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31 de out de 2013

adeus ano velho

Outubro é o mês em que, finalmente, percebe-se que outro ano acabará sem trazer grandes novidades. Trouxe alguma? Para o país, certamente não, se me permitem opinar. O picadeiro segue firme, forte, montado. A única mudança, se é que teremos alguma, é um novo embate de leões na jaula. O domador conseguirá segurá-los? Duvido. Canários talvez ajudem caso ganhem um campeonato. Improvável, porém.

Vejo as pessoas falando de 2014. O ano da Copa do Mundo no Brasil. O ano no qual o Circo será maior do que jamais foi: eleições, manifestações, embates, interpretações, manipulações. O ano em que, dizem, o Brasil mudará. Onde pega a senha para ganhar nariz de palhaço, pelo amor dos deuses?


Nós somos engrenagens substituíveis do sistema. Sejamos realistas. A grande maioria de nós é dispensável e substituível. Somos gado. Vinte e quadro são as horas de um dia. Recomendam dormir oito. Trabalho? Quarenta horas semanais, oito diárias. Já se foram dois terços do dia. Restam magníficas 8 horas para todo o resto. Oito fucking horas! Para ficar no trânsito, ir ao mercado, comer, estudar, praticar esportes, assistir TV, trepar, ouvir música, tomar banho, ir ao teatro e ao cinema, encontrar os amigos, etc. E há quem se surpreenda por estarmos estressados, sedentários, cada vez mais burros, infelizes.

Trabalhamos demais e trepamos de menos, esse é o problema da humanidade. Sempre fazendo planos para ganhar mais dinheiro e comprar mais coisas. Eu, pessoalmente, acho isso um equívoco. Nosso, não de quem montou o sistema e, de fato, se beneficia com ele. Lamento informá-lo, classe-mediano que sonha em passar em um concurso público: você não é o topo da cadeia alimentar. É, no máximo, uma peça que pode ser substituída. O equívoco é seu, ao acreditar que está se beneficiando do sistema.

No meu mundo imaginário, o criador do sistema deseja que tenhamos cada vez menos tempo. Quer que sonhemos com o salário de 20 mil, aquele que nos permitirá viajar para o exterior nas férias, ter o último iPhone, trocar o carro. O seu conceito de felicidade é ganhar muito dinheiro e não ter tempo nem para trepar com seu cônjuge ou ficar com seus filhos? É se matar de estudar para aquele concurso concorrido, depois passar o resto da vida em um trabalho que te subestima ou do qual você não gosta?

Boa sorte. Seja feliz em 2014, torça pela nossa lastimável seleção, acredite que sua vida mudará com as oportunidades que virão com a Copa, vote em algum candidato igual aos outros. O sistema agradece. Panis et Circenses e falta de tempo – logo, falta de reflexão e questionamento – trarão grandes mudanças. A indústria farmacêutica continuará lucrando com males causados pela vida moderna, estresse, sedentarismo, má alimentação... enquanto a escassez de tempo é domesticada pela necessidade de gerar riqueza para que o topo da pirâmide possa continuar no topo.

Ilusão é assim mesmo. Muitos se imaginam beneficiários enquanto poucos recebem os reais benefícios. Capitalismo sempre foi assim. Escravismo e Feudalismo também. Todos os sistemas, em realidade, funcionam dessa forma. Eles não mudam: quem deve mudar somos nós.

Tempo, para mim, não é dinheiro: ele vale bem mais do que pagam por ele. Neste novo ciclo, tempo é o que quero. Para ler, escrever, estudar, dançar, lutar, dormir, amar, viver. Trabalhar sim, com coisas nas quais acredito e que me façam feliz – sem essa de colocar o dinheiro antes da realização pessoal.

Como hoje se comemora o Ano Novo e meu conceito de felicidade é um pouco diferente, tenho grandes projetos para 2014: um jardim com girassóis e um cão. Eis meus planos diabólicos pro ano da Copa e do Circo (desculpa, eleições).







JABÁ: Já conhece a Sociedade Lacustre? Acesse, assista aos vídeos. Conheça o Plano Piloto como ele é, em tempo real, sem edição para parecer bonitinho e esconder os defeitos. A verdade nua e crua. Se for morador do Plano Piloto, antes de ficar ofendidinho, lembre-se: é o Plano Piloto sob as minhas lentes, apenas (e eu não coloquei carapuça em ninguém...)

29 de out de 2013

Roma das antigas exclusões

Acredito que, para entender o presente, é necessário entender o passado. Saber de onde viemos é importante para interferir em para onde vamos. Infelizmente, as pessoas em geral não se interessam por história, muito menos em saber sobre a história das exclusões. Eventualmente, algum ser humano se interessa em procurar informações sobre a parte da história que não foi contada pelos não-excluídos. Raramente, alguém relaciona esse lado B com as exclusões contemporâneas.

Talvez esteja no primeiro parágrafo a resposta àquela pergunta clássica: “como alguém pode falar mal do Feminismo estudando a história da humanidade?”. Às vezes, tenho a impressão de que pensar e refletir são verbos que causam profundo mal estar. Nos outros, não em mim. Felizmente, existem mais pessoas no mundo às quais estes verbos não causam transtornos estomacais. Para elas – e para mim – de vez em quando escreverei textos sobre a história das exclusões (como sou mulher, o foco acabará caindo na exclusão feminina).

A Grécia Antiga não era somente o berço da democracia que tanto defendemos hoje – era, também, o berço de exclusões que ainda permanecem, como dito NESSE TEXTO. Da mesma forma, a Roma Antiga não foi somente o berço de nosso direito moderno. O Direito Romano, essa maravilha que inspira nossos códigos legais até hoje, não era tão maravilhoso assim.

O código legal da civilização romana, entre outras coisas, legitimava a instituição jurídica do paterfamilias – a ele era atribuído todo o poder sobre mulher, filhos, servos, escravos. Qualquer semelhança com a discriminação da mulher em leis contemporâneas mundo afora não é mera coincidência. Diferentes culturas, através do tempo, utilizaram discursos institucionalizados para assegurar a sujeição da mulher. Antigamente, assim como hoje, houve resistência. No ano de 195 A.C., mulheres dirigiram-se ao Senado Romano. Motivo do protesto? Sua exclusão do uso dos transportes públicos e a obrigatoriedade de se locomoverem a pé.

Era um privilégio masculino, do homem livre, utilizar o transporte público. Haveria como relacionar essa antiguidade ao presente? A existência de vagões exclusivos para mulheres, para evitar que sejam assediadas/abusadas, não indicaria, ainda, privilégio masculino no uso dos transportes públicos? Ao contrário do que possa parecer, não é um privilégio ter vagão exclusivo; isso indica exclusão, opressão; privilegiado é aquele que pode utilizar qualquer vagão a qualquer hora, sem medo. Digressões a parte, vejamos como se manifestou o senador Marco Catão, diante do protesto das mulheres romanas:

"Lembrem-se do grande trabalho que temos tido para manter nossas mulheres tranqüilas e para refrear-lhes a licenciosidade, o que foi possível enquanto as leis nos ajudaram. Imaginem o que sucederá, daqui por diante, se tais leis forem revogadas e se as mulheres se puserem, legalmente considerando, em pé de igualdade com os homens! Os senhores sabem como são as mulheres: façam-nas suas iguais, e imediatamente elas quererão subir às suas costas para governá-los”.

Qualquer semelhança com legisladores em atividade no Brasil, em pleno ano de 2013 D.C., seria mera coincidência? Seja como for, estas palavras do senador expressam com clareza a relação de poder entre os sexos. Catão não fala de complementaridade. Ele fala de domínio, submissão, coerção e resistência. O Direito já aparece, em Roma Antiga, como instrumento de perpetuação da assimetria, legitimando a inferioridade da posição social da mulher romana.

Cronistas romanos registraram com surpresa a posição da mulher na Gália e na Germânia. Eram sociedades tribais. Seu regime comunitário designava às mulheres um espaço de atuação semelhante ao homem. Juntos faziam a guerra, participavam dos Conselhos Tribais, ocupavam-se da agricultura e do gado, construíam suas casas. As mulheres funcionavam, também, como juízas (inclusive de homens!). Registros de outras sociedades desmistificam a idéia de que a sujeição da mulher é um destino irrevogável, universal.

Um exemplo menos velho? Ao chegar à América, cronistas europeus do século XVI se surpreenderam com a relevância da posição da mulher entre algumas tribos, sociedades de caçadores e coletores, como os Iroqueses e Hurons, nas quais não havia uma divisão estrita entre economia doméstica e economia social. Inexistia o controle de um sexo sobre o outro na realização de tarefas ou nas tomadas de decisões. Nessas sociedades, as mulheres participavam ativamente de discussões nas quais estavam em jogo os interesses da comunidade.

Os princípios da Legislação Romana foram suspensos nos primeiros séculos da Idade Média e, até serem reintroduzidos (o que acontece do século XIII em diante), as mulheres possuíram alguns direitos, garantidos pelas leis e pelos costumes. Quase todas as profissões e os direitos de propriedade e de sucessão eram-lhe acessíveis, por exemplo. Porém, falar sobre a Idade das Trevas (que em alguns períodos não é tão ‘trevas’ assim) ficará para outro dia.




Para quem gosta de história, textos bacanas sobre mulheres de antigamente:

28 de out de 2013

Grécia das antigas exclusões

“O machismo começou quando decidiram que deus seria homem”, costuma repetir um amigo que, assim como eu, vai para o inferno.

Pois digo que, ao menos no Ocidente, quem inventou o machismo oficial e institucionalizado foi a democracia. Essa democracia que todos aplaudem quando citam a Grécia Antiga. A maioria absoluta da população era composta de escravos lá no berço da democracia. Antes de Cristo, a mulher já ocupava funções compartilhadas com escravos. Os trabalhos manuais, desvalorizados pelos homens livres, eram executados por mulheres e escravos.

A função primordial da mulher, em Atenas, era a reprodução da espécie. Além de gerar, amamentar e criar os filhos, a mulher ateniense produzia o que era diretamente ligado à subsistência do homem. Alimentação, fiação, tecelagem, trabalho agrícola. Aquela ágora, onde se desenvolviam atividades consideradas nobres – artes, política, filosofia – era reservada ao homem. A divisão do público e do privado já recebia valorações diversas na Grécia Antiga!

Estudamos história do ocidente para entender o que somos hoje, mas ignoramos aquela parte da história que diz respeito às permanências e continuidades das discriminações e das exclusões. Em Atenas, ser livre significava ser homem, ateniense (estrangeiros não) e, obviamente, livre. Nas raízes da democracia ocidental já havia xenofobia.

Isso quer dizer que sou contra estudar história grega e ler filósofos gregos? De forma alguma. Ao contrário, acho que devemos ler tudo. Os pensadores e os escritores de uma época são uma forma de conhecê-la. Mesmo em obras de ficção ou artísticas, nos mostram como eram a sociedade e o pensamento daquela época. Tucídides, ao narrar a Guerra do Peloponeso, nos mostra muito de como era o pensamento na área de segurança, por exemplo. Reconhece-se, nesse caso, a influência de Tucídides no Realismo (uma corrente teórica de Relações Internacionais que, suspeito, é seguida por muitos chefes de Estado por aí atualmente).

Sou a favor de prestar atenção nos detalhes, nas entrelinhas. Fazer uma leitura crítica de qualquer coisa. Contextualizar àquela época. Platão, ao afirmar “se a natureza não tivesse criado as mulheres e os escravos, teria dado ao tear a propriedade de fiar sozinho”, nos diz muito de qual era a posição da mulher naquela sociedade. Xenofonte, no século IV A.C., já utilizava argumentos naturalistas que ainda hoje são usados. Para ele, “os deuses criaram a mulher para as funções domésticas, o homem para todas as outras”. Lembrando: o homem que não era escravo e nem estrangeiro.

A exceção ao horizonte limitado da mulher grega eram as hetairas, cortesãs que cultivavam as artes (o objetivo era tornarem-se agradáveis companheiras para os homens em seus momentos de lazer). Embora falemos tanto do pensamento e do conhecimento que os gregos cultivavam, não custa lembrar: a mulher grega não tinha acesso à educação intelectual. O único registro histórico de um centro para a formação intelectual da mulher é uma escola fundada por Safo, poetisa nascida em Lesbos no ano de 625 A.C..

Só voltei a ler sobre história, filosofia e mitologia gregas após uma viagem à Grécia. Antes da atual crise, em 2005. Meu interesse ao ir lá não era Mikonos e Santorini. Eu queria estudar história, ir a todos os sítios arqueológicos. Para começar, aquela grandeza toda que os livros de história antiga me ensinaram era mentira. A mitologia me disse que Zeus era o fodão e os únicos deuses presentes em todos os sítios arqueológicos são Apolo e Atena? A acrópole de Micenas é do tamanho de uma superquadra da Asa Sul, for Christ sake! (se não for menor!). Esse país era aquela civilização iluminada? Essa última é a pergunta que me fez buscar releituras e leituras novas.

Prefiro viajar a comprar coisas. Observar o contraste do antigo com o novo. Observar como as pessoas relacionam-se no presente, como se comportam. Conhecer pessoas criadas em culturas diferentes. Conhecer a gastronomia local. No caso da Grécia, até a paisagem me gerava questionamentos. Nem sempre é assim. Às vezes, a paisagem gera apenas apreciação, embasbacamento. Gosto de ir a shows de danças típicas em seus países de origem, observar o papel reservado a cada um (homem e mulher) nessas danças. Sabiam que o ouzo, uma bebida grega, tem versão feminina e masculina? A mais fraca eles dizem que “é de mulher”. Acho que sou homem, pois preferi a mais forte. Sabiam que o interior da Grécia foi o único lugar, exceto a Itália, no qual me foi muito útil saber conversar em italiano? 

História me atrai. Pensar o presente por meio dela também. Sou aquela esquizofrênica que adorou o filme 300, mas toda vez que re-assiste tem alguma observação nova de erro histórico (e sobre os corpitchos “This is Sparta!”). Sinceramente? Acho um erro que se dê mais importância ao ensino de física, química, matemática... do que ao ensino de história. É um erro que o ensino não estimule a fazer conexões entre história, literatura, geografia, religião, artes, direito. O sistema está montado para que as pessoas não pensem sobre a condição do ser humano e, conseqüentemente, a própria. 

Melhor pensar que a Grécia é o berço da democracia, da liberdade. Pega mal ser o berço de exclusões. Pega mal que tais exclusões permaneçam no ano de 2013 D.C..

21 de out de 2013

sobre tempo e economia (?)

Contos mal contados de horários de verão. Ou: a insônia ajuda a construir o caráter de uma pessoa.

Por causa dela, assisti a muitos filmes, li muitos livros, escrevi muitos textos. As melhores idéias, aquelas geniais, sempre vêm quando cabeça e travesseiro se encontram. Depois tais idéias se revelam medíocres, mas na hora eram geniais.

Por causa dela, aprendi a dormir em diversas mesas e cadeiras diferentes. Até em carteiras escolares de um braço só. Bibliotecas lotadas. Todas as aulas que já tive antes das 10 horas da manhã... bem, não lembro dessas aulas. Meu rendimento, para qualquer atividade que necessite de concentração, sempre foi pífio antes das 10. Trabalho, exercícios físicos, estudo... nada rende. Improdutividade impera.
 
Além disso, não gosto – acho que nunca gostei – de dormir cedo e acordar cedo. Mau humor é meu nome quando tenho que acordar cedo. Improdutiva e intratável quando acordo. Você ficaria de bom humor se fosse obrigado a acordar às 7 da manhã, mas não conseguisse dormir antes das 2? Acharia bacana ter que recorrer a um comprimido para conseguir ter sono?

O senso comum manda dormir 8 horas por dia. O senso comum é uma idiotice, ao tratar todos os seres humanos como se fossem únicos e tivessem um relógio biológico padronizado. Eu, por exemplo, fico bem a partir de 6 horas de sono. Outra idiotice do senso comum? Expedientes de trabalho com horário padronizado.

Infere-se, do exposto anteriormente, que sou completamente improdutiva antes das 10 da manhã. O horário de verão, somado à insônia, piora um pouco essa situação. Ir dormir às 3 da matina se transforma quase em ir dormir às 4. Acordar às 9 da manhã se torna acordar às 8. Intelectual e economicamente, pessoas como eu (e são muitas!) são irrelevantes de manhã cedo. Enquanto isso, há pessoas que se tornam completamente improdutivas depois que anoitece.

Por que não flexibilizar horários de entrada e de saída dos trabalhos, para aumentar a produtividade? É lógica: funcionários mais produtivos aumentam a produtividade das empresas. Quem gosta de madrugar que chegue às 6 e saia às 16. Outros que cheguem às 8 e saiam às 18. Que haja quem chegue às 10 e saia às 20. Essa flexibilização ajudaria até mesmo na melhoria do trânsito e da lotação dos transportes públicos.

Outra medida que tem a ver com flexibilização e produtividade se refere às famigeradas 8 horas diárias de trabalho. Primeiramente, sejamos honestos: na maioria dos casos, ninguém trabalha 8 horas. Sinceramente? Na maioria dos casos, 6 horas diárias de trabalho são suficientes. Há gente que enrola, enrola... e não consegue fazer em 8 horas o que poderia ser feito em 6 (estas criaturas são incompetentes, preguiçosas, o serviço público está cheio delas... e elas que sejam demitidas ou fiquem mais horas no trabalho).

Acho que as pessoas seriam mais produtivas se fossem obrigadas a passar menos tempo no trabalho e tivessem horários flexibilizados. O trânsito e a lotação do transporte público provavelmente diminuiriam. As pessoas chegariam mais relaxadas em casa, além de mais rápido. Todos teriam mais tempo livre para: estudar, fazer exercícios, ler, assistir TV, ficar com a família, jogar videogame, dormir... e uma infinidade de coisas.

Tempo é dinheiro, não é mesmo? Se não quiser pensar que teríamos uma sociedade mais feliz, pense que tempo livre significa, entre outras coisas, lucro. Trabalhadores mais produtivos aumentam a produtividade de uma empresa; aumenta, conseqüentemente, a produtividade da economia. Muitos usarão seu tempo livre para nada, como ficar em frente à TV acompanhando todas as novelas. Outros, porém, usarão esse tempo para estudar, tornando-se trabalhadores mais especializados e, portanto, mais produtivos e economicamente rentáveis (alguns deles ingressarão na vida acadêmica, nas pesquisas... inovação e pensamento, dizem, são a base de uma nação que se quer grande...).

Tempo livre, além de lucro, também significa economia de dinheiro público. Em vez de estudar, vai usar o tempo para jogar futebol ou ir para a academia? Para caminhar em algum local da cidade? Menos sedentários gerando gastos com a saúde. Acredito que menos obesidade também. Muita gente vai usar o tempo para ficar plantado em casa, com a boca cheia de dentes, assistindo à TV. Essa gente já faria isso de qualquer forma. Os outros não.


Se a minoria utilizaria bem seu tempo, contribuindo para seu próprio crescimento e para o país, essa minoria deveria receber esse benefício. O resto continuará improdutivo, com ou sem tempo livre. Ao menos, estarão mais felizes e contribuirão para a melhoria do trânsito e das condições de lotação dos transportes públicos. A vida de todos melhora com isso, ou não? Diminuem até as filas nos mercados de bairro (perto da minha casa, as filas próximo às 18hs são longas e demoradas, um verdadeiro desperdício de tempo e fator de estresse).

Diante do exposto, esclareço que não odeio o horário de verão, como pode parecer à primeira vista quando falo dele. Durmo um pouco menos nos meses em que este horário está em vigor, mas não é como se tivesse que me adaptar ao fuso horário do Japão. Sem dramas. Com ou sem horário de verão, o que me incomoda mesmo é a padronização, a obrigação de seguir um relógio biológico que nunca foi o meu – e suspeito que nunca será.

Por fim, obrigar pessoas com relógios biológicos diferenciados a seguir uma padronização de horário ao qual elas não se adaptam é, no mínimo, burro. Eu faria uma enorme argumentação sobre o conteúdo dessa burrice, mas o cansaço argumentativo é forte.

Cansada de ouvir “toma um chazinho” ou “toma maracujina” ou variações disso. O único setor da economia a se beneficiar de minha insônia é a indústria farmacêutica, que evito e, portanto, durmo pouco – e não, tomar um chazinho não resolve. Aceitaria, de bom grado, um fitoterápico daqueles cuja venda é proibida (mas qualquer um que quiser encontra fácil). Nada como um fitoterápico para dormir como um bebê.


Aliás, fica a pergunta? Por que deram o nome de insônia, genericamente, ao mal que me aflige? Conheço pessoas que não conseguem dormir e fim, independente do horário. Eu consigo, profundamente, durante horas seguidas. E dizem que tenho insônia. Discordo. O que tenho é um relógio biológico diferenciado. Ocorre que, desde sempre, normalmente só começo a sentir sono por volta das 2 da manhã. E durmo muitíssimo bem, obrigada.



"Nós perdemos três quartos de nós mesmos, a fim de ser como as outras pessoas."

Arthur Schopenhauer

19 de out de 2013

carta aos beagles

Carta às pessoas que invadem laboratórios para libertar bichinhos fofinhos e aparecer bem na mídia – e também aos veganos que tentam me converter à sua religião:

Prezados,

Desculpem-me, mas a hipocrisia não me convém.

A marca de maquiagem que melhor se adapta à minha pele é a M.A.C. (uso sem dó, e é testada em animais... desculpem, sou um ser humano egoísta que pensa primeiro na própria pele, depois na dos bichinhos). Mesma coisa com os bloqueadores solares e cremes: sei que Neutrogena e La Roche testam em animas e continuarei usando estas marcas.

Confesso: sou um ser humano fútil. Gosto de maquiagem, ainda que pouca, só um batom mesmo para proteger os lábios da secura desértica da capital. Não posso dispensar proteção contra o sol ou contra o clima de deserto, entretanto. É a minha pele, muito branca, propensa a melanomas, manchas, envelhecimento precoce, desidratação, etc. Desculpa. Minha querida bepantol, salvadora da seca e das tatuagens, deve ser testada em animais. Talvez a tinta usada em alguma das minhas 11 tattoos possa ter sido testada em animais também. Uso sapatos, botas, cintos, bolsas e jaquetas de couro. Poderia dispensar estes itens, mas ainda não encontrei couro sintético tão bom quanto o verdadeiro.

Não gosto muito de carnes em geral, sejam elas brancas, vermelhas, gordas ou magras. Porém, como as poucas que gosto sempre que tenho vontade. Consumo derivados de leite, ovos, amo queijos. Meu organismo, para funcionar bem, estar saudável e forte, precisa de proteína de origem animal. Meus músculos, para sustentarem bem meu esqueleto e agüentarem bem minhas danças e lutas, precisam de proteína. 

Tenho certeza que já consumi medicamentos testados em animais. Provavelmente, até o fim da vida consumirei mais alguns. Ser humano egoísta pensa primeiro na própria vida. Ou na vida de pessoas queridas. Sou tão egoísta que, se precisasse escolher entre minha saúde e a saúde do meu gato (e o amo!), escolheria a minha. Acho que só não escolheria a minha em detrimento da de um filho... mas ainda não tenho filhos e, por enquanto, nunca pretendi tê-los.

Eu gostaria que não houvesse maus tratos a animais ou testes de laboratório com animais. Assim como também gostaria que a construção de uma represa, para a geração da eletricidade que consumo, não influísse no clima e não causasse prejuízo à biodiversidade. Não gosto de saber que a construção de uma estrada, por exemplo, impacta os ecossistemas por onde passa. Ou que a construção da capital, ao interiorizar o centro-oeste, ajudou a acabar com o cerrado. Devo mudar de cidade? Deixar de usar eletricidade? Nunca mais andar de carro ou ônibus?

Ademais, sou incapaz de citar um único produto de consumo humano que, em algum momento da cadeia de produção, não ocasione prejuízo, ainda que indireto, a alguma outra espécie animal. Fim.

Atenciosamente,
Um ser humano egoísta. Daquele que defende, sim, os direitos dos animais. Mas para o qual os direitos humanos vêm primeiro. Ser humano sincero, porém.

P.S.: resgatar beagles fofinhos também é jogar dinheiro público no lixo, viu? Leia AQUI. E se ficar chateado(a) com minha carta, por gentileza leia minha divagação passada AQUI.





Para quem quiser se informar:

18 de out de 2013

coisas desagradáveis

Aqui nós temos algumas pessoas, sentadas juntas, em uma mesa de bar. Encontraram-se para tomar uma cerveja e bater papo. Talvez almoçar ou jantar juntas.


O problema é que elas estão batendo papo, de cabeça baixa, via celular. Whatsapp, redes sociais... não importa. Elas se encontram com outras pessoas para ignorá-las.


Pessoalmente, acho isso bastante desagradável. Por que eu sairia de casa para encontrar alguém, se ficarei o tempo todo conectada? Fico logo confortável em casa, descalça. Ainda economizo dinheiro, gasolina e tempo de deslocamento.

Não me levem a mal. Adoro o desenvolvimento tecnológico. Não tenho nenhuma saudade da época na qual enviávamos cartas ou consultávamos a Barsa. Não tenho nostalgia alguma quanto aos telefones serem somente fixos ou precisar ficar na fila de orelhão para pedir um taxi após uma festa. Muito menos tenho saudade de esperar revelar um filme para saber como ficaria a foto. Acho sensacional poder acompanhar notícias em tempo real, manter contato rápido e fácil com os amigos que estão em outras cidades, países, continentes.

A geração tablet não sabe o que é ter internet discada e apenas um computador (enorme!) em casa: já nasceu com wifi! A internet e a mobilidade revolucionaram a comunicação. Minha opinião é que a mudança ainda não ocorreu e estamos vivenciando um período de transição. Não sei como será a comunicação, em seus mais diversos níveis, no futuro. Temos indícios. Eu diria que uma coisa é certa: a mobilidade é um caminho sem volta e tende a aprofundar-se.

Não sei que reflexos sociais essas mudanças podem ter nos relacionamentos entre as pessoas. Temos indícios. Um deles é que muitas pessoas estão fazendo uso excessivo da internet, das tecnologias de comunicação em geral. Será que esse uso excessivo não estaria as afastando, ao invés de aproximá-las? Questiono isso toda vez que vejo alguma reportagem como ESSA. Basicamente, a reportagem diz que Brasilia não é acolhedora, é difícil conhecer pessoas, mimimi, blábláblá. O que eu responderia a essa reportagem? Responderam por mim, AQUI.

Ainda não tive problemas para conhecer pessoas, seja aqui na capital ou em outras cidades. Basta estar disposta, dar bom dia, puxar conversa. Também há dias de indisposição, nos quais fico em casa ou, se saio, coloco fone de ouvido e óculos escuro para ninguém puxar papo. A escolha, bem ou mal, é minha. De repente, esse pessoal que reclama da dificuldade de conhecer gente está escolhendo errado.

Exemplos de escolhas erradas para solteiros não faltam. Entre elas, eu colocaria o uso excessivo da internet, do whatsapp, enfim, uso excessivo da tecnologia. Por quê? Colega, se você vai para um bar e fica de cabeça baixa, mexendo no celular, em vez de conversar com quem está na sua própria mesa... Quer conhecer gente como, se você sequer presta atenção ao entorno ou mostra-se aberto a aproximações? Colega, se você fica mais em casa, jogando videogame ou conectado, do que sai... Boa sorte aí conhecendo gente online! Depois vocês reclamam que não conhecem pessoas? Que os outros são muito fechados? Aham, senta lá!

Esse breve texto era apenas para desabafar o quanto acho desagradáveis essas pessoas que ficam a maior parte do tempo de cabeça baixa, ao celular... Mas já que descambou para escolhas erradas dos solteiros, façamos uma pequena observação. Colega, estar solteiro não é motivo para ser infeliz. De repente, você está gastando mais tempo se preocupando por estar solteiro, do que gasta curtindo a vida. De repente, você está tão preocupado em achar um par, que deixa de conhecer um monte de pessoas bacanas, de ganhar novos amigos.


Variações sobre o tema:

16 de out de 2013

alecrins, hortelãs e bagulhos

Título alternativo: manifesto pela liberdade de crença expressa no artigo 5º da Constituição ou, simplesmente, manifesto por todas as liberdades expressas no supracitado artigo e seu sistemático desrespeito por parte de ‘bons cristãos’ e ‘enviados de deus’.



Eu rezaria para um deus chocolate. A igreja seria igual à casa da bruxa de João e Maria. As criancinhas seriam atraídas para o culto desde cedo. Iriam por vontade própria. Ficariam impressionadas com as imagens do altar, feitas de chocolate belga e enfeitadas com confeitos, nozes, castanhas, amêndoas, etc. O Natal seria a época mais feliz do ano! Enfeites comestíveis nas árvores decoradas. Presépios com menino Jesus de chocolate! As vaquinhas, os presentes, a Virgem... tudo de chocolate!

Quando crescessem, as crianças apreciariam isso tudo acompanhado de vinho e água. Alguns pães e frutas. Seguindo o ensinamento do seu menino Jesus de chocolate. O primeiro milagre seria transformar água em vinho e multiplicar o pão. O deus chocolate enviou o filho certo para se sacrificar por nós. Ele nos quer felizes. Levemente sensuais, como diria uma amiga. Ou completamente embriagados, a ponto de não lembrar fatos, acreditar no que dissessem que vimos ou fizemos.

Não sei se as testemunhas da festa em honra a Baco estavam embriagadas, se haviam usado algum alucinógeno, ou se tomaram um boa noite cinderela. Se as testemunhas estavam sóbrias, não sei quais as intenções de Jesus. Provável que estivessem sóbrias: a abundância de vinho que provocaria a embriaguez foi posterior ao milagre. Não sei se a pessoa que escreveu a história descreveu, relatou ou interpretou os fatos. Não sei quantas alterações o texto sofreu ao longo dos séculos, sendo traduzido para muitas línguas diferentes. 

Eu gostaria do deus chocolate. Comeria pedaços dos bancos de sua igreja quando criança. Queria ser amiga do seu filho, chamá-lo para bater papo em minha casa. Ceia de Natal, bastaria abrir a torneira, comprar um croissant e alguns morangos – o presépio complementaria. Eu acho bacana uma planta ser diretamente associada à imagem de deus. Cacau é patrimônio da humanidade! Portanto, não entenda errado quando eu disser que tenho dúvidas sobre as intenções divinas e questiono as palavras de deus.

No texto que me ensinaram, deus não era de chocolate. Não pude acreditar, pois no meu texto ele seria. No texto que eu li e estudei, deus não era como me ensinaram e continuava não sendo de chocolate. O milagre dionisíaco era para fazer as pessoas felizes, não para condená-las. Definitivamente, prefiro minha versão dele, feito de chocolate. Descendente (seria ascendente?) de planta. Originário da América do Sul. Aí sim eu acreditaria em um deus brasileiro!

Infelizmente, na atual conjuntura, se eu inaugurasse o culto ao meu deus, provavelmente seria queimada em uma fogueira de São João fora de época. Eu seria a bruxa de João e Maria, atraindo as criancinhas inocentes para o imenso pecado da gula! Proibido que elas tivessem prazer comendo os bancos da igreja ou o bebê do presépio. A outra alternativa plausível é que eu fosse internada em um hospício e sofresse uma lobotomia. Não há definição, senão louca, para uma pessoa que acredita em um deus chocolate.

Sinto-me um cristão novo na época do Brasil colônia. Tendo que professar a fé em um deus único em público, enquanto professo a fé nos meus próprios deuses em particular. Em vez de imagens dos meus deuses (de louça, de pedra ou de metal), tatuagens. Crenças escondidas, tal como uma praticante de strega na Florença medieval. Uma consumidora de alecrins, hortelãs e bagulhos que deve ser detida. Algumas vezes, sinto-me uma árabe em Jerusalém, durante as cruzadas. Ou uma palestina, se fosse hoje. Fico em dúvidas.

Quer queiram, quer não, meu deus não é esse aí. Meu deus sequer é único e proíbe a existência de outros deuses. Ele é amor. E amor pode se materializar em chocolate. Vinho. Morangos. Dança. Música. Sexo. Pizza. Beijos. Abraços. Filmes. Festas. Jogos. Literatura. Conversas. Qualquer coisa que nos faça feliz e não tire dos outros uma das faces do amor: a liberdade.

Meu deus também é diverso por natureza. Mestiço e aceito. Cacau baiano. Leite de vaquinhas peludas rechonchudas holandesas. Especiarias para incrementar. Serve até leite de vaca genérica. Frutas tropicais. O importante é que ele é globalizado como vislumbrou Milton Santos, cosmopolita como preconizava Kant. Um deus bairrista não combina com a quantidade de possibilidades e de combinações possíveis para sua existência.


Se possível, além de rezar diariamente para o deus chocolate, eu faria campanha pelo presidente chocolate nas próximas eleições. Na impossibilidade de um Estado laico, que ele fosse ao menos dirigido pela religião chocólatra.

3 de out de 2013

irreversível massa - parte II

Sabe o vídeo “Por ser menina”? Andou circulando, as pessoas falaram que choraram, todos amaram. Pois é, não gostei desse vídeo. Ele só se comunica bem com quem já é predisposto à causa. Outra edição, outra abordagem, mais fluidez nas falas da menina, talvez mudanças no texto, menos tempo de duração. Esse vídeo não precisa se comunicar comigo, ele precisa atingir quem é neutro, ignora ou desconhece a causa. Esse vídeo também não precisa conquistar gente claramente contrária à causa – e dificilmente eles serão conquistados.


É como quando digo para alguém deixar para lá e não bater boca com fanáticos religiosos seguidores de Felicianos e correlatos. Não adianta. Não adianta mostrar dados de pesquisas sérias. A audiência não é passiva. Procura o que quer, interpreta o que acha adequado às suas próprias necessidades e predisposições, raramente muda de idéia como resultado de persuasão. Fica o recado para ateus que querem dialogar usando lógica com fanáticos. Os emissores divulgam certos sinais e os receptores escolhem entre eles, selecionam alguns, rejeitam outros, fazendo o uso que quiserem e puderem.

Eu poderia rasgar meu diploma se acreditasse que a comunicação de massa não exerce efeito – apenas penso que esse efeito não é automático e nem irreversível. A questão a se pensar não é “o que a comunicação de massa nos faz?”. Trata-se do modo como partes da sociedade utilizam os meios de comunicação para falar com outras partes. A questão não seria, portanto, estudar algo que age sobre a sociedade, sim estudar a sociedade que usa esse algo em seu processo básico.

McLuhan dizia que “o meio é a mensagem”, mas a mensagem é muito mais que o meio. Pessoalmente, acho preocupante que muita gente tenha grande parte de sua concepção do mundo derivada da informação que recebe dos meios de comunicação de massa, que tem o poder de focalizar a atenção. Tem o poder de conferir status a algumas pessoas que lhes podem ser interessantes. Tem o poder de compreender o nosso conhecimento sobre todas as partes do mundo em que vivemos e a cujo respeito não temos experiência direta. Qual o grau de imparcialidade e fidelidade desses meios?

Parêntese. Sim, estou colocando a internet dentro dos meios de comunicação de massa. Apesar de permitir a qualquer um publicar qualquer coisa, os grandes portais são controlados por poucos grupos, muitos dos quais ligados à mídia tradicional, aos meios clássicos. Além disso, compare a quantidade de acessos de um Felipe Neto e de palestras do Habermas no youtube. A quantidade de acessos de um blog com textos acadêmicos e de outro, que fala mal de celebridades. O Felipe fucking Neto é best seller – livros! Essa digressão toda para dizer que não é o seu blog em defesa de qualquer causa que vai mudar o mundo – ele provavelmente não será nem lido por gente suficiente para tanto. Fecha parêntese.

Outro fator de poder da comunicação de massa é o que decorre do fornecimento de modelos de comportamento e isto está longe de ser inocente se, por exemplo, apresenta modelos de violência como um comportamento inofensivo ou aprovado. O que me dizem de o modelo machista, aquele homem preocupado, protetor, ciumento, ser sempre mostrado de forma inocente, boa, desejável? A violência desse machista é sempre mostrada com aprovação, justificada. É uma força hercúlea nadar contra a maré... Talvez um dia isso mude... Por enquanto, ficamos com os modelos de comportamento das novelas e com as versões dos fatos dos noticiários. Ou seriam modelos de comportamento dos noticiários e versões dos fatos das novelas?

O que estou tentando dizer, sem sucesso, é simples. A comunicação de massa, por si só, não é boa ou má. Ela é maciça? Isso pode ter como resultado focalizar a atenção em frivolidades e inverdades. Pode também levar realidades importantes à atenção de audiências muito vastas. Não sei até que ponto o caráter maciço da comunicação pode resultar em atividade e mudança (ou em passividade). Poderia possibilitar a participação política em escala muito mais ampla; levar as pessoas à cooperação; oferecer vantagens e oportunidades aos desfavorecidos. Ou poderia contribuir, simplesmente, para a passividade e a manutenção do status quo da sociedade.

Tudo depende de como for usada. A questão não é o que a comunicação de massa nos faz. Sim o que nós fazemos a nós próprios com a comunicação de massa. No Brasil, o problema aumenta: os meios de comunicação estão atrelados a interesses políticos. Apenas olhem a Constituição. O Quarto Poder, por aqui, está umbilicalmente ligado à política. Até as agências de publicidade e marketing dependem das grandes gordas contas do governo para se manterem! Isso não é um país com Liberdade de Expressão livre.




*Esse texto é como Kill Bill – devia ter sido editado para ser um só, mas viraram dois. Essa é a segunda parte; leia a primeira parte AQUI

*Recomendado: Liberdade de Expressão e Democracia. Se você ler Kill Bill partes I e II e esse último texto recomendado e, ainda assim, não entender porque digo que o Brasil não é um país com Liberdade de Expressão livre... 

2 de out de 2013

irreversível massa - parte I

Fiz graduação em Comunicação. Um pedaço do curso no século XX, outro pedaço no século XXI. Um cruzamento de anos 90 com anos 00. Naquela época, falar em comunicação de massa significava fazer referência à TV aberta e ao rádio. Em muitas partes do mundo e, aqui mesmo no Brasil, ainda é isso. Ou alguém realmente acredita nesse delírio pós-moderno, pós-industrial, pós-seja lá o que for... alguém acredita nesse delírio de que todos estão conectados?

Todos por aí são como nós: em casa, cada um tem seu próprio notebook, uma conexão wifi, um 3G, idealmente TV a cabo. Horas livres para usar a internet, no trabalho e fora dele. Todos os países são escandinavos. Sugiro um passeio pelo interior das regiões norte, nordeste e centro-oeste. Muita coisa não passou nem pela Revolução Industrial ainda – lamento destruir seu castelo cor de rosa, mas essa é a realidade em grande parte do mundo. Outra grande parte ainda está dividida, indecisa: só se sabe que ainda não chegou nem aos anos 60/70, à liberação sexual e à luta pelos direitos civis.

Em 2013, esses todos por aí, que são como nós, não somam ¼ da humanidade. Sejamos realistas. No mundo real, a Rede Globo, o SBT, a Record... eles e os programas evangélicos de rádio me preocupam muito mais do que blogs misóginos. Censurar obras cinematográficas e literárias, controlar o fluxo de informações da internet em seu território. Censura e controle me estressam. Use o Google aqui e na China. Será que meu blog está no índex dos blogs proibidos por lá? Por que diabos já houve alguma lista de leituras proibidas? Repare: a humanidade sempre teve essa necessidade de querer proibir o acesso das pessoas à informação. Dentro dos próprios movimentos – religiosos, LGBT, negro, feminista, esquerda – se fazem listas de pessoas e leituras danosas, perigosas, que propagam idéias contrárias àquele movimento de emancipação.

Digressões à parte, estou com Hobsbawm: o século XX foi breve e terminou junto com a Guerra Fria. Já estávamos, porém, na “Era da Informação” – quando a posse de conhecimentos é o principal recurso da humanidade e o requisito primordial do poder. Acredito ser esse um grande erro de muitos teóricos da Comunicação. Sempre estivemos em uma “Era da Informação”, desse mesmo jeito, no mínimo desde a Grécia – se nos referirmos ao Ocidente. A mudança é somente na velocidade de propagação das informações e nos métodos utilizados para controlá-las.

Livros que eram grafados à mão, em mosteiros, passaram a circular mais com Gutenberg. A internet amplificou isso para uma grande parte da população mundial, enquanto outras grandes partes ainda estão conhecendo Gutenberg ou não aprenderam a escrever. Geralmente, quanto mais atrasada e controlada a difusão de informações em um país, maior a pobreza de sua população. Fazer qualquer menção ao controle de quaisquer meios de comunicação é uma coisa que me dá calafrios! O que devemos prestar bastante atenção é nos problemas relativos ao receptor da mensagem – estes envolvem educação formal, oportunidades profissionais, segurança, economia, política. Eu vivi a época na qual a tecnologia de comunicação de massa foi desenvolvida para assistir ao emissor – naquela época, os problemas do receptor não recebiam atenção. 

O ritmo de desenvolvimento tecnológico produziu uma situação na qual há excesso de informação para qualquer indivíduo e, ao mesmo tempo, é extraordinariamente difícil que os indivíduos obtenham a informação de que mais urgentemente necessitam. Nas sociedades avançadas, o computador e os smartphones são, provavelmente, os principais instrumentos dessa nova era de informações – com a sempre onipresente internet. Uma coisa, porém, permanece desde aquela época que vivi: organizações (poucas) que centralizam o fluxo de conhecimento e tem o poder de sustar, acrescentar ou interpretar. Uma consideração que sempre deveríamos fazer sobre o futuro da comunicação: quem a controla e o que esperar de quem a controla.

A comunicação de massa não é uma força irresistível. Isso foi bastante defendido após a utilização da propaganda na I Guerra e, posteriormente, por nazistas e comunistas. Pensava-se que o público era um alvo indefeso. Famosa ‘Teoria de Projétil da Comunicação’: a audiência era considerada passiva, aguardando que a comunicação de massa disparasse contra ela um projétil de propaganda. As pesquisas concentravam-se no conteúdo da comunicação. Descobriu-se que essa teoria não se ajustava aos fatos e procurou-se outras variáveis, além do conteúdo, que pudessem ser influentes.

Pesquisadores descobriram que os grupos sociais a que uma pessoa pertence, suas relações interpessoais, fazem uma grande diferença no modo como ela usa e reage à comunicação de massa. Variáveis pessoais, assim como as variações no modo como a mensagem é apresentada, relacionam-se com os efeitos da comunicação. Também faz diferença se a comunicação tem público cativo ou oferece alternativas.




*Esse texto é como Kill Bill – devia ter sido editado para ser um só, mas viraram dois. Essa é a primeira parte; leia a segunda parte AQUI - seu início faz relação direta com o último parágrafo dessa primeira parte.