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28 de out de 2013

Grécia das antigas exclusões

“O machismo começou quando decidiram que deus seria homem”, costuma repetir um amigo que, assim como eu, vai para o inferno.

Pois digo que, ao menos no Ocidente, quem inventou o machismo oficial e institucionalizado foi a democracia. Essa democracia que todos aplaudem quando citam a Grécia Antiga. A maioria absoluta da população era composta de escravos lá no berço da democracia. Antes de Cristo, a mulher já ocupava funções compartilhadas com escravos. Os trabalhos manuais, desvalorizados pelos homens livres, eram executados por mulheres e escravos.

A função primordial da mulher, em Atenas, era a reprodução da espécie. Além de gerar, amamentar e criar os filhos, a mulher ateniense produzia o que era diretamente ligado à subsistência do homem. Alimentação, fiação, tecelagem, trabalho agrícola. Aquela ágora, onde se desenvolviam atividades consideradas nobres – artes, política, filosofia – era reservada ao homem. A divisão do público e do privado já recebia valorações diversas na Grécia Antiga!

Estudamos história do ocidente para entender o que somos hoje, mas ignoramos aquela parte da história que diz respeito às permanências e continuidades das discriminações e das exclusões. Em Atenas, ser livre significava ser homem, ateniense (estrangeiros não) e, obviamente, livre. Nas raízes da democracia ocidental já havia xenofobia.

Isso quer dizer que sou contra estudar história grega e ler filósofos gregos? De forma alguma. Ao contrário, acho que devemos ler tudo. Os pensadores e os escritores de uma época são uma forma de conhecê-la. Mesmo em obras de ficção ou artísticas, nos mostram como eram a sociedade e o pensamento daquela época. Tucídides, ao narrar a Guerra do Peloponeso, nos mostra muito de como era o pensamento na área de segurança, por exemplo. Reconhece-se, nesse caso, a influência de Tucídides no Realismo (uma corrente teórica de Relações Internacionais que, suspeito, é seguida por muitos chefes de Estado por aí atualmente).

Sou a favor de prestar atenção nos detalhes, nas entrelinhas. Fazer uma leitura crítica de qualquer coisa. Contextualizar àquela época. Platão, ao afirmar “se a natureza não tivesse criado as mulheres e os escravos, teria dado ao tear a propriedade de fiar sozinho”, nos diz muito de qual era a posição da mulher naquela sociedade. Xenofonte, no século IV A.C., já utilizava argumentos naturalistas que ainda hoje são usados. Para ele, “os deuses criaram a mulher para as funções domésticas, o homem para todas as outras”. Lembrando: o homem que não era escravo e nem estrangeiro.

A exceção ao horizonte limitado da mulher grega eram as hetairas, cortesãs que cultivavam as artes (o objetivo era tornarem-se agradáveis companheiras para os homens em seus momentos de lazer). Embora falemos tanto do pensamento e do conhecimento que os gregos cultivavam, não custa lembrar: a mulher grega não tinha acesso à educação intelectual. O único registro histórico de um centro para a formação intelectual da mulher é uma escola fundada por Safo, poetisa nascida em Lesbos no ano de 625 A.C..

Só voltei a ler sobre história, filosofia e mitologia gregas após uma viagem à Grécia. Antes da atual crise, em 2005. Meu interesse ao ir lá não era Mikonos e Santorini. Eu queria estudar história, ir a todos os sítios arqueológicos. Para começar, aquela grandeza toda que os livros de história antiga me ensinaram era mentira. A mitologia me disse que Zeus era o fodão e os únicos deuses presentes em todos os sítios arqueológicos são Apolo e Atena? A acrópole de Micenas é do tamanho de uma superquadra da Asa Sul, for Christ sake! (se não for menor!). Esse país era aquela civilização iluminada? Essa última é a pergunta que me fez buscar releituras e leituras novas.

Prefiro viajar a comprar coisas. Observar o contraste do antigo com o novo. Observar como as pessoas relacionam-se no presente, como se comportam. Conhecer pessoas criadas em culturas diferentes. Conhecer a gastronomia local. No caso da Grécia, até a paisagem me gerava questionamentos. Nem sempre é assim. Às vezes, a paisagem gera apenas apreciação, embasbacamento. Gosto de ir a shows de danças típicas em seus países de origem, observar o papel reservado a cada um (homem e mulher) nessas danças. Sabiam que o ouzo, uma bebida grega, tem versão feminina e masculina? A mais fraca eles dizem que “é de mulher”. Acho que sou homem, pois preferi a mais forte. Sabiam que o interior da Grécia foi o único lugar, exceto a Itália, no qual me foi muito útil saber conversar em italiano? 

História me atrai. Pensar o presente por meio dela também. Sou aquela esquizofrênica que adorou o filme 300, mas toda vez que re-assiste tem alguma observação nova de erro histórico (e sobre os corpitchos “This is Sparta!”). Sinceramente? Acho um erro que se dê mais importância ao ensino de física, química, matemática... do que ao ensino de história. É um erro que o ensino não estimule a fazer conexões entre história, literatura, geografia, religião, artes, direito. O sistema está montado para que as pessoas não pensem sobre a condição do ser humano e, conseqüentemente, a própria. 

Melhor pensar que a Grécia é o berço da democracia, da liberdade. Pega mal ser o berço de exclusões. Pega mal que tais exclusões permaneçam no ano de 2013 D.C..