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21 de out de 2013

sobre tempo e economia (?)

Contos mal contados de horários de verão. Ou: a insônia ajuda a construir o caráter de uma pessoa.

Por causa dela, assisti a muitos filmes, li muitos livros, escrevi muitos textos. As melhores idéias, aquelas geniais, sempre vêm quando cabeça e travesseiro se encontram. Depois tais idéias se revelam medíocres, mas na hora eram geniais.

Por causa dela, aprendi a dormir em diversas mesas e cadeiras diferentes. Até em carteiras escolares de um braço só. Bibliotecas lotadas. Todas as aulas que já tive antes das 10 horas da manhã... bem, não lembro dessas aulas. Meu rendimento, para qualquer atividade que necessite de concentração, sempre foi pífio antes das 10. Trabalho, exercícios físicos, estudo... nada rende. Improdutividade impera.
 
Além disso, não gosto – acho que nunca gostei – de dormir cedo e acordar cedo. Mau humor é meu nome quando tenho que acordar cedo. Improdutiva e intratável quando acordo. Você ficaria de bom humor se fosse obrigado a acordar às 7 da manhã, mas não conseguisse dormir antes das 2? Acharia bacana ter que recorrer a um comprimido para conseguir ter sono?

O senso comum manda dormir 8 horas por dia. O senso comum é uma idiotice, ao tratar todos os seres humanos como se fossem únicos e tivessem um relógio biológico padronizado. Eu, por exemplo, fico bem a partir de 6 horas de sono. Outra idiotice do senso comum? Expedientes de trabalho com horário padronizado.

Infere-se, do exposto anteriormente, que sou completamente improdutiva antes das 10 da manhã. O horário de verão, somado à insônia, piora um pouco essa situação. Ir dormir às 3 da matina se transforma quase em ir dormir às 4. Acordar às 9 da manhã se torna acordar às 8. Intelectual e economicamente, pessoas como eu (e são muitas!) são irrelevantes de manhã cedo. Enquanto isso, há pessoas que se tornam completamente improdutivas depois que anoitece.

Por que não flexibilizar horários de entrada e de saída dos trabalhos, para aumentar a produtividade? É lógica: funcionários mais produtivos aumentam a produtividade das empresas. Quem gosta de madrugar que chegue às 6 e saia às 16. Outros que cheguem às 8 e saiam às 18. Que haja quem chegue às 10 e saia às 20. Essa flexibilização ajudaria até mesmo na melhoria do trânsito e da lotação dos transportes públicos.

Outra medida que tem a ver com flexibilização e produtividade se refere às famigeradas 8 horas diárias de trabalho. Primeiramente, sejamos honestos: na maioria dos casos, ninguém trabalha 8 horas. Sinceramente? Na maioria dos casos, 6 horas diárias de trabalho são suficientes. Há gente que enrola, enrola... e não consegue fazer em 8 horas o que poderia ser feito em 6 (estas criaturas são incompetentes, preguiçosas, o serviço público está cheio delas... e elas que sejam demitidas ou fiquem mais horas no trabalho).

Acho que as pessoas seriam mais produtivas se fossem obrigadas a passar menos tempo no trabalho e tivessem horários flexibilizados. O trânsito e a lotação do transporte público provavelmente diminuiriam. As pessoas chegariam mais relaxadas em casa, além de mais rápido. Todos teriam mais tempo livre para: estudar, fazer exercícios, ler, assistir TV, ficar com a família, jogar videogame, dormir... e uma infinidade de coisas.

Tempo é dinheiro, não é mesmo? Se não quiser pensar que teríamos uma sociedade mais feliz, pense que tempo livre significa, entre outras coisas, lucro. Trabalhadores mais produtivos aumentam a produtividade de uma empresa; aumenta, conseqüentemente, a produtividade da economia. Muitos usarão seu tempo livre para nada, como ficar em frente à TV acompanhando todas as novelas. Outros, porém, usarão esse tempo para estudar, tornando-se trabalhadores mais especializados e, portanto, mais produtivos e economicamente rentáveis (alguns deles ingressarão na vida acadêmica, nas pesquisas... inovação e pensamento, dizem, são a base de uma nação que se quer grande...).

Tempo livre, além de lucro, também significa economia de dinheiro público. Em vez de estudar, vai usar o tempo para jogar futebol ou ir para a academia? Para caminhar em algum local da cidade? Menos sedentários gerando gastos com a saúde. Acredito que menos obesidade também. Muita gente vai usar o tempo para ficar plantado em casa, com a boca cheia de dentes, assistindo à TV. Essa gente já faria isso de qualquer forma. Os outros não.


Se a minoria utilizaria bem seu tempo, contribuindo para seu próprio crescimento e para o país, essa minoria deveria receber esse benefício. O resto continuará improdutivo, com ou sem tempo livre. Ao menos, estarão mais felizes e contribuirão para a melhoria do trânsito e das condições de lotação dos transportes públicos. A vida de todos melhora com isso, ou não? Diminuem até as filas nos mercados de bairro (perto da minha casa, as filas próximo às 18hs são longas e demoradas, um verdadeiro desperdício de tempo e fator de estresse).

Diante do exposto, esclareço que não odeio o horário de verão, como pode parecer à primeira vista quando falo dele. Durmo um pouco menos nos meses em que este horário está em vigor, mas não é como se tivesse que me adaptar ao fuso horário do Japão. Sem dramas. Com ou sem horário de verão, o que me incomoda mesmo é a padronização, a obrigação de seguir um relógio biológico que nunca foi o meu – e suspeito que nunca será.

Por fim, obrigar pessoas com relógios biológicos diferenciados a seguir uma padronização de horário ao qual elas não se adaptam é, no mínimo, burro. Eu faria uma enorme argumentação sobre o conteúdo dessa burrice, mas o cansaço argumentativo é forte.

Cansada de ouvir “toma um chazinho” ou “toma maracujina” ou variações disso. O único setor da economia a se beneficiar de minha insônia é a indústria farmacêutica, que evito e, portanto, durmo pouco – e não, tomar um chazinho não resolve. Aceitaria, de bom grado, um fitoterápico daqueles cuja venda é proibida (mas qualquer um que quiser encontra fácil). Nada como um fitoterápico para dormir como um bebê.


Aliás, fica a pergunta? Por que deram o nome de insônia, genericamente, ao mal que me aflige? Conheço pessoas que não conseguem dormir e fim, independente do horário. Eu consigo, profundamente, durante horas seguidas. E dizem que tenho insônia. Discordo. O que tenho é um relógio biológico diferenciado. Ocorre que, desde sempre, normalmente só começo a sentir sono por volta das 2 da manhã. E durmo muitíssimo bem, obrigada.



"Nós perdemos três quartos de nós mesmos, a fim de ser como as outras pessoas."

Arthur Schopenhauer