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31 de jul de 2013

livro aleatório - câncer

“O Armagedon propriamente dito, não havia dúvida, era ali mesmo. Na batalha final, amontoavam-se punks, darks, skin-heads, góticos, junkies, yuppies. Uma legião de replicantes, clones fabricados em série, todos de preto ou roxo, correntes, crucifixos, vendas nos olhos, tatuagens. Cabeças raspadas, descoloridas, arrepiadas como cristas geométricas, assimétricas, tingidas de verde, vermelho, violeta.”
Caio Fernando Abreu. Onde andará Dulce Veiga?



A seguir, o narrador passa no local vestido de branco – ele era o mais estranho entre eles, um caçador de andróides disfarçado. Não abria este livro desde que fiz a disciplina Estética e Cultura de Massa, com o primeiro professor da academia que faria imensa diferença na minha vida (dar uma olhada nas áreas de estudo do Denilson Lopes e, se possível, uma lida em seus escritos, explica bem o porquê). Esse mestre foi a primeira pessoa que me fez pensar e refletir sobre mim mesma, sobre a minha condição no mundo. 

Apaixonava-me por Baudrillard, Foucault, Beauvoir, Bourdieu, etc, enquanto recorria à releitura dos autores das aulas passadas de Sociologia e freqüentava a Augusta sempre que podia me deslocar para São Paulo. O Armagedon descrito acima. Conseguia transitar em todos estes grupos, embora não me identificasse com nenhum deles, nem mesmo na maneira de me vestir. Ao mesmo tempo, meus melhores amigos eram GLS (como chamávamos naquela época). Hell’s Club, A Lôca, B.A.S.E., Mad Queen, Massivo, Disco Fever, Lov.e – adorava freqüentar esses inferninhos na companhia de muitos que seguem sendo grandes amigos até hoje.

Acredito, hoje, que não conseguia me identificar com os outros grupos do Armagedon porque em geral aceitavam minha presença – a dos meus melhores amigos eles no máximo toleravam, com evidente desconforto. Os inferninhos me traziam sentimentos conflitantes – estavam sempre juntas, lutando entre si, minhas duas metades: uma calma e tolerante, a outra sem limites. Essa outra metade, que de politicamente correta e controlada não tem nada, desejava profundamente que alguns seres humanos emudecessem, para calarem suas bocas pútridas. Caso não resolvesse, que passassem por uma lobotomia para extirpar as partes estragadas de seus cérebros. Intolerante com os intolerantes, e nada mais. Apenas o que mereciam.

Anos mais tarde, tive aulas pela 1ª vez com o segundo professor, em minha vida acadêmica, do qual sinto genuína saudade: Antônio Augusto Cançado Trindade. Fui aluna dele quando ele era presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos e, alguns anos depois, era aluna dele quando foi eleito para juiz da Corte Internacional de Justiça. Esse mestre foi a primeira pessoa que me fez pensar e refletir sobre os outros, sobre a condição dos outros no mundo. Agradeço a ele e ao Denilson pela transformação que ajudaram a promover por meio do diálogo, do questionamento, da análise. A intolerância com os intolerantes modificou-se, racionalizou-se.

Não sou Hitler, Stalin ou qualquer outro espécime nojento desses. Mesmo odiando-os e desejando mudez e lobotomia para certos seres que de humanos não têm nada, não tenho o direito de querer tirar-lhes quaisquer direitos. Repetem tanto por aí que o amor deve ser espalhado, que devemos amar uns aos outros... Esquecem que o amor é irmão do ódio e que a linha de separação entre eles é bem tênue, fácil de ser cruzada já que são sentimentos com enorme carga de irracionalidade.

Odeio, genuinamente, certos tipos de gentes. Acho-as um câncer para o planeta e para a própria humanidade. Só que não sou nenhuma dessas pessoas das quais me sinto enojada por fazerem parte da mesma espécie. Tenho ânsias quando penso que são homo sapiens. Para mim, são homo irracionalis – incapazes de entender que não precisam amar ninguém, apenas respeitar a liberdade e a existência plena dos outros.

Também já fui como esses tumores – por isso tenho pena deles.





NOTA: sem periodicidade definida, o LIVRO ALEATÓRIO



"Monsters are real, and ghosts are real too. They live inside us, and sometimes, they win"
Stephen King