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2 de out de 2013

irreversível massa - parte I

Fiz graduação em Comunicação. Um pedaço do curso no século XX, outro pedaço no século XXI. Um cruzamento de anos 90 com anos 00. Naquela época, falar em comunicação de massa significava fazer referência à TV aberta e ao rádio. Em muitas partes do mundo e, aqui mesmo no Brasil, ainda é isso. Ou alguém realmente acredita nesse delírio pós-moderno, pós-industrial, pós-seja lá o que for... alguém acredita nesse delírio de que todos estão conectados?

Todos por aí são como nós: em casa, cada um tem seu próprio notebook, uma conexão wifi, um 3G, idealmente TV a cabo. Horas livres para usar a internet, no trabalho e fora dele. Todos os países são escandinavos. Sugiro um passeio pelo interior das regiões norte, nordeste e centro-oeste. Muita coisa não passou nem pela Revolução Industrial ainda – lamento destruir seu castelo cor de rosa, mas essa é a realidade em grande parte do mundo. Outra grande parte ainda está dividida, indecisa: só se sabe que ainda não chegou nem aos anos 60/70, à liberação sexual e à luta pelos direitos civis.

Em 2013, esses todos por aí, que são como nós, não somam ¼ da humanidade. Sejamos realistas. No mundo real, a Rede Globo, o SBT, a Record... eles e os programas evangélicos de rádio me preocupam muito mais do que blogs misóginos. Censurar obras cinematográficas e literárias, controlar o fluxo de informações da internet em seu território. Censura e controle me estressam. Use o Google aqui e na China. Será que meu blog está no índex dos blogs proibidos por lá? Por que diabos já houve alguma lista de leituras proibidas? Repare: a humanidade sempre teve essa necessidade de querer proibir o acesso das pessoas à informação. Dentro dos próprios movimentos – religiosos, LGBT, negro, feminista, esquerda – se fazem listas de pessoas e leituras danosas, perigosas, que propagam idéias contrárias àquele movimento de emancipação.

Digressões à parte, estou com Hobsbawm: o século XX foi breve e terminou junto com a Guerra Fria. Já estávamos, porém, na “Era da Informação” – quando a posse de conhecimentos é o principal recurso da humanidade e o requisito primordial do poder. Acredito ser esse um grande erro de muitos teóricos da Comunicação. Sempre estivemos em uma “Era da Informação”, desse mesmo jeito, no mínimo desde a Grécia – se nos referirmos ao Ocidente. A mudança é somente na velocidade de propagação das informações e nos métodos utilizados para controlá-las.

Livros que eram grafados à mão, em mosteiros, passaram a circular mais com Gutenberg. A internet amplificou isso para uma grande parte da população mundial, enquanto outras grandes partes ainda estão conhecendo Gutenberg ou não aprenderam a escrever. Geralmente, quanto mais atrasada e controlada a difusão de informações em um país, maior a pobreza de sua população. Fazer qualquer menção ao controle de quaisquer meios de comunicação é uma coisa que me dá calafrios! O que devemos prestar bastante atenção é nos problemas relativos ao receptor da mensagem – estes envolvem educação formal, oportunidades profissionais, segurança, economia, política. Eu vivi a época na qual a tecnologia de comunicação de massa foi desenvolvida para assistir ao emissor – naquela época, os problemas do receptor não recebiam atenção. 

O ritmo de desenvolvimento tecnológico produziu uma situação na qual há excesso de informação para qualquer indivíduo e, ao mesmo tempo, é extraordinariamente difícil que os indivíduos obtenham a informação de que mais urgentemente necessitam. Nas sociedades avançadas, o computador e os smartphones são, provavelmente, os principais instrumentos dessa nova era de informações – com a sempre onipresente internet. Uma coisa, porém, permanece desde aquela época que vivi: organizações (poucas) que centralizam o fluxo de conhecimento e tem o poder de sustar, acrescentar ou interpretar. Uma consideração que sempre deveríamos fazer sobre o futuro da comunicação: quem a controla e o que esperar de quem a controla.

A comunicação de massa não é uma força irresistível. Isso foi bastante defendido após a utilização da propaganda na I Guerra e, posteriormente, por nazistas e comunistas. Pensava-se que o público era um alvo indefeso. Famosa ‘Teoria de Projétil da Comunicação’: a audiência era considerada passiva, aguardando que a comunicação de massa disparasse contra ela um projétil de propaganda. As pesquisas concentravam-se no conteúdo da comunicação. Descobriu-se que essa teoria não se ajustava aos fatos e procurou-se outras variáveis, além do conteúdo, que pudessem ser influentes.

Pesquisadores descobriram que os grupos sociais a que uma pessoa pertence, suas relações interpessoais, fazem uma grande diferença no modo como ela usa e reage à comunicação de massa. Variáveis pessoais, assim como as variações no modo como a mensagem é apresentada, relacionam-se com os efeitos da comunicação. Também faz diferença se a comunicação tem público cativo ou oferece alternativas.




*Esse texto é como Kill Bill – devia ter sido editado para ser um só, mas viraram dois. Essa é a primeira parte; leia a segunda parte AQUI - seu início faz relação direta com o último parágrafo dessa primeira parte.