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31 de jul de 2013

livro aleatório - câncer

“O Armagedon propriamente dito, não havia dúvida, era ali mesmo. Na batalha final, amontoavam-se punks, darks, skin-heads, góticos, junkies, yuppies. Uma legião de replicantes, clones fabricados em série, todos de preto ou roxo, correntes, crucifixos, vendas nos olhos, tatuagens. Cabeças raspadas, descoloridas, arrepiadas como cristas geométricas, assimétricas, tingidas de verde, vermelho, violeta.”
Caio Fernando Abreu. Onde andará Dulce Veiga?



A seguir, o narrador passa no local vestido de branco – ele era o mais estranho entre eles, um caçador de andróides disfarçado. Não abria este livro desde que fiz a disciplina Estética e Cultura de Massa, com o primeiro professor da academia que faria imensa diferença na minha vida (dar uma olhada nas áreas de estudo do Denilson Lopes e, se possível, uma lida em seus escritos, explica bem o porquê). Esse mestre foi a primeira pessoa que me fez pensar e refletir sobre mim mesma, sobre a minha condição no mundo. 

Apaixonava-me por Baudrillard, Foucault, Beauvoir, Bourdieu, etc, enquanto recorria à releitura dos autores das aulas passadas de Sociologia e freqüentava a Augusta sempre que podia me deslocar para São Paulo. O Armagedon descrito acima. Conseguia transitar em todos estes grupos, embora não me identificasse com nenhum deles, nem mesmo na maneira de me vestir. Ao mesmo tempo, meus melhores amigos eram GLS (como chamávamos naquela época). Hell’s Club, A Lôca, B.A.S.E., Mad Queen, Massivo, Disco Fever, Lov.e – adorava freqüentar esses inferninhos na companhia de muitos que seguem sendo grandes amigos até hoje.

Acredito, hoje, que não conseguia me identificar com os outros grupos do Armagedon porque em geral aceitavam minha presença – a dos meus melhores amigos eles no máximo toleravam, com evidente desconforto. Os inferninhos me traziam sentimentos conflitantes – estavam sempre juntas, lutando entre si, minhas duas metades: uma calma e tolerante, a outra sem limites. Essa outra metade, que de politicamente correta e controlada não tem nada, desejava profundamente que alguns seres humanos emudecessem, para calarem suas bocas pútridas. Caso não resolvesse, que passassem por uma lobotomia para extirpar as partes estragadas de seus cérebros. Intolerante com os intolerantes, e nada mais. Apenas o que mereciam.

Anos mais tarde, tive aulas pela 1ª vez com o segundo professor, em minha vida acadêmica, do qual sinto genuína saudade: Antônio Augusto Cançado Trindade. Fui aluna dele quando ele era presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos e, alguns anos depois, era aluna dele quando foi eleito para juiz da Corte Internacional de Justiça. Esse mestre foi a primeira pessoa que me fez pensar e refletir sobre os outros, sobre a condição dos outros no mundo. Agradeço a ele e ao Denilson pela transformação que ajudaram a promover por meio do diálogo, do questionamento, da análise. A intolerância com os intolerantes modificou-se, racionalizou-se.

Não sou Hitler, Stalin ou qualquer outro espécime nojento desses. Mesmo odiando-os e desejando mudez e lobotomia para certos seres que de humanos não têm nada, não tenho o direito de querer tirar-lhes quaisquer direitos. Repetem tanto por aí que o amor deve ser espalhado, que devemos amar uns aos outros... Esquecem que o amor é irmão do ódio e que a linha de separação entre eles é bem tênue, fácil de ser cruzada já que são sentimentos com enorme carga de irracionalidade.

Odeio, genuinamente, certos tipos de gentes. Acho-as um câncer para o planeta e para a própria humanidade. Só que não sou nenhuma dessas pessoas das quais me sinto enojada por fazerem parte da mesma espécie. Tenho ânsias quando penso que são homo sapiens. Para mim, são homo irracionalis – incapazes de entender que não precisam amar ninguém, apenas respeitar a liberdade e a existência plena dos outros.

Também já fui como esses tumores – por isso tenho pena deles.





NOTA: sem periodicidade definida, o LIVRO ALEATÓRIO



"Monsters are real, and ghosts are real too. They live inside us, and sometimes, they win"
Stephen King

28 de jul de 2013

entre a cruz e...?

“A CRUZ, A ESPADA E A FOME DIZIMARAM A FAMÍLIA SELVAGEM”
Pablo Neruda

Avisos: caso você termine de ler este texto achando que sou conivente com a Igreja Católica, aconselho rever seus conceitos e ler outros textos desse blog com a tag religião (cloud aí ao lado, na barra lateral). E caso tenha preguiça de textos longos, por favor, pare antes de começar a leitura.

A sentença de Neruda vai além da relevância poética. Seu significado histórico consegue abarcar 3 faces da violência do branco contra o ameríndio que habitava as Américas: a bélica, simbolizada pela espada, a econômica, simbolizada pela fome, e a cultural, simbolizada pela cruz. Me limito a dissertar sobre esta última. Os deuses, crenças, valores morais e estéticos, hábitos, costumes e visão que os indígenas tinham da natureza foram aniquilados pela catequese ou pela Inquisição. O que a espada deixava de pé, a cruz derrubava.

Creio, entretanto, que é necessário evitar uma visão maniqueísta sobre o assunto e não colocar os povos que habitavam as Américas apenas como violentados. Muitas nações possuíam organização social e política, capazes de reagir à ação dos conquistadores. Ataques às localidades habitadas por brancos eram comuns, assim como alianças entre tribos e nações.

Pulando alguns capítulos das aulas de história, pode-se dizer que no Brasil, a cruz (o clero) unia-se à nobreza e ao rei para explorar a burguesia que, por sua vez, explorava o escravo negro. Os ameríndios encontram-se dentro dessa exploração, por meio do bandeirantismo que apresava índios para catequizá-los e usá-los, muitas vezes, como escravos.

Pequena introdução apenas para dizer que, por aqui, percorrendo dos engenhos coloniais às metrópoles contemporâneas, é possível descobrir marcas profundas do patriarcalismo, do racismo, da violência e do autoritarismo. Todas estas marcas, bem ou mal, conectadas à ação religiosa.

Salto temporal para 2013 e a Jornada Mundial da Juventude...

Comecemos pela visita do Papa e pelo porque seria razoável gastar milhões dos cofres públicos com essa visita. Resumidamente, já que esse texto não é um trabalho acadêmico sobre Direito Internacional:

O Estado da Cidade do Vaticano – Santa Sé – possui personalidade jurídica de direito internacional, apesar de não se identificar com os Estados comuns. Os fins para os quais se orienta a Santa Sé não são do molde dos objetivos padronizados de todo Estado Soberano – há território, população e governo, embora não haja nacionais. A Santa Sé, como qualquer Estado, celebra tratados (concordatas e bilaterais). É um caso único de personalidade internacional anômala. E seu chefe de Estado é o Papa.

O Brasil mantém relações diplomáticas com a Santa Sé. Em qualquer visita de qualquer chefe de Estado com os quais o país mantém relações diplomáticas, seja qual for o motivo da visita, nosso governo deve dar apoio – logístico, financeiro, policial, etc. O Papa é também um líder religioso; porém, diante do exposto, não dá para comparar sua visita e o apoio dado pelo governo brasileiro com a visita do Dalai Lama ou de qualquer outro líder religioso. Nosso governo apoiar essa visita papal é o normal e esperado – e a esse respeito não cabem protestos. Ou se couberem, que se proteste também contra visitas de outros chefes de Estado... e eu, pessoalmente, protestaria sempre que viessem chefes de Estados tais como Irã, Paquistão, Índia, Arábia Saudita, Congo e muitos outros que desrespeitam os Direitos Humanos.

Corte específico sobre um fato ocorrido durante a Jornada Mundial da Juventude...

Ontem aconteceu a Marcha das Vadias no Rio de Janeiro, no mesmo bairro e batendo de frente com os peregrinos seguidores do Papa (quem mudou de última hora seu percurso, segundo se sabe, foi o pessoal da Jornada, não as vadias). Durante a Marcha, houve uma performance depredando símbolos religiosos. O fato isolado não diz nada sobre a Marcha e, segundo a organização da mesma, nada tem a ver com ela. Até aí tudo bem e qualquer manifestante tem o direito de expressar-se como quiser, desde que respeitados os limites e a liberdade do próximo e eu, pessoalmente, nada tenho contra esse ato isolado.

Essa performance, em si, não é um problema. Os motivos da existência da Marcha das Vadias são vários, lógicos, legítimos, urgentes. A questão não é essa. O problema é que, para quem é leigo, fica apenas a imagem de duas pessoas quebrando santos e enfiando crucifixos no cu. O problema é que esse tipo de ato acaba afastando religiosos menos conservadores, que poderiam ouvir as demandas caso não fossem ofendidos em sua crença. Não chego ao ponto de dizer que a tal performance foi um desserviço ao feminismo, afinal, independente do que se faça em Marchas das Vadias, o senso comum sempre acaba achando um bode expiatório para deslegitimar o movimento. Mesmo que a organização da Marcha do Rio de Janeiro se posicionasse com mais ênfase contra essa performance, ainda assim o ato seria ligado à Marcha para deslegitimá-la.

Sinceramente, não sei até que ponto é válido fazer esse tipo de ato. Duas pessoas resolvem depredar símbolos religiosos e agora todo um movimento é acusado de desrespeito a uma religião. Um ato isolado deslegitima todo um movimento que luta pelos direitos das mulheres? Por quê? Só hoje já vi a Marcha ser chamada de Marcha das Vazias, Marcha da Vergonha Alheia e outras denominações fofas. Ao mesmo tempo, até que ponto a mídia influencia nisso? Por que noticiaram mais esse ato isolado do que a Marcha em si ou do que ações desrespeitosas que os peregrinos tiveram com as manifestantes? É mais legítimo cuspir em manifestantes da Marcha, como alguns peregrinos fizeram, ou quebrar imagens de santos católicos?

Não tenho respostas para nada... Apenas acho que certos excessos da igreja deveriam ser noticiados com o mesmo empenho com o qual essa performance foi divulgada. A Igreja Católica, assim como outras, não tem nenhum pudor em impor seus dogmas a quem sequer professa sua fé, a um Estado que deveria ser laico. A Igreja distribuiu kits absurdos para os peregrinos, incluindo até mesmo terços com fetos. Essa Igreja vem, há séculos, oprimindo com seus dogmas índios, mulheres, negros e outras religiões. Isso justifica a destruição de símbolos religiosos da forma como aconteceu ontem?

Eu, pessoalmente, acho perigoso defender o olho por olho, dente por dente. Agressão ser defendida com agressão não significa barbárie? Argumentar que anteriormente foi agredido não significa um desejo ditatorial de gente que imporia seus próprios dogmas, caso tivesse o poder em mãos? Não acho que pagar na mesma moeda, com mensagens de intolerância e desrespeito, ajude muito. Ao mesmo tempo, não sei o que ajudaria.

Corte para feminismo e cultura pop...

Ainda não li nem 1/5 dos livros e autores que gostaria de ter lido, mas já li muitos autores nessa vida, de Bordieu a Beauvoir. Para ficar no Brasil, aconselharia que estudassem história para relembrar quem foi Berta Lutz, aquela que em 1920 fundou a Liga de Emancipação Intelectual da Mulher, e desvencilhar a luta pelo voto feminino (e outros direitos das mulheres) da Era Vargas.

Mesmo com toda a bagagem intelectual, a pessoa que considero como mais importante na luta pelos direitos femininos e LGBTs na contemporaneidade chama-se Madonna. Me desculpem, mas levando-se em consideração o alcance da cultura pop e da indústria cultural, não consigo achar ninguém mais importante do que ela. Acho Madonna mais importante do que qualquer teórica feminista e do que qualquer academicismo.


Em 1989 ela já protestava contra essa igreja, o racismo e a hipocrisia. Me pergunto: Madonna não causaria mais impacto do que essa performance de ontem?


Outro exemplo do porque considero Madonna mais importante do que teóricos: EROTICA – álbum lançado em 1992. O mundo passava por transformações e o álbum falava sobre liberdade sexual numa época Pós-AIDS, onde a barreira da hipocrisia, do preconceito e da falta de informação era enorme, bem maior do que hoje. Madonna apontava, novamente, para o preconceito e a hipocrisia.


Queria mais Madonnas (e menos Anittas, Britneys, Beyonces, Rihannas, e etc) no século XXI, só isso. Além, é claro, de mais gente disposta ao diálogo (de todos os lados) e menos presa ao academicismo e aos seus próprios dogmas.





"DE OLHO POR OLHO E DENTE POR DENTE, O MUNDO ACABARÁ CEGO E SEM DENTES"
Mahatma Gandhi




"AQUELE QUE LUTA COM MONSTROS DEVE ACAUTELAR-SE PARA NÃO TORNAR-SE TAMBÉM UM MONSTRO. QUANDO SE OLHA MUITO TEMPO PARA UM ABISMO, O ABISMO OLHA PARA VOCÊ”
Nietzsche











17 de jul de 2013

normalidade, apenas?

Somos socializados desde pequenos no modelo monogâmico heteronormativo – o certo, o almejado, é ter um par, casar, ter filhos, constituir família. Somos educados para este modelo, dentro deste modelo. Mesmo inconscientemente, carregamos este modelo. Até mesmo muitos dos meus amigos homossexuais querem casar, ter filhos, constituir família... para serem normais como qualquer casal hetero.

Não percebemos que seguir o que é “normal”, ter um par, não significa necessariamente ter felicidade. Pode significar ou não. Porém, buscamos segui-lo, buscamos nos inserir na “normalidade”... algumas vezes, às custas da nossa felicidade. Quantas mulheres continuam em relacionamentos abusivos? Quantas aceitam traições, mesmo que estejam sofrendo com aquilo? Quantos homossexuais negam seus próprios desejos, sua própria sexualidade?

Socialmente, para a mulher, estar sozinha a torna menos valiosa, menos digna. A educação feminina, desde cedo, é para agradar à família, obedecer ao pai, agradar ao homem, obedecer ao marido. Estar bela, ser atraente ao sexo oposto. Ser feminina, doce, amável, cordial. Quem sai dessas características assusta a maioria e merece ser punida – ser uma vadia, não servir para relacionamentos sérios... e isso, em última instância, leva-a merecer ser agredida, estuprada. A mensagem da sociedade é: saia do que é esperado e será uma pária.

As mulheres são mais bem vistas quando têm um homem ao lado. UM. O seu dono. Homens são bem vistos desde que tenham mulheres – uma ou várias, em relações monogâmicas ou não. Pessoas que saem dessas expectativas viram párias, precisam ser curados, são anormais. Ela é lésbica porque ainda não encontrou um pau que fizesse direito. Ela está solteira porque tem algum problema. Ela faz sexo casual então qualquer um tem o direito de comê-la. Ele não pegou aquela gostosa que estava dando mole... é um viadinho (esteja ele em uma relação monogâmica ou solteiro). Ele não pega ninguém... é uma bicha. Ele não gosta de mulher... é um gay e merece a morte.

Homens não são assim mesmo. Eles foram ensinados a ser. Muitos estão aprendendo que não precisam ser MACHOS. Poucos, ainda.

Mulheres não têm que ser assim. Elas foram ensinadas a ser. Muitas estão aprendendo que não precisam ser PRINCESAS. Poucas, ainda.

É mais fácil ser “normal”. Grande parte segue a normalidade sem sequer questioná-la. Há aqueles que a seguem apenas para não serem julgados e não entrarem no ostracismo social que se impõe aos párias. E há aqueles que dizem não às expectativas alheias e vivem as próprias – e elas podem ou não corresponder ao que é classificado como “normal”. A última categoria de pessoas é a única que é, de fato, livre e faz suas escolhas de forma consciente.


Papéis de gênero são construções sociais. Dessa forma, não dá para simplesmente condenar, acriticamente, quem os segue. Entretanto, não sei até que ponto as pessoas que compactuam com a manutenção desses papéis são uma ameaça ou apenas um produto do meio. Inconclusivamente, termino este texto com o mesmo vídeo e trecho de diálogo colocados em outra postagem, na qual eu falava sobre mulheres machistas.




"A maioria destas pessoas não está pronta para ser desplugada... e muitas estão tão habituadas, tão irremediavelmente dependentes do sistema, que irão lutar para protegê-lo"

10 de jul de 2013

O 1º Livro Aleatório*

“Eram cinco e meia; não tardaria muito. Mariana foi à sala da frente, espiou pela vidraça, prestou o ouvido ao bonde, e nada. Sentou-se ali mesmo com o Ivanhoe nas palmas, querendo ler e não lendo nada. Os olhos iam até o fim da página, e tornavam ao princípio, em primeiro lugar, porque uma ou outra vez desviavam-se para saborear a correção das cortinas ou qualquer outra feição particular da sala. Santa monotonia, tu a acalentavas no teu regaço eterno.”
Machado de Assis. Contos / Uma Antologia; Capítulo dos Chapéus.


Escolhi Machado por achar que seria fácil - entre os autores de literatura que tenho em casa, é o preferido, o que reli mais vezes. Tantas opções interpretativas para este trecho... e consigo pensar apenas em como o tempo é relativo. Em como a passagem do tempo é sentida e vivida de maneira diferente pelas pessoas. Em como tudo depende do contexto, inclusive a relatividade do tempo.

Não consegui ir além. Fiquei pensando na elegância – e na ironia escondida – em descrever a passagem de tempo para Mariana. Precisei reler o conto inteiro, para relembrar qual era o contexto desse pequeno trecho machadiano. A partir disso, logo estava pesquisando sobre Molière e outros autores aos quais Machado faz referência nesse conto.

Uma troca. Em vez de exercitar a escrita, um pouco de exercício de leitura. Autores que me desafiam fazem com que eu busque mais conhecimento. Autores que me inspiram também. Há um terceiro tipo, que consegue desafiar e inspirar ao mesmo tempo – ou pela qualidade literária, ou intelectual, ou pela história de vida. E existe Machado de Assis, que além de me desafiar e me inspirar nisso tudo ao mesmo tempo, ainda consegue, todas as vezes que o releio, me fazer sentir burra e com vergonha alheia da própria burrice.

Ele, naquela época: mais culto, politizado e consciente da realidade humana do que muita gente do meu nível sócio-econômico hoje. Em 2013, basta procurar no Google! Ou será que eu não tenho preguiça de pesquisar por que tive à disposição a Enciclopédia Barsa? Não entendo como hoje as pessoas estão, paradoxalmente, mais desinformadas. Ou é por que antes eu não precisava saber o que as pessoas pensavam? Como é possível a coexistência de tanta informação disponível com tanta intolerância?

Tudo, da realidade do outro lado do mundo aos downloads de livros, está à distância de um click. Procurem uma Barsa na casa da vovó para ver o que era sofrimento – praticamente uma Wikipédia, sem a facilidade de um simples click! Até para ler a Wikipédia é mais rápido no século XXI.

Por que as pessoas negligenciam tanto exercitar o cérebro? É ele que vai se manter quando o físico falhar – estética ou funcionalmente, de acordo com o ponto de vista adotado. Por que várias das que exercitam o cérebro intelectualmente, falham em exercitá-lo reflexivamente?

Pequenos parágrafos com questionamentos para os quais não tenho resposta – ou melhor, as tenho, mas são politicamente incorretas, então as silencio.





*Sobre o 1º Livro Aleatório:

Fiz uma promessa a mim mesma. Sigo cumprindo. Inclui manter abstinência __________até atingir a meta X. Como eu não posso quebrar a promessa que fiz a mim, quanto antes eu atingir a meta X, menos tempo ficarei sem fazer algo que gosto – _________. Para atingir essa meta X, tenho ficado mais tempo em casa, lendo e relendo muita coisa. Que meta X é essa obviamente não posso divulgar – não divulgo minhas metas de nenhuma área.

Leituras e re-leituras têm me mostrado muito sobre minhas limitações – em termos de convicções pessoais, inclusive. Deixo minha psique para os profissionais e para os entendidos na arte de julgar e analisar pessoas sem sequer conhecê-las. Aqui quero abordar minhas limitações enquanto redatora – de trabalhos acadêmicos a frases do twitter.

Há uma coisa que tenho dificuldades: escrever sobre algum tema aleatório qualquer com o qual eu não tenho intimidade ou pelo qual eu não nutro simpatia. Dessa forma, resolvi testar onde entram a criatividade e a seriedade, quais as possibilidades de uso da ironia e outras figuras de linguagem, fugas ao tema, etc. Inclui, inclusive, os textos desse blog que, como não tem coluna, terá um... projeto? Não sei como adjetivar.

Para mim chama-se: LIVRO ALEATÓRIO. Significa? Abrir um livro qualquer da minha estante; preferencialmente literatura, mas não excluindo outros gêneros; em uma página aleatória; pegar um trecho aleatório qualquer; e escrever um texto aleatório qualquer a partir desse trecho; sem periodicidade definida. Entendeu a proposta? Tudo aleatório, basicamente. 

8 de jul de 2013

reforma x jeitinho

Título alternativo: A parte da reforma política que também precisa ser feita, mas ninguém tem interesse sequer em debater.


Não sou contra as manifestações que ocorreram por aqui nos últimos tempos, mas tenho minhas críticas (algumas delas apresentadas AQUI e AQUI). Este texto é mais uma crítica ao nosso jeitinho de ser brasileiro.

Uma coisa que venho pensando muito, no caso brasileiro, é:

“O ultraje, causado pela desatenção dos políticos e burocratas do governo pelos problemas e desejos de seus cidadãos, que os elegem e pagam seus salários.”
“Além de passarem por uma série de problemas urbanos, ainda se exige que eles façam o trabalho de profissional que deveria ser dos burocratas preguiçosos responsáveis pela bagunça nos serviços. Os cidadãos só apontam os problemas. Resolvê-los é trabalho para os políticos e técnicos pagos por eles para fazê-lo.”

Os trechos acima grifados foram retirados DAQUI. Discordo de Castells em diversos pontos – como discordei de vários pontos na triologia “Era da Informação” – mas respeito, muito. Mestres devem sempre ser respeitados e acabo aprendendo mais com a discordância do que se concordasse com tudo que dizem.

Não sou tão otimista quanto Castells. Não consigo ser tão otimista ao ouvir falar em reforma política no Brasil, por exemplo, e perceber a existência de uma parte essencial da reforma política que os brasileiros convenientemente esquecem e/ou deixam de lado. Precisamos mudar o modo como a política é feita, ali na Praça dos Três Poderes? Sim, sem dúvidas. Não há como discordar disso tendo um Congresso que representa tudo, menos a Nação. Incluo o Executivo e o Judiciário junto com o Legislativo, por entender que os três poderes estão contaminados por interesses pessoais e partidários.

Porém, incluo na pauta de reformas políticas urgentes para melhor uso do dinheiro público uma coisa sobre a qual a maioria silencia: agências, empresas, autarquias... enfim, o serviço público em geral, aqueles que são CLTistas e os que estão sob a Lei 8.112. Eu tinha uma visão negativa do Serviço e do Concurso Públicos, que pode ser conferida AQUI. Essa visão piorou muito após um breve período tentando trabalhar dentro de uma agência pública.

Para começar, há muita gente trabalhando nesses órgãos em cargos de confiança ou terceirizados. Cargo de confiança significa que qualquer um pode estar lá se tiver boas relações, mesmo que seja um completo idiota ou não preencha os requisitos do cargo. Exemplo: alguém estar na diretoria de uma área internacional e não falar nem inglês (minha mãe ficou em um cargo desses por anos e, recentemente, havia uma cidadã dessas no lugar onde eu estava trabalhando... é mais comum do que se imagina). Terceirizados? Darei só o meu exemplo para ilustrar o quanto de dinheiro público é desperdiçado: eu estava recebendo aproximadamente 1/4 do que estava custando ao órgão público.

Eu, pessoalmente, não acho que concurso seja a melhor forma de selecionar alguém se, após o concurso, a produtividade e a eficiência da pessoa não for avaliada de forma séria e se ela não puder ser demitida caso não esteja cumprindo metas. Basta ir em qualquer órgão público, precisando de algum serviço, para ver que não somos tratados como clientes e que metas de eficiência e produtividade são algo inexistente no vocabulário dos serviços públicos ofertados. Isso é só culpa do governo?

Semana passada, ouvi gente reclamando de ter ido à Receita Federal e ao Detran e perderem horas, não serem tratados como clientes. São as mesmas pessoas que me diziam “isso não é a tua função” quando eu me oferecia para traduzir algo visando ganharmos tempo ou dava alguma sugestão para facilitar o trabalho. São as mesmas pessoas que, por interesses pessoais, acham normal o quanto $$$ se gasta nessa máquina pública inchada para pouquíssima eficiência e produtividade. Esses técnicos e burocratas pagos com o dinheiro dos impostos de todos acham, assim como grande parte da população, que não são parte do problema - por aqui, a culpa é do governo, sempre.

Sinceramente, a partir do que eu vi de dentro do serviço público, diria sem o menor receio de estar errada: se metade daquelas pessoas fosse demitida e o expediente fosse apenas das 9 às 17hs, mas as pessoas trabalhassem de verdade, ainda assim a demanda seria atendida. Dinheiro público seria poupado e as pessoas teriam mais tempo livre, fora do ambiente de trabalho, para fazerem o que desejarem. E não, não estou exagerando.

Esses burocratas do governo estão dispostos a parar de brincar de manifestantes indignados com o mal gasto do dinheiro público? Estão dispostos a parar com isso e entrar na lista de coisas que precisam ser revistas e reformadas, pois são um péssimo gasto, além de desperdício, do dinheiro público? 

Inovação. Inventividade. Criatividade. Produtividade. Excelência. Eficiência. Empreendedorismo. Oportunidades. O que eu poderia falar, positivamente, em termos disso tudo, de um país no qual o topo da carreira de alguém é um concurso público? No qual em grande parte das vezes, as pessoas estão lá e sequer passaram por alguma avaliação, por um concurso? No qual aqueles que passaram pelo concurso chegam lá e acomodam-se, espreguiçam-se?

Acho um desperdício pessoas com talento e gana acabarem virando "concurseiros". Acho um desperdício um país, com as capacidades naturais e de recursos humanos que o Brasil tem, incentivar o serviço público. No entanto, entendo todos aqueles que buscam essas agências públicas: é difícil manter-se de pé, de forma independente, em um país que não incentiva a iniciativa privada e que coloca vários obstáculos àqueles que apostam nesse caminho. Seguir fora da máquina pública acaba sendo um exercício de persistência para empresários e trabalhadores.