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22 de ago de 2013

sobre gêneros e fogueiras

Caça às bruxas feita por militantes contra outras militantes da mesma causa me soa como algo bastante burro, além de improdutivo. Se tal fogueira inquisitória for acesa com raiva, frustração e agressividade... tem-se então um misto de ignorância e desonestidade. Burrice, improdutividade, ignorância e desonestidade – quatro palavrinhas simples que ativistas deviam riscar do seu vocabulário e que são, também, ingrediente perfeito para aqueles contrários às suas causas.

Ativistas agressivos prestam um enorme desserviço às suas causas. São, em alguns casos, piores do que os opositores destas causas. Envenenam os movimentos por dentro, causam antipatia às suas causas onde quer que abram a boca. Distorcem motivações e embasamentos teóricos por conta de um misto de ignorância e vontade louca de atacar os outros e se provarem superiores aos "não iluminados". Esse tipo de gente existe em todos os movimentos – mudam as bandeiras, mas a estupidez e a imaturidade intelectual são as mesmas. Quer fazer guerrilha e terrorismo? Go for it! Porém, lembrem-se que encher o saco alheio pelo prazer de se mostrar superior não é apenas idiota - é um presente para quem quer ver sua causa naufragar.

A raiva, a frustração e a agressividade de alguns não tem limites. Esquecem o princípio básico da Liberdade de Expressão: "I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it" (“Discordo do que dizes, mas defenderei até a morte seu direito de dizê-lo”). Esquecer esse princípio é, também, uma forma de ignorar que a base da democracia é a liberdade – de TODOS, inclusive daqueles dos quais discordamos. Querer calar, atacar e jogar em uma fogueira quem tem uma opinião diferente da sua é, em última instância, igualar-se aqueles que você combate e que podam a sua liberdade. Ou não?

Não tenho nenhuma simpatia por essa sociedade que condena tudo que seja desviante de suas regras não escritas, mas acredito que podemos escolher como reagir aos dogmas sociais e como nos relacionar com eles. Acreditar na inexistência do livre arbítrio seria seguir as normas que me ensinaram desde a tenra infância sem questioná-las. Foucault afirma que o ser humano é construído socialmente e constrói o mundo em que vive. Se o mundo que querem construir é pautado na imposição de pontos de vista, em ataques pessoais e não em discussão de idéias e debates, sinto muito, mas isso não é diferente de nenhum autoritarismo que já passou pela história da humanidade. Eu, felizmente, tenho pavor de qualquer autoritarismo, venha de onde vier.

Discordar é muito diferente de atacar, assim como rebater idéias é bem diferente de atacar pessoas. 

Já disse aqui que detesto militância idiomática – isso para mim, além de assassinato linguístico, é militar para a militância e afastar os leigos de qualquer causa... então não, obrigada. Aparentemente, ser contra rótulos e recusar-se a usar cis e trans para se referir a tipos de homem e de mulher é um pecado, punido com a fogueira da inquisição ativista, passível de acusações de transfobia e cissexismo. Lamento informar, mas continuarei sendo contra a classificação de pessoas em gêneros, para o horror dos inquisidores. Por quê?


Meus amigos homens são apenas isso: homens. As mulheres, idem. Isso independe de serem homossexuais, heteros, bi ou trans. Não significa que eu queira apagar a identidade de cada pessoa e massificá-la, colocando-a em uma fôrma. Não significa que eu queira negar-lhes nada. Apenas, para mim, a divisão de pessoas dentro desses rótulos é potencializar a subexistência das que são desviantes em relação ao que é majoritariamente aceito em nossa sociedade. Para mim, uma lésbica ou uma trans são tão mulheres quanto eu – e não vejo nada de errado em tratá-las simplesmente como mulheres. Se tratar alguém como uma igual é ser preconceituosa, ok, fico cá com meu preconceito enquanto ficam lá fazendo fogueiras.





"I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it"





*Para quem tiver interesse e não souber o que é cis ou cissexismo ou transfobia: O que é cissexismo?


NOTA: independente do mimimi alheio... Se dependesse de mim, todo e qualquer rótulo (prefixos e sufixos idem) usado para classificar pessoas seria extinto. Somos plurais e diversos demais para sermos classificados e colocados na prateleira, como produtos expostos em supermercado. Entretanto, quem se sente bem vestindo um rótulo que o faça – mas respeite o direito de quem não quiser fazer o mesmo. Eu, pessoalmente, acho rótulos muito úteis: para discriminar e dividir pessoas, nada além disso.