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11 de set de 2013

livro aleatório - liberdade

“O que é mais grotesco nisso tudo é que a corrida armamentista do consumo, ainda por cima, não leva ao que promete. Há um equívoco monstruoso nessa idéia, tão cara aos economistas desde Adam Smith, de que a auto-realização humana se resolve na esfera do consumo, ou seja, por meio da satisfação de apetites que se multiplicam como coelhos e da gratificação indiscriminada dos sentidos. A falência do modelo iluminista-faustiano é dupla: ele não é generalizável em escala global e ele também falha nos seus próprios termos, ou seja, ele nos ilude ao acenar com uma promessa de felicidade que jamais se cumpre. A corrida rumo a lugar algum em que estamos metidos é muito mais que o efeito conjunto das ilusões, vaidades e auto-enganos que nos movem como indivíduos. Ela é um impulso coletivamente suicida.”
Eduardo Giannetti – Felicidade



Abri este livro quando estava fazendo uma análise psicológica de como os desenhos e filmes da infância podem dizer muito sobre a personalidade de alguém. Ou seria: eles podem exercer influência na formação da personalidade de alguém? Estava pensando em como, na infância, minhas coleguinhas queriam um príncipe... e eu queria um gato pianista, ou saxofonista, ou dançarino... Eu queria um gato e fim. Desses que vão para onde quiserem, como e quando quiserem.

Um dia, trouxe um filhote de gato que achei na rua para casa. Dei banho, leite, biscoito. Minha mãe quase infartou quando viu o bicho no meu quarto. Diante da criança chata insistente birrenta e chorona (eu), deixou o filhote ficar. Ele fugiu alguns meses depois. Gatos vão para onde quiserem, como e quando quiserem. A chatinha inconsolável ganhou outro filhote: dessa vez uma siamesa, a Marie. Desde então, siameses já foram mais 3: Conhaque, Pinga e Jack.


Princess my ass!!! I wanted to be a cat!!! Apesar de certas “bichaloirices”, meu quarto não era (nunca foi) rosa: tinha cortinas azuis com ilustrações d’As Aristogatas e almofadas com desenhos de gatos. Gatos de pelúcia. Gatos everywhere. Princesa gata? Só se fosse dessas que não fica presa no castelo e está lá curtindo, dançando e cantando com os gatos boêmios madrugada adentro, em qualquer lugar, livre. Eu não queria o sapatinho de cristal, queria o siamês tocando piano. 


Volto ao trecho do Giannetti, destacado no início. E aos gatos. Antes de ter gatos em casa, tive pintinhos e um coelho. Matei todos (acidentes infantis idiotas). Os gatos não: eles impõem seu limite e a criança que aprenda e se adapte (fui arranhada algumas vezes até aprender). Fiéis, sobretudo a si mesmos. Algo que a humanidade devia ser mais, em vez de se iludir com promessas de felicidade que jamais se cumprirão. Estude. Trabalhe. Case. Tenha filhos. Cuide do corpo. Encaixe-se em um padrão. Compre um carro. Compre um celular. Compre uma viagem. Compre. Compre. Compre.

O que se deixa de perceber é: abraçado ao verbo COMPRAR está o verbo VENDER. No caso da maioria das pessoas, acabam vendendo e comprando demais, buscando uma felicidade que cada vez as fará comprar e vender mais. Vendem-se, diariamente, em prol de um sistema que beneficia poucos. Leio, observo, reflito... e a única conclusão é que a humanidade está, de fato, em um impulso coletivamente suicida. Acho fascinante que as pessoas se incomodem tanto com o comportamento alheio e não percebam a espiral aprisionadora na qual elas mesmas se encontram. O certo é o cachorro adestrado que cumpre qualquer ordem; errado é o gato, esse ser traiçoeiro que só faz o que quer e não se afeiçoa ao dono. O senso comum é isso: não perceber a si mesmo como um cachorro adestrado, afeiçoado a um dono traiçoeiro. 

Oito horas por dia no trabalho. Algumas horas por dia para deslocamento – metrô, ônibus, carro, bicicleta, a pé. Mais da metade das 24hs de um dia, durante 11 meses por ano, é usada somente para isso: trabalho e deslocamento (e não estou aqui falando do trabalho doméstico). A maior parte da vida é isso: vender nosso tempo para que alguma outra pessoa faça riqueza. A maioria das pessoas aplaude isso – para comprar carros, TVs, viagens, geladeiras, roupas, sexo. O restante das 24hs de um dia que não foram gastas com trabalho e deslocamento são gastas em adequar-se a um padrão socialmente esperado. Compra-se. Vende-se. Para adequar-se, muitas vezes até disfarça-se (maquia-se? esconde-se?) pontos da própria individualidade que não se encaixam no modelo.

Vender seu tempo e sua individualidade ao sistema, para poder comprar coisas: resumo da vida contemporânea. E há quem aplauda e defenda esse sistema com unhas e dentes, como bons cães adestrados. Julgam e condenam qualquer ponto fora da curva, sem enxergar o quão traiçoeiro é o sistema... Para eles, esses pontos fora da curva é que são traiçoeiros! Ouse ser um gato e não aceitar adestramento para ver o que acontece... A nossa educação castradora começa cedo, na infância, com a família... tem continuação com a igreja (religião)... escola, universidade... trabalho... Tudo para que almejemos aquela família perfeita de comercial de margarina. Para que sejamos oprimidos, por nós mesmos e pelo sistema, o tempo inteiro, do nascimento à morte. Para que compactuemos com isso em vez de questionar, na ilusão de que se nos encaixarmos, encontraremos a felicidade. Frustrados por não encontrá-la, consumimos, nos acomodamos... mantemos a roda em movimento, girando... vendemos... Espiral sem fim.

Tudo seria mais fácil ao se acomodar, se moldar? Qual o obstáculo disso? Autoconhecimento, acima de tudo. Aquele que me deixa ter a identidade que EU quiser e fodam-se os outros... O egoísmo. Afinal, quem vai pagar qualquer preço por qualquer escolha que eu faça sou eu. Não precisar corresponder às expectativas alheias é, apesar dos pesares, sublime. Recomendo. A liberdade nunca é traiçoeira: os prós e contras estão na bula. Os efeitos colaterais incluem desde leve tontura a convulsões, coma e morte. O livre arbítrio - e ele, às vezes, custa caro... 




Outro ponto de vista sobre o mesmo tema:
Fomos doutrinados para sermos cães de guarda da injustiça social – para mim, outra variação de tenho medo do que esse povo que diz “gato é traiçoeiro” pode fazer. E é só um animal que não lida bem com submissão... Deixem os gatos livres!


---> O último livro aleatório AQUI.