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2 de mai de 2013

o suicídio


No último final de semana, uma tal de Natalia virou o assunto mais comentado no twitter. Eu não sabia quem era, nunca sequer havia ouvido falar nessa pessoa. A garota supostamente tentara suicídio, avisara via redes sociais e a maioria absoluta das pessoas estava fazendo piadas sobre o caso. Inicialmente, fiquei indignada com os piadistas e, mesmo sem conhecer, a defendi – este é um assunto que não tem nenhuma graça virar motivo de chacota, como diz a Marta em seu excelente texto. Mais tarde, porém, fiquei indignada com a tal suicida e pelo mesmo motivo: não tem graça fazer brincadeira com esse assunto.

Restou alguma dúvida sobre o teatrinho para chamar atenção? Muita pena dessa garota, pois ela é sim doente – a pessoa precisa estar muito doente para usar algo assim buscando chamar atenção. E, sinceramente, quase 70 mil pessoas continuarem seguindo alguém que monta uma farsa dessa e continua mentindo descaradamente depois? A garota é doente e precisa de tratamento? Seus seguidores são...? Não sei nem o que pensar. A única coisa que sei é que, se a encontrasse, daria um belo sermão.

Não me interessa qual transtorno essa garota tem – isso deve ser devidamente tratado em terapia. O teatrinho dessa moça ajuda somente a que as pessoas por aí façam ainda mais piadas com um assunto sério e não dêem a devida atenção a ele. A criatura faz um teatro desses para quase 70 mil seguidores e acaba, ainda, reverberando em quem nem sabia da existência dela. Um suicida de verdade já é chamado de attention whore... e um caso desse, em vez de desmistificar o assunto, faz exatamente o contrário.

O senso comum já não leva a sério histórias de pessoas que tentam suicídio – o normal é acharem que era apenas alguém querendo chamar atenção, dizerem que é frescura. Teatros não ajudam muito nesse sentido. O senso comum também acha que um ato desses é puramente individual e a sociedade esquiva-se de suas responsabilidades. Não entendo nada de psicologia, mas tendo a concordar com um autor que conheci em minha graduação: apesar de ter todos os atributos de um ato individual, o suicídio é um fenômeno social.

Apesar de escrito no século XIX, O Suicídio, de Durkheim, é atemporal (recomendo a leitura – alguns trechos AQUI). Ele constrói sua análise com base em dados estatísticos sobre a sociedade francesa (taxa social de suicídio) e mede a relação entre o número global de mortes voluntárias e a população de qualquer idade e de ambos os sexos. Para o autor, o suicídio faz parte de uma sociedade e, por ser recorrente, deve ser estudado como uma característica que ela possui. Durkheim classificou o suicídio em três tipos*: altruísta, anômico e egoísta. Na sociedade atual, o suicídio egoísta costuma ser o mais recorrente.

Durkheim acredita que há diferenças entre as populações mais intelectualizadas e que viver nas cidades seria a razão de terem maior inclinação ao suicídio - quanto maior a cidade, mais você se sente sozinho. A sociedade é individualista, o que leva o autor a afirmar que uma individualização excessiva leva ao suicídio. Quando desligado da sociedade, o homem se mata mais facilmente. O suicídio egoísta é cometido por indivíduos preocupados essencialmente consigo próprios e pouco integrados a grupos e é possível que a internet atinja esses indivíduos de forma negativa, pois ela favorece a renúncia, o desapego, a desintegração.

O isolamento que a internet promove é mascarado - a pessoa está, ao mesmo tempo, integrada e sozinha. A internet tem um poder de influência grande, capaz em alguns casos de modificar a personalidade do indivíduo que, ao sentir-se excluído, perde o equilíbrio emocional e passa a ver o mundo de forma egocêntrica, já que não mantém relações interpessoais fixas. O individualismo extremado não permite a busca por ajuda, como o auxílio de psicólogos e psiquiatras e, dessa forma, o suicida egoísta acredita que a única solução para seus problemas é a morte, ignorando o fato de que as pessoas que o amam irão sofrer.

Nisso tudo, eu diria que a sociedade na qual o suicida está inserido é tão responsável pelo seu ato quanto ele mesmo. Acrescentaria, por experiência própria e por observação, que qualquer pessoa, depressiva ou não, está sujeita a algo que puxe o gatilho. Dessa forma, acho lamentável tanto quem faz piada com o suicídio alheio, quanto alguém que forja um suicídio. Vergonha alheia de quem é piadista e, também, de quem procura palco e espectadores para seu teatro.








*Os outros 2 tipos de suicídio, segundo Durkheim, são:

Suicídio Altruísta: o indivíduo sente-se no dever de fazê-lo para se desembaraçar de uma vida insuportável. O ego não o pertence, confunde-se com outra coisa que se situa fora de si mesmo, isto é, em um dos grupos a que o indivíduo pertence. Exemplos: os kamikazes japoneses, os muçulmanos que colidiram com o World Trade Center em 2001, etc.;
Suicídio Anômico: ocorre em uma situação de anomia social, ou seja, quando há ausência de regras na sociedade, gerando o caos, fazendo com que a normalidade social não seja mantida. Em uma situação de crise econômica, por exemplo, na qual há uma completa desregulamentação das regras normais da sociedade, certos indivíduos ficam em uma situação inferior a que ocupavam anteriormente, há perda de riquezas e poder e os índices desse tipo de suicídio aumentam.