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24 de fev de 2013

concurso público: para onde vamos?

"Enquanto multidões formam enormes filas diante da Porta do Estado, lá fora a pobreza econômica e o medo de ir contra a corrente revelam uma visão nebulosa da nação. Então surge o “indivíduo tornado massa”. As características desse tipo social são distinguíveis do sujeito que busca autonomia, livre pensamento e autenticidade. O “indivíduo tornado massa”, no geral, tem medo de traçar projetos próprios, sonha em se tornar o sujeito mais admirável de uma sociedade medíocre, é um dinheirista sem virtudes intelectuais, embrião de uma classe pouco produtividade e considera os próprios planos o símbolo da grandeza humana. Ou seja, tudo aquilo que NÃO condiciona os valores de uma cultura valiosa, tornou-se justamente o sonho do concurseiro tupiniquim.

Várias razões corroboram para a magnífica imagem profissional de nossa geração. A primeira delas diz respeito à dificuldade de criar e consolidar um negócio, algo que torna a figura do empresário uma realidade impraticável para muitos. Os altos impostos, a corrupção dos fiscais da receita e do trabalho, direitos trabalhistas exorbitantes e as inúteis dificuldades para regularizar uma empresa são alguns empecilhos impostos ao livre mercado. A estrutura estatizante hostiliza o livre mercado, já nem um pouco livre. E curiosamente, é o dinheiro das empresas privadas e dos assalariados que paga os salários dos servidores públicos que são, no geral, improdutivos. Além das dificuldades impostas pela regulamentação, as escolas e as universidades já revelam uma pedagogia utilitarista que a encarcera no mercado dos concursos. A família praticamente obriga o sujeito ao servilismo burocrático. As faixas nas ruas nunca dizem “Seja um empreendedor” ou “Seja um profissional liberal”. “Edital do TRE”, “Inscrições para ser Auditor Fiscal da Receita” e “Confirmado concurso para o INSS” são frases bastante compatíveis com o que o país está se tornando (uma ratoeira estatal que, quando os milhões de ratinhos morderem um pedacinho do queijo, em algum momento bastante guloso, perceberão que o queijo já não existe mais).

Como disse um amigo, quando o filho chegar para o pai e dizer, com o um sorriso no rosto, “Papai, quero ser cientista!”, o pobre garoto receberá uma bronca de deixar qualquer um bem miúdo: “Vá estudar para a Petrobrás, menino!”.

A despersonalização que o concurso público pode acarretar ao concurseiro é uma das razões que contorna, além do destino indefinido do sujeito, a péssima qualidade do serviço público. Como alguém pode ser, ao mesmo tempo, um bom candidato a bancário, auditor fiscal, policial e um técnico administrativo? O carreirismo burocrático deixa o concurseiro, muitas vezes, com ataques de esquizofrenia. O que ele almeja, independentemente da função e para onde vai, o que terá que aprender e se vai ou não vender a alma ao diabo, é o dinheiro.

O brasileiro vive, atualmente, numa obsessão inumana de status burocrático, na busca desenfreada de cargo-salário e na luta por trabalhar afogado em papeladas e espreguiçadeiras estatais. O leitor talvez se pergunte o que é uma “espreguiçadeira estatal”. Respondo: é ir a­­o trabalho e nada fazer. O concurseiro, quando ingressa em algum órgão público, além de fazer concurso para todas as áreas e, obviamente, não ter aptidão para todas, ele é feliz e improdutivo porque seu emprego é assegurado. Por essa razão, trabalha pouco e não sente refletido no salário o fato de ser preguiçoso e improdutivo, além de grevista.

O concurserio é competitivo somente no período em que realiza a prova. Quando ingressa – e se ingressar –, torna-se o ser mais ocioso do mundo, parasita de privilégios regalados, além de corporativista e defensor de seus cargos de carreira. Por incrível que pareça, a defesa dos cargos de carreira obtêm resultados positivos na mesma medida em que cresce o desleixo com a qualidade do funcionalismo público. Sentem-se satisfeitos como se estivessem no paraíso e são estupidamente arrogantes mesmo constituindo a imagem perfeita do idiota útil. Boa parte é hostil a qualquer mudança de ordem econômica quando tal mudança implica a diminuição orçamentária e o poder do Estado. É uma classe reacionária por excelência.

Por outro lado, o concurseiro que almeja a vida fácil, proporcionada pela máquina estatal, é o mesmo que reclama o quanto os serviços públicos são ineficientes e de má qualidade. Mal sabe que, daqui a um tempo, pode ser ele o motivo das queixas. E o curioso é que, além de alimentar a ineficácia da máquina com indisposição e receptando salários altíssimos, desmerecidos quando comparados com o trabalho exercido, a produtividade praticamente nula revela uma anomalia econômica, pois o Estado se apropria das riquezas geridas por aqueles que, infelizmente, realmente labutam. Neste país, indiferente a quem não quer fazer parte do domínio da menina dos olhos grandes, trabalha-se em favor das mordomias de uma classe ociosa e inútil.

O crescimento do Estado está proporcionalmente condicionado à riqueza da sociedade civil privada, cuja boa parte do lucro é decomposta em alta carga tributária. Por outro lado, uma espécie de contrato sem recompensas faz com que o tributo não gere prosperidade para a nação. Assim, podemos afirmar que o concurseiro é tipo social mais egoísta que existe e o menos importante na produção de riqueza, o que desmente a vaga ideia de que o empresário é o maior sanguessuga do país.

O Leviatã abre um sorriso familiar e se agacha, justamente para fazer com que a classe dos inúteis gloriosos suba em seus ombros para festejar a aparente bondade do Senhor dos Cargos Públicos. E os tributos arrecadados do trabalhador – bilhões e bilhões de reais – se tornam sinônimos de hospitais e escolas aos pedaços, órgãos públicos ineficientes, burocratas magnatas – o sonho do homem tornado massa –, corrupção e impunidade.

Então chega o momento das eleições e o Estado, com uma piscadela, age como um coronel. É como se pudéssemos entender o governo federal como o senhor de engenho moderno. Os funcionários públicos, os que almejam cargos públicos e, de certo modo, toda a nação, formam o exército do SIM, agradecidos por ainda existir a possibilidade de escalarem a pirâmide social por meio de um edital supimpa: 10 vagas para 50.000 concorrentes. É como jogar um pedaço de carne para 1.000 cães gladiarem desesperadamente. A sociedade brasileira pode ser interpretada como uma matilha.

Como não é difícil de imaginar, a arrecadação de impostos é o que paga a folha de salários do funcionário público. Em muitos casos, a folha de pagamento supera o gasto em serviços que atendem a população. O inchaço do poder público e o aumento da burocracia estatal é, sem dúvidas, uma tragédia disfarçada de bom mocismo. Disfarçada porque o cidadão não consegue duvidar que, aquele que abre vagas para órgãos públicos – aquele que lhe oferece emprego –, é o mesmo que esvazia o bolso do país e não oferece recompensas que algo com o tamanho de Leviatã aparenta ser capaz de oferecer."


***Apesar de achar um pouco radical, concordo em gênero, número e grau com a essência do que está escrito. O texto acima não é de minha autoria e pode ser lido na íntegra AQUI.