Páginas

30 de mai de 2013

traduções e ficções

“É contra ti que me lanço, resoluto e invencível, Morte!”
(Tradução de Lya Luft.)

“Contra ti me arremeto, invencível e inquebrantável, ó Morte!”
(Tradução de Tomaz Tadeu.)

Virginia Woolf, “As ondas”









Se com um livro razoavelmente novo acontece uma coisa pequena dessas, principalmente se considerarmos que as línguas não são tão distantes assim e têm basicamente o mesmo alfabeto...

Imagine com a Bíblia, ao longo de milhares de anos?

Creio que resume bem o que penso sobre o livro de ficção mal traduzido*


Bom dia santo (feriado) a todos. Leiam a Bíblia, não se esqueçam que hoje é Corpus Christie e estejam na Missa rezando pela transformação da matéria. Amém.





*expressão retirada desse texto, da Clara Averbuck.

13 de mai de 2013

instinto materno

Quando uma mulher engravida, todas as responsabilidades sobre a gravidez recaem sobre ela. É a mulher que deve cuidar da saúde, se alimentar direito, se comportar como mãe (seja lá o que isso significa!). Se a gravidez acontecer sem planejamento, piora um pouco. As cobranças e os julgamentos da sociedade são todos direcionados a ela.

Discursos comuns: “Engravidou porque quis”, “Devia ter se protegido”, “Vai cuidar como de uma criança?”, “Está dando o golpe da barriga”. Bláblábláblá.

Em todos os casos e, especialmente, naqueles em que não houve planejamento e a gravidez foi fruto de um, digamos, acidente, falta uma peça. Ou será possível uma mulher se auto fecundar? Engravidar do vibrador? Por que nunca é o homem que devia ter se protegido? Por que nunca é o homem que engravidou alguém porque quis? Por que nunca se pergunta como o homem vai cuidar de uma criança?

Mãe solteira é puta. Pai solteiro nem é chamado de pai solteiro. E vejam só, para o homem, é ainda mais fácil evitar filhos do que para a mulher por 2 motivos: ele não vai engravidar MESMO e basta usar uma camisinha. Não usou, a mulher engravidou e ela é que foi irresponsável? O plural foram não seria mais adequado?

A mãe passará 9 meses por mudanças físicas, hormonais, emocionais. Depois usará seu corpo para alimentar os filhos. E passará o resto de sua vida cuidando dos filhos, preocupada com eles. Ainda assim, se não for mãe em um relacionamento monogâmico estável, será “mal dita” (de maledicência mesmo)... enquanto o homem nem precisa ser pai se não quiser, pode servir apenas como doador de esperma mesmo.

Se em geral homens casados que criam seus filhos junto com a mulher ainda deixam a maior parte das funções de cuidar e educar para as mães, imagina os outros! Eles podem não assumir os filhos, abandonar a grávida antes ou depois do nascimento, ser pai de fim de semana, de quinzena ou só de férias.
 
Dessa forma, nada mais justo que seja também a mulher, e somente ela, a decidir sobre a manutenção ou não de uma gravidez. Ainda que soe subversivo para alguns, sou radical nesse assunto: para mim homens simplesmente não devem opinar sobre o assunto aborto enquanto forem incapazes de engravidar.

Essas palavras mal escritas e descoordenadas entre si são apenas para dizer um FELIZ DIA DAS MÃES (propositadamente no dia errado) a todas aquelas que são, de fato, mães. Quiseram ser mães e cabem, perfeitamente, no que já escrevi aqui. E para desejar que, em um futuro não muito distante, aquelas que não quiserem ser mães não precisem ser coagidas a isso. Feliz dia das mães e das não-mães... e que esse dia possa acontecer, com liberdade para as duas, 365 vezes ao ano.

9 de mai de 2013

publicidade e gênero

E se os papéis de gênero na publicidade fossem trocados? A publicidade se sentiria um pouco mais ridícula se os homens fossem sexualizados como as mulheres são?

Vídeo excelente!


 

6 de mai de 2013

Bolsa Família

O Bolsa Família está completando 10 anos e já chega à segunda geração de beneficiados. Antes de prosseguir, esclareço uma coisa: não sou contra este programa e nem contra qualquer outro programa que vise melhorar a vida de pessoas miseráveis. Não acho que esses programas são uma inutilidade ou dinheiro mal gasto dos impostos da pobre classe média que tanto sofre. Também não acho que o Bolsa Família seja um demérito para a democracia por si mesmo, muito menos apenas um programa gerador de curral eleitoral, como muitos dizem.

O Bolsa Família tem, entretanto, um erro gravíssimo e estar já na segunda geração de beneficiados deixa este erro ainda mais claro. Ele não capacita as pessoas para andarem com as próprias pernas e, dessa forma, está criando gerações de dependentes dessas migalhas - sim, esse dinheiro, a médio e longo prazos, se outras medidas não forem adotadas, é nada mais do que migalhas jogadas aos pobres que continuarão pobres. Perpetuação da miséria sim, caso investimentos sérios em outras áreas continuem não sendo feitos.

É simplista dizer que o Bolsa Família é, na verdade, um clientelismo explícito. Acaba sendo isso também, mas não só. Eu, pessoalmente, acho uma crueldade o que o governo faz com o povo e eles não têm condições de compreender isso. Do jeito que as coisas andam, sem investimentos sérios em outras áreas, chegaremos à terceira geração de beneficiários do Bolsa Família. Não seria algum tipo de escravidão ficar preso, dependente de um programa assistencialista desses, por gerações?

Transferência de renda de verdade, a médio e longo prazos, se faz com investimentos sérios em educação, infraestrutura e geração de empregos. Em dez anos, isso já teria provocado muitas mudanças. Porém, neste período viramos penúltimos do mundo em educação, a infraestrutura de produção foi sucateada e a geração de empregos é financiada pelo endividamento da população e aumento da dívida interna, sem nenhuma sustentabilidade.

Palmas para o PT! E palmas para quem acha bonito estarmos já na segunda geração de beneficiados pelo Bolsa Família, sem investimentos sérios e qualitativos no que precisava ser feito, para que não houvesse necessidade de uma segunda e, provavelmente, terceira geração recebendo esse benefício.


5 de mai de 2013

politicamente chato


Título alternativo: Sabia que dá para defender alguma causa sem, necessariamente, virar um bitolado?

Antes de prosseguir, leia o texto abaixo que circulou estes dias no Facebook de amigos meus, escrito por uma amiga hetero. Ao final da leitura, pergunte-se: o texto passou bem a mensagem que queria passar?


“Os homossexuais viveram durante séculos em uma verdadeira ditadura do heterossexualismo. Depois de anos de escárnio, maus tratos, violência gratuita e preconceito decidiram dar um "basta" e lutar pelos seus direitos. Decidiram que merecem ser tratados com a mesma dignidade que qualquer outra pessoa no mundo. E aí me vem você chamar isso de "Ditadura do Homossexualismo" e reclamar que não pode manifestar sua opinião contra o casamento gay sem que haja oposição ao seu redor. Tadinho de você... Que dó!

Manifestar uma opinião, você pode, como qualquer outra pessoa pode (ou deveria poder). O que você não pode é dar asas ao seu preconceito e maltratar alguém que não partilha da sua opinião. O que você não pode é pensar que está livre de críticas. Porque, como qualquer outra pessoa, ao manifestar sua opinião você estará sujeito às réplicas daqueles que não pensam como você. Aprenda a conviver com isso.

Não li em manifesto algum que os gays desejem tornar o mundo homossexual; pelo contrário, os que conheço querem apenas respeito aos diferentes estilos de vida que já existem. E isso inclui o seu!”

Texto escrito por Ligia Lins




Em minha opinião, o texto consegue passar a mensagem a que se propõe, resumida no último parágrafo. Porém, os bitolados de plantão conseguem achar vários problemas de redação, a começar pelo uso dos termos de forma errada, já que não é correto usar “heterossexualismo” no lugar de heterossexualidade e nem “homossexualismo” no lugar de homossexualidade. Os mais bitolados ainda dizem que ela é “cis” e, portanto, não sabe do que está falando. Chamo o pessoal que faz esse tipo de crítica de politicamente chato.

Há o politicamente correto, o politicamente incorreto e o politicamente chato. Esse último, embora não perceba, mancha o correto e acaba ajudando no crescimento do incorreto. É aquele chato que critica até a língua portuguesa e quer subvertê-la, já que ela é machista e deveríamos usar, em vez de plural masculino, @ ou X para falar de todxs. Que me desculpem os chatos, mas sou a favor do uso da norma culta e tenho certeza de que se ela passar a mensagem de forma certa, o plural masculino não faz a menor diferença.

Já tentei participar de grupos de discussão de gênero, mas simplesmente não consigo. É muita gente politicamente chata junta. Um dos blogs que mais gosto de ler é escrito por uma mulher (transsexual) e passa sua mensagem de modo muito mais eficaz, para os leigos, do que blogs politicamente chatos. O leigo não sabe nem o que é “cis” ou qual a diferença entre homossexualismo e homossexualidade. A mensagem que será passada, para o leigo, independe do termo que está sendo usado.

Eu, pessoalmente, sou contra esse negócio de rotular e nominar tudo. Para mim, existem apenas pessoas – e todas as categorias (gays, lésbicas, trans, heteros) encaixam-se nesta denominação. Acredito, ainda, que querer diferenciar, no discurso, uma mulher hetero de uma trans, por exemplo, ajuda apenas a alimentar o preconceito de quem já é preconceituoso, ajuda apenas a que a trans não seja vista como uma mulher normal.

Dessa forma, refaço a pergunta inicial do título alternativo: sabia que dá para defender uma causa sem, necessariamente, virar um bitolado? Sejamos menos bitolados ok.

2 de mai de 2013

o suicídio


No último final de semana, uma tal de Natalia virou o assunto mais comentado no twitter. Eu não sabia quem era, nunca sequer havia ouvido falar nessa pessoa. A garota supostamente tentara suicídio, avisara via redes sociais e a maioria absoluta das pessoas estava fazendo piadas sobre o caso. Inicialmente, fiquei indignada com os piadistas e, mesmo sem conhecer, a defendi – este é um assunto que não tem nenhuma graça virar motivo de chacota, como diz a Marta em seu excelente texto. Mais tarde, porém, fiquei indignada com a tal suicida e pelo mesmo motivo: não tem graça fazer brincadeira com esse assunto.

Restou alguma dúvida sobre o teatrinho para chamar atenção? Muita pena dessa garota, pois ela é sim doente – a pessoa precisa estar muito doente para usar algo assim buscando chamar atenção. E, sinceramente, quase 70 mil pessoas continuarem seguindo alguém que monta uma farsa dessa e continua mentindo descaradamente depois? A garota é doente e precisa de tratamento? Seus seguidores são...? Não sei nem o que pensar. A única coisa que sei é que, se a encontrasse, daria um belo sermão.

Não me interessa qual transtorno essa garota tem – isso deve ser devidamente tratado em terapia. O teatrinho dessa moça ajuda somente a que as pessoas por aí façam ainda mais piadas com um assunto sério e não dêem a devida atenção a ele. A criatura faz um teatro desses para quase 70 mil seguidores e acaba, ainda, reverberando em quem nem sabia da existência dela. Um suicida de verdade já é chamado de attention whore... e um caso desse, em vez de desmistificar o assunto, faz exatamente o contrário.

O senso comum já não leva a sério histórias de pessoas que tentam suicídio – o normal é acharem que era apenas alguém querendo chamar atenção, dizerem que é frescura. Teatros não ajudam muito nesse sentido. O senso comum também acha que um ato desses é puramente individual e a sociedade esquiva-se de suas responsabilidades. Não entendo nada de psicologia, mas tendo a concordar com um autor que conheci em minha graduação: apesar de ter todos os atributos de um ato individual, o suicídio é um fenômeno social.

Apesar de escrito no século XIX, O Suicídio, de Durkheim, é atemporal (recomendo a leitura – alguns trechos AQUI). Ele constrói sua análise com base em dados estatísticos sobre a sociedade francesa (taxa social de suicídio) e mede a relação entre o número global de mortes voluntárias e a população de qualquer idade e de ambos os sexos. Para o autor, o suicídio faz parte de uma sociedade e, por ser recorrente, deve ser estudado como uma característica que ela possui. Durkheim classificou o suicídio em três tipos*: altruísta, anômico e egoísta. Na sociedade atual, o suicídio egoísta costuma ser o mais recorrente.

Durkheim acredita que há diferenças entre as populações mais intelectualizadas e que viver nas cidades seria a razão de terem maior inclinação ao suicídio - quanto maior a cidade, mais você se sente sozinho. A sociedade é individualista, o que leva o autor a afirmar que uma individualização excessiva leva ao suicídio. Quando desligado da sociedade, o homem se mata mais facilmente. O suicídio egoísta é cometido por indivíduos preocupados essencialmente consigo próprios e pouco integrados a grupos e é possível que a internet atinja esses indivíduos de forma negativa, pois ela favorece a renúncia, o desapego, a desintegração.

O isolamento que a internet promove é mascarado - a pessoa está, ao mesmo tempo, integrada e sozinha. A internet tem um poder de influência grande, capaz em alguns casos de modificar a personalidade do indivíduo que, ao sentir-se excluído, perde o equilíbrio emocional e passa a ver o mundo de forma egocêntrica, já que não mantém relações interpessoais fixas. O individualismo extremado não permite a busca por ajuda, como o auxílio de psicólogos e psiquiatras e, dessa forma, o suicida egoísta acredita que a única solução para seus problemas é a morte, ignorando o fato de que as pessoas que o amam irão sofrer.

Nisso tudo, eu diria que a sociedade na qual o suicida está inserido é tão responsável pelo seu ato quanto ele mesmo. Acrescentaria, por experiência própria e por observação, que qualquer pessoa, depressiva ou não, está sujeita a algo que puxe o gatilho. Dessa forma, acho lamentável tanto quem faz piada com o suicídio alheio, quanto alguém que forja um suicídio. Vergonha alheia de quem é piadista e, também, de quem procura palco e espectadores para seu teatro.








*Os outros 2 tipos de suicídio, segundo Durkheim, são:

Suicídio Altruísta: o indivíduo sente-se no dever de fazê-lo para se desembaraçar de uma vida insuportável. O ego não o pertence, confunde-se com outra coisa que se situa fora de si mesmo, isto é, em um dos grupos a que o indivíduo pertence. Exemplos: os kamikazes japoneses, os muçulmanos que colidiram com o World Trade Center em 2001, etc.;
Suicídio Anômico: ocorre em uma situação de anomia social, ou seja, quando há ausência de regras na sociedade, gerando o caos, fazendo com que a normalidade social não seja mantida. Em uma situação de crise econômica, por exemplo, na qual há uma completa desregulamentação das regras normais da sociedade, certos indivíduos ficam em uma situação inferior a que ocupavam anteriormente, há perda de riquezas e poder e os índices desse tipo de suicídio aumentam.