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8 de jul de 2013

reforma x jeitinho

Título alternativo: A parte da reforma política que também precisa ser feita, mas ninguém tem interesse sequer em debater.


Não sou contra as manifestações que ocorreram por aqui nos últimos tempos, mas tenho minhas críticas (algumas delas apresentadas AQUI e AQUI). Este texto é mais uma crítica ao nosso jeitinho de ser brasileiro.

Uma coisa que venho pensando muito, no caso brasileiro, é:

“O ultraje, causado pela desatenção dos políticos e burocratas do governo pelos problemas e desejos de seus cidadãos, que os elegem e pagam seus salários.”
“Além de passarem por uma série de problemas urbanos, ainda se exige que eles façam o trabalho de profissional que deveria ser dos burocratas preguiçosos responsáveis pela bagunça nos serviços. Os cidadãos só apontam os problemas. Resolvê-los é trabalho para os políticos e técnicos pagos por eles para fazê-lo.”

Os trechos acima grifados foram retirados DAQUI. Discordo de Castells em diversos pontos – como discordei de vários pontos na triologia “Era da Informação” – mas respeito, muito. Mestres devem sempre ser respeitados e acabo aprendendo mais com a discordância do que se concordasse com tudo que dizem.

Não sou tão otimista quanto Castells. Não consigo ser tão otimista ao ouvir falar em reforma política no Brasil, por exemplo, e perceber a existência de uma parte essencial da reforma política que os brasileiros convenientemente esquecem e/ou deixam de lado. Precisamos mudar o modo como a política é feita, ali na Praça dos Três Poderes? Sim, sem dúvidas. Não há como discordar disso tendo um Congresso que representa tudo, menos a Nação. Incluo o Executivo e o Judiciário junto com o Legislativo, por entender que os três poderes estão contaminados por interesses pessoais e partidários.

Porém, incluo na pauta de reformas políticas urgentes para melhor uso do dinheiro público uma coisa sobre a qual a maioria silencia: agências, empresas, autarquias... enfim, o serviço público em geral, aqueles que são CLTistas e os que estão sob a Lei 8.112. Eu tinha uma visão negativa do Serviço e do Concurso Públicos, que pode ser conferida AQUI. Essa visão piorou muito após um breve período tentando trabalhar dentro de uma agência pública.

Para começar, há muita gente trabalhando nesses órgãos em cargos de confiança ou terceirizados. Cargo de confiança significa que qualquer um pode estar lá se tiver boas relações, mesmo que seja um completo idiota ou não preencha os requisitos do cargo. Exemplo: alguém estar na diretoria de uma área internacional e não falar nem inglês (minha mãe ficou em um cargo desses por anos e, recentemente, havia uma cidadã dessas no lugar onde eu estava trabalhando... é mais comum do que se imagina). Terceirizados? Darei só o meu exemplo para ilustrar o quanto de dinheiro público é desperdiçado: eu estava recebendo aproximadamente 1/4 do que estava custando ao órgão público.

Eu, pessoalmente, não acho que concurso seja a melhor forma de selecionar alguém se, após o concurso, a produtividade e a eficiência da pessoa não for avaliada de forma séria e se ela não puder ser demitida caso não esteja cumprindo metas. Basta ir em qualquer órgão público, precisando de algum serviço, para ver que não somos tratados como clientes e que metas de eficiência e produtividade são algo inexistente no vocabulário dos serviços públicos ofertados. Isso é só culpa do governo?

Semana passada, ouvi gente reclamando de ter ido à Receita Federal e ao Detran e perderem horas, não serem tratados como clientes. São as mesmas pessoas que me diziam “isso não é a tua função” quando eu me oferecia para traduzir algo visando ganharmos tempo ou dava alguma sugestão para facilitar o trabalho. São as mesmas pessoas que, por interesses pessoais, acham normal o quanto $$$ se gasta nessa máquina pública inchada para pouquíssima eficiência e produtividade. Esses técnicos e burocratas pagos com o dinheiro dos impostos de todos acham, assim como grande parte da população, que não são parte do problema - por aqui, a culpa é do governo, sempre.

Sinceramente, a partir do que eu vi de dentro do serviço público, diria sem o menor receio de estar errada: se metade daquelas pessoas fosse demitida e o expediente fosse apenas das 9 às 17hs, mas as pessoas trabalhassem de verdade, ainda assim a demanda seria atendida. Dinheiro público seria poupado e as pessoas teriam mais tempo livre, fora do ambiente de trabalho, para fazerem o que desejarem. E não, não estou exagerando.

Esses burocratas do governo estão dispostos a parar de brincar de manifestantes indignados com o mal gasto do dinheiro público? Estão dispostos a parar com isso e entrar na lista de coisas que precisam ser revistas e reformadas, pois são um péssimo gasto, além de desperdício, do dinheiro público? 

Inovação. Inventividade. Criatividade. Produtividade. Excelência. Eficiência. Empreendedorismo. Oportunidades. O que eu poderia falar, positivamente, em termos disso tudo, de um país no qual o topo da carreira de alguém é um concurso público? No qual em grande parte das vezes, as pessoas estão lá e sequer passaram por alguma avaliação, por um concurso? No qual aqueles que passaram pelo concurso chegam lá e acomodam-se, espreguiçam-se?

Acho um desperdício pessoas com talento e gana acabarem virando "concurseiros". Acho um desperdício um país, com as capacidades naturais e de recursos humanos que o Brasil tem, incentivar o serviço público. No entanto, entendo todos aqueles que buscam essas agências públicas: é difícil manter-se de pé, de forma independente, em um país que não incentiva a iniciativa privada e que coloca vários obstáculos àqueles que apostam nesse caminho. Seguir fora da máquina pública acaba sendo um exercício de persistência para empresários e trabalhadores.