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12 de ago de 2013

(in)coerências

Não tenho poderes paranormais. Não sou telepata. Muito menos sou alguém hipersensível. Entretanto, ainda assim, sendo apenas uma pessoa normal como qualquer outra, consigo saber como estão (emocionalmente) as pessoas com as quais convivo, as pessoas que conheço. Por isso, me espanta bastante que alguém me diga “eu nunca soube como você se sentia” – espanta, mas não surpreende.

Nós nunca, jamais, em hipótese alguma, saberemos como outra pessoa se sente, em seu íntimo. Apenas ela sabe isso: como se sente é único, é pessoal e intransferível e, por mais que a pessoa verbalize seus sentimentos sobre qualquer questão, jamais saberemos como eles são sentidos, vividos. Espanto número um está aí, em alguém achar que algum dia saberá como outra pessoa se sente. O número dois recai na pergunta: comunicação verbal é a única forma de comunicação desde quando?

Gestos, atitudes, vestimentas, posturas, expressões faciais, postagens em redes sociais... São inumeráveis as formas de comunicação na era contemporânea. Já disse que não sou um monte de coisas no primeiro parágrafo e digo mais uma: não sou psicóloga. Não sou tanta coisa... Mas sou observadora. Uma ótima observadora. Das comunicações não verbais. Dessa forma, consigo saber quando alguém está mal, deprimido, triste, feliz, surtado, indignado... enfim, seja qual for o estado emocional da pessoa, é perfeitamente possível sabê-lo apenas por observação.

O que escolho fazer com a observação já é outra história e depende de variáveis. Quanto me importo com a pessoa? Posso ajudar em alguma coisa? É melhor falar com alguém mais próximo da pessoa ou com ela própria? A situação é grave? Devo ignorar? Muitas e inumeráveis variáveis, cujas ações vão desde simplesmente ignorar o que observei até pegar o avião e ir correndo para a cidade da pessoa (já fiz isso e sou dessas). Posso, apenas, enviar uma mensagem dizendo “se precisar, me liga” ou perguntando “está tudo bem?”. Muitas ações e inações possíveis.

Não me surpreende alguém me dizer que não sabia como eu me sentia. Motivos vários. Para começar, o ser humano em geral não é bom observador de linguagem não verbal e eu, definitivamente, não sou uma pessoa que goste de verbalizar sentimentos. Acho desnecessário até e, para mim, ações sempre foram mais significativas do que palavras, em tudo. A minha dúvida é outra: o ser humano, em geral, não é bom observador porque ficou bitolado e tem a necessidade de verbalizar tudo? Ou não é bom observador porque geralmente egoísta e centrado em si mesmo? Ou é apenas preguiçoso com qualquer forma de comunicação que o desafie um pouquinho mais do que o verbo?

Não tenho certezas, só dúvidas. Alguns questionamentos nada agradáveis também – e talvez sejam mais desagradáveis para mim do que para os outros, inclusive. Se uma pessoa não sabe como outra se sente, já que não possui uma boa capacidade – seja por qual motivo for – de observar comunicações não verbais, não caberia perguntar? Se não há preocupação nem de perguntar, haveria alguma outra?

Não tenho obrigação nenhuma de dizer como me sinto, com relação a nada, para pessoa alguma. Isso é tanto verdade quanto o fato de que nenhuma pessoa tem bola de cristal para adivinhar como me sinto. Eu não tenho necessidade de verbalizar sentimentos. EU. Se outra pessoa tem e sente-se bem fazendo isso, que bom para ela. Somos todos diferentes. O problema é que parece um pecado eu me sentir melhor lutando do que falando (e sim, lutar é muito terapêutico para mim, mas falar sobre isso fica para outro dia). Parece um pecado não reagir às coisas chorando, desabando, caindo... como se fosse a única forma de reação possível aos sofrimentos dessa vida pela qual todos passamos.

Tenho problemas muito sérios com a palavra LIBERDADE. Incluem: ser como eu sou, não como gostariam que eu fosse. Em todas as esferas. Incluem, também, desejar que cada um seja como é, não como eu gostaria que fossem. Cada pessoa faz suas escolhas dos verbos ser, agir, reagir. Não está retirando ou impedindo o direito alheio? Go for it! Para o que discordo e me desagrada, há o FODA-SE: use-o e assuma-o também, em vez de querer impor regras de comportamento aos outros.


Reflexivamente, inspirado por meu querido companheiro de madrugadas insones regadas a filmes, bebíveis, fumáveis, bate-papos e desabafos:

We don’t know shit about the others. We don’t even care. We just pretend we do.



Nossa madrugada de ontem foi regada a esse filme do Polanski, que é uma verdadeira, belíssima e primorosa aula sobre o ser humano, a hipocrisia e a falta de coerência. Virou debate sobre coerência e como ela pode ser usada – para o bem e para o mal – já que o personagem com o qual ambos mais nos identificamos é o advogado, por seu cinismo e acidez e, também, por ser o único que mantém a coerência em seu posicionamento, do início ao fim (não concordamos com seus valores, mas é interessante observar como manter a coerência e não ser hipócrita não necessariamente significa estar fazendo algum bem e pode significar inclusive o oposto disso... ainda assim, simpatizo mais com quem é coerente... ao menos dá para saber exatamente com quem se está lidando).