Páginas

16 de out de 2013

alecrins, hortelãs e bagulhos

Título alternativo: manifesto pela liberdade de crença expressa no artigo 5º da Constituição ou, simplesmente, manifesto por todas as liberdades expressas no supracitado artigo e seu sistemático desrespeito por parte de ‘bons cristãos’ e ‘enviados de deus’.



Eu rezaria para um deus chocolate. A igreja seria igual à casa da bruxa de João e Maria. As criancinhas seriam atraídas para o culto desde cedo. Iriam por vontade própria. Ficariam impressionadas com as imagens do altar, feitas de chocolate belga e enfeitadas com confeitos, nozes, castanhas, amêndoas, etc. O Natal seria a época mais feliz do ano! Enfeites comestíveis nas árvores decoradas. Presépios com menino Jesus de chocolate! As vaquinhas, os presentes, a Virgem... tudo de chocolate!

Quando crescessem, as crianças apreciariam isso tudo acompanhado de vinho e água. Alguns pães e frutas. Seguindo o ensinamento do seu menino Jesus de chocolate. O primeiro milagre seria transformar água em vinho e multiplicar o pão. O deus chocolate enviou o filho certo para se sacrificar por nós. Ele nos quer felizes. Levemente sensuais, como diria uma amiga. Ou completamente embriagados, a ponto de não lembrar fatos, acreditar no que dissessem que vimos ou fizemos.

Não sei se as testemunhas da festa em honra a Baco estavam embriagadas, se haviam usado algum alucinógeno, ou se tomaram um boa noite cinderela. Se as testemunhas estavam sóbrias, não sei quais as intenções de Jesus. Provável que estivessem sóbrias: a abundância de vinho que provocaria a embriaguez foi posterior ao milagre. Não sei se a pessoa que escreveu a história descreveu, relatou ou interpretou os fatos. Não sei quantas alterações o texto sofreu ao longo dos séculos, sendo traduzido para muitas línguas diferentes. 

Eu gostaria do deus chocolate. Comeria pedaços dos bancos de sua igreja quando criança. Queria ser amiga do seu filho, chamá-lo para bater papo em minha casa. Ceia de Natal, bastaria abrir a torneira, comprar um croissant e alguns morangos – o presépio complementaria. Eu acho bacana uma planta ser diretamente associada à imagem de deus. Cacau é patrimônio da humanidade! Portanto, não entenda errado quando eu disser que tenho dúvidas sobre as intenções divinas e questiono as palavras de deus.

No texto que me ensinaram, deus não era de chocolate. Não pude acreditar, pois no meu texto ele seria. No texto que eu li e estudei, deus não era como me ensinaram e continuava não sendo de chocolate. O milagre dionisíaco era para fazer as pessoas felizes, não para condená-las. Definitivamente, prefiro minha versão dele, feito de chocolate. Descendente (seria ascendente?) de planta. Originário da América do Sul. Aí sim eu acreditaria em um deus brasileiro!

Infelizmente, na atual conjuntura, se eu inaugurasse o culto ao meu deus, provavelmente seria queimada em uma fogueira de São João fora de época. Eu seria a bruxa de João e Maria, atraindo as criancinhas inocentes para o imenso pecado da gula! Proibido que elas tivessem prazer comendo os bancos da igreja ou o bebê do presépio. A outra alternativa plausível é que eu fosse internada em um hospício e sofresse uma lobotomia. Não há definição, senão louca, para uma pessoa que acredita em um deus chocolate.

Sinto-me um cristão novo na época do Brasil colônia. Tendo que professar a fé em um deus único em público, enquanto professo a fé nos meus próprios deuses em particular. Em vez de imagens dos meus deuses (de louça, de pedra ou de metal), tatuagens. Crenças escondidas, tal como uma praticante de strega na Florença medieval. Uma consumidora de alecrins, hortelãs e bagulhos que deve ser detida. Algumas vezes, sinto-me uma árabe em Jerusalém, durante as cruzadas. Ou uma palestina, se fosse hoje. Fico em dúvidas.

Quer queiram, quer não, meu deus não é esse aí. Meu deus sequer é único e proíbe a existência de outros deuses. Ele é amor. E amor pode se materializar em chocolate. Vinho. Morangos. Dança. Música. Sexo. Pizza. Beijos. Abraços. Filmes. Festas. Jogos. Literatura. Conversas. Qualquer coisa que nos faça feliz e não tire dos outros uma das faces do amor: a liberdade.

Meu deus também é diverso por natureza. Mestiço e aceito. Cacau baiano. Leite de vaquinhas peludas rechonchudas holandesas. Especiarias para incrementar. Serve até leite de vaca genérica. Frutas tropicais. O importante é que ele é globalizado como vislumbrou Milton Santos, cosmopolita como preconizava Kant. Um deus bairrista não combina com a quantidade de possibilidades e de combinações possíveis para sua existência.


Se possível, além de rezar diariamente para o deus chocolate, eu faria campanha pelo presidente chocolate nas próximas eleições. Na impossibilidade de um Estado laico, que ele fosse ao menos dirigido pela religião chocólatra.