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24 de ago de 2013

livro aleatório - gatos

“Ao meio-dia desliguei o telefone para me refugiar num programa especial: a rapsódia para clarineta e orquestra de Wagner, a de saxofone de Debussy e o quinteto de cordas de Bruckner, que é um remanso edênico no cataclismo da sua obra. E de repente me encontrei envolto nas sombras do estúdio. Senti deslizar debaixo da minha mesa algo que não me pareceu um corpo vivo e sim uma presença sobrenatural que roçou meus pés, e saltei com um grito. Era o gato com sua bela causa empenachada, sua lentidão misteriosa e sua estirpe mítica, e não consegui evitar o calafrio de estar sozinho na casa com um ser vivo que não era humano.”
Gabriel García Márquez. Memória de minhas putas tristes.




Coincidências não existem. Fim. Único pensamento a habitar minha mente quando abri este livro, nesta página, neste 24 de agosto... Dia do meu sexto aniversário, dia que resolvi ficar quieta em casa com meu gato... justamente ouvindo música clássica. Um dos vários livros do García Márquez que tenho em casa e, apesar de não ser o meu preferido, foi ele que peguei quando pensei em escrever. Estava ouvindo Wagner... acho até que meu companheiro felino gosta – ele só fica quietinho deitado ao lado quando é alguma música clássica, seja ocidental ou não (e eu AMO as clássicas orientais!). O bichano foge e fica inquieto com rock n’ roll e qualquer outro estilo que gosto, parece não agüentar mais do que meia hora ouvindo qualquer coisa que não sejam as clássicas.




Ao contrário do narrador da história (neste parágrafo citado, ao menos), não tenho calafrios ao estar sozinha em casa ou em qualquer outro local com felinos. Os amo. Amo seu mistério, sua estirpe mítica. São sim, uma presença sobrenatural – boa, porém. Filtram energias ruins. Fazem companhia. Os acho elegantes, lindos e adoro escutar seus ronronares... Acima de tudo, amo o modo como são independentes e só fazem o que querem. Às vezes, tenho a impressão de que eles é que me têm como sua humana de estimação – não me engano mais, achando que sou dona de algum deles, após mais de 20 anos tendo gatos dentro de casa.

Já me perguntaram muitas vezes porque gosto tanto de gatos... Não gosto, amo. Amo, pois não posso controlá-los e muito menos forçá-los a se comportar como eu gostaria – se recusam e fim. Não adianta chamá-los e esperar que venham, eles só vêm quando querem, só fazem o que querem. Continuam exercendo sua liberdade, por mais que tentemos domesticá-los. Há muito desisti de querer que se adaptem – sou eu que me adapto à vida com eles. Amam incondicionalmente, mas querem o mesmo de mim.

De repente, gosto tanto de gatos por ser como eles... E, enquanto meu companheiro felino ainda tem 3 vidas para gastar (só caiu 4 vezes da janela do 3º andar!), eu ainda tenho 6 vidas. Celebramos nossas vidas restantes juntos. Apenas me entristece saber que o tempo dele por aqui está acabando...





*o último livro aleatório AQUI.

23 de ago de 2013

liberdade de expressão e democracia

Pode-se definir democracia como uma forma de governo onde as normas e diretrizes do comportamento decidem-se, em última análise, por alguma forma de regra da maioria. Partindo da definição de democracia, infere-se que o Estado democrático visa à participação dos cidadãos nas principais escolhas e resoluções; portanto, eles devem possuir a informação relativa a esse poder decisional, inclusive as opiniões dos demais.

O direito de acesso à informação se constitui como ferramenta legal para alcançar a transparência dos atos do Estado e também como meio de fiscalização efetiva de todos os setores da sociedade.

Nas sociedades democráticas, a liberdade de expressão não é apenas um valor positivo, mas essencial à existência dessa forma de governo. O mais forte argumento a favor do direito de comunicar decorre da autonomização e fortalecimento da democracia enquanto instrumento de libertação comunicativa. Um regime democrático puro, que não esteja comprometido com quaisquer metas para a proteção de certos grupos específicos da sociedade, não possui nada ideologicamente oculto para proteger (o que não ocorre nas ditaduras, oligarquias e governos totalitários como um todo).

A liberdade de expressão constitui um dos fundamentos essenciais de uma sociedade democrática e uma das condições básicas para o seu progresso e para o desenvolvimento humano. O direito à liberdade de expressão é provavelmente o direito humano mais aceito universalmente. O princípio da liberdade de expressão é um dos que não admitem exceção alguma e é aplicável a todos os povos do mundo, em virtude da dignidade humana.

Os obstáculos e defeitos que impedem a comunicação demonstram uma falha das relações democráticas. Persiste a indagação sobre a possibilidade de concretização dos direitos humanos, incluída a liberdade de expressão, em um mundo caracterizado pelo excesso de poder e pelo excesso de impotência.

A liberdade de expressão e informação atinge o grau máximo de sua tutela quando exercida pelos profissionais dos meios de comunicação social (liberdade de imprensa). Em uma democracia, é indispensável a existência da liberdade de imprensa como meio para conhecer os fatos que ali acontecem, o trabalho das autoridades, as ações e omissões de quem desempenha funções públicas; isso abre campo ao controle dos cidadãos sobre o poder político e ao mesmo tempo garante aos habitantes o respeito aos seus direitos fundamentais ou à divulgação de sua vulnerabilidade. A opinião pública cidadã e de cunho político tem uma função controladora.

A liberdade dos indivíduos para debater e criticar abertamente as políticas e as instituições protege os mesmos contra as violações aos direitos humanos. Em alguns casos, a utilização dos meios de comunicação tem ajudado a gerar uma consciência pública e exercer pressões para que se adotem medidas visando melhorar a qualidade de vida dos setores marginalizados ou mais vulneráveis da população.

A função da comunicação nas relações internacionais é importante, já que dela depende que a opinião internacional perceba plenamente os problemas que ameaçam a própria sobrevivência da humanidade, cuja solução não pode ser encontrada sem uma coordenação entre os países.

Por isso, no mundo civilizado é hoje um axioma que quando está em perigo a liberdade de expressão se colocam em perigo todas as demais liberdades e, portanto, é imperioso estudar a proteção dada internacionalmente à liberdade de expressão. 

Apesar de todos os avanços, a existência de direitos não significa a garantia de seu exercício. O ordenamento jurídico se mostra como alternativa viável na proteção das liberdades individuais, nacional e internacionalmente. A afirmação da liberdade de expressão não basta para garantir sua prática. É também indispensável a existência simultânea de outras liberdades que são elementos essenciais do direito a comunicar, assim como a integração entre as ações dos governos e de entidades da sociedade civil visando à construção, por toda a comunidade internacional, da convivência sem violência que a democracia exige.







22 de ago de 2013

sobre gêneros e fogueiras

Caça às bruxas feita por militantes contra outras militantes da mesma causa me soa como algo bastante burro, além de improdutivo. Se tal fogueira inquisitória for acesa com raiva, frustração e agressividade... tem-se então um misto de ignorância e desonestidade. Burrice, improdutividade, ignorância e desonestidade – quatro palavrinhas simples que ativistas deviam riscar do seu vocabulário e que são, também, ingrediente perfeito para aqueles contrários às suas causas.

Ativistas agressivos prestam um enorme desserviço às suas causas. São, em alguns casos, piores do que os opositores destas causas. Envenenam os movimentos por dentro, causam antipatia às suas causas onde quer que abram a boca. Distorcem motivações e embasamentos teóricos por conta de um misto de ignorância e vontade louca de atacar os outros e se provarem superiores aos "não iluminados". Esse tipo de gente existe em todos os movimentos – mudam as bandeiras, mas a estupidez e a imaturidade intelectual são as mesmas. Quer fazer guerrilha e terrorismo? Go for it! Porém, lembrem-se que encher o saco alheio pelo prazer de se mostrar superior não é apenas idiota - é um presente para quem quer ver sua causa naufragar.

A raiva, a frustração e a agressividade de alguns não tem limites. Esquecem o princípio básico da Liberdade de Expressão: "I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it" (“Discordo do que dizes, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo”). Esquecer esse princípio é, também, uma forma de ignorar que a base da democracia é a liberdade – de TODOS, inclusive daqueles dos quais discordamos. Querer calar, atacar e jogar em uma fogueira quem tem uma opinião diferente da sua é, em última instância, igualar-se aqueles que você combate e que podam a sua liberdade. Ou não?

Não tenho nenhuma simpatia por essa sociedade que condena tudo que seja desviante de suas regras não escritas, mas acredito que podemos escolher como reagir aos dogmas sociais e como nos relacionar com eles. Acreditar na inexistência do livre arbítrio seria seguir as normas que me ensinaram desde a tenra infância sem questioná-las. Foucault afirma que o ser humano é construído socialmente e constrói o mundo em que vive. Se o mundo que querem construir é pautado na imposição de pontos de vista, em ataques pessoais e não em discussão de idéias e debates, sinto muito, mas isso não é diferente de nenhum autoritarismo que já passou pela história da humanidade. Eu, felizmente, tenho pavor de qualquer autoritarismo, venha de onde vier.

Discordar é muito diferente de atacar, assim como rebater idéias é bem diferente de atacar pessoas. 

Já disse aqui que detesto militância idiomática – isso para mim, além de assassinato linguístico, é militar para a militância e afastar os leigos de qualquer causa... então não, obrigada. Aparentemente, ser contra rótulos e recusar-se a usar cis e trans para se referir a tipos de homem e de mulher é um pecado, punido com a fogueira da inquisição ativista, passível de acusações de transfobia e cissexismo. Lamento informar, mas continuarei sendo contra a classificação de pessoas em gêneros, para o horror dos inquisidores. Por quê?


Meus amigos homens são apenas isso: homens. As mulheres, idem. Isso independe de serem homossexuais, heteros, bi ou trans. Não significa que eu queira apagar a identidade de cada pessoa e massificá-la, colocando-a em uma fôrma. Não significa que eu queira negar-lhes nada. Apenas, para mim, a divisão de pessoas dentro desses rótulos é potencializar a subexistência das que são desviantes em relação ao que é majoritariamente aceito em nossa sociedade. Para mim, uma lésbica ou uma trans são tão mulheres quanto eu – e não vejo nada de errado em tratá-las simplesmente como mulheres. Se tratar alguém como uma igual é ser preconceituosa, ok, fico cá com meu preconceito enquanto ficam lá fazendo fogueiras.





"I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it"





*Para quem tiver interesse e não souber o que é cis ou cissexismo ou transfobia: O que é cissexismo?


NOTA: independente do mimimi alheio... Se dependesse de mim, todo e qualquer rótulo (prefixos e sufixos idem) usado para classificar pessoas seria extinto. Somos plurais e diversos demais para sermos classificados e colocados na prateleira, como produtos expostos em supermercado. Entretanto, quem se sente bem vestindo um rótulo que o faça – mas respeite o direito de quem não quiser fazer o mesmo. Eu, pessoalmente, acho rótulos muito úteis: para discriminar e dividir pessoas, nada além disso.


12 de ago de 2013

(in)coerências

Não tenho poderes paranormais. Não sou telepata. Muito menos sou alguém hipersensível. Entretanto, ainda assim, sendo apenas uma pessoa normal como qualquer outra, consigo saber como estão (emocionalmente) as pessoas com as quais convivo, as pessoas que conheço. Por isso, me espanta bastante que alguém me diga “eu nunca soube como você se sentia” – espanta, mas não surpreende.

Nós nunca, jamais, em hipótese alguma, saberemos como outra pessoa se sente, em seu íntimo. Apenas ela sabe isso: como se sente é único, é pessoal e intransferível e, por mais que a pessoa verbalize seus sentimentos sobre qualquer questão, jamais saberemos como eles são sentidos, vividos. Espanto número um está aí, em alguém achar que algum dia saberá como outra pessoa se sente. O número dois recai na pergunta: comunicação verbal é a única forma de comunicação desde quando?

Gestos, atitudes, vestimentas, posturas, expressões faciais, postagens em redes sociais... São inumeráveis as formas de comunicação na era contemporânea. Já disse que não sou um monte de coisas no primeiro parágrafo e digo mais uma: não sou psicóloga. Não sou tanta coisa... Mas sou observadora. Uma ótima observadora. Das comunicações não verbais. Dessa forma, consigo saber quando alguém está mal, deprimido, triste, feliz, surtado, indignado... enfim, seja qual for o estado emocional da pessoa, é perfeitamente possível sabê-lo apenas por observação.

O que escolho fazer com a observação já é outra história e depende de variáveis. Quanto me importo com a pessoa? Posso ajudar em alguma coisa? É melhor falar com alguém mais próximo da pessoa ou com ela própria? A situação é grave? Devo ignorar? Muitas e inumeráveis variáveis, cujas ações vão desde simplesmente ignorar o que observei até pegar o avião e ir correndo para a cidade da pessoa (já fiz isso e sou dessas). Posso, apenas, enviar uma mensagem dizendo “se precisar, me liga” ou perguntando “está tudo bem?”. Muitas ações e inações possíveis.

Não me surpreende alguém me dizer que não sabia como eu me sentia. Motivos vários. Para começar, o ser humano em geral não é bom observador de linguagem não verbal e eu, definitivamente, não sou uma pessoa que goste de verbalizar sentimentos. Acho desnecessário até e, para mim, ações sempre foram mais significativas do que palavras, em tudo. A minha dúvida é outra: o ser humano, em geral, não é bom observador porque ficou bitolado e tem a necessidade de verbalizar tudo? Ou não é bom observador porque geralmente egoísta e centrado em si mesmo? Ou é apenas preguiçoso com qualquer forma de comunicação que o desafie um pouquinho mais do que o verbo?

Não tenho certezas, só dúvidas. Alguns questionamentos nada agradáveis também – e talvez sejam mais desagradáveis para mim do que para os outros, inclusive. Se uma pessoa não sabe como outra se sente, já que não possui uma boa capacidade – seja por qual motivo for – de observar comunicações não verbais, não caberia perguntar? Se não há preocupação nem de perguntar, haveria alguma outra?

Não tenho obrigação nenhuma de dizer como me sinto, com relação a nada, para pessoa alguma. Isso é tanto verdade quanto o fato de que nenhuma pessoa tem bola de cristal para adivinhar como me sinto. Eu não tenho necessidade de verbalizar sentimentos. EU. Se outra pessoa tem e sente-se bem fazendo isso, que bom para ela. Somos todos diferentes. O problema é que parece um pecado eu me sentir melhor lutando do que falando (e sim, lutar é muito terapêutico para mim, mas falar sobre isso fica para outro dia). Parece um pecado não reagir às coisas chorando, desabando, caindo... como se fosse a única forma de reação possível aos sofrimentos dessa vida pela qual todos passamos.

Tenho problemas muito sérios com a palavra LIBERDADE. Incluem: ser como eu sou, não como gostariam que eu fosse. Em todas as esferas. Incluem, também, desejar que cada um seja como é, não como eu gostaria que fossem. Cada pessoa faz suas escolhas dos verbos ser, agir, reagir. Não está retirando ou impedindo o direito alheio? Go for it! Para o que discordo e me desagrada, há o FODA-SE: use-o e assuma-o também, em vez de querer impor regras de comportamento aos outros.


Reflexivamente, inspirado por meu querido companheiro de madrugadas insones regadas a filmes, bebíveis, fumáveis, bate-papos e desabafos:

We don’t know shit about the others. We don’t even care. We just pretend we do.



Nossa madrugada de ontem foi regada a esse filme do Polanski, que é uma verdadeira, belíssima e primorosa aula sobre o ser humano, a hipocrisia e a falta de coerência. Virou debate sobre coerência e como ela pode ser usada – para o bem e para o mal – já que o personagem com o qual ambos mais nos identificamos é o advogado, por seu cinismo e acidez e, também, por ser o único que mantém a coerência em seu posicionamento, do início ao fim (não concordamos com seus valores, mas é interessante observar como manter a coerência e não ser hipócrita não necessariamente significa estar fazendo algum bem e pode significar inclusive o oposto disso... ainda assim, simpatizo mais com quem é coerente... ao menos dá para saber exatamente com quem se está lidando).

10 de ago de 2013

militância idiomática

Há por aí uma nova modalidade de cagação de regras, que chamarei de Militância Idiomática. Aquela gente chata que se você não usar “X” ou “@” para neutralizar gêneros, fica mimimizando e reclamando. Aquela gente chata que se não for usado o “cis” para identificação de qual tipo de homem ou mulher se está falando, vem logo vomitar seus mimimis e te qualificar como alguém preconceituoso que exclui as pessoas trans.

O pessoal chato da Militância Idiomática que me desculpe, mas “Todxs xs alunxs”, além de ser inexistente, é impronunciável. O que aconteceu com “Todos(as) os(as) alunos(as)”? A escola mandava bilhetes para meus pais assim, sem a necessidade de assassinato da Língua Portuguesa. Considero politicamente chatas as pessoas que insistem no assassinato da norma culta de qualquer idioma, apenas por causa de sua militância, principalmente se for possível dizer a mesmíssima coisa sem precisar assassinar a gramática.

Concordo que o Português, assim como outras línguas latinas, é machista. Porém, ainda há tantos analfabetos e analfabetos funcionais nesse país, que essa Militância Idiomática acaba soando, também, como uma extrema falta de conexão com a realidade. Ou será possível que haja pleno entendimento do que significam “X” e “@” em um contexto no qual as pessoas sequer têm um bom conhecimento de sua língua nativa e não conseguem interpretar textos simples escritos em linguagem coloquial?

Para expressão escrita, sou a favor de usar a norma culta da Língua Portuguesa e de qualquer outro idioma, na medida do possível, até para escrever em um blog. A não ser que a norma culta mude e inclua "X" e "@", continuarei usando-a. Ou por acaso, no mundo encantado dos contos de fadas, aceitam-se "X" e "@" em concursos, dissertações, textos profissionais ou literários, vestibulares, monografias, etc? Queremos que as pessoas estejam preparadas para uma utopia ou para o mundo real?

Minha utopia é que não haja preconceito de gênero, fim. Um sonho distante, eu sei. Mas enquanto essa realidade não chega, pode-se (e deve-se) preparar as pessoas para o uso que deverão fazer de sua língua nativa em suas vidas escolares, acadêmicas, profissionais. É um incômodo a predominância do masculino no Português? Para muita gente, sim. Só que não há a necessidade de assassinato da gramática e é perfeitamente possível deixar o “X” e a “@” para trás na linguagem neutra de gênero, como dito NESSE excelente texto, escrito a partir de uma perspectiva trans.

Assim como não uso “X” e “@” para protestar pela predominância do masculino até na língua, jamais usarei "cis" e outros termos. Para mim não existem gêneros; o que há são pessoas. Sou libertária demais para ter a obrigação de usar esses rótulos e, convenhamos, é possível passar a mensagem sem isso. Ou há a obrigação de aparentar intelectualidade? De seguir as regras da militância? Mostrar academicismo? Sinceramente, acho que as pessoas andam preocupadas demais com forma e descuidando do conteúdo, como já disse anteriormente ao falar do Politicamente Chato.

Não gosto de cagação de regras, venham de onde vierem. Tenho vontade de “___________” (preencha o espaço com o verbo mal de sua preferência) em esquerdistas autoritários, de qualquer militância. Na verdade, em qualquer autoritário de qualquer direção. Sou libertária demais para ser militante, não o contrário.


Deixo, por fim, o link para o Manual para o Uso Não-Sexista da Linguagem.

7 de ago de 2013

necessidades desiguais

Estes dias li um texto que me fez ficar sem palavras. Desinformação? Desonestidade? Ignorância? Inocência? Utopia? Não sei qual delas usar para completar a frase: "____________ pouca é bobagem."

A autora questiona: Por que separar banheiros se as necessidades são iguais? Depois compara a divisão de banheiros em femininos e masculinos com a exclusão dos elevadores sociais e termina ignorando, completamente, que vivemos em um país no qual ocorrem assédios, estupros e abusos sexuais em locais públicos diariamente, à luz do dia.

Falar da exclusão de pessoas trans é uma coisa bem diferente de questionar porque banheiros são divididos se as necessidades fisiológicas são iguais – e ainda não sei qual palavra usar para esse questionamento simplista. As necessidades fisiológicas podem até ser iguais; as de proteger-se contra possíveis (prováveis?) desrespeitos e abusos não. Estas últimas são gritantes nos casos de mulheres.

Ocorre à autora - e demais apoiadores - que essa divisão é necessária? Que, infelizmente, ainda é a melhor forma de evitar assédios, estupros e abusos sexuais em banheiros públicos enquanto muitos seres humanos do sexo masculino continuarem se portando como se o corpo feminino fosse propriedade deles? Nessa divisão, só lamento pelas pessoas trans, impedidas de usar o banheiro feminino e, portanto, também expostas ao risco de assédios, abusos, estupros e etc.

Foi necessário que se criassem vagões exclusivos para mulheres no metrô porque são desrespeitadas, assediadas, abusadas. Imagina em banheiros mistos!? Mulheres em situação de vulnerabilidade nos banheiros x machos à espreita de uma oportunidade para agir de má fé. Imaginou?

Concordo com a Nadia Lapa quando ela diz que o vagão feminino parece uma boa idéia, mas não é. Acredito, inclusive, que isso pode ser aplicado em relação à divisão dos banheiros por gênero nos espaços públicos. Só que eu não vivo em um conto de fadas, em um mundo perfeito, ideal, lindo, mágico, no qual as pessoas se respeitam e banheiros mistos funcionariam sem maiores problemas.

No mundo real, nesse Brasil de 2013, eu não quero ter que me preocupar com minha segurança ao ir ao banheiro. Mijar, cagar, trocar absorventes... São momentos da minha vida íntima nos quais não quero ter que me preocupar se algum primata está espiando enquanto se masturba (isso para ficar na melhor das hipóteses que poderiam acontecer). No mundo real, eu estudei em uma universidade na qual de vez em quando havia notícias de homens entrando nos banheiros femininos obviamente para fazer merda.


No mundo real, mulheres já estão vulneráveis aos primatas usando calça jeans, no metrô, à luz do dia, com um monte de gente ao redor que poderia defendê-las... e que muitas vezes optam por omitir-se ou até mesmo serem coniventes. Sentadas em um vaso sanitário, sem calcinha, estariam como? Qual a dificuldade de entender que, no caso dos banheiros, também é uma questão séria de salvaguardar a integridade das pessoas? Por que essa tendência de achar que vivemos na Disney?


Por que separar banheiros se as necessidades são iguais? Simples: ainda há primatas soltos no mundo - e eles frequentam banheiros.



NOTA: Só para constar: compreendo que Maíra, a autora do texto citado, propõe a discussão da exclusão e do preconceito contra as pessoas que não se encaixam na divisão binária de gêneros entre masculino e feminino. Entendo que tal discussão é urgente e necessária. Porém, no caso dos banheiros é questão de garantir a segurança (ainda que falha) feminina enquanto houver primatas aos montes soltos por aí.

6 de ago de 2013

deseducação e carapuças

Dia: segunda-feira.
Horário: 20:45
Local: alguma entrequadra comercial da Asa Sul, na Capital do Brasil.    
                 
Precisei ir correndo à farmácia, estacionei em frente a ela. A comercial estava vazia, com muitas vagas livres (exceto aquelas em frente à farmácia). Um cenário no qual eu, pessoa saudável cujas pernas funcionam perfeitamente, caso não encontrasse aquela vaga exatamente em frente à farmácia, teria estacionado um pouco abaixo e andado alguns poucos metros.

Ao sair da farmácia, havia um carro fechando o meu, estacionado em fila dupla. Buzinei até a motorista, que também era saudável e cujas pernas também funcionavam perfeitamente, aparecer para retirá-lo. Quando essa senhora apareceu, eu disse a ela em tom de voz normal: “você não precisava ter fechado o meu carro, podia ter estacionado em uma vaga já que a comercial está vazia”.

Para quê?

A louca começou a gritar comigo, indignada, com olhar de ódio. “Jura? JURA MESMO? Eu vim correndo tirar o meu carro para te atender” blábláblá “Não tinha vagas na hora que eu cheguei” blábláblá e, em vez de tirar o carro e estacioná-lo em uma vaga de uma comercial na qual mais da metade das vagas estava livre (eu chutaria que uns 2/3 das vagas estavam livres), a ‘aleijadinha’ o parou um pouco à frente, fechando outro carro em fila dupla. E desceu do carro gritando em minha direção.

Oi? Você está me fazendo um favor ao vir retirar seu carro, estacionado de forma irregular, em uma quadra comercial cheia de vagas vazias? Eu estou errada em te dizer que você podia estacionar em uma vaga? HELLOOOO!!! Que inversão de valores é essa? Você DEVE estacionar em uma vaga vazia, principalmente havendo várias delas disponíveis a poucos metros.

Eu, boa pessoa, gritei de volta. “Tomara que você vire aleijada de verdade, sua filha da puta mal educada do caralho!!!”. Juro: só não estacionei o carro de novo e não fui enfiar a mão na cara dela (ou quebrar suas pernas) porque tenho o mínimo de sanidade mental para convivência em sociedade. E só não tirei fotos dela ou do carro porque estava sem celular (sabe sair correndo para comprar um remédio sem levar nada além de carteira de motorista, cartão e chave do carro?).

Como não sou politicamente correta...

Desejo, do fundo do coração, que estas pessoas ‘aleijadinhas’ percam a funcionalidade de suas pernas e não consigam mais, verdadeiramente, andar alguns poucos metros.

Sim, desejo que os ‘aleijadinhos’ da capital tornem-se ‘aleijados’ de verdade para ver como é ruim não ter a capacidade de andar poucos metros com as próprias pernas. Todos eles, inclusive aqueles que estacionam nas vagas de deficientes. Se agem como se deficientes fossem, deveriam virar deficientes para ver se é bom.

Ah, também desejo que em vez de encontrar com alguém que vai apenas gritar de volta, encontrem com alguém que quebre suas pernas e os coloque para andar de muletas.



NOTA: O carro era uma Tucson prateada e essa senhora deve estar agora reclamando que alguma fedelha teve a petulância de questionar porque ela não estacionou em uma vaga vazia em vez de fechar o carro alheio (saí correndo de tênis, short jeans, camiseta e cabelo preso... eu estava parecendo uma fedelha...rs...).




Carapuça quando serve se esparrama pelo chão... a menina quando chora mete a mão no Muay Thai...


Significa... 

Assista ao vídeo abaixo e, depois, leia os comentários. Impressionante como as carapuças confirmam a tese. E sim, desejo esse destino para os ‘aleijadinhos’ que deseducam seus filhos (aqueles mesmos que, futuramente, não respeitarão ninguém e colocarão fogo em índio). Mas como tenho um mínimo de civilidade, descarrego esse desejo ruim treinando.

5 de ago de 2013

foda-se

FODA-SE é uma expressão / palavra / sei lá o quê com muitos significados.

É, também, um mantra filosófico que ajuda a evitar úlceras, gastrites, câncer, rugas precoces.

Apenas posso afirmar que se tratando de pessoas (e isso já faz algum tempo)... se eu disse FODA-SE, isso significa FODA-SE. Já foi pensado antes de ser dito e já deixou de ser dito por não ter a certeza de que devia ser dito. Se foi dito, provavelmente significa que não me importo mais com o que a pessoa vai pensar. Se me importasse, não diria. Se me importasse e dissesse, voltaria atrás, pois acho esse negócio de orgulho algo bastante burro.


Se disse e não voltei atrás, significa somente isso: FODA-SE.