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12 de jun de 2013

dia dos namorados

“Às vezes assusto-me com a tenuidade das relações afetivas (e aqui não apenas as conjugais, como também as de pura amizade).
Parece que cada vez menos motivo é capaz de pô-las em xeque, como se fossem plenamente substituíveis. Que tipo de perfeição querer no outro, quando nós mesmos temos muito mais defeitos do que fios de cabelo? [aos carecas, lembrem-se dos que já tiveram um dia]
O verdadeiro elo jamais se deixa ruir por falhas vãs.” *

*copiado do perfil do Raphael Borges, no Facebook.


Roubando a fala – ou melhor, tomando-a emprestada. Para falar das efemeridades. Do quanto até o grande amor da nossa vida pode ser, simplesmente, efêmero. Ainda assim, não sei o que dizer. 

O efêmero talvez não exista como gostaríamos. Talvez seja uma invenção humana, aperfeiçoada na contemporaneidade, para fugir do enfrentamento. Não sejamos inocentes. Quase sempre, o defeito que não toleramos no outro, é nada mais do que um reflexo nosso, do que não toleramos em nós. Estaríamos cada vez mais intolerantes conosco?

A busca pela perfeição estética, transformada em parte intrínseca de nossa sociedade, normatizada, aceita... essa busca não seria, também, uma forma de minimizarmos nossos defeitos? Projetar no outro nossa necessidade de perfeição seria o quê? Começo a pensar que o estético é só a ponta do iceberg de um problema bem maior... lembro das leituras da época da Comunicação, de Edgar Morin.

Estamos, sim, vivendo o fenômeno da multidão solitária. Relações de contigüidade, que não se aprofundam e tornam-se cada vez mais descartáveis. E, se o outro não se encaixar no que espero dele, adeus? Acredito que a questão seja um pouco diferente. Perfeição é uma palavra mentirosa, inexistente. Defeitos estão em tudo, em todos... Quais deles são tranquilos para convivência? Quais são insuportáveis?

Não me preocupo quando vejo pessoas, do alto dos seus 18-20 anos, reclamando da efemeridade das relações... isso é normal! Tudo é mais intenso quando somos mais jovens, as decepções, os amores, as raivas... Felizmente, vários descobrem, com o tempo, que amar é: reconhecer e aceitar os defeitos daquela pessoa tão imperfeita quanto você, e que a aceitação das deficiências é recíproca e existe para crescimento pessoal de ambos.

Via de mão única não é amor. Inclua, aqui, família e amizade. São relações, assim como as conjugais, nas quais é necessário que haja amor, verdadeiro. Via de mão dupla. Cooperação. Aceitação. Respeito. Confiança. Sinceridade.

Então, de repente, olho ao meu redor e vejo, nesta data comercial, muitas pessoas sentindo-se como leprosas, por estarem solteiras... Ao mesmo tempo, vejo casais nos quais os cônjuges estão absolutamente sós.

Acho que o ser humano está tão culturalmente socializado a procurar sua metade que se esquece de que pode (e deve!) ser inteiro. Outra pessoa não vem para completar, vem para somar. E, sinceramente, pelo que vejo por aí, juntos e, ao mesmo tempo, sozinhos... comodismo ou medo de ficar sós?... vivendo uma monogamia de fachada... Sinceramente, esses teatros não são para mim.

Aos que estão juntos porque felizes, inteiros... digo apenas que aproveitem a data comercial como mais uma desculpa para cultivarem o amor. Quando lembrarem de Bukowski, pensem que quando somos nossa melhor forma de entretenimento, inteiros, confortáveis com o que somos... só então alguém se sentirá da mesma forma em relação a nós.


"Nunca me senti só. Gosto de estar comigo mesmo. Sou a melhor forma de entretenimento que posso encontrar." Charles Bukowski