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19 de jun de 2013

sem abandono não há mudança

“Eu morreria feliz se eu visse o Brasil cheio, em seu tempo histórico, de marchas. Marcha dos que não tem escolas, marcha dos reprovados, marcha dos que querem amar e não podem, marcha dos que se recusam a uma obediência servil, marcha dos que se rebelam, marcha dos que querem ser e estão proibidos de ser. (…) Eu acho que essas marchas nos afirmam como gente, como sociedade querendo democratizar-se.”
Paulo Freire (1921-1997)

Discordo dele? De forma alguma. Concordo com todas estas palavras, TODAS. Meu problema é outro. Não tenho mais a visão romantizada que eu tinha aos 20 anos – e isso se reflete em minha visão sobre tudo, de amor à política... e ao povo. Não vejo mais a entidade ‘povo’ de maneira romântica, revolucionária. Não vejo mais a entidade ‘elite’ de forma maniqueísta.

Pessimismo. Pragmatismo. Realismo. Ceticismo. Cinismo. Escolha o seu ‘ismo’ e coloque o rótulo de sua preferência. A elite sempre estará ao lado de quem estiver no poder; é assim que ela se mantém elite ao longo do tempo. A elite sempre usará o povo como massa de manobra; é assim que ela se mantém elite, mesmo que esse povo assuma o poder. E quando esse povo assume o poder por meio de sua liderança carismática, o que seu líder geralmente faz? Alia-se com a elite.

Abre parêntese.
Não entenda aqui elite do ponto de vista puramente marxista, mas sim como o enfoque alternativo de Estado proposto por Gramsci:* “Todo o complexo de atividades práticas e teóricas com o qual a classe dominante não somente justifica e mantém seu domínio, mas procura conquistar o consentimento ativo daqueles sobre os quais exerce sua dominação.”
Fecha parêntese.

Escolhido o ‘ismo’ de sua preferência, esclareço que não sou contra manifestações. Porém, penso que elas acabarão em pizza e aguardo, ansiosamente, o resultado das eleições em 2014, como já disse AQUI. Brasileiro é imediatista, individualista (o que é diferente de cultivar sua individualidade) e, podem discordar, mas é educado, desde pequeno, a não ter senso de coletividade. Ou alguém recebeu punição por escrever nas carteiras das escolas? Nas portas dos banheiros? Por chamar o colega de viadinho e aquela menina da saia curta de piranha? Por furar a fila do cinema?

São os exemplos do cotidiano que refletem uma totalidade maior, como naquela velha história de “de grão em grão, a galinha enche o papo” – no qual o que importa não é o todo, mas o eu. Isso é uma falta de senso de coletivo e de respeito à individualidade alheia sem tamanho! Qual a dificuldade de entender que se todas as galinhas quiserem toda a comida, algumas passarão fome e outras, no fim das contas, explodirão? A metáfora não é clara?

Passar a mão na bunda ou segurar pelo braço em uma balada é abuso, embora socialmente não seja visto dessa forma já que existem muitos praticantes desse tipo de assédio nojento. Isso abre as portas para que estupros sejam crimes toleráveis, nos quais se busca culpabilizar a vítima. Ok, essa metáfora está mais difícil. Em resumo: pequenas infrações cotidianas são a base de uma sociedade na qual absurdos como um mensalão sejam crimes toleráveis. A vítima? O povo. Este continuará sendo manipulado e um dos motivos é, exatamente, por achar as pequenas infrações cotidianas algo normal, aceitável e, algumas vezes, desejável.

Outro motivo? A liderança carismática que temos continua sendo o Lula. Acho incrível como as pessoas, em geral, conseguem dissociar Lula dos governos Dilma e Haddad e, até mesmo, do PT e da questão dos gastos com a Copa. Metalúrgico? Homem do povo? Ok, tão revolucionário e defensor de suas causas quanto nossa presidente da luta armada. Ou alguém viu a Dilma se posicionando, firmemente, pelos direitos das mulheres? Então... suas causas, não nossas. Que me desculpem os míopes, mas fomos às ruas e pedimos o impeachment de um presidente por bem menos do que o molusco foi suspeito de participar...




Não acho que ocorrerá nenhuma mudança substantiva no curto prazo. É uma crítica? Talvez. Não necessariamente negativa. E, antes de qualquer outra coisa, é uma observação, apenas. Pessoal e intransferível. Como isso tudo vai acabar? A verdade é que ninguém sabe. Podemos, no máximo, fazer previsões a partir de pontos de vista diversos. Leiam esse texto excelente: O Futuro se escreve nas Ruas.

A festejada Primavera Árabe mostrou, mais uma vez, que em análises políticas sempre devemos ter cautela, além de observar variáveis e conhecer opiniões distintas. Gosto de análises históricas. Gosto de pensar sempre no Ovo da Serpente. Prefiro pensar no que significou ser uma cara pintada... no que mudou, no país, desde 1992 e minhas descobertas simultâneas. Álcool. Cigarro. Vida noturna. Protestos. Política. Os primeiros desrespeitos a regras com as quais não concordava. Não vão nos deixar sair do colégio para ir à passeata? Pulamos cercas e portões. Não vai me deixar sair a noite por que fugi do colégio e fui à passeata? Beijo, tchau.

O que mudou no país nos últimos 20 anos? O que piorou? O que melhorou? Sem maniqueísmo, afinal bem e mal não existem (ou coexistem, segundo algumas crenças). Todas as coisas trazem algo positivo, algo negativo, algo neutro... Na ausência de mudança, a continuidade. Quem não pensa nessas coisas, cotidianamente, é um tolo. O diário faz mais diferença, em médio e longo prazos, do que uma manifestação de vez em quando. A questão é: o brasileiro está preparado para abandonar as pequenas infrações cotidianas? Sem esse abandono, não há mudança.







O brasileiro está preparado para respeitar mulheres, homossexuais, negros? Hoje vi uma pessoa, em rede social, pedindo para pararem com estas marchas de movimentos particulares e defenderem uma causa que é de todos – argumentava-se basicamente parar estes movimentos feministas, LGBTs e negros, pois a causa de todos com o gigante acordado é mais vital (e essa pessoa foi maciçamente apoiada em comentários). Me desculpem, mas um país no qual negros, LGBTs e mulheres NÃO são considerados como TODOS não tem nenhum senso de coletividade MESMO! Só mulheres são aproximadamente 51% da população... some-se negros e LGBTs e teremos quantos? E ainda não são considerados como TODOS e causas vitais? I rest my case.


“Se quiser por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder.”




*breve resumo sobre o pensamento de Gramsci AQUI.






Exemplo de pequena infração cotidiana que atenta contra a coletividade:
Banheiro coletivo – em clube, bar, shopping, rodoviária, posto de gasolina, repartição pública, os químicos na rua – não seria uma coisa mais agradável e higiênica se todos que o usassem também cuidassem dele? Pensassem que outra pessoa depois vai usá-lo? Pensassem que futuramente podem ser essa pessoa que depois vai usá-lo? O banheiro não melhora para o indivíduo, se melhorar para todos?
Faça um banheiros coletivos tour por aí. Depois me diga se as pessoas pensam que podem ser as próximas a precisar de um banheiro. Pergunto-me sempre se na casa delas é assim que agem, como suínos...






Teoria da Conspiração Reaça:
Vocês, que adoram Teorias da Conspiração, prestem atenção na minha.
Se as manifestações continuarem ocorrendo e aumentando de tamanho, o ex vai cada vez mais posicionar-se de modo a defender aliados políticos municipais (prefeitos, para os ruminantes). Vai silenciar, cada vez mais, sobre o governo central. Resumindo: defesa aos aliados cresce e, na proporção inversa, defesa de Dona Dilma diminui. Quanto mais reverberem as manifestações, mais isso ocorrerá. Pode, em última instância, terminar até em algum rompimento entre Dilma e PT ou Mosluscos se lançando por outro partido.
Por quê? Personalidades messiânico-populistas, como nosso ex, estão, de certa forma, descolados de partidos. A meta final não é o partido, mas o poder. Pessoal. Não duvido nada nosso ex, com sua personalidade carismática, aproveitar a queda de popularidade da nossa atual para, em sua usual fanfarronice, lançar-se candidato em 2014.
Quem viver, verá.
Li por aí (e ri): "em um futuro muito próximo o aspecto messiânico do PT/Lulismo vai se fundir com o neo-pentecostalismo da universal".