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25 de mar de 2013

estímulo à mediocridade


A quem o MEC pretende enganar dando nota máxima a redações do Enem que não demonstram domínio básico do português, ou dando bolsas no exterior a universitários que não falam um segundo idioma?

O que se esperaria de uma redação nota 10 – ou nota 1.000, no sistema de pontuação do Exame Nacional do Ensino médio (Enem)? No mínimo, um texto bem escrito, articulado, em que o autor demonstra seu domínio do idioma ao não cometer erros (ou, abusando da boa vontade, não cometer erros grosseiros). Mas, a julgar pela correção das redações do último Enem, os critérios de excelência usados por Professores em todo o país estão com os dias contados. Entre os textos com nota máxima no exame do Ministério da Educação estão peças com erros de ortografia como “rasoavel”, “enchergar” e “trousse”, revelou o jornal O Globo, que havia solicitado ao MEC exemplos de redações com nota 1.000.

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A justificativa do Inep (órgão do MEC responsável pelo exame) para tal tolerância chega a ofender a inteligência do cidadão comum: os erros teriam de ser relevados porque se trata de “um egresso do Ensino médio, ainda em processo de letramento na transição para o nível superior”. Em um sistema educacional minimamente decente, o “processo de letramento” estaria concluído no Ensino fundamental, cabendo ao Ensino médio apenas o refinamento da forma culta.

Antes esse fosse um caso isolado, mas o mesmo MEC que tolera o “enchergar” e o “rasoavel” em redações com nota máxima também envia para Alemanha, França, Itália e Estados Unidos universitários cadastrados no programa Ciência sem Fronteiras e que não falam alemão, francês, italiano ou inglês. Mesmo sendo incapazes de uma conversação básica no idioma do país onde estudarão, esses brasileiros recebem bolsas, custeadas com dinheiro público, para frequentar cursos que não compreenderão. A descoberta das “redações nota 1.000” mostra que não são apenas as línguas estrangeiras que os universitários desconhecem.

Essas situações revelam que o país vive uma verdadeira cultura da mediocridade. Em vez de incentivar a excelência e a busca pelo melhor desempenho possível, programas governamentais como o Enem e o Ciência sem Fronteiras reduzem cada vez mais seus critérios até que a ignorância se torne aceitável – e, pior ainda, seja recompensada com uma nota máxima em um teste, ou uma bolsa de estudos. 

Nenhum país que pretenda ser líder em Educação, pesquisa e inovação atingirá tal objetivo seguindo uma política de aceitar pacificamente a incapacidade de seus estudantes, justificada com argumentos pífios sobre “processos de letramento” ou remendada com cursos relâmpagos de dois meses que não fazem um universitário conhecer suficientemente um idioma a ponto de entender aulas nessa língua.

A quem estamos enganando? O erro grosseiro de ortografia e concordância que vale nota 1.000 na redação do Enem acabaria com as chances desse mesmo candidato em um processo seletivo para qualquer emprego que exija um mínimo de qualificação. Um bolsista monoglota do Ciência sem Fronteiras terá pouco ou nada a acrescentar ao currículo.

É verdade, as metas de estudantes enviados ao exterior ou de vagas preenchidas nas universidades federais usando a nota do Enem serão cumpridas. O MEC poderá exibir orgulhosamente seus índices quantitativos, sempre convenientes em época eleitoral. Enquanto isso, o Brasil vira, pouco a pouco, uma nação de ignorantes diplomados.



***Embora eu concorde em gênero, número e grau, o texto acima não é de minha autoria (apenas os grifos são meus) e pode ser lido na íntegra AQUI.