento à vida monástica. As mulheres assumiam os negócios da família em sua ausência. Historicamente, a maior participação da mulher na esfera não doméstica esteve sempre ligada ao afastamento do homem por motivo de guerras.

A mulher participou também das Corporações de Ofícios, atuando como aprendiz e, por morte do marido, como mestre. O acesso às Corporações significou a possibilidade de receber instrução profissional, direito que ela viria a perder nos séculos posteriores. Como nem tudo são flores... A ascensão da mulher ao cargo de mestre tinha restrições: viúva, só poderia ocupá-lo pelo período de um ano em alguns burgos e, em outros, enquanto não mantivesse relações sexuais com outro homem (oi?).

Há registros de mulheres exercendo tarefas masculinas, como a serralheria e a carpintaria, embora se concentrassem nas profissões femininas: tecelagem, costura, bordados. A indústria doméstica, ligada à tecelagem e à produção de alimentos, era dominada pelas mulheres. Diversas vezes, essa indústria doméstica era a principal fonte de renda ou uma complementação necessária do orçamento familiar. Participavam do comércio ao lado dos maridos e, viúvas, freqüentemente permaneciam comerciantes. Não era incomum uma herdeira gerir sua própria herança, ainda que casada. Mulheres economicamente autônomas, comerciantes ou exercendo outras atividades, aparecem nos registros de Corporações e nos registros administrativos – independente de seu estado civil.

O trabalho feminino, entretanto, sempre recebeu remuneração inferior ao do homem. Cabe lembrar que, na Idade Média, diferente do que acontecerá no Renascimento e na Reforma, o trabalho, as artes e o conhecimento científico não eram então considerados como valores em si, nem eram instrumentos de ascensão social. O poder, monopólio da nobreza e do clero, baseava-se na posse da terra e na ascendência espiritual. Desta forma, a participação da mulher no mercado de trabalho não conferia a ela qualquer prestígio social.

Na educação, registros de mulheres freqüentando universidades são (quase) insignificantes. No século XIV, (o número impressionante de) 15 mulheres estudaram medicina e exerceram a profissão em Frankfurt (em Bolonha, algumas mulheres se formaram em Medicina e Direito).

Christine de Pisan, escritora francesa no século XIV, foi a primeira mulher a ser indicada como oficial da corte. Tinha um discurso conscientemente articulado em defesa dos direitos da mulher. Defendia a igualdade entre os sexos. Afirmava a necessidade de se dar às meninas uma educação idêntica à dos meninos: “Se fosse costume mandar as meninas à escola e ensinar-lhes as ciências, como se fazem aos meninos, elas aprenderiam da mesma forma que estes e compreenderiam as sutilezas das artes e ciências, tal como eles”.

Viúva aos 25 anos, Christine sustentou a família: mãe, 2 irmãos e 3 filhos. Manteve-se economicamente independente como escritora. Escreveu A Cidade das Mulheres, no qual afirma serem homens e mulheres iguais por sua própria natureza. Refutava as generalizações que imputam inferioridade ao sexo feminino e condenava a dupla moral (pela qual o mesmo ato é crime quando praticado pela mulher e apenas pequeno defeito quando pelo homem).

Apesar da participação da mulher na vida social e econômica da Idade Média, a idéia que prevaleceu foi aquela transmitida pelo romantismo de cavalaria: uma mulher frágil, à espera de seu cavaleiro (some things never change...). Esta imagem, que por um lado exclui a grande massa de mulheres até de uma representação simbólica, por outro reflete uma visão distorcida do que seria o cotidiano da própria castelã. Existe uma defasagem entre a posição concreta da mulher na vida cotidiana e a representação simbólica de seu papel (incrível como isso se repete, não?).



Faltou escrever sobre a Caça às Bruxas – fica para a próxima (afinal, o texto já ficou grande). Para quem tiver interesse, outros textos sobre o passado e relacionados ao assunto:

18 de dez de 2013

o negócio

Em 2013, foram muitas as séries que entraram na minha vida – algumas delas não terão direito a uma segunda temporada, ao menos não para mim. Anos 80, vampiros, serial killers. Assuntos diversificados no cardápio de seriados que gosto de assistir. Sobre sexo, foram duas as novidades do ano: O Negócio e Masters of Sex. Aqui no Brasil, essas duas séries passaram na HBO e, para mim, foram as grandes surpresas de 2013.

Escrevi sobre Masters of Sex AQUI – já que, inevitavelmente, acabarei fazendo alguma referência à série, recomendo a leitura prévia. Fica a critério do leitor. Aviso a quem gosta de seriados que nem toda surpresa é boa ou positiva. O Negócio foi a decepção do ano. Meu pensamento quando via as chamadas na HBO era “nossa, parece interessante”. Comecei a assistir e dá-lhe surpresa ruim.

Enquanto Masters of Sex consegue tirar o foco de atenção das cenas de sexo e nos transportar para a época, para como era tratado esse tabu... bem, a coisa menos pior de O Negócio são as cenas de sexo. Algumas soam, inclusive, falsas. Tentou-se uma sutileza que não acontece, um realismo que diversas vezes soa inverossímil. Se nem nas cenas de sexo os atores convencem...

O elenco é, em geral, um equívoco – a começar pela protagonista: Rafaela Mandelli não convence no papel de Joana/Karin. Suas companheiras no tal negócio, Maria Clara/Luna e Magali, vividas pelas atrizes Juliana Schalch e Michelle Batista, são possivelmente as únicas atuações convincentes, juntamente com o Oscar (par de Luna, vivido pelo ator Gabriel Godoy). O resto... eu diria que, de vez em quando, aparece algum coadjuvante convincente, quase sempre algum cliente das moças. As atuações, em geral, parecem forçadas.

Masters of Sex surpreende, positivamente, com estereótipos presentes em narrativas com temas batidos. O Negócio, ao contrário, conseguiu a proeza de estereotipar os estereótipos e, em diversas ocasiões, torná-los obsoletos, não críveis, sem personalidade. Clichês não se resumem às personagens, porém. Até mesmo o marketing e a publicidade acabaram sendo clicherizados, estereotipados. O roteiro, em suma, é ruim e não apresenta muitos desenvolvimentos interpessoais. Uma história pessoal com personagens impessoais.

Sobrevivi ao ritmo de narrativa sem agilidade, arrastado. Resisti às atuações pífias de um roteiro ruim. Agüentei a edição mal feita (em alguns momentos, parece ter sido feita com pressa). A fotografia, às vezes, deixa a impressão de não ter sido pensada, pesquisada, feita com capricho. O figurino? Nada de especial, bom ou ruim. Sim, assisti a todos os episódios – esperança é a última que morre, não é isso?

Chega-se ao final sem que haja conquista. O Negócio, definitivamente, não me conquistou. A esperança de que a série melhorasse foi morrendo a cada episódio (alguns, inclusive, não consegui assistir inteiros). O mercado da prostituição de luxo é um tema que poderia ser explorado de variadas formas. A idéia da série era muito boa. O resultado? Não valeria, em minha opinião, uma segunda temporada.







>Leia AQUI uma resenha sobre a série que saiu à época do lançamento/estréia – hoje, após a já finada primeira temporada, devo discordar do autor dessa resenha: não é interessante de assistir nem na meia dúzia inicial de episódios<

16 de dez de 2013

masters of sex

Há quem assista novelas e reality shows... e há quem, como eu, seja aficionada por séries. Está chegando ao fim da primeira temporada de um novo vício adquirido em 2013. Não é sobre sexo, mas é sobre o ser humano e a sociedade – sexo não os definem, mas o modo como lidam com ele diz muito sobre quem são. Essa é Masters of Sex, série estreante em 2013 e na qual já viciei.

Não é simples falar de sexo sem resvalar em clichês, mas a série, versando sobre a era pré-revolução sexual, consegue surpreender mesmo utilizando estereótipos conhecidos em narrativas sobre algum tema batido. Estão presentes, por exemplo, dois perfis femininos claros, centrais. De um lado, a esposa controlada e submissa, do outro, a mulher divorciada, com filhos para criar e que vê o sexo como fonte de prazer. Também estão presentes, entre outros, o pai de família gay enrustido, o doutor garanhão, a prostituta sarcástica, o médico sexualmente reprimido. Nenhum desses estereótipos, entretanto, soa falso ou fora de lugar. Ao contrário, constroem bem a sociedade daquela época.

A confusão na mente do Dr. Haas, ao perceber que a mesma mulher que faz loucuras com ele na cama o chama de amigo na vida social cotidiana... sua reação agressiva, em uma discussão, dando um soco no rosto de Virginia... estas coisas (e tantas outras presentes na série!) mostram o choque do homem daquela época diante da mulher à frente do seu tempo (qualquer semelhança com dias atuais não é mera coincidência!).

Masters of Sex conta a biografia do obstetra William Masters e de sua assistente, Virginia Johnson – vanguardistas no estudo da sexualidade humana nos Estados Unidos. Por meio do relacionamento entre o par, a série explora o furor e a surpresa das descobertas. As cenas de sexo são, ao mesmo tempo, realistas e sutis. A produção de época é um charme à parte. A série consegue tirar atenção dos corpos nus e transportar-nos para a sociedade americana das décadas de 40 e 50. Naquela época, preconceitos, tabus e hipocrisias limitavam da vida privada à própria ciência (qualquer semelhança com o século XXI não é mera coincidência!).

Apesar de abordar um tema considerado tabu (até hoje minha gente, até hoje!) e de não dispensar cenas de relações sexuais, a série consegue colocar o sexo como algo acessório diante da complexidade das personagens e das relações interpessoais. Paradoxalmente (ou não!), as personagens não existem dissociadas de seu sexo, de seu gênero e de seu papel naquela sociedade. A transgressão e/ou a manutenção do status quo estão presentes em cada personagem – com o positivo e o negativo que cada um destes papéis possa ter, sem grandes maniqueísmos ou lições de moral.

Masters of Sex é baseada em um livro que não li, portanto não falarei dele (consulte o Google se quiser informações sobre isso!). Posso falar apenas sobre a adaptação para a TV após assistir aos 11 primeiros episódios (são 12 nessa primeira temporada que está acabando). Atores nos papéis certos, confortáveis com a pele (da personagem!) que estão habitando. Fotografia, cenografia, figurino, edição... tudo está bem cuidado na série, mas não seriam convincentes, por si só, sem atores que imprimissem veracidade às personagens e um roteiro bem feito.

Seja para puro entretenimento, seja para fazer um comparativo antropológico com a sociedade atual... Série recomendadíssima.






>Se não tem HBO em casa, a série pode ser baixada com facilidade AQUI e AQUI, além de assistida online AQUI.

>Para quem gosta de ler, uma dica de livro que fala de sexo é ESTE, do João Ubaldo Ribeiro - coloquei até link para o pdf lá hein... não tem desculpa para não ler este livrinho delicioso sobre a Luxúria (e, consequentemente, sobre o ser humano). 

6 de dez de 2013

nostalgia e incompatibilidade (musical?)

Há muito tempo atrás, em uma galáxia distante, escrevi um pequeno texto irrelevante sobre coisas que me brocham na hora H. Nenhuma daquelas coisas deixou de ser brochante e, ao contrário, acho que minha tolerância a elas inclusive diminuiu. Tesão negativo, apenas.

Estes dias estive pensando: incompatibilidades musicais são motivo para um affair não seguir em frente? Como lidar quando a pessoa é uma delícia, mas gosta de ouvir sertanejo, funk e axé? Fator brochante detected, eu diria. A verdade é que acho bastante desanimador entrar no carro de uma pessoa, por exemplo, e a trilha sonora ser Jorge e Mateus ou Anitta. Meus ouvidos doem. Dependendo do tempo que eu for exposta ao som, posso desenvolver dor de estômago e outros desconfortos.

Não sou uma daquelas gentes pseudo cults chatas que só ouvem Chico e Debussy. No meu i-pod podem ser encontrados, entre outros: Rammstein, Pantera, Therion, Cazuza, Monobloco, Seu Jorge, Setrak, Hossam Ramzy, Wagner, Beetoven, Madonna, Shakira, Britney, Norah Jones, James Brown, Miles Davis, Pink Floyd, The Doors, Adele, Farofa Carioca, Ana Carolina, Blur, Lauryn Hill, Bauhaus, Bob Marley, Blitz, Loreena McKennitt, Mutantes, Queen, Placebo, Ofra Haza, O Rappa... enfim, essa pequena listinha já dá um bom exemplo de que o negócio é bastante eclético e que ouço de tudo, depende do humor e da situação.

Ressalva seja feita: os únicos estilos musicais que consigo ouvir a qualquer hora, em qualquer situação, com qualquer bom ou mau humor que eu esteja, são o jazz, o blues e as clássicas (ocidentais e orientais). Todos os outros estilos dependem do dia, hora, local e razão. O leque de coisas que ouço sem incômodo, musicalmente, é imenso. A pessoa precisa gostar de ouvir justamente aquelas coisas que não suporto? Murphy deve rir sozinho nesses momentos.

Brochei. Quase brochei. Não brochei. Quase brochei de novo. Desconheço o status atual de brochada. Me importo? Talvez outros fatores sejam mais brochantes que uma incompatibilidade musical. Ou não. A carne é fraca e poesia oral não é feita de palavras. A ironia e a dubiedade da última sentença soam imperceptíveis para qualquer pessoa que não a tenha escrito, confesso. Me importo?

Ao mesmo tempo em que pensava sobre isso, tive uma iluminação súbita (#ironicfeelings). As crianças, musical e culturalmente, estão sendo expostas somente a porcarias (cada vez mais porcas, eu diria). Desde quando? Não sou uma mocinha ingênua – sei que há, entre outras coisas mais sutis, reforço a papéis de gênero. Não quero discutir isso, assim como não quero discutir o sexismo de comerciais ou o sexo dos anjos assexuados.


Incompatibilidades musicais do presente me trouxeram certa nostalgia musical da infância, somente. Não apenas. Mas somente.



21 de nov de 2013

viagens e aprendizados

Quando viajo, tento me desconectar do mundo. Conheço pessoas, lugares, descubro coisas (sobre mim mesma, inclusive). Minha conexão é com aquela realidade, com aquele lugar. Uma cidade, mesmo quando visitada pela enésima vez, sempre tem coisas novas a oferecer. Cores, odores, sabores, sons.

Dificilmente acesso redes sociais quando viajo – seja qual for o motivo da viagem. Acho desperdício de tempo. Para alguns, certamente é um atestado de solidão. Para outros, palco para auto promoção e massagens no ego. Há aqueles que apenas empregam mal seu tempo.

Sou a favor de compartilhar. Em viagens, pessoas cruzam nosso caminho para que compartilhemos aqueles momentos irreproduzíveis com elas. O ser humano parece ter desaprendido a compartilhar sons, odores e sabores. Só se interessa pelas imagens. Mostra-se ao mundo e deixa de abrir-se a pequenos mundos.

Cada pessoa que conheço por aí é um pequeno novo mundo, um aprendizado. Não as troco por elogios, admiração ou mesmo inveja das redes sociais. A obsessão que algumas pessoas têm em exibir o grande feito de terem viajado lhes fecha a percepção. O importante não é o outro lado da tela quando existem pessoas cara a cara. Sei que exposição ao vivo é complicada de controlar, mas é ela que propicia mudanças, aprendizado.

Em minha última viagem, aprendi que até uma das maiores empresas do mundo (no seu segmento de atuação) pode ser extremamente desorganizada e empregar gente despreparada. Lógica, planejamento e gerenciamento de tempo para quê, se pode-se criar uma versão curta metragem de um reality como No Limite? Bate papo e entrevista olho no olho para quê, se pode-se ficar de cabeça baixa olhando para uma tela de computador e digitando?

Há muito entendi que seleções são, quase sempre, jogos de cartas marcadas. Idéias feministas e sobre sexualidade livre agradam sim – desde que embaladas para serem palatáveis, causar polêmica, estejam sob controle ou não causem choque e estranheza. Eu queria ganhar dinheiro para tirar férias, conhecer o apresentador que não posso dizer o nome (talvez até dizer-lhe certas verdades em rede nacional) e, de quebra, ser ouvida. O problema é que eu e minhas idéias jamais estaríamos sob controle.

Não sigo regras das quais discordo, não faço alianças por interesse, não entro em matilhas, não interpreto personagens. Quais meus maiores defeitos e qualidades? Aí estão – e por isso quem me conhece de perto geralmente me ama ou me odeia. Sabe o que mais se pode adicionar na lista? Sou incapaz de sentir-me a vontade e ter uma conversa solta, franca, com quem não olha nos olhos. Minha sensação é de que a pessoa não está interessada e nem prestando atenção – na maioria das vezes, não está mesmo. Na moral: como você quer conhecer alguém se você sequer olha para a pessoa enquanto fala com ela?

Claramente, não faço parte das cartas marcadas. Seja como for, sempre pago para ver. Não foi diferente agora: paguei. E valeu. Não fosse pelo breve confinamento, não teria conhecido a Luana, as Maris, os dentistas, a fisioterapeuta – pessoas lindas que conversam olhando no olho. Tornaram tudo mais colorido e suportável – até as horas de estômago vazio em uma sala quente. Lamento pelos que genuinamente se de decepcionaram ao ver como as coisas funcionam por dentro e ficaram tristes ao perceber que não são uma das cartas marcadas do jogo. Bem vindos à realidade!

Liberta da ilusão, utilizei a desculpa de uma seleção para viajar. Reforcei laços de uma amizade que perdura há 26 anos. Aprendi que amor por alguém e estar aberto a alguém independe de os defeitos desse alguém serem os mesmos há 26 anos. Revi minha birra com o Woody Allen por meio de uma aula de interpretação da Cate Blanchett. Reencontrei amigos antigos e, por meio deles, conheci novos. Ganhei amiga que certamente levarei para a vida. Refleti sobre mudanças – internas, externas e geográficas.

Não ser uma das cartas marcadas – e saber-se como tal – tem a vantagem de nos permitir aproveitar até mesmo a comprovação de uma tese. Ou teses, à escolha do cliente. Quais sejam: uma pessoa como eu jamais seria escolhida para ser mico adestrado de circo (é, não sou adestrável) e as pessoas por aí, quando viajam, empregam mal seu tempo (despender esforços para conectar-se ao virtual, a imagens? Really?).


Disconnect and be happy people! A fábrica de ilusões, seja ela qual for, é só isso: uma fábrica de ilusões. Desconectar-se disso e viver a realidade, conhecer pessoas e lugares, embriagar-se de cheiros, sabores, sons, idéias... Vale a pena e recomendo. Mas se você gosta, almeje sem culpa ser um produto descartável e seja feliz à sua maneira.

8 de nov de 2013

as cotas e o circo

“As palavras tem poder, presidenta! Arcar com as consequências da escravidão requer de seu governo – e dos futuros, posturas que nenhum outro teve coragem ou interesse em promover. Um bom início de conversa tem relação com sua segunda afirmação: reconhecer o genocídio da juventude negra como ação promovida pelo estado brasileiro. E combatê-lo de fato.

Arcar com as consequências da escravidão passa por reordenar as forças produtivas e econômicas do país. Passa, por exemplo, por inverter a lógica da posse da terra e garantir a titulação dos territórios indígenas e quilombolas. Passa por efetivar a tão protelada reforma agrária ou, em outras palavras, acabar com a força do agronegócio e investir em uma agricultura familiar e socialmente comprometida.

E poderíamos seguir: E quanto aos bancos e seus lucros exorbitantes? E quanto ao setor empresarial privado e seu poder de mando? E quanto aos meios de comunicação? E quanto às mega construtoras e às corporações internacionais? E quanto à taxação das grandes fortunas? E quanto à qualidade da escola pública brasileira, em todos os níveis, à aplicação da Lei 10639 e o acesso às universidades de ponta? E quanto ao modelo de segurança pública?

Arcar com as consequências da escravidão, presidenta, significa colocar xeque os pilares de sustentação do modelo econômico vigente, tudo que o cerca e o alimenta. Mas você está certa. A sociedade brasileira nos deve isso. Como você pensa em começar quitar essa dívida?”


O trecho acima foi retirado DAQUI e refere-se à assinatura do projeto de lei que reserva 20% das vagas em concursos públicos de órgãos do governo federal para negros (reportagem AQUI).

As reações nas redes sociais foram várias. É, no mínimo, engraçado observar como a maioria dos classe-medianos fica ouriçada. Uma parte defende ferrenhamente as cotas, sem maiores reflexões. Argumentos rasos, que sequer percebem a dimensão do debate. Outra parte defende ferrenhamente a si mesmos – racistas ou não, o que fazem é isso: defendendo uma meritocracia ilusória, pensam estar defendendo a si mesmos. Pouca lucidez, de modo geral.

Diante de perguntas como “quem é verdadeiramente branco neste país?”, respostas como “pergunte a um policial que ele sabe diferenciar direitinho”. Nem sempre perguntas e respostas são feitas de má fé, porém. O que vejo bastante é ignorância, pura e simples, seja qual for o tema do debate. O genocídio contra jovens negros da periferia é uma realidade, o fato de que todos viemos da África também. Sigo a ciência, então diria que até prova em contrário, somos todos afro-descendentes, evolucionariamente falando. Esses PMs (e seus 'simpatizantes') eu não classificaria como 'homo sapiens', sim 'homo irracionalis'.

...Disse a loira cansada de argumentar com estatísticas, dados históricos, referências, etc... Confesso meu cansaço argumentativo nesse assunto, assim como em tantos outros. Em geral, as pessoas só vêem o que querem ver. Desculpem, é que sou reaça, embora eu desconfie de qualquer direita. As direitas nos deram Hitler, Mussolini. Também sou esquerdista, embora eu desconfie de qualquer esquerda. Sabe como é, elas pariram Stalin, Mao. Pilhas de corpos, à direita e à esquerda. Pilhas de fodidos, em todas as direções.

Quando falo que sou contra as cotas, sozinhas, sem que medidas sérias sejam paralelamente tomadas, uns me chamam de reaça, outros de esquerdista. Ignoram a palavra ‘sozinhas’. Investimentos sérios para uma educação universal de qualidade, aparentemente, nenhum dos lados quer discutir. Medidas urgentes e necessárias, em todas as áreas, continuarão sendo urgentes e necessárias por quantas outras décadas? Para os ‘istas’ que se acusam mutuamente e não se olham no espelho, dou os parabéns! Após décadas governado por PSDB e PT, o país finalmente se transformou numa Dinamarca. Às avessas, se me permitem opinar.

Em minha opinião, esse país está condenado! Parte do povo é analfabeto funcional e a outra parte é de covardes intelectuais que têm medo de se insurgir contra a "República da Boa Vontade" ou acreditam estar se beneficiando com ela. 

Dica: não se resolvem séculos de escravidão com cotas, sem que outras medidas, urgentes há décadas, sejam implementadas, como, por exemplo, educação universalizada e de qualidade. Infelizmente, por aqui, só se tem interesse pelas medidas de curto prazo que não resolvem as desigualdades no médio e no longo prazos. Assim como não se resolve o problema da saúde pública com importação de médicos, ignorando outras medidas que já são urgentes e necessárias há décadas. Senhores que acreditam na benevolência e nas boas intenções deste governo: bem vindos ao picadeiro. O circo para 2014 está firme e forte. Oremos.

Ademais, o que digo não é de direita ou de esquerda: é apenas lógico. Cotas, sejam do que for, sozinhas, não resolvem. Atenção na sutileza, geralmente ignorada quando outros privilegiados concordam com o que eu disse. Não sou contra cotas: sou contra cotas sozinhas, como tem sido feito - é só essa minha crítica ao apaziguamento de desigualdades históricas pelo sistema de cotas no Brasil. É urgente e é necessário, há décadas, que se tomem medidas sérias e qualitativas na educação de níveis fundamental e médio, e isso continua sendo sistematicamente ignorado por PT, PSDB...

Finalizo essa pequena exposição dizendo algumas coisas para os branquinhos coitadistas que vi reclamando das cotas e falando em meritocracia. Não dá para comparar a opressão e as dificuldades que homens brancos heterossexuais (ainda que pobres!) sofrem, na sociedade atual, com a opressão e as dificuldades que um homem negro heterossexual sofre (a não ser que você acredite na inexistência de racismo, aí dá para comparar qualquer coisa). São coisas incomparáveis! Isso é o mesmo de eu querer comparar a opressão que eu sofro, advinda do machismo, com a opressão que uma lésbica ou uma mulher negra sofrem... São coisas incomparáveis e, assim como eu preciso aceitar e entender que sou uma privilegiada em nossa sociedade, os homens heteros brancos também, pois são ainda mais privilegiados. É difícil entender isso?


Para terminar, um recado para dona Dilma: eu ficaria muito feliz se fosse implementada uma cota de 20% de parlamentares honestos no Congresso Nacional.


Não acredita que o circo está de pé? Prestaram atenção em outro fato interessante dessa última semana? Os senadores derrubaram projeto obrigando a divulgação de gastos e doações nas campanhas eleitorais (leia AQUI). Enquanto isso, os palhaços vão as ruas pedir o fim da corrupção. Justo. Ou esperneiam porque terão menos vagas no seu american dream à brasileira. Focas adestradas aplaudem medidas ineficazes e silenciam quanto às medidas nocivas. Justíssimo.


> Leitura sempre recomendada: O Ovo da Serpente










7 de nov de 2013

feminismo e relações internacionais

Não há, exatamente, uma teoria feminista das Relações Internacionais; o que há são várias concepções teóricas que chamam a atenção para diferenças sociais baseadas em gênero. Busca-se entender como o universo patriarcal constrói discursos e práticas violentas nas relações entre os Estados e dentro deles.

As perspectivas feministas enxergam a construção histórica das Teorias de Relações Internacionais como uma experiência masculinizada. As fronteiras do Estado, a globalização e a militarização são exemplos de estruturas patriarcais criadas pelo discurso dominante masculino, que é reproduzido e justificado pelas teorias. Dessa forma, expõe-se a exclusão das mulheres do discurso teórico das Relações Internacionais e a construção sexista e androcêntrica das Relações Internacionais.

Parêntese
O que foi dito até aqui serviria, acredito, para qualquer campo teórico-acadêmico. A construção histórica de algum deles inseriu a visão feminina? Ou melhor: inseriu a visão de alguém que não fosse homem, branco, livre? Por isso é importante que os excluídos conheçam sua própria história, para entender o seu presente. Especificamente relacionado a mulheres, escrevi recentemente sobre Grécia e Roma antigas, nossos berços do Ocidente.
Fecha parêntese

O debate sobre a segurança internacional é central nas Relações Internacionais. A perspectiva feminista de segurança questiona a visão tradicional voltada para a relação entre os Estados (e volta a atenção aos indivíduos que são vítimas da violência). O feminismo critica a ausência da ótica feminina dentro dos estudos de segurança internacional, traz a questão do gênero para as discussões e chama atenção para a ideologia patriarcal por trás da violência e dos discursos acadêmicos sobre o tema.

As diversas formas nas quais as mulheres são vítimas de violências internacionais são expostas. As violências podem ser diretas (como no caso de estupros), ou estruturais (quando as mulheres são vítimas da exploração econômica ou são impedidas de tomar decisões sobre si próprias, caso de países que obrigam o controle de natalidade e de países que impedem que elas abortem).

Susan Brownmiller, em Against our Will, chama a atenção para o uso do estupro como instrumento de violência internacional. A Convenção de Genebra reconhece o uso do estupro como arma de guerra. Na Bósnia, ele foi usado sistematicamente como parte da limpeza étnica, por exemplo. O estupro não é somente uma forma de violência de um grupo em relação a outro: é mais uma forma de reafirmação da dominância masculina, que objetifica a mulher e a transforma em pilhagem de guerra.

Além do estupro, também a questão da violência doméstica raramente é expressa em termos de segurança internacional. O avanço da defesa dos direitos humanos em nível internacional, por outro lado, leva à consideração de que o direito da mulher é universal e a violência em seu lar é, desse modo, um tema internacional.

Existem, também, trabalhos de investigação da questão de gênero na construção das estruturas de poder. J.Ann Ticker, em Gender in International Relations, expõe a construção masculino-sexista das concepções realistas, marxistas e liberais das Relações Internacionais, pois elas consideram dadas as estruturas patriarcais sociais do Estado e do sistema internacional. Como alternativa, a autora propõe um processo de inclusão, de baixo para cima, que inclua as experiências femininas dentro do campo da segurança internacional.





> para quem tiver interesse no tema feminismo e relações internacionais, deixo o link para a dissertação de uma colega da minha turma do mestrado: Gênero e Relações Internacionais: uma crítica ao discurso tradicional de segurança


Depois do assunto pesado e antes da nota pesada, um pouco de arte, daquelas que arrepiam!




NOTA – para quem se interessa, autoras feministas pós-Guerra fria:

Cynthia Enloe – um dos grandes nomes do campo feminista das Relações Internacionais. Do seu trabalho, depreende-se que a base para a high politics é dada pelas mulheres como um todo, sejam elas esposas, namoradas, prostitutas, trabalhadoras ou consumidoras.

Sua obra clássica é Banana, bases and beaches. Destaca a experiência das mulheres como centrais ao entendimento das relações internacionais. Mostra uma visão sexista de sete arenas nas quais se realiza a política internacional: turismo, nacionalismo, bases militares, diplomacia, força de trabalho feminina na agricultura, têxteis e serviços domésticos. A autora argumenta que a estabilidade do sistema econômico internacional depende das relações políticas e militares entre os Estados que, por sua vez, dependem de comunidades políticas e militares estáveis que são de responsabilidade de esposas, namoradas, prostitutas e anfitriãs. No turismo, o uso da imagem das mulheres facilita a venda de viagens e o turismo sexual aparece como mais uma forma de dominação masculina internacional. Nas bases militares, as esposas dão suporte aos maridos em longas missões no exterior e, como operárias e consumidoras, sustentam o comércio internacional.

Na obra The morning after: sexual politics and the end of the Cold War, a autora chama a atenção para o papel das mulheres russas no final da Guerra Fria, em que as mães, cansadas dos sacrifícios de seus filhos na Guerra ex-URSS-Afeganistão, passaram a deslegitimar o poder militar soviético. Em relação à Guerra do Golfo, ela quebra com a tradicional visão de aliados x Iraque, para contar a experiência de empregadas domésticas filipinas que, vítimas da pobreza em seu país, foram obrigadas a procurar trabalho no Kuwait e lá foram vítimas de abusos sexuais nas casas de seus patrões. Com a guerra, foram vítimas de estupros cometidos por soldados iraquianos. Apesar de vítima, o Kuwait é criticado por ser um país agressor das mulheres, excluídas da vida política e constantemente vítimas de agressões masculinas.

Jane S. Jaquette – uma leitura interessante de ser feita e, guardadas as devidas proporções, relacionada à situação do Brasil atual, com várias mulheres entrando cada vez mais na política.

Na obra Feminism and the challenges of the post-Cold War, a autora mostra que, apesar da democratização pós-Guerra Fria que em muitos lugares produziu um aumento das mulheres na vida política (especialmente onde foram implementadas cotas), as políticas neoliberais continuam a predominar e as mulheres estão longe de sua emancipação. A preocupação é que o aumento da participação feminina na política ainda não produziu resultados transformadores. Isso seria parcialmente explicado pela agenda político-econômica construída ainda durante a Guerra Fria, na qual as mulheres se tornaram adesistas ou radicalistas (procurando reformas mínimas dentro da estrutura existente ou opondo-se a tudo que saía dos Estados). Para ela, é preciso produzir rapidamente avanços na Teoria Feminista que lidem com as crescentes desigualdades.

6 de nov de 2013

livro aleatório - sexo

“Imagine como eu era entre os trinta e os quarenta e poucos, na minha opinião a melhor idade para qualquer mulher, com a exceção da que se casa para engordar, realçar a celulite, usar meias contra varizes, assistir a novelas, entrar em concursos de televisão, limpar o catarro dos filhos e o próprio e encher o saco do adúltero de meia tigela que a sustenta. Eu era ótima, mas ótima mesmo, não dessas ótimas de segundo time esforçado que você vê por aí, mas ótima mesmo, Afrodite, Helena de Tróia, Frinéia! Não dou ousadia a contemporâneas, talvez Ava Gardner. Um pouco de Ava Gardner e Sophia Loren no apogeu. E me sinto um pouco desperdiçada, embora infinitamente menos do que a maioria avassaladora. Quero e não quero voltar àquele tempo. Ambivalências, sempre fui muito ambivalente. Não pareço, mas sou, é uma condição bastante interna, mas sou; ninguém diz, mas sou.”
João Ubaldo Ribeiro. A Casa dos Budas Ditosos.



Reli tudo que eu havia escrito e, na sequência, reli este livro. Reler algo que eu já havia, inclusive, relido anteriormente. A sensação, cada vez que leio algum livro do qual gosto muito, é de que sou medíocre. Inevitavelmente, sou. Ainda assim, escrevo. E, a cada vez que releio algo que eu escrevi, a leitura é diferente. Basta mudar a perspectiva, o modo de olhar para o que foi escrito.

Auto crítica. Um defeito ou uma qualidade. De qualquer forma, algo que tenho demais. Não consigo sequer ler o que escrevo sem criticar, faria isso com os outros? Peguei o livro 50 Tons de Cinza emprestado com uma amiga e não consegui passar da vigésima página. A prosa simples e não muito sofisticada do João Ubaldo, à qual me refiro neste texto, é genial. Cada releitura de A Casa dos Budas Ditosos é um novo olhar, são novas descobertas: sobre a história, o autor, a sociedade e, também, sobre mim.

Atenção. Não entenda errado. Não estou me referindo à temática e ou a quaisquer ideologias contidas nestes livros. Já li autores cuja ideologia contida no que escreveram me dá, no mínimo, vontade de vomitar. Os releio sempre que preciso entender como pensam. Porém, eles escrevem bem, imprimem veracidade às personagens, usam e abusam de funções da linguagem, desenvolvem um ritmo de narrativa condizente com a trama que estão contando. Até historiadores fazem isso! Hobsbawm, por exemplo, é leitura obrigatória sempre (digamos que tenho problemas com alguns posicionamentos ideológicos dele ao narrar a história).

Óbvio que isso tudo é a minha opinião. Se todos concordassem com o que penso, eu teria certeza de estar conectada à Matrix. Ou minha coca-cola está contaminada com algum alucinógeno. Peço somente uma coisa aos leitores entusiastas dos 50 Tons: leiam!


“Essa noite eu tive um sonho. Grande bobagem, nada disso. Não era assim que eu queria começar, não é assim. Essa noite eu tive um sonho -- parece diário de colégio de freiras, não é nada disso. Mas, de fato, eu tive um sonho. Um sonho inesperado, com aqueles dois budazinhos ali. Antigamente eu sonhava muito com eles, mas parei faz décadas, tudo faz décadas. São muito pequenininhos, os detalhes se perdem, comprei num camelô de Banguecoque, é um objeto sentimental. Não lembro onde li a respeito de dois Budinhas, um macho e uma fêmea fazendo sexo, essas coisas milenares de chinês, nunca entendo direito, misturo as datas, apronto a maior confusão. Havia uma espécie de templo, a Casa dos Budas Ditosos -- não é bonitinho, a casa dos Budas ditosos? eu acho --, com imagens iguais a essas, só que enormes.

Os noivos, antes do casamento, iam lá para venerar estátuas e passar as mãos nos órgãos genitais delas. Era uma espécie de aprendizado ou familiarização, uma introdução a um casamento bom na cama. Eu acho de um bom gosto delicadíssimo. Em Roma antiga, houve um tempo em que noivas acariciavam a glande de Príapo, ou se sentavam nela. Pelo que eu li, a glande mais usada, a glande pública, por assim dizer, devia ser uma verdadeira poltrona.

Príapo foi substituído por São Gonçalo, no nosso politeísmo católico. Os católicos são politeístas. Desculpe, se você é católico. Aliás, naturalmente que eu também fui criada como católica, tinha aulas de catecismo, fiz primeira comunhão vestida de organdi branco, só falava o estritamente necessário na sexta-feira santa, só comíamos peixe toda quinta-feira e assim por diante. Mais ainda, fui criada para considerar os protestantes gentinha e ficava com raiva de Lutero, que me parecia a feição do demônio, nos livros de História Geral. Levei um certo tempo para me livrar dessa estupidez, veja você; hoje, tenho até bastante afinidade com os protestantes, exceto os calvinistas e, óbvio, esse pentecostalismo histérico e de baixa extração, que ora nos assola. O magistério da Igreja me enerva.

Prefiro eu mesma ler a Bíblia e pensar do que leio o que me parece certo pensar, quero eu mesma me inteirar das boas novas, sem nenhum padre de voz de tenorino gripado me ensinando incoerências subestimando minha inteligência e repetindo baboseiras inventadas, semelhantes à desfaçatez de afirmar que no Pentateuco há mandamentos como guardar castidade, que os homens santos não batizados foram para um tal de limbo e tantas outras criações conciliares, já li a Bíblia de cabo a rabo e nunca vi nada disso nela.”


Esse é o início de A Casa dos Budas Ditosos. Imediatamente, me dá vontade de continuar lendo. Linguagem simples. Inteligente, ácida, crítica. Lotada de referências (ideológicas inclusive) para quem souber como achá-las. A narrativa, por si só, é uma delícia de ser lida. O relato daquela mulher de 68 anos, baiana residente no Rio de Janeiro, é daqueles gostosos de serem lidos (entendam como quiserem). Ela é livre. Uma liberdade gostosa de ser lida e curtida com ela.



Desejo que se deliciem com a luxúria, sem manual, com liberdade e imaginação. A Casa dos Budas Ditosos em pdf AQUI – divirtam-se com a leitura! Não tem a desculpa de falta de $$$ para não ler o livro hein...


DICA: O último livro aleatório teve liberdade e Giannetti. Se interessar, leia AQUI.









Não encontrei este video legendado, mas segue a fala e a tradução (fica o recado):

“We must constantly look at things in a different way. See, the world looks very different from up here! You don't believe me? Come see for yourself, c'mon! Just when you think you know something, you have to look at it in another way, even though it may seem silly or wrong, you must try! Now when you read, don't just consider what the author thinks, consider what you think. Boys you must strive to find your own voice...”
“Devemos sempre olhar para as coisas de uma maneira diferente. Veja, o mundo parece muito diferente daqui de cima! Você não acredita em mim? Venha ver por si mesmo, vamos lá! Justamente quando você pensa que sabe alguma coisa, você tem que olhar para ela de outra forma, mesmo que possa parecer bobo ou errado, você deve tentar! Agora, quando você ler, não basta considerar o que o autor pensa, pense no que você pensa. Meninos, vocês devem se esforçar para encontrar sua própria voz ...”








5 de nov de 2013

reis do quê mesmo?

Minha irmã gêmea, sobrevivente dos meus 20 e loucos anos, queria escrever uma carta para o "rei do camarote"... mesmo sabendo que ele é muito importante vip e jamais leria qualquer coisa escrita pela plebe. É que a capital do país está cheia de “reis da balada”, desses que acham que toda mulher sonha com uma Ferrari. Há as que sonham... e há as que, como eu, preferem os Porsches (alemãzinha e fã de James Dean, fazer o quê?). Estou falando do carro, não do motorista ok. Carro por carro, quero MEU Porsche e não uma Ferrari. É, sou uma mulher invejosa, mal amada, egoísta: quero as MINHAS coisas, não as alheias. Já sonhos com o motorista...  dependem de quem ele é e independem do que ele dirige (consigo até dirigir meu próprio carro até a casa do gato, vejam só!).

Antes de qualquer outra coisa, devo dar parabéns. À Veja São Paulo, por me dar aquela estranha sensação de vergonha alheia. Juro! Quando me deparo com essas coisas, em veículos de comunicação, tenho vergonha de ter feito graduação em Jornalismo (as bizarrices da Publicidade ficam para outro dia). Parabéns, sobretudo, ao autor dos 10 Mandamentos! Moço, você conseguiu uma façanha dupla! Saudades do Thor Batista! Saudades da Bíblia! Ambos menos risíveis... Sabe como é, chutar cachorro morto é covardia.


Sabe uma coisa? Mas aí eu acho que é pesado falar. Eu já transei com mulher na balada. No banheiro. Fora dele também. E com homem. Sabe como é, já vivi meus 20 e loucos anos. Solteira e monogâmica (na maior parte do tempo, a última opção). Universidade Federal, época de experimentação. De tudo. Sexo, drogas, rock n’ roll. Rodinhas de violão na Praça dos 3 Poderes. Rodinhas de violão no Pontão. Rodinhas de violão everywhere. The Doors, sinuca, fumaça e um CA subterrâneo qualquer. Os pés sujos da vizinhança...

As pessoas faziam sexo. Sem dramas. Foda-se. De vez em quando, aparecia um babaca. Muitos, como em qualquer lugar. Deal with it and no mimimi. Aprende-se cedo que nós, quebrados classe-medianos não herdeiros, temos que ter personalidade. Ou não ter nenhuma e seguir a manada, a depender do caso. Seja como for, me amarão ou me odiarão por quem eu sou – sorry, moça desprovida de bens. Não sei nem como pagarei o cartão de crédito, ou seja...

Nada tenho, senão meu cérebro e meu corpo. Acho que é pesado falar, mas nem toda mulher bonita na balada está à venda. Algumas (e conheço várias!), gostam de se jogar na pixxxta, conhecer gente de verdade, sabe? No mínimo, ganhamos novos amigos. Muita gente prefere uma Hering básica baratinha e gosta de dirigir o próprio carro, inclusive. Champagne é para os fracos, gostamos de Bourbon! Entretanto, te entendo. Eu não sou seu alvo, o tipo de companhia que você busca.

Deve ser difícil ser desinteressante. Você já pensou em fazer análise, terapia? Quais são as causas dessa falta de auto-estima? Suas ações e suas falas entregam o que seu sorriso de botox tenta esconder, meu caro. Não sei se é o caso mencionar, mas acho que você poderia usar um pedacinho do dinheiro que gasta em baladas e fazer análise, terapia... e, se achar isso uma bobagem, ou coisa de invejoso, contrate um personal stylist pelo amor de Cher! É um pecado ter tanto dinheiro, comprar marcas fodas, e, ainda assim, vestir-se tão mal! Por gentileza, mude de esteticista/dermato/cirurgião/whatever: para um milionário de 39 anos, o senhor está bem acabadinho viu?!

Especulações... mas se você pode especular que sou invejosa, posso especular que talvez, se você não tivesse levado aquele fora na quarta série, as coisas tivessem seguido um rumo diferente. Talvez, hoje, você estivesse satisfeito dirigindo algo mais modesto... um Audi? Um TT, pelo que vejo em minha cidade, dispensaria os seguranças, não os interesseiros. Se tens muitos convidados, amigos e mulheres... Afinal, o que há de surpreendente em transar na balada? Não viveste seus 20 e loucos anos?

Talvez você ache surpreendente que alguém queira fazer sexo com você. Tenho cá minhas dúvidas, mas acho que alguém que está acostumado a pagar para ter companhia não deve saber muito do que a palavra tesão é capaz. Ou do que um bom papo é capaz, no caso de amizades que não envolvam sexo. E sabe uma coisa? É meio pesado dizer... eu, assim como outras pessoas, não temos inveja de você. O que temos chama-se pena.

Nada de Veuve Clicquot para impressionar quem não gosta da gente. Somos chatos. Não precisamos impressionar ninguém. E gostaríamos de saber quanto você paga, por exemplo, à sua empregada? Curiosidade, apenas. De alguém que sim, gostaria de ter 50 mil para gastar como quisesse agora – mas que ao menos o faria de forma menos ridícula. Moço, você é rico, pelo amorrrr contrate um assessor pessoal... Quer ser um looser poser? Posa pelo menos de milionário com consciência social... está na moda, sabia? Umas aulinhas de português também pegam bem nesse momento em que se discute a educação no país.


Mim não faz nada. Porém, se mim fizesse alguma coisa, mim te daria um conselho. De grátis (eu sei, você não está acostumado a receber nada gratuito... tente entender como é). Tira férias, vai pra Mikonos e Santorini, Bali, Ibiza... Colega, tens dinheiro até para escalar o Everest! Reflita sobre ser patético e faça algo a respeito, for God fucking sake! Nem todo mundo vai lamber seu saco por causa da sua conta bancária, viu? E os que fizerem isso sem que haja dinheiro envolvido são aqueles com os quais poderá contar > fica a dica.

Ou ignore tudo que eu disse, afinal sou uma pobre invejosa.





NOTA: o que penso sobre as senhoritas que dão ibope para estes “reis das baladas” está implícito em quem sou. E moças: querem ser sustentadas? Ao menos arranjem ricos com cérebro e amor próprio. OH WAIT...







LEITURAS RECOMENDADAS:

Show do ridículo? NESSE TEXTO o autor conseguiu expressar bem o que penso dos pobres Alexandres, reis de camarotes.


Leia ALEXANDER, O GRANDE - E viva o neobarroco brasileiro! É pela ostentação que nos tornamos uma verdadeira catedral de nós mesmos, a ser consagrada por fiéis admiradores.

Caso se interesse por uma leitura mais social do tema – não está claro que gente apanha nas ruas para sustentarmos mais reis do camarote? – aconselho a leitura DESSE TEXTO





UPDATE: 
O babaca do camarote já está dizendo que era tudo brincadeira e que é tudo falso (leia sobre isso AQUIAQUI e AQUI). O que foi? Ficou com vergonha alheia de si mesmo? Fake ou não, deixo o texto exatamente como foi publicado. O motivo é simples: não me importa se esse reizinho em questão é fake ou não, pois já tive o desprazer de conhecer vários que são idênticos (releia o 1º parágrafo do texto). É, eles existem. E esse breve texto, para quem não entendeu, é sobre eles.

Nosso reizinho, para completar, é agressor de mulheres (leia AQUI). Não me surpreende, afinal esse tipo de cidadão trata as pessoas como coisas e costuma não ter nenhum respeito por mulheres, sejam elas daquelas que eles classificam como "interesseiras" ou não. E me dizem que exagero quando afirmo que é para fugir e ficar longe desse tipo de homem...

31 de out de 2013

adeus ano velho

Outubro é o mês em que, finalmente, percebe-se que outro ano acabará sem trazer grandes novidades. Trouxe alguma? Para o país, certamente não, se me permitem opinar. O picadeiro segue firme, forte, montado. A única mudança, se é que teremos alguma, é um novo embate de leões na jaula. O domador conseguirá segurá-los? Duvido. Canários talvez ajudem caso ganhem um campeonato. Improvável, porém.

Vejo as pessoas falando de 2014. O ano da Copa do Mundo no Brasil. O ano no qual o Circo será maior do que jamais foi: eleições, manifestações, embates, interpretações, manipulações. O ano em que, dizem, o Brasil mudará. Onde pega a senha para ganhar nariz de palhaço, pelo amor dos deuses?


Nós somos engrenagens substituíveis do sistema. Sejamos realistas. A grande maioria de nós é dispensável e substituível. Somos gado. Vinte e quadro são as horas de um dia. Recomendam dormir oito. Trabalho? Quarenta horas semanais, oito diárias. Já se foram dois terços do dia. Restam magníficas 8 horas para todo o resto. Oito fucking horas! Para ficar no trânsito, ir ao mercado, comer, estudar, praticar esportes, assistir TV, trepar, ouvir música, tomar banho, ir ao teatro e ao cinema, encontrar os amigos, etc. E há quem se surpreenda por estarmos estressados, sedentários, cada vez mais burros, infelizes.

Trabalhamos demais e trepamos de menos, esse é o problema da humanidade. Sempre fazendo planos para ganhar mais dinheiro e comprar mais coisas. Eu, pessoalmente, acho isso um equívoco. Nosso, não de quem montou o sistema e, de fato, se beneficia com ele. Lamento informá-lo, classe-mediano que sonha em passar em um concurso público: você não é o topo da cadeia alimentar. É, no máximo, uma peça que pode ser substituída. O equívoco é seu, ao acreditar que está se beneficiando do sistema.

No meu mundo imaginário, o criador do sistema deseja que tenhamos cada vez menos tempo. Quer que sonhemos com o salário de 20 mil, aquele que nos permitirá viajar para o exterior nas férias, ter o último iPhone, trocar o carro. O seu conceito de felicidade é ganhar muito dinheiro e não ter tempo nem para trepar com seu cônjuge ou ficar com seus filhos? É se matar de estudar para aquele concurso concorrido, depois passar o resto da vida em um trabalho que te subestima ou do qual você não gosta?

Boa sorte. Seja feliz em 2014, torça pela nossa lastimável seleção, acredite que sua vida mudará com as oportunidades que virão com a Copa, vote em algum candidato igual aos outros. O sistema agradece. Panis et Circenses e falta de tempo – logo, falta de reflexão e questionamento – trarão grandes mudanças. A indústria farmacêutica continuará lucrando com males causados pela vida moderna, estresse, sedentarismo, má alimentação... enquanto a escassez de tempo é domesticada pela necessidade de gerar riqueza para que o topo da pirâmide possa continuar no topo.

Ilusão é assim mesmo. Muitos se imaginam beneficiários enquanto poucos recebem os reais benefícios. Capitalismo sempre foi assim. Escravismo e Feudalismo também. Todos os sistemas, em realidade, funcionam dessa forma. Eles não mudam: quem deve mudar somos nós.

Tempo, para mim, não é dinheiro: ele vale bem mais do que pagam por ele. Neste novo ciclo, tempo é o que quero. Para ler, escrever, estudar, dançar, lutar, dormir, amar, viver. Trabalhar sim, com coisas nas quais acredito e que me façam feliz – sem essa de colocar o dinheiro antes da realização pessoal.

Como hoje se comemora o Ano Novo e meu conceito de felicidade é um pouco diferente, tenho grandes projetos para 2014: um jardim com girassóis e um cão. Eis meus planos diabólicos pro ano da Copa e do Circo (desculpa, eleições).







JABÁ: Já conhece a Sociedade Lacustre? Acesse, assista aos vídeos. Conheça o Plano Piloto como ele é, em tempo real, sem edição para parecer bonitinho e esconder os defeitos. A verdade nua e crua. Se for morador do Plano Piloto, antes de ficar ofendidinho, lembre-se: é o Plano Piloto sob as minhas lentes, apenas (e eu não coloquei carapuça em ninguém...)

29 de out de 2013

Roma das antigas exclusões

Acredito que, para entender o presente, é necessário entender o passado. Saber de onde viemos é importante para interferir em para onde vamos. Infelizmente, as pessoas em geral não se interessam por história, muito menos em saber sobre a história das exclusões. Eventualmente, algum ser humano se interessa em procurar informações sobre a parte da história que não foi contada pelos não-excluídos. Raramente, alguém relaciona esse lado B com as exclusões contemporâneas.

Talvez esteja no primeiro parágrafo a resposta àquela pergunta clássica: “como alguém pode falar mal do Feminismo estudando a história da humanidade?”. Às vezes, tenho a impressão de que pensar e refletir são verbos que causam profundo mal estar. Nos outros, não em mim. Felizmente, existem mais pessoas no mundo às quais estes verbos não causam transtornos estomacais. Para elas – e para mim – de vez em quando escreverei textos sobre a história das exclusões (como sou mulher, o foco acabará caindo na exclusão feminina).

A Grécia Antiga não era somente o berço da democracia que tanto defendemos hoje – era, também, o berço de exclusões que ainda permanecem, como dito NESSE TEXTO. Da mesma forma, a Roma Antiga não foi somente o berço de nosso direito moderno. O Direito Romano, essa maravilha que inspira nossos códigos legais até hoje, não era tão maravilhoso assim.

O código legal da civilização romana, entre outras coisas, legitimava a instituição jurídica do paterfamilias – a ele era atribuído todo o poder sobre mulher, filhos, servos, escravos. Qualquer semelhança com a discriminação da mulher em leis contemporâneas mundo afora não é mera coincidência. Diferentes culturas, através do tempo, utilizaram discursos institucionalizados para assegurar a sujeição da mulher. Antigamente, assim como hoje, houve resistência. No ano de 195 A.C., mulheres dirigiram-se ao Senado Romano. Motivo do protesto? Sua exclusão do uso dos transportes públicos e a obrigatoriedade de se locomoverem a pé.

Era um privilégio masculino, do homem livre, utilizar o transporte público. Haveria como relacionar essa antiguidade ao presente? A existência de vagões exclusivos para mulheres, para evitar que sejam assediadas/abusadas, não indicaria, ainda, privilégio masculino no uso dos transportes públicos? Ao contrário do que possa parecer, não é um privilégio ter vagão exclusivo; isso indica exclusão, opressão; privilegiado é aquele que pode utilizar qualquer vagão a qualquer hora, sem medo. Digressões a parte, vejamos como se manifestou o senador Marco Catão, diante do protesto das mulheres romanas:

"Lembrem-se do grande trabalho que temos tido para manter nossas mulheres tranqüilas e para refrear-lhes a licenciosidade, o que foi possível enquanto as leis nos ajudaram. Imaginem o que sucederá, daqui por diante, se tais leis forem revogadas e se as mulheres se puserem, legalmente considerando, em pé de igualdade com os homens! Os senhores sabem como são as mulheres: façam-nas suas iguais, e imediatamente elas quererão subir às suas costas para governá-los”.

Qualquer semelhança com legisladores em atividade no Brasil, em pleno ano de 2013 D.C., seria mera coincidência? Seja como for, estas palavras do senador expressam com clareza a relação de poder entre os sexos. Catão não fala de complementaridade. Ele fala de domínio, submissão, coerção e resistência. O Direito já aparece, em Roma Antiga, como instrumento de perpetuação da assimetria, legitimando a inferioridade da posição social da mulher romana.

Cronistas romanos registraram com surpresa a posição da mulher na Gália e na Germânia. Eram sociedades tribais. Seu regime comunitário designava às mulheres um espaço de atuação semelhante ao homem. Juntos faziam a guerra, participavam dos Conselhos Tribais, ocupavam-se da agricultura e do gado, construíam suas casas. As mulheres funcionavam, também, como juízas (inclusive de homens!). Registros de outras sociedades desmistificam a idéia de que a sujeição da mulher é um destino irrevogável, universal.

Um exemplo menos velho? Ao chegar à América, cronistas europeus do século XVI se surpreenderam com a relevância da posição da mulher entre algumas tribos, sociedades de caçadores e coletores, como os Iroqueses e Hurons, nas quais não havia uma divisão estrita entre economia doméstica e economia social. Inexistia o controle de um sexo sobre o outro na realização de tarefas ou nas tomadas de decisões. Nessas sociedades, as mulheres participavam ativamente de discussões nas quais estavam em jogo os interesses da comunidade.

Os princípios da Legislação Romana foram suspensos nos primeiros séculos da Idade Média e, até serem reintroduzidos (o que acontece do século XIII em diante), as mulheres possuíram alguns direitos, garantidos pelas leis e pelos costumes. Quase todas as profissões e os direitos de propriedade e de sucessão eram-lhe acessíveis, por exemplo. Porém, falar sobre a Idade das Trevas (que em alguns períodos não é tão ‘trevas’ assim) ficará para outro dia.




Para quem gosta de história, textos bacanas sobre mulheres de antigamente:

28 de out de 2013

Grécia das antigas exclusões

“O machismo começou quando decidiram que deus seria homem”, costuma repetir um amigo que, assim como eu, vai para o inferno.

Pois digo que, ao menos no Ocidente, quem inventou o machismo oficial e institucionalizado foi a democracia. Essa democracia que todos aplaudem quando citam a Grécia Antiga. A maioria absoluta da população era composta de escravos lá no berço da democracia. Antes de Cristo, a mulher já ocupava funções compartilhadas com escravos. Os trabalhos manuais, desvalorizados pelos homens livres, eram executados por mulheres e escravos.

A função primordial da mulher, em Atenas, era a reprodução da espécie. Além de gerar, amamentar e criar os filhos, a mulher ateniense produzia o que era diretamente ligado à subsistência do homem. Alimentação, fiação, tecelagem, trabalho agrícola. Aquela ágora, onde se desenvolviam atividades consideradas nobres – artes, política, filosofia – era reservada ao homem. A divisão do público e do privado já recebia valorações diversas na Grécia Antiga!

Estudamos história do ocidente para entender o que somos hoje, mas ignoramos aquela parte da história que diz respeito às permanências e continuidades das discriminações e das exclusões. Em Atenas, ser livre significava ser homem, ateniense (estrangeiros não) e, obviamente, livre. Nas raízes da democracia ocidental já havia xenofobia.

Isso quer dizer que sou contra estudar história grega e ler filósofos gregos? De forma alguma. Ao contrário, acho que devemos ler tudo. Os pensadores e os escritores de uma época são uma forma de conhecê-la. Mesmo em obras de ficção ou artísticas, nos mostram como eram a sociedade e o pensamento daquela época. Tucídides, ao narrar a Guerra do Peloponeso, nos mostra muito de como era o pensamento na área de segurança, por exemplo. Reconhece-se, nesse caso, a influência de Tucídides no Realismo (uma corrente teórica de Relações Internacionais que, suspeito, é seguida por muitos chefes de Estado por aí atualmente).

Sou a favor de prestar atenção nos detalhes, nas entrelinhas. Fazer uma leitura crítica de qualquer coisa. Contextualizar àquela época. Platão, ao afirmar “se a natureza não tivesse criado as mulheres e os escravos, teria dado ao tear a propriedade de fiar sozinho”, nos diz muito de qual era a posição da mulher naquela sociedade. Xenofonte, no século IV A.C., já utilizava argumentos naturalistas que ainda hoje são usados. Para ele, “os deuses criaram a mulher para as funções domésticas, o homem para todas as outras”. Lembrando: o homem que não era escravo e nem estrangeiro.

A exceção ao horizonte limitado da mulher grega eram as hetairas, cortesãs que cultivavam as artes (o objetivo era tornarem-se agradáveis companheiras para os homens em seus momentos de lazer). Embora falemos tanto do pensamento e do conhecimento que os gregos cultivavam, não custa lembrar: a mulher grega não tinha acesso à educação intelectual. O único registro histórico de um centro para a formação intelectual da mulher é uma escola fundada por Safo, poetisa nascida em Lesbos no ano de 625 A.C..

Só voltei a ler sobre história, filosofia e mitologia gregas após uma viagem à Grécia. Antes da atual crise, em 2005. Meu interesse ao ir lá não era Mikonos e Santorini. Eu queria estudar história, ir a todos os sítios arqueológicos. Para começar, aquela grandeza toda que os livros de história antiga me ensinaram era mentira. A mitologia me disse que Zeus era o fodão e os únicos deuses presentes em todos os sítios arqueológicos são Apolo e Atena? A acrópole de Micenas é do tamanho de uma superquadra da Asa Sul, for Christ sake! (se não for menor!). Esse país era aquela civilização iluminada? Essa última é a pergunta que me fez buscar releituras e leituras novas.

Prefiro viajar a comprar coisas. Observar o contraste do antigo com o novo. Observar como as pessoas relacionam-se no presente, como se comportam. Conhecer pessoas criadas em culturas diferentes. Conhecer a gastronomia local. No caso da Grécia, até a paisagem me gerava questionamentos. Nem sempre é assim. Às vezes, a paisagem gera apenas apreciação, embasbacamento. Gosto de ir a shows de danças típicas em seus países de origem, observar o papel reservado a cada um (homem e mulher) nessas danças. Sabiam que o ouzo, uma bebida grega, tem versão feminina e masculina? A mais fraca eles dizem que “é de mulher”. Acho que sou homem, pois preferi a mais forte. Sabiam que o interior da Grécia foi o único lugar, exceto a Itália, no qual me foi muito útil saber conversar em italiano? 

História me atrai. Pensar o presente por meio dela também. Sou aquela esquizofrênica que adorou o filme 300, mas toda vez que re-assiste tem alguma observação nova de erro histórico (e sobre os corpitchos “This is Sparta!”). Sinceramente? Acho um erro que se dê mais importância ao ensino de física, química, matemática... do que ao ensino de história. É um erro que o ensino não estimule a fazer conexões entre história, literatura, geografia, religião, artes, direito. O sistema está montado para que as pessoas não pensem sobre a condição do ser humano e, conseqüentemente, a própria. 

Melhor pensar que a Grécia é o berço da democracia, da liberdade. Pega mal ser o berço de exclusões. Pega mal que tais exclusões permaneçam no ano de 2013 D.C..

21 de out de 2013

sobre tempo e economia (?)

Contos mal contados de horários de verão. Ou: a insônia ajuda a construir o caráter de uma pessoa.

Por causa dela, assisti a muitos filmes, li muitos livros, escrevi muitos textos. As melhores idéias, aquelas geniais, sempre vêm quando cabeça e travesseiro se encontram. Depois tais idéias se revelam medíocres, mas na hora eram geniais.

Por causa dela, aprendi a dormir em diversas mesas e cadeiras diferentes. Até em carteiras escolares de um braço só. Bibliotecas lotadas. Todas as aulas que já tive antes das 10 horas da manhã... bem, não lembro dessas aulas. Meu rendimento, para qualquer atividade que necessite de concentração, sempre foi pífio antes das 10. Trabalho, exercícios físicos, estudo... nada rende. Improdutividade impera.
 
Além disso, não gosto – acho que nunca gostei – de dormir cedo e acordar cedo. Mau humor é meu nome quando tenho que acordar cedo. Improdutiva e intratável quando acordo. Você ficaria de bom humor se fosse obrigado a acordar às 7 da manhã, mas não conseguisse dormir antes das 2? Acharia bacana ter que recorrer a um comprimido para conseguir ter sono?

O senso comum manda dormir 8 horas por dia. O senso comum é uma idiotice, ao tratar todos os seres humanos como se fossem únicos e tivessem um relógio biológico padronizado. Eu, por exemplo, fico bem a partir de 6 horas de sono. Outra idiotice do senso comum? Expedientes de trabalho com horário padronizado.

Infere-se, do exposto anteriormente, que sou completamente improdutiva antes das 10 da manhã. O horário de verão, somado à insônia, piora um pouco essa situação. Ir dormir às 3 da matina se transforma quase em ir dormir às 4. Acordar às 9 da manhã se torna acordar às 8. Intelectual e economicamente, pessoas como eu (e são muitas!) são irrelevantes de manhã cedo. Enquanto isso, há pessoas que se tornam completamente improdutivas depois que anoitece.

Por que não flexibilizar horários de entrada e de saída dos trabalhos, para aumentar a produtividade? É lógica: funcionários mais produtivos aumentam a produtividade das empresas. Quem gosta de madrugar que chegue às 6 e saia às 16. Outros que cheguem às 8 e saiam às 18. Que haja quem chegue às 10 e saia às 20. Essa flexibilização ajudaria até mesmo na melhoria do trânsito e da lotação dos transportes públicos.

Outra medida que tem a ver com flexibilização e produtividade se refere às famigeradas 8 horas diárias de trabalho. Primeiramente, sejamos honestos: na maioria dos casos, ninguém trabalha 8 horas. Sinceramente? Na maioria dos casos, 6 horas diárias de trabalho são suficientes. Há gente que enrola, enrola... e não consegue fazer em 8 horas o que poderia ser feito em 6 (estas criaturas são incompetentes, preguiçosas, o serviço público está cheio delas... e elas que sejam demitidas ou fiquem mais horas no trabalho).

Acho que as pessoas seriam mais produtivas se fossem obrigadas a passar menos tempo no trabalho e tivessem horários flexibilizados. O trânsito e a lotação do transporte público provavelmente diminuiriam. As pessoas chegariam mais relaxadas em casa, além de mais rápido. Todos teriam mais tempo livre para: estudar, fazer exercícios, ler, assistir TV, ficar com a família, jogar videogame, dormir... e uma infinidade de coisas.

Tempo é dinheiro, não é mesmo? Se não quiser pensar que teríamos uma sociedade mais feliz, pense que tempo livre significa, entre outras coisas, lucro. Trabalhadores mais produtivos aumentam a produtividade de uma empresa; aumenta, conseqüentemente, a produtividade da economia. Muitos usarão seu tempo livre para nada, como ficar em frente à TV acompanhando todas as novelas. Outros, porém, usarão esse tempo para estudar, tornando-se trabalhadores mais especializados e, portanto, mais produtivos e economicamente rentáveis (alguns deles ingressarão na vida acadêmica, nas pesquisas... inovação e pensamento, dizem, são a base de uma nação que se quer grande...).

Tempo livre, além de lucro, também significa economia de dinheiro público. Em vez de estudar, vai usar o tempo para jogar futebol ou ir para a academia? Para caminhar em algum local da cidade? Menos sedentários gerando gastos com a saúde. Acredito que menos obesidade também. Muita gente vai usar o tempo para ficar plantado em casa, com a boca cheia de dentes, assistindo à TV. Essa gente já faria isso de qualquer forma. Os outros não.


Se a minoria utilizaria bem seu tempo, contribuindo para seu próprio crescimento e para o país, essa minoria deveria receber esse benefício. O resto continuará improdutivo, com ou sem tempo livre. Ao menos, estarão mais felizes e contribuirão para a melhoria do trânsito e das condições de lotação dos transportes públicos. A vida de todos melhora com isso, ou não? Diminuem até as filas nos mercados de bairro (perto da minha casa, as filas próximo às 18hs são longas e demoradas, um verdadeiro desperdício de tempo e fator de estresse).

Diante do exposto, esclareço que não odeio o horário de verão, como pode parecer à primeira vista quando falo dele. Durmo um pouco menos nos meses em que este horário está em vigor, mas não é como se tivesse que me adaptar ao fuso horário do Japão. Sem dramas. Com ou sem horário de verão, o que me incomoda mesmo é a padronização, a obrigação de seguir um relógio biológico que nunca foi o meu – e suspeito que nunca será.

Por fim, obrigar pessoas com relógios biológicos diferenciados a seguir uma padronização de horário ao qual elas não se adaptam é, no mínimo, burro. Eu faria uma enorme argumentação sobre o conteúdo dessa burrice, mas o cansaço argumentativo é forte.

Cansada de ouvir “toma um chazinho” ou “toma maracujina” ou variações disso. O único setor da economia a se beneficiar de minha insônia é a indústria farmacêutica, que evito e, portanto, durmo pouco – e não, tomar um chazinho não resolve. Aceitaria, de bom grado, um fitoterápico daqueles cuja venda é proibida (mas qualquer um que quiser encontra fácil). Nada como um fitoterápico para dormir como um bebê.


Aliás, fica a pergunta? Por que deram o nome de insônia, genericamente, ao mal que me aflige? Conheço pessoas que não conseguem dormir e fim, independente do horário. Eu consigo, profundamente, durante horas seguidas. E dizem que tenho insônia. Discordo. O que tenho é um relógio biológico diferenciado. Ocorre que, desde sempre, normalmente só começo a sentir sono por volta das 2 da manhã. E durmo muitíssimo bem, obrigada.



"Nós perdemos três quartos de nós mesmos, a fim de ser como as outras pessoas."

Arthur Schopenhauer