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7 de ago de 2013

necessidades desiguais

Estes dias li um texto que me fez ficar sem palavras. Desinformação? Desonestidade? Ignorância? Inocência? Utopia? Não sei qual delas usar para completar a frase: "____________ pouca é bobagem."

A autora questiona: Por que separar banheiros se as necessidades são iguais? Depois compara a divisão de banheiros em femininos e masculinos com a exclusão dos elevadores sociais e termina ignorando, completamente, que vivemos em um país no qual ocorrem assédios, estupros e abusos sexuais em locais públicos diariamente, à luz do dia.

Falar da exclusão de pessoas trans é uma coisa bem diferente de questionar porque banheiros são divididos se as necessidades fisiológicas são iguais – e ainda não sei qual palavra usar para esse questionamento simplista. As necessidades fisiológicas podem até ser iguais; as de proteger-se contra possíveis (prováveis?) desrespeitos e abusos não. Estas últimas são gritantes nos casos de mulheres.

Ocorre à autora - e demais apoiadores - que essa divisão é necessária? Que, infelizmente, ainda é a melhor forma de evitar assédios, estupros e abusos sexuais em banheiros públicos enquanto muitos seres humanos do sexo masculino continuarem se portando como se o corpo feminino fosse propriedade deles? Nessa divisão, só lamento pelas pessoas trans, impedidas de usar o banheiro feminino e, portanto, também expostas ao risco de assédios, abusos, estupros e etc.

Foi necessário que se criassem vagões exclusivos para mulheres no metrô porque são desrespeitadas, assediadas, abusadas. Imagina em banheiros mistos!? Mulheres em situação de vulnerabilidade nos banheiros x machos à espreita de uma oportunidade para agir de má fé. Imaginou?

Concordo com a Nadia Lapa quando ela diz que o vagão feminino parece uma boa idéia, mas não é. Acredito, inclusive, que isso pode ser aplicado em relação à divisão dos banheiros por gênero nos espaços públicos. Só que eu não vivo em um conto de fadas, em um mundo perfeito, ideal, lindo, mágico, no qual as pessoas se respeitam e banheiros mistos funcionariam sem maiores problemas.

No mundo real, nesse Brasil de 2013, eu não quero ter que me preocupar com minha segurança ao ir ao banheiro. Mijar, cagar, trocar absorventes... São momentos da minha vida íntima nos quais não quero ter que me preocupar se algum primata está espiando enquanto se masturba (isso para ficar na melhor das hipóteses que poderiam acontecer). No mundo real, eu estudei em uma universidade na qual de vez em quando havia notícias de homens entrando nos banheiros femininos obviamente para fazer merda.


No mundo real, mulheres já estão vulneráveis aos primatas usando calça jeans, no metrô, à luz do dia, com um monte de gente ao redor que poderia defendê-las... e que muitas vezes optam por omitir-se ou até mesmo serem coniventes. Sentadas em um vaso sanitário, sem calcinha, estariam como? Qual a dificuldade de entender que, no caso dos banheiros, também é uma questão séria de salvaguardar a integridade das pessoas? Por que essa tendência de achar que vivemos na Disney?


Por que separar banheiros se as necessidades são iguais? Simples: ainda há primatas soltos no mundo - e eles frequentam banheiros.



NOTA: Só para constar: compreendo que Maíra, a autora do texto citado, propõe a discussão da exclusão e do preconceito contra as pessoas que não se encaixam na divisão binária de gêneros entre masculino e feminino. Entendo que tal discussão é urgente e necessária. Porém, no caso dos banheiros é questão de garantir a segurança (ainda que falha) feminina enquanto houver primatas aos montes soltos por aí.