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27 de set de 2013

Direitos Humanos para Dummies

Muito cansada de ouvir pessoas gritando aos quatro ventos que "Direitos Humanos é defender bandidos", pensei em fazer um pequeno guia desse assunto - direcionado, obviamente, para idiotas e ignorantes. Só que isso daria um trabalhão e ainda corria-se o risco de ficar com linguagem acadêmica - vício de quem estudou esse assunto academicamente.

Deixo, então, uma pequena listinha:
- liberdade de crença
- liberdade de expressão e informação
- liberdade de ir e vir
- direito a votar e ser votado
- direito a não ser discriminado
- direito a trabalho digno
- direito à educação e à saúde
- condenação da tortura, do racismo, da escravidão, do genocídio
- direito ao lazer
- direito ao devido processo legal

Todas essas coisas - e outras tantas - são direitos humanos, assim como o direito básico à vida (digna) e quase todos os incisos que se encontram no Artigo 5º da nossa Constituição... e olha só, atualmente tem a dita cuja online - se não for uma lesma preguiçosa, pode ler o artigo 5º e a Constituição inteira AQUI.

Se quiser largar sua preguiça um pouquinho para entender o básico sobre o que são Direitos Humanos em nível internacional, nessa seção A ONU e os Direitos Humanos tem uma boa introdução ao tema. Saindo um pouco do básico, AQUI tem o trabalho internacional por temas, comitês e países.

Para terminar o breve guia de Direitos Humanos para Dummies, assista ao video abaixo - e não deixe de ler a descrição do vídeo.



Se nada disso te interessar e você preferir continuar dizendo que direitos humanos servem para defender bandidos... meus pêsames. Melhor se alistar como seguidor do Feliciano, Bolsonaro, Malafaia e outras aberrações e, claro, continuar lendo a Veja.

25 de set de 2013

ovelhas e lobos

(...)
Os estudantes se negaram a defender o projeto interdisciplinar sobre a ‘Preservação da Identidade Étnico-Cultural brasileira’ por entenderem que o trabalho faz apologia ao “satanismo e ao homossexualismo”, proposta que contraria as crenças deles.
Por conta própria e orientados pelos pastores e pais, eles fizeram um projeto sobre as missões evangélicas na África, o que não foi aceito pela escola. Por conta disso, os alunos acamparam na frente da escola, protestando contra o trabalho sobre cultura afro-brasileira, atitude que foi considerada um ato de intolerância étnica e religiosa. “Eles também se recusaram a ler obras como O Guarany, Macunaíma, Casa Grande Senzala, dizendo que os livros falavam sobre homossexualismo”, disse o professor Raimundo Cardoso.
Para os alunos, a questão deve ser encarada pelo lado religioso. “O que tem de errado no projeto são as outras religiões, principalmente o Candomblé e o Espiritismo, e o homossexualismo, que está nas obras literárias. Nós fizemos um projeto baseado na Bíblia”, alegou uma das alunas.
(...)

Os trechos acima são retirados DAQUI.

Primeiramente, digo que, se eu fosse diretora dessa escola ou professora desses adolescentes, eu simplesmente daria nota ZERO ao trabalho. Me poupem! Se negar a fazer um trabalho por que contraria suas crenças religiosas? Candomblé e Espiritismo fazem apologia ao satanismo? Gilberto Freyre e outros mestres, pelo visto, fazem uma apologia sinistra ao homossexualismo e devem comer criancinhas em cultos satânicos no inferno também.

Não sei porque ainda me choco com certas coisas, mas fato é que a ignorância das pessoas, ainda tão jovens, me choca. O preconceito de gente tão jovem ainda me choca. Certamente, por suas declarações esses jovens sequer sabem do que estão falando e nem a Bíblia leram direito. Intolerância étnica e religiosa? Até existe sim... mas ela parte dos pastores e dos pais destes jovens, que estão fazendo este ato criminoso de, por meio dessa lavagem cerebral, impedi-los de acesso ao conhecimento e à informação. Não sei os pais destes adolescentes, mas os pastores devem saber que informação é poder... ou não se esforçariam para privar seu rebanho de conhecimento, baseados em interpretações da Bíblia. Que dó destes jovens... que dó!

Já fiz muitos trabalhos escolares e acadêmicos sobre crenças que não acredito e ideologias com as quais não concordo (muitas vezes, sobre coisas que desprezo). Ao estudar e pesquisar um assunto, obtemos inclusive mais base para discordar, não crer, criticar, questionar. Continuo, até hoje, lendo autores, blogs, revistas, portais de notícias, etc, com os quais não concordo – até a Veja eu folheio e dou uma lida. Diria, inclusive: até este momento ainda não li um único livro ou artigo com o qual eu concorde ou discorde 100% - e me mato no dia que isto ocorrer, pois significaria que a capacidade crítica e de análise inexistem.

Religião? Já li a Bíblia, O Livro dos Espíritos e O Evangelho Segundo o Espiritismo inteiros... Já li trechos do Corão e da Torá. Há muita coisa bacana nestes livros e nada tenho contra eles – minha grande crítica é quanto ao uso que os seres humanos fazem deles. Como não sigo nenhuma destas religiões, para mim são apenas livros, material de estudo (sobretudo sócio-histórico). Não acredito em nenhum destes livros, mas nada tenho contra quem neles acredita. O problema é usá-los para espalhar ignorância, preconceito, intolerância... e, desta forma, manter o rebanho nas trevas, sem acesso ao conhecimento de tantos outros livros.

Se José de Alencar os adolescentes se recusam a ler por motivos esdrúxulos, oops, religiosos... que dirá Machado de Assis! Deles, os jovenzinhos, tenho pena. Estão se privando de conhecer jóias da literatura brasileira, de aprender sobre outras religiões, de aprender a história do seu país. São, de certa forma, como os pseudo-intelectuais que falam mal de Crepúsculo e nunca assistiram ao filme – pois é, até para falar mal de um filme (ou de uma música) é necessário conhecê-lo. Até para gostar de alguma coisa é necessário conhecê-la, se expor a ela.

Ao contrário destes jovens, quanto mais eu leio, quanto mais filmes assisto e quanto mais músicas ouço... mais me sinto burra. E sentir-se burra é um empurrão bem forte para continuar lendo, assistindo, ouvindo... Explorar ideologias, imagens e sons novos, distintos, é adquirir conhecimento, informação. “Informação é poder” – e os pastores que usam a Bíblia para manter seu rebanho longe do conhecimento sabem disso. Ovelhas ignorantes são mais maleáveis, mais manipuláveis, mais exploráveis – os lobos estão lá, cuidando delas.

Parafraseando um autor (que agora não me lembro quem é): o problema do mundo é que as pessoas ignorantes estão cheias de certeza e, as inteligentes, cheias de dúvidas.


Fica a dica: quer discordar de algo, chamar de satanista e o escambau? Leia e pesquise aquilo para poder discordar com embasamento, criticar direito, até por fogo se for o caso... mas fucking LEIA, pesquise e estude, antes de defecar pela boca. 

22 de set de 2013

auto-reflexão (social)

Já tive certeza do que queria. Hoje, tenho apenas certeza do que não quero. Ao contrário do que o senso comum pensa, a dúvida liberta – é ela que leva ao questionamento, a um projeto reflexivo de eu. Desacomoda. Desloca. Desvia.

Em uma sociedade dominada pelas aparências, inconscientemente procuramos a aparência de um eu socialmente valorizado, imaculado. Nos seguramos a algum pólo, negativo ou positivo, sanidade ou loucura, contra ou a favor... às vezes, são os outros que nos colocam em algum ponto da curva e optamos por não reagir, não contestar.

Parafraseando Jung, "... nós só descobrimos o que realmente nos sustenta quando tudo o que mais pensávamos nos sustentar, não sustenta mais..." A única segurança real talvez venha de uma identificação com aquela parte de nós que permanece, quando tudo o mais que achávamos que éramos nos é arrancado.

A capacidade de adotar estilos de vida livremente escolhidos está em tensão não só com os obstáculos à liberdade, mas também como uma variedade de dilemas morais – demoramos, porém, para entendê-los. Eu não tinha nada a ver com isso, até que tive. Devemos ter cautela com esse "não tenho nada a ver com isso" - muitas vezes, mascara situações nas quais temos sim algo a ver e precisamos nos posicionar sim, mas não o fazemos.

Alguns pré-conceitos estão interiorizados de tal forma que não os percebemos e acabamos por reproduzi-los. Qualquer luta se trava, em primeiro lugar, por meio de constante auto-reflexão crítica a respeito de idéias que são exteriorizadas quase automaticamente. Ignoramos que decisões pessoais afetam considerações globais.

As lutas para emancipar os grupos oprimidos podem ajudar os outros, ao promover atitudes de tolerância mútua que beneficiarão a todos. Por outro lado, ignorar a opressão e dizer que “não tem nada a ver com isso” pode acabar sendo um tiro no pé – hoje o oprimido é o outro, amanhã pode ser quem não tinha nada a ver com isso (freqüentemente, acaba sendo mesmo).

A vida em sociedade precisa ser reconstruída – de que forma, não faço a menor idéia. Como reconstruí-la sem virarmos reféns de preconceitos? Quanto mais refletimos e nos voltamos às questões existenciais, mais encontramos desacordos morais uns com os outros... Como conciliar tais desacordos?

O engraçado é que, de questões graves como violações de Direitos Humanos de grupos inteiros a brigas entre amigos comuns, a maioria parece não se importar. “Não tenho nada a ver com isso”. Nessas horas, lembro de Hitler que dizia "O homem é inteligente, mas a massa é burra!". Alguma razão, com conhecimento de causa, ele tinha. O pior é ter que concordar com ele. Pessoas inteligentes com capacidade crítica, que questionam as coisas, estão em extinção.

Ainda não sei porque escrevi esse texto – não é mesmo para fazer sentido e, provavelmente, não fará (exceto para mim). Talvez eu preferisse a época na qual acreditava em dualidades, em bem e mal, em céu e inferno... Naquela época, muitas coisas que hoje me incomodam seriam deixadas de lado, afinal, não teria nada a ver com isso. Só que a dualidade, ela não me serve. Minhas personalidades são múltiplas, como o são as de todos os seres humanos – apenas muitos continuam aprisionados às aparências, aos pré-conceitos inventados antes do seu nascimento.




crédito da foto: François Photography




“Aquele que não enxerga, não sabe o que não vê, porque quando sabe o que não vê, de alguma forma já está vendo. Já o que vê pensa que tudo o que vê é o que é. Mas quando sabe que nem tudo o que vê é o que é, vê o que não é”. 
( provérbio hebraico)

21 de set de 2013

beijo é crime?

AVISO: texto não recomendado para quadrúpedes e para “cristãos” entre aspas.


Apesar de não condenar aquela performance na Marcha das Vadias (meu texto sobre isso AQUI), não a apoiei. Portanto, pode parecer um paradoxo que eu seja 100% favorável ao beijo lésbico no culto do nosso digníssimo presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias – mas não há nada de contraditório em meu posicionamento. Chega a ser uma piada de humor negro um homem desse presidir justamente a Comissão de Direitos Humanos e Minorias e ter influência em questões sobre as quais nada sabe. Feliciano não entende nada sobre direitos humanos ou respeito. Infelizmente, ele é a representação da maior parcela da população brasileira: ignorante, retrógrada e opressora.

Aquela performance nada acrescentou ao feminismo, tão pouco mostrou a opressão que é praticada pelas religiões, historicamente, contra as mulheres. Um beijo em local público ser punível com prisão, por outro lado, demonstra claramente a homofobia de Marco Feliciano e levanta o debate sobre a influência da religião na laicidade do Estado, a discriminação contra homossexuais, o preconceito da sociedade. Aquele mesmo beijo teria a mesma repercussão se fossem um homem e uma mulher? O casal seria preso por se beijar? O pastor diria que essas criaturas precisam de oração? (assista ao vídeo do beijo AQUI)

Falam na lei, no Código Penal, na Constituição... que protegem a manifestação religiosa, o local de culto. Um beijo hetero teria nossa carta magna usada como argumentação para criminalizá-lo? Seria considerado afronta à liberdade de crença? Seria considerado violação da liberdade de crença e do livre exercício dos cultos religiosos? Violação do local de culto? Um beijo ser considerado violação só acontece porque existe profundo preconceito e violação dos direitos dessas pessoas, que são consideradas, no mínimo, "abominações". Um beijo seria considerado extremismo e radicalismo, se fosse um casal hetero? Só mesmo uma pessoa de índole duvidosa é incapaz de enxergar o tal beijo como o que ele é: um ATO POLÍTICO.

Há muitos discípulos do pastor querido soltos por aí – o preocupante é que haja formadores de opinião que usam meios de comunicação de massa para espalhar a idéia de que "Liberdade de expressão não é desculpa pra fazer o que bem entender", sem explicar ao público que o protesto não foi contra a crença de ninguém, mas contra o uso da religião como arma para fomentar o ódio e a discriminação contra seres humanos. 




No caso dessa jornalista, não é novidade que ela usa de desonestidade intelectual o tempo todo, mas quando se trata de assuntos ligados à sua religião, ela consegue ser um pouco pior, passando a impressão de imparcialidade enquanto defende sua causa... Ao comentar sobre o beijo lésbico no culto do Feliciano, ela diz que as meninas erraram o foro e deveriam ter se manifestado na câmara federal, a casa dos deputados. Inversão que prova o valor do protesto. Marco Feliciano confunde a Câmara dos Deputados com o templo da sua igreja, faz proselitismo religioso no Congresso e quer legislar de acordo com suas convicções religiosas – e essa repórter de índole duvidosa ignora (ou prefere ignorar?) isso, sendo desonesta e convencendo milhares de pessoas que os oprimidos são o coitadinho Pastor Feliciano e a religião evangélica.

O conselho para quem se sente ofendido e desrespeitado com um beijo é simples: prezados "cristãos", parem de usar o Congresso de um Estado laico para legislar em causa própria que protestos desse tipo se tornam desnecessários. A Bíblia não é o livro de regras seguido por muita gente, muito menos o livro de regras que deve ser usado para legislar. Ademais, quem confunde Congresso com templo religioso DIARIAMENTE (caso do Feliciano) não tem nenhuma moral para reclamar de qualquer manifestação em seu culto. Quem comparece em paradas do Orgulho Gay para pregar sua religião e fazer manifestações contrárias (muitos evangélicos fazem isso), não tem nenhuma moral para reclamar de um beijo – em local público, aberto (pois é, não foi nem dentro da igreja o tal beijo).

Existe uma guerra declarada por Feliciano, Malafaia e cia contra todos os LGBTs (não o contrário). Os evangélicos que assistiam ao culto no qual houve o beijo não criaram isso, mas abraçam a causa e, portanto, fazem parte dessa guerra. Quem concorda com Rachel Sheherazade não entende que essa é uma guerra extremamente desigual, além de desleal. De um lado, uma religião (várias, na verdade) – com o argumento da fé, do direito ao culto, da liberdade de crença... Religiões há milênios protegidas, de mãos dadas com o Estado, apoiando o machismo e o conservadorismo. A liberdade das religiões cristãs, por aqui, sempre esteve protegida, garantida. Do outro lado, os LGBTs, que defendem apenas o direito de serem pessoas como quaisquer outras e terem os mesmos direitos que os outros já têm.

Essa manifestação, o beijo lésbico, foi feita em um culto, não no Congresso. É lá, no culto, que pastores como Feliciano pregam para multidões, falando absurdos que a lei deveria proibir de acordo com a sua própria interpretação da Bíblia. É outro campo de batalha, tão importante quanto o Congresso. Dignidade e respeito não são feitos somente com leis. Só existem de verdade quando existem dentro das pessoas: é exatamente isso que esses pastores destroem em cada culto, ao pregar o ódio e a discriminação aos LGBTs, ao disseminar a não-aceitação de outro ser humano baseada unicamente em sua sexualidade. Se você, nobre “cristão”, achou um desrespeito as meninas se beijarem no meio de um culto, responda a seguinte pergunta: comparecer a um culto e ouvir pregação de ódio contra quem você quer que te respeite... isso é demonstração de respeito ao próximo?

Eu, pessoalmente, não acho que a religião seja algo mau, ruim... mas quando ela é usada como arma ou como método para conduzir rebanhos de pessoas ao fanatismo e ao ódio contra outros seres humanos, aí tenho que admitir que a religião torna-se a mais perigosa das armas de guerra já criadas pelo homem. Liberdade de crença sim, mas ela não pode ferir as liberdades individuais dos outros. Esse beijo não é um ataque à religião. É um ataque à homofobia que ela propaga.





Esse vídeo resume o que penso dessa jornalista e dos outros comunicadores desonestos intelectualmente como ela.





Esse documentário resume o que penso de religiosos cegos e fanáticos, que seguem dogmas sem questioná-los.





NOTA: exemplo da desonestidade que “cristãos” entre aspas usam para inverter as coisas e doutrinar pessoas para que acreditem em absurdos mentirosos e odeiem LGBTs é ESSE TEXTO – e se você for alguém que acredita em genocídio cultural contra cristãos (oi?), vista sua camisa de força e siga para a fila da lobotomia (ou coloque logo uma orelha de burro e saia do armário: se locomova usando 4 apoios!).

Incapaz de entender a diferença de tratamento que nossa sociedade dá a manifestações de afeto, dependendo da orientação sexual de quem as está fazendo? Leia ESSE TEXTO, sobre o Caldas Country e o Orgulho Hetero. Se ainda assim continuar sem entender... vá ao neurologista: massa encefálica inoperante com defeitos graves.


18 de set de 2013

dica de filme

Passagem rápida para deixar uma dica de filme... sobre uma temática que ainda gera muito preconceito, ignorância, receio.

XXY - filme duro, pesado e, ao mesmo tempo, poético, sutil. Força e delicadeza. Recomendo.


12 de set de 2013

proibir cantadas?

Parabéns cidadãos ruminantes, quadrúpedes, primatas e correlatos do mundo! Conseguiram quebrar todos os recordes de deficiência na disciplina interpretação de texto... e de fuga ao tema na disciplina interpretação de dados estatísticos.

Eu respondi a ESSA PESQUISA. Devo confessar que achei os resultados pouco condizentes com a realidade – jurava que todos os índices dariam mais próximos ainda dos 100%!!! Meu espaço amostral, ou seja, as mulheres que conheço, aponta que 100% das mulheres não gostam de ‘fiu-fiu’. Mas essa não é a questão.

Por que certos comportamentos são classificados como naturais, corriqueiros, normais? O que isso diz sobre a sociedade? De qual iceberg isso é a ponta?

Mais fácil dizer que estão censurando a aproximação entre as pessoas. Dizer “a linha que separa assédio de paquera é tênue” é uma excelente desculpa para quem quer continuar exercendo seu direito de assediar, né?

Para mim, há limites claríssimos entre elogio, flerte, agressão, paquera, assédio. Uma mesma palavra, LINDA, pode ser qualquer uma dessas coisas – depende do contexto e de quem a proferiu (quem, como, quando, onde, porquê). O preocupante é que coisas nada sutis, como pegar pelo braço (ou cabelo, ou cintura), passar a mão (em qualquer local do corpo alheio), dizer que vai chupar toda (e outras gracinhas)... até a falta de sutileza precisa de explicação??? 

Sabe o que acho? Todos sabem SIM a diferença entre um assédio e um elogio – mas acham mais fácil dizer que não e continuar assediando. Supondo-se que eu esteja errada e as pessoas sejam apenas ignorantes, não é necessário entender nada de sociologia, antropologia, feminismo, filosofia, política... Enfim, não é necessário nenhum conhecimento acadêmico para entender a diferença entre alguns verbos: basta abrir o dicionário!

Segundo o Houaiss, seguem as acepções de alguns verbos:

ASSEDIAR
n verbo
 transitivo direto
1- estabelecer cerco para impor sujeição a determinado espaço territorial; sitiar, cercar
Ex.: assediou a fábrica até a rendição
 transitivo direto
2- perseguir com propostas; sugerir com insistência; ser importuno ao tentar obter algo; molestar
Ex.: assediaram-no dia e noite com perguntas indiscretas
 transitivo direto
3- abordar súbita ou inesperadamente
Ex.: assediou-o no instante preciso de sua vulnerabilidade

ELOGIAR
verbo
transitivo direto
fazer elogio(s) a, louvar, tecer, exaltar as qualidades

FLERTAR
verbo
 transitivo indireto e intransitivo
1- fazer a corte a; namoricar
Exs.: Maria anda flertando com um de meus amigos
         ele já flertou muito, agora quer namorar a sério
 transitivo indireto
1.1- Derivação: sentido figurado.
fazer rapapés a; agradar
Ex.: é um político esperto, nunca deixa de f. com a oposição

PAQUERAR
n verbo
Regionalismo: Brasil. Uso: informal.
 transitivo direto e intransitivo
1- provocar (alguém) amorosamente, demonstrar interesse amoroso por; azarar
Exs.: paquerou uma garota na praia
         passa as tardes paquerando em Ipanema
transitivo direto e intransitivo
2- observar com atenção; espreitar, vigiar
Exs.: ela adora p. vitrines de lojas elegantes
        ficou ali paquerando para passar o tempo

AGREDIR
n verbo
 transitivo direto
1- praticar agressão contra (alguém ou algo); atacar, assaltar
 transitivo direto
2- dirigir ofensas ou injúrias a; insultar
Ex.: agrediu-o com palavras ásperas
 pronominal
3- trocar agressão; agredir reciprocamente
Ex.: um e outro inesperadamente se agrediram
transitivo direto
4- provocar sensação de desagrado em
Exs.: o odor agrediu seu olfato
         o poema agrediu-lhe o gosto de tradição
 transitivo direto
5- atacar alguém por atos ou palavras que ofendam a sua pessoa física ou moral, ou os seus bens protegidos pela lei penal




Dica: deixe a preguiça de lado e abra, no mínimo, um dicionário! Se, ainda assim, for incapaz de compreender a diferença entre os verbos, volte para a pré-escola, por gentileza. O mundo agradece. Ou continue cultivando uma bela massa encefálica de ervilha...




Outros textos sobre o assunto:


6 de set de 2013

caso new hit

Essa semana o julgamento da banda New Hit foi adiado – DE NOVO. A defesa alegou “insegurança” para os bons moços, integrantes da bandinha. Tadinhos, foram perseguidos na hora do almoço... Mas deixa eu entender uma coisa: se as vítimas são ameaçadas, como foram, elas que sejam isoladas e colocadas em programas de proteção... e se os estupradores são ameaçados, adia-se o julgamento para se sentirem mais seguros?

Esse caso da New Hit é bastante sintomático do quanto a cultura do estupro está arraigada em nossa sociedade. Um artista perde trabalho por se assumir homossexual, mas não perde nada por estuprar garotas. Obrigada por não terem nenhuma vergonha de continuar compactuando com essa cultura nojenta, viu? Assim, com essa falta de vergonha na cara (das fãs, dos contratantes, dos patrocinadores, da mídia), fui estuprada – DE NOVO.

Atenção no roteiro. Duas adolescentes de 16 anos entram em um ônibus para conhecer seus ídolos. Alegam estupro. O corpo de delito mostra que, no mínimo, algo muito estranho (errado?) aconteceu ali. Os testemunhos das moças coincidem. Os acusados são amparados pela opinião pública, pela mídia e pelo judiciário – o julgamento é adiado por um ano e as vítimas, além de serem massacradas por fãs e por simpatizantes dos cidadãos de bem, têm que se esconder. Por um ano. Eles continuam fazendo shows e multidão batendo palmas. Por um ano. Fazem até música com ameaças veladas às vítimas.

Chega a ser grosseiro, agora, alegarem “insegurança”. Deselegante um respeitável membro do judiciário aceitar essa alegação. Na prática, o grupelho foi recompensado pela sua conduta: ganhou exposição (eu mesma não conhecia esta porcaria), lucrou em cima, continua tendo fontes de apoio em todos os níveis. Ninguém os calou. Mesmo se forem condenados, a roda da impunidade girou por um ano. Se condenados, quanto tempo ficarão presos? Continuarão ganhando $$$ em cima de suas “criações artísticas”, durante e após o confinamento? Será que já não fizeram isso com outras meninas por aí, ficaram impunes, repetiram e, dessa vez, as vítimas não se calaram?

Não sejamos iludidos. Essa espiral perversa acontece por aí, em qualquer lugar, com qualquer pessoa, o tempo todo. Nossas amigas, irmãs, mães, filhas... nós mesmas... ad nauseum*. Enquanto elas, as vítimas, continuarem sendo silenciadas por toda a sociedade, nós todas estaremos em risco. Ouso afirmar: quando um ser humano, apenas um ser humano, tem seus direitos violados, toda a humanidade foi violada. A liberdade de uns não é nada sem a liberdade de todos... e a liberdade não é nada sem a igualdade. Em todos os níveis.


*NOTA: "ad nauseum" - expressão roubada do querido @SeuAssis (twitter nele!)



 “Mais perigosa que a força bruta é aquela que brota da indiferença da sociedade ante as violações dos direitos da pessoa humana.” Martin Luther King



Textos bacanas sobre esse caso de estupro:



Eu teria vergonha de continuar sendo fã de (e apoiando, defendendo, como algumas fazem!) qualquer artista que fosse estuprador. Vergonha alheia! Vocês não???




1 de set de 2013

fim do mundo

O fim do mundo, ao menos como o conhecemos, chegará. Que não demore! E leve junto a raça humana, essa experiência que, definitivamente, deu errado.

Será que HD’s (externos ou não), pen drives e cds durarão tanto tempo quanto escritos em pedra, papiros, etc? Será que os livros sobreviverão um pouco mais?

Penso que, por gostar de livros, do papel, daquele cheiro que adquirem quando envelhecem... Ou, talvez, por gostar de fazer anotações e marcar trechos nos livros (exceto os de literatura)... Não sei ao certo. Posso estar, inconscientemente, ajudando a salvar alguma história da nossa civilização. Quem sabe os livros não sobrevivem um pouco mais do que os dvd’s? Não sei... Na dúvida, fico com os livros, os de papel.

Não abro mão do computador... inclusive aprendo muito por meio, direto e/ou indireto, dele. É uma fonte de conhecimento – após o advento da internet – inesgotável. Apenas acho que nossa civilização está abandonando demais outras fontes, outras bebidas, outras vivências. A Matrix, nos meus tempos de Comunicação, chamava-se simulacro, Baudrillard o seu regente, acompanhado por muitos. Cá estamos, cada vez mais vivendo (n)esse simulacro, (n)essa realidade virtual... Muitas vezes, tão real (ou mais!), do que a real.

Pronome demonstrativo e o indicativo de interioridade usados de forma correta, a depender do personagem. Ficarei preocupada comigo quando estiver vivendo NESSE simulacro... Embora já me assuste em vivê-lo.

Fotos impressas durarão mais do que as digitais?

Às vezes, apenas acho que sou muito purista. Ou tento me manter o sendo... ainda que somente um pouco. Às vezes, penso que se nossa civilização acabar e essa nossa espécie se extinguir... não teremos registros contemporâneos que resistam ao tempo. Será como se nunca tivéssemos existido.


Pensando por outro lado... talvez seja melhor que a próxima civilização a habitar esse planeta não tenha acesso às cretinices e às fugas da casinha que a humanidade cometeu nos últimos séculos de sua história. Talvez seja melhor que tudo recomece como se nunca tivéssemos existido.

Algumas coisas, entretanto, deveriam ser preservadas.