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10 de jul de 2013

O 1º Livro Aleatório*

“Eram cinco e meia; não tardaria muito. Mariana foi à sala da frente, espiou pela vidraça, prestou o ouvido ao bonde, e nada. Sentou-se ali mesmo com o Ivanhoe nas palmas, querendo ler e não lendo nada. Os olhos iam até o fim da página, e tornavam ao princípio, em primeiro lugar, porque uma ou outra vez desviavam-se para saborear a correção das cortinas ou qualquer outra feição particular da sala. Santa monotonia, tu a acalentavas no teu regaço eterno.”
Machado de Assis. Contos / Uma Antologia; Capítulo dos Chapéus.


Escolhi Machado por achar que seria fácil - entre os autores de literatura que tenho em casa, é o preferido, o que reli mais vezes. Tantas opções interpretativas para este trecho... e consigo pensar apenas em como o tempo é relativo. Em como a passagem do tempo é sentida e vivida de maneira diferente pelas pessoas. Em como tudo depende do contexto, inclusive a relatividade do tempo.

Não consegui ir além. Fiquei pensando na elegância – e na ironia escondida – em descrever a passagem de tempo para Mariana. Precisei reler o conto inteiro, para relembrar qual era o contexto desse pequeno trecho machadiano. A partir disso, logo estava pesquisando sobre Molière e outros autores aos quais Machado faz referência nesse conto.

Uma troca. Em vez de exercitar a escrita, um pouco de exercício de leitura. Autores que me desafiam fazem com que eu busque mais conhecimento. Autores que me inspiram também. Há um terceiro tipo, que consegue desafiar e inspirar ao mesmo tempo – ou pela qualidade literária, ou intelectual, ou pela história de vida. E existe Machado de Assis, que além de me desafiar e me inspirar nisso tudo ao mesmo tempo, ainda consegue, todas as vezes que o releio, me fazer sentir burra e com vergonha alheia da própria burrice.

Ele, naquela época: mais culto, politizado e consciente da realidade humana do que muita gente do meu nível sócio-econômico hoje. Em 2013, basta procurar no Google! Ou será que eu não tenho preguiça de pesquisar por que tive à disposição a Enciclopédia Barsa? Não entendo como hoje as pessoas estão, paradoxalmente, mais desinformadas. Ou é por que antes eu não precisava saber o que as pessoas pensavam? Como é possível a coexistência de tanta informação disponível com tanta intolerância?

Tudo, da realidade do outro lado do mundo aos downloads de livros, está à distância de um click. Procurem uma Barsa na casa da vovó para ver o que era sofrimento – praticamente uma Wikipédia, sem a facilidade de um simples click! Até para ler a Wikipédia é mais rápido no século XXI.

Por que as pessoas negligenciam tanto exercitar o cérebro? É ele que vai se manter quando o físico falhar – estética ou funcionalmente, de acordo com o ponto de vista adotado. Por que várias das que exercitam o cérebro intelectualmente, falham em exercitá-lo reflexivamente?

Pequenos parágrafos com questionamentos para os quais não tenho resposta – ou melhor, as tenho, mas são politicamente incorretas, então as silencio.





*Sobre o 1º Livro Aleatório:

Fiz uma promessa a mim mesma. Sigo cumprindo. Inclui manter abstinência __________até atingir a meta X. Como eu não posso quebrar a promessa que fiz a mim, quanto antes eu atingir a meta X, menos tempo ficarei sem fazer algo que gosto – _________. Para atingir essa meta X, tenho ficado mais tempo em casa, lendo e relendo muita coisa. Que meta X é essa obviamente não posso divulgar – não divulgo minhas metas de nenhuma área.

Leituras e re-leituras têm me mostrado muito sobre minhas limitações – em termos de convicções pessoais, inclusive. Deixo minha psique para os profissionais e para os entendidos na arte de julgar e analisar pessoas sem sequer conhecê-las. Aqui quero abordar minhas limitações enquanto redatora – de trabalhos acadêmicos a frases do twitter.

Há uma coisa que tenho dificuldades: escrever sobre algum tema aleatório qualquer com o qual eu não tenho intimidade ou pelo qual eu não nutro simpatia. Dessa forma, resolvi testar onde entram a criatividade e a seriedade, quais as possibilidades de uso da ironia e outras figuras de linguagem, fugas ao tema, etc. Inclui, inclusive, os textos desse blog que, como não tem coluna, terá um... projeto? Não sei como adjetivar.

Para mim chama-se: LIVRO ALEATÓRIO. Significa? Abrir um livro qualquer da minha estante; preferencialmente literatura, mas não excluindo outros gêneros; em uma página aleatória; pegar um trecho aleatório qualquer; e escrever um texto aleatório qualquer a partir desse trecho; sem periodicidade definida. Entendeu a proposta? Tudo aleatório, basicamente.