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3 de out de 2013

irreversível massa - parte II

Sabe o vídeo “Por ser menina”? Andou circulando, as pessoas falaram que choraram, todos amaram. Pois é, não gostei desse vídeo. Ele só se comunica bem com quem já é predisposto à causa. Outra edição, outra abordagem, mais fluidez nas falas da menina, talvez mudanças no texto, menos tempo de duração. Esse vídeo não precisa se comunicar comigo, ele precisa atingir quem é neutro, ignora ou desconhece a causa. Esse vídeo também não precisa conquistar gente claramente contrária à causa – e dificilmente eles serão conquistados.


É como quando digo para alguém deixar para lá e não bater boca com fanáticos religiosos seguidores de Felicianos e correlatos. Não adianta. Não adianta mostrar dados de pesquisas sérias. A audiência não é passiva. Procura o que quer, interpreta o que acha adequado às suas próprias necessidades e predisposições, raramente muda de idéia como resultado de persuasão. Fica o recado para ateus que querem dialogar usando lógica com fanáticos. Os emissores divulgam certos sinais e os receptores escolhem entre eles, selecionam alguns, rejeitam outros, fazendo o uso que quiserem e puderem.

Eu poderia rasgar meu diploma se acreditasse que a comunicação de massa não exerce efeito – apenas penso que esse efeito não é automático e nem irreversível. A questão a se pensar não é “o que a comunicação de massa nos faz?”. Trata-se do modo como partes da sociedade utilizam os meios de comunicação para falar com outras partes. A questão não seria, portanto, estudar algo que age sobre a sociedade, sim estudar a sociedade que usa esse algo em seu processo básico.

McLuhan dizia que “o meio é a mensagem”, mas a mensagem é muito mais que o meio. Pessoalmente, acho preocupante que muita gente tenha grande parte de sua concepção do mundo derivada da informação que recebe dos meios de comunicação de massa, que tem o poder de focalizar a atenção. Tem o poder de conferir status a algumas pessoas que lhes podem ser interessantes. Tem o poder de compreender o nosso conhecimento sobre todas as partes do mundo em que vivemos e a cujo respeito não temos experiência direta. Qual o grau de imparcialidade e fidelidade desses meios?

Parêntese. Sim, estou colocando a internet dentro dos meios de comunicação de massa. Apesar de permitir a qualquer um publicar qualquer coisa, os grandes portais são controlados por poucos grupos, muitos dos quais ligados à mídia tradicional, aos meios clássicos. Além disso, compare a quantidade de acessos de um Felipe Neto e de palestras do Habermas no youtube. A quantidade de acessos de um blog com textos acadêmicos e de outro, que fala mal de celebridades. O Felipe fucking Neto é best seller – livros! Essa digressão toda para dizer que não é o seu blog em defesa de qualquer causa que vai mudar o mundo – ele provavelmente não será nem lido por gente suficiente para tanto. Fecha parêntese.

Outro fator de poder da comunicação de massa é o que decorre do fornecimento de modelos de comportamento e isto está longe de ser inocente se, por exemplo, apresenta modelos de violência como um comportamento inofensivo ou aprovado. O que me dizem de o modelo machista, aquele homem preocupado, protetor, ciumento, ser sempre mostrado de forma inocente, boa, desejável? A violência desse machista é sempre mostrada com aprovação, justificada. É uma força hercúlea nadar contra a maré... Talvez um dia isso mude... Por enquanto, ficamos com os modelos de comportamento das novelas e com as versões dos fatos dos noticiários. Ou seriam modelos de comportamento dos noticiários e versões dos fatos das novelas?

O que estou tentando dizer, sem sucesso, é simples. A comunicação de massa, por si só, não é boa ou má. Ela é maciça? Isso pode ter como resultado focalizar a atenção em frivolidades e inverdades. Pode também levar realidades importantes à atenção de audiências muito vastas. Não sei até que ponto o caráter maciço da comunicação pode resultar em atividade e mudança (ou em passividade). Poderia possibilitar a participação política em escala muito mais ampla; levar as pessoas à cooperação; oferecer vantagens e oportunidades aos desfavorecidos. Ou poderia contribuir, simplesmente, para a passividade e a manutenção do status quo da sociedade.

Tudo depende de como for usada. A questão não é o que a comunicação de massa nos faz. Sim o que nós fazemos a nós próprios com a comunicação de massa. No Brasil, o problema aumenta: os meios de comunicação estão atrelados a interesses políticos. Apenas olhem a Constituição. O Quarto Poder, por aqui, está umbilicalmente ligado à política. Até as agências de publicidade e marketing dependem das grandes gordas contas do governo para se manterem! Isso não é um país com Liberdade de Expressão livre.




*Esse texto é como Kill Bill – devia ter sido editado para ser um só, mas viraram dois. Essa é a segunda parte; leia a primeira parte AQUI

*Recomendado: Liberdade de Expressão e Democracia. Se você ler Kill Bill partes I e II e esse último texto recomendado e, ainda assim, não entender porque digo que o Brasil não é um país com Liberdade de Expressão livre...