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17 de jul de 2013

normalidade, apenas?

Somos socializados desde pequenos no modelo monogâmico heteronormativo – o certo, o almejado, é ter um par, casar, ter filhos, constituir família. Somos educados para este modelo, dentro deste modelo. Mesmo inconscientemente, carregamos este modelo. Até mesmo muitos dos meus amigos homossexuais querem casar, ter filhos, constituir família... para serem normais como qualquer casal hetero.

Não percebemos que seguir o que é “normal”, ter um par, não significa necessariamente ter felicidade. Pode significar ou não. Porém, buscamos segui-lo, buscamos nos inserir na “normalidade”... algumas vezes, às custas da nossa felicidade. Quantas mulheres continuam em relacionamentos abusivos? Quantas aceitam traições, mesmo que estejam sofrendo com aquilo? Quantos homossexuais negam seus próprios desejos, sua própria sexualidade?

Socialmente, para a mulher, estar sozinha a torna menos valiosa, menos digna. A educação feminina, desde cedo, é para agradar à família, obedecer ao pai, agradar ao homem, obedecer ao marido. Estar bela, ser atraente ao sexo oposto. Ser feminina, doce, amável, cordial. Quem sai dessas características assusta a maioria e merece ser punida – ser uma vadia, não servir para relacionamentos sérios... e isso, em última instância, leva-a merecer ser agredida, estuprada. A mensagem da sociedade é: saia do que é esperado e será uma pária.

As mulheres são mais bem vistas quando têm um homem ao lado. UM. O seu dono. Homens são bem vistos desde que tenham mulheres – uma ou várias, em relações monogâmicas ou não. Pessoas que saem dessas expectativas viram párias, precisam ser curados, são anormais. Ela é lésbica porque ainda não encontrou um pau que fizesse direito. Ela está solteira porque tem algum problema. Ela faz sexo casual então qualquer um tem o direito de comê-la. Ele não pegou aquela gostosa que estava dando mole... é um viadinho (esteja ele em uma relação monogâmica ou solteiro). Ele não pega ninguém... é uma bicha. Ele não gosta de mulher... é um gay e merece a morte.

Homens não são assim mesmo. Eles foram ensinados a ser. Muitos estão aprendendo que não precisam ser MACHOS. Poucos, ainda.

Mulheres não têm que ser assim. Elas foram ensinadas a ser. Muitas estão aprendendo que não precisam ser PRINCESAS. Poucas, ainda.

É mais fácil ser “normal”. Grande parte segue a normalidade sem sequer questioná-la. Há aqueles que a seguem apenas para não serem julgados e não entrarem no ostracismo social que se impõe aos párias. E há aqueles que dizem não às expectativas alheias e vivem as próprias – e elas podem ou não corresponder ao que é classificado como “normal”. A última categoria de pessoas é a única que é, de fato, livre e faz suas escolhas de forma consciente.


Papéis de gênero são construções sociais. Dessa forma, não dá para simplesmente condenar, acriticamente, quem os segue. Entretanto, não sei até que ponto as pessoas que compactuam com a manutenção desses papéis são uma ameaça ou apenas um produto do meio. Inconclusivamente, termino este texto com o mesmo vídeo e trecho de diálogo colocados em outra postagem, na qual eu falava sobre mulheres machistas.




"A maioria destas pessoas não está pronta para ser desplugada... e muitas estão tão habituadas, tão irremediavelmente dependentes do sistema, que irão lutar para protegê-lo"