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21 de set de 2013

beijo é crime?

AVISO: texto não recomendado para quadrúpedes e para “cristãos” entre aspas.


Apesar de não condenar aquela performance na Marcha das Vadias (meu texto sobre isso AQUI), não a apoiei. Portanto, pode parecer um paradoxo que eu seja 100% favorável ao beijo lésbico no culto do nosso digníssimo presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias – mas não há nada de contraditório em meu posicionamento. Chega a ser uma piada de humor negro um homem desse presidir justamente a Comissão de Direitos Humanos e Minorias e ter influência em questões sobre as quais nada sabe. Feliciano não entende nada sobre direitos humanos ou respeito. Infelizmente, ele é a representação da maior parcela da população brasileira: ignorante, retrógrada e opressora.

Aquela performance nada acrescentou ao feminismo, tão pouco mostrou a opressão que é praticada pelas religiões, historicamente, contra as mulheres. Um beijo em local público ser punível com prisão, por outro lado, demonstra claramente a homofobia de Marco Feliciano e levanta o debate sobre a influência da religião na laicidade do Estado, a discriminação contra homossexuais, o preconceito da sociedade. Aquele mesmo beijo teria a mesma repercussão se fossem um homem e uma mulher? O casal seria preso por se beijar? O pastor diria que essas criaturas precisam de oração? (assista ao vídeo do beijo AQUI)

Falam na lei, no Código Penal, na Constituição... que protegem a manifestação religiosa, o local de culto. Um beijo hetero teria nossa carta magna usada como argumentação para criminalizá-lo? Seria considerado afronta à liberdade de crença? Seria considerado violação da liberdade de crença e do livre exercício dos cultos religiosos? Violação do local de culto? Um beijo ser considerado violação só acontece porque existe profundo preconceito e violação dos direitos dessas pessoas, que são consideradas, no mínimo, "abominações". Um beijo seria considerado extremismo e radicalismo, se fosse um casal hetero? Só mesmo uma pessoa de índole duvidosa é incapaz de enxergar o tal beijo como o que ele é: um ATO POLÍTICO.

Há muitos discípulos do pastor querido soltos por aí – o preocupante é que haja formadores de opinião que usam meios de comunicação de massa para espalhar a idéia de que "Liberdade de expressão não é desculpa pra fazer o que bem entender", sem explicar ao público que o protesto não foi contra a crença de ninguém, mas contra o uso da religião como arma para fomentar o ódio e a discriminação contra seres humanos. 




No caso dessa jornalista, não é novidade que ela usa de desonestidade intelectual o tempo todo, mas quando se trata de assuntos ligados à sua religião, ela consegue ser um pouco pior, passando a impressão de imparcialidade enquanto defende sua causa... Ao comentar sobre o beijo lésbico no culto do Feliciano, ela diz que as meninas erraram o foro e deveriam ter se manifestado na câmara federal, a casa dos deputados. Inversão que prova o valor do protesto. Marco Feliciano confunde a Câmara dos Deputados com o templo da sua igreja, faz proselitismo religioso no Congresso e quer legislar de acordo com suas convicções religiosas – e essa repórter de índole duvidosa ignora (ou prefere ignorar?) isso, sendo desonesta e convencendo milhares de pessoas que os oprimidos são o coitadinho Pastor Feliciano e a religião evangélica.

O conselho para quem se sente ofendido e desrespeitado com um beijo é simples: prezados "cristãos", parem de usar o Congresso de um Estado laico para legislar em causa própria que protestos desse tipo se tornam desnecessários. A Bíblia não é o livro de regras seguido por muita gente, muito menos o livro de regras que deve ser usado para legislar. Ademais, quem confunde Congresso com templo religioso DIARIAMENTE (caso do Feliciano) não tem nenhuma moral para reclamar de qualquer manifestação em seu culto. Quem comparece em paradas do Orgulho Gay para pregar sua religião e fazer manifestações contrárias (muitos evangélicos fazem isso), não tem nenhuma moral para reclamar de um beijo – em local público, aberto (pois é, não foi nem dentro da igreja o tal beijo).

Existe uma guerra declarada por Feliciano, Malafaia e cia contra todos os LGBTs (não o contrário). Os evangélicos que assistiam ao culto no qual houve o beijo não criaram isso, mas abraçam a causa e, portanto, fazem parte dessa guerra. Quem concorda com Rachel Sheherazade não entende que essa é uma guerra extremamente desigual, além de desleal. De um lado, uma religião (várias, na verdade) – com o argumento da fé, do direito ao culto, da liberdade de crença... Religiões há milênios protegidas, de mãos dadas com o Estado, apoiando o machismo e o conservadorismo. A liberdade das religiões cristãs, por aqui, sempre esteve protegida, garantida. Do outro lado, os LGBTs, que defendem apenas o direito de serem pessoas como quaisquer outras e terem os mesmos direitos que os outros já têm.

Essa manifestação, o beijo lésbico, foi feita em um culto, não no Congresso. É lá, no culto, que pastores como Feliciano pregam para multidões, falando absurdos que a lei deveria proibir de acordo com a sua própria interpretação da Bíblia. É outro campo de batalha, tão importante quanto o Congresso. Dignidade e respeito não são feitos somente com leis. Só existem de verdade quando existem dentro das pessoas: é exatamente isso que esses pastores destroem em cada culto, ao pregar o ódio e a discriminação aos LGBTs, ao disseminar a não-aceitação de outro ser humano baseada unicamente em sua sexualidade. Se você, nobre “cristão”, achou um desrespeito as meninas se beijarem no meio de um culto, responda a seguinte pergunta: comparecer a um culto e ouvir pregação de ódio contra quem você quer que te respeite... isso é demonstração de respeito ao próximo?

Eu, pessoalmente, não acho que a religião seja algo mau, ruim... mas quando ela é usada como arma ou como método para conduzir rebanhos de pessoas ao fanatismo e ao ódio contra outros seres humanos, aí tenho que admitir que a religião torna-se a mais perigosa das armas de guerra já criadas pelo homem. Liberdade de crença sim, mas ela não pode ferir as liberdades individuais dos outros. Esse beijo não é um ataque à religião. É um ataque à homofobia que ela propaga.





Esse vídeo resume o que penso dessa jornalista e dos outros comunicadores desonestos intelectualmente como ela.





Esse documentário resume o que penso de religiosos cegos e fanáticos, que seguem dogmas sem questioná-los.





NOTA: exemplo da desonestidade que “cristãos” entre aspas usam para inverter as coisas e doutrinar pessoas para que acreditem em absurdos mentirosos e odeiem LGBTs é ESSE TEXTO – e se você for alguém que acredita em genocídio cultural contra cristãos (oi?), vista sua camisa de força e siga para a fila da lobotomia (ou coloque logo uma orelha de burro e saia do armário: se locomova usando 4 apoios!).

Incapaz de entender a diferença de tratamento que nossa sociedade dá a manifestações de afeto, dependendo da orientação sexual de quem as está fazendo? Leia ESSE TEXTO, sobre o Caldas Country e o Orgulho Hetero. Se ainda assim continuar sem entender... vá ao neurologista: massa encefálica inoperante com defeitos graves.