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28 de jul de 2013

entre a cruz e...?

“A CRUZ, A ESPADA E A FOME DIZIMARAM A FAMÍLIA SELVAGEM”
Pablo Neruda

Avisos: caso você termine de ler este texto achando que sou conivente com a Igreja Católica, aconselho rever seus conceitos e ler outros textos desse blog com a tag religião (cloud aí ao lado, na barra lateral). E caso tenha preguiça de textos longos, por favor, pare antes de começar a leitura.

A sentença de Neruda vai além da relevância poética. Seu significado histórico consegue abarcar 3 faces da violência do branco contra o ameríndio que habitava as Américas: a bélica, simbolizada pela espada, a econômica, simbolizada pela fome, e a cultural, simbolizada pela cruz. Me limito a dissertar sobre esta última. Os deuses, crenças, valores morais e estéticos, hábitos, costumes e visão que os indígenas tinham da natureza foram aniquilados pela catequese ou pela Inquisição. O que a espada deixava de pé, a cruz derrubava.

Creio, entretanto, que é necessário evitar uma visão maniqueísta sobre o assunto e não colocar os povos que habitavam as Américas apenas como violentados. Muitas nações possuíam organização social e política, capazes de reagir à ação dos conquistadores. Ataques às localidades habitadas por brancos eram comuns, assim como alianças entre tribos e nações.

Pulando alguns capítulos das aulas de história, pode-se dizer que no Brasil, a cruz (o clero) unia-se à nobreza e ao rei para explorar a burguesia que, por sua vez, explorava o escravo negro. Os ameríndios encontram-se dentro dessa exploração, por meio do bandeirantismo que apresava índios para catequizá-los e usá-los, muitas vezes, como escravos.

Pequena introdução apenas para dizer que, por aqui, percorrendo dos engenhos coloniais às metrópoles contemporâneas, é possível descobrir marcas profundas do patriarcalismo, do racismo, da violência e do autoritarismo. Todas estas marcas, bem ou mal, conectadas à ação religiosa.

Salto temporal para 2013 e a Jornada Mundial da Juventude...

Comecemos pela visita do Papa e pelo porque seria razoável gastar milhões dos cofres públicos com essa visita. Resumidamente, já que esse texto não é um trabalho acadêmico sobre Direito Internacional:

O Estado da Cidade do Vaticano – Santa Sé – possui personalidade jurídica de direito internacional, apesar de não se identificar com os Estados comuns. Os fins para os quais se orienta a Santa Sé não são do molde dos objetivos padronizados de todo Estado Soberano – há território, população e governo, embora não haja nacionais. A Santa Sé, como qualquer Estado, celebra tratados (concordatas e bilaterais). É um caso único de personalidade internacional anômala. E seu chefe de Estado é o Papa.

O Brasil mantém relações diplomáticas com a Santa Sé. Em qualquer visita de qualquer chefe de Estado com os quais o país mantém relações diplomáticas, seja qual for o motivo da visita, nosso governo deve dar apoio – logístico, financeiro, policial, etc. O Papa é também um líder religioso; porém, diante do exposto, não dá para comparar sua visita e o apoio dado pelo governo brasileiro com a visita do Dalai Lama ou de qualquer outro líder religioso. Nosso governo apoiar essa visita papal é o normal e esperado – e a esse respeito não cabem protestos. Ou se couberem, que se proteste também contra visitas de outros chefes de Estado... e eu, pessoalmente, protestaria sempre que viessem chefes de Estados tais como Irã, Paquistão, Índia, Arábia Saudita, Congo e muitos outros que desrespeitam os Direitos Humanos.

Corte específico sobre um fato ocorrido durante a Jornada Mundial da Juventude...

Ontem aconteceu a Marcha das Vadias no Rio de Janeiro, no mesmo bairro e batendo de frente com os peregrinos seguidores do Papa (quem mudou de última hora seu percurso, segundo se sabe, foi o pessoal da Jornada, não as vadias). Durante a Marcha, houve uma performance depredando símbolos religiosos. O fato isolado não diz nada sobre a Marcha e, segundo a organização da mesma, nada tem a ver com ela. Até aí tudo bem e qualquer manifestante tem o direito de expressar-se como quiser, desde que respeitados os limites e a liberdade do próximo e eu, pessoalmente, nada tenho contra esse ato isolado.

Essa performance, em si, não é um problema. Os motivos da existência da Marcha das Vadias são vários, lógicos, legítimos, urgentes. A questão não é essa. O problema é que, para quem é leigo, fica apenas a imagem de duas pessoas quebrando santos e enfiando crucifixos no cu. O problema é que esse tipo de ato acaba afastando religiosos menos conservadores, que poderiam ouvir as demandas caso não fossem ofendidos em sua crença. Não chego ao ponto de dizer que a tal performance foi um desserviço ao feminismo, afinal, independente do que se faça em Marchas das Vadias, o senso comum sempre acaba achando um bode expiatório para deslegitimar o movimento. Mesmo que a organização da Marcha do Rio de Janeiro se posicionasse com mais ênfase contra essa performance, ainda assim o ato seria ligado à Marcha para deslegitimá-la.

Sinceramente, não sei até que ponto é válido fazer esse tipo de ato. Duas pessoas resolvem depredar símbolos religiosos e agora todo um movimento é acusado de desrespeito a uma religião. Um ato isolado deslegitima todo um movimento que luta pelos direitos das mulheres? Por quê? Só hoje já vi a Marcha ser chamada de Marcha das Vazias, Marcha da Vergonha Alheia e outras denominações fofas. Ao mesmo tempo, até que ponto a mídia influencia nisso? Por que noticiaram mais esse ato isolado do que a Marcha em si ou do que ações desrespeitosas que os peregrinos tiveram com as manifestantes? É mais legítimo cuspir em manifestantes da Marcha, como alguns peregrinos fizeram, ou quebrar imagens de santos católicos?

Não tenho respostas para nada... Apenas acho que certos excessos da igreja deveriam ser noticiados com o mesmo empenho com o qual essa performance foi divulgada. A Igreja Católica, assim como outras, não tem nenhum pudor em impor seus dogmas a quem sequer professa sua fé, a um Estado que deveria ser laico. A Igreja distribuiu kits absurdos para os peregrinos, incluindo até mesmo terços com fetos. Essa Igreja vem, há séculos, oprimindo com seus dogmas índios, mulheres, negros e outras religiões. Isso justifica a destruição de símbolos religiosos da forma como aconteceu ontem?

Eu, pessoalmente, acho perigoso defender o olho por olho, dente por dente. Agressão ser defendida com agressão não significa barbárie? Argumentar que anteriormente foi agredido não significa um desejo ditatorial de gente que imporia seus próprios dogmas, caso tivesse o poder em mãos? Não acho que pagar na mesma moeda, com mensagens de intolerância e desrespeito, ajude muito. Ao mesmo tempo, não sei o que ajudaria.

Corte para feminismo e cultura pop...

Ainda não li nem 1/5 dos livros e autores que gostaria de ter lido, mas já li muitos autores nessa vida, de Bordieu a Beauvoir. Para ficar no Brasil, aconselharia que estudassem história para relembrar quem foi Berta Lutz, aquela que em 1920 fundou a Liga de Emancipação Intelectual da Mulher, e desvencilhar a luta pelo voto feminino (e outros direitos das mulheres) da Era Vargas.

Mesmo com toda a bagagem intelectual, a pessoa que considero como mais importante na luta pelos direitos femininos e LGBTs na contemporaneidade chama-se Madonna. Me desculpem, mas levando-se em consideração o alcance da cultura pop e da indústria cultural, não consigo achar ninguém mais importante do que ela. Acho Madonna mais importante do que qualquer teórica feminista e do que qualquer academicismo.


Em 1989 ela já protestava contra essa igreja, o racismo e a hipocrisia. Me pergunto: Madonna não causaria mais impacto do que essa performance de ontem?


Outro exemplo do porque considero Madonna mais importante do que teóricos: EROTICA – álbum lançado em 1992. O mundo passava por transformações e o álbum falava sobre liberdade sexual numa época Pós-AIDS, onde a barreira da hipocrisia, do preconceito e da falta de informação era enorme, bem maior do que hoje. Madonna apontava, novamente, para o preconceito e a hipocrisia.


Queria mais Madonnas (e menos Anittas, Britneys, Beyonces, Rihannas, e etc) no século XXI, só isso. Além, é claro, de mais gente disposta ao diálogo (de todos os lados) e menos presa ao academicismo e aos seus próprios dogmas.





"DE OLHO POR OLHO E DENTE POR DENTE, O MUNDO ACABARÁ CEGO E SEM DENTES"
Mahatma Gandhi




"AQUELE QUE LUTA COM MONSTROS DEVE ACAUTELAR-SE PARA NÃO TORNAR-SE TAMBÉM UM MONSTRO. QUANDO SE OLHA MUITO TEMPO PARA UM ABISMO, O ABISMO OLHA PARA VOCÊ”
Nietzsche