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5 de mai de 2013

politicamente chato


Título alternativo: Sabia que dá para defender alguma causa sem, necessariamente, virar um bitolado?

Antes de prosseguir, leia o texto abaixo que circulou estes dias no Facebook de amigos meus, escrito por uma amiga hetero. Ao final da leitura, pergunte-se: o texto passou bem a mensagem que queria passar?


“Os homossexuais viveram durante séculos em uma verdadeira ditadura do heterossexualismo. Depois de anos de escárnio, maus tratos, violência gratuita e preconceito decidiram dar um "basta" e lutar pelos seus direitos. Decidiram que merecem ser tratados com a mesma dignidade que qualquer outra pessoa no mundo. E aí me vem você chamar isso de "Ditadura do Homossexualismo" e reclamar que não pode manifestar sua opinião contra o casamento gay sem que haja oposição ao seu redor. Tadinho de você... Que dó!

Manifestar uma opinião, você pode, como qualquer outra pessoa pode (ou deveria poder). O que você não pode é dar asas ao seu preconceito e maltratar alguém que não partilha da sua opinião. O que você não pode é pensar que está livre de críticas. Porque, como qualquer outra pessoa, ao manifestar sua opinião você estará sujeito às réplicas daqueles que não pensam como você. Aprenda a conviver com isso.

Não li em manifesto algum que os gays desejem tornar o mundo homossexual; pelo contrário, os que conheço querem apenas respeito aos diferentes estilos de vida que já existem. E isso inclui o seu!”

Texto escrito por Ligia Lins




Em minha opinião, o texto consegue passar a mensagem a que se propõe, resumida no último parágrafo. Porém, os bitolados de plantão conseguem achar vários problemas de redação, a começar pelo uso dos termos de forma errada, já que não é correto usar “heterossexualismo” no lugar de heterossexualidade e nem “homossexualismo” no lugar de homossexualidade. Os mais bitolados ainda dizem que ela é “cis” e, portanto, não sabe do que está falando. Chamo o pessoal que faz esse tipo de crítica de politicamente chato.

Há o politicamente correto, o politicamente incorreto e o politicamente chato. Esse último, embora não perceba, mancha o correto e acaba ajudando no crescimento do incorreto. É aquele chato que critica até a língua portuguesa e quer subvertê-la, já que ela é machista e deveríamos usar, em vez de plural masculino, @ ou X para falar de todxs. Que me desculpem os chatos, mas sou a favor do uso da norma culta e tenho certeza de que se ela passar a mensagem de forma certa, o plural masculino não faz a menor diferença.

Já tentei participar de grupos de discussão de gênero, mas simplesmente não consigo. É muita gente politicamente chata junta. Um dos blogs que mais gosto de ler é escrito por uma mulher (transsexual) e passa sua mensagem de modo muito mais eficaz, para os leigos, do que blogs politicamente chatos. O leigo não sabe nem o que é “cis” ou qual a diferença entre homossexualismo e homossexualidade. A mensagem que será passada, para o leigo, independe do termo que está sendo usado.

Eu, pessoalmente, sou contra esse negócio de rotular e nominar tudo. Para mim, existem apenas pessoas – e todas as categorias (gays, lésbicas, trans, heteros) encaixam-se nesta denominação. Acredito, ainda, que querer diferenciar, no discurso, uma mulher hetero de uma trans, por exemplo, ajuda apenas a alimentar o preconceito de quem já é preconceituoso, ajuda apenas a que a trans não seja vista como uma mulher normal.

Dessa forma, refaço a pergunta inicial do título alternativo: sabia que dá para defender uma causa sem, necessariamente, virar um bitolado? Sejamos menos bitolados ok.