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21 de nov de 2013

viagens e aprendizados

Quando viajo, tento me desconectar do mundo. Conheço pessoas, lugares, descubro coisas (sobre mim mesma, inclusive). Minha conexão é com aquela realidade, com aquele lugar. Uma cidade, mesmo quando visitada pela enésima vez, sempre tem coisas novas a oferecer. Cores, odores, sabores, sons.

Dificilmente acesso redes sociais quando viajo – seja qual for o motivo da viagem. Acho desperdício de tempo. Para alguns, certamente é um atestado de solidão. Para outros, palco para auto promoção e massagens no ego. Há aqueles que apenas empregam mal seu tempo.

Sou a favor de compartilhar. Em viagens, pessoas cruzam nosso caminho para que compartilhemos aqueles momentos irreproduzíveis com elas. O ser humano parece ter desaprendido a compartilhar sons, odores e sabores. Só se interessa pelas imagens. Mostra-se ao mundo e deixa de abrir-se a pequenos mundos.

Cada pessoa que conheço por aí é um pequeno novo mundo, um aprendizado. Não as troco por elogios, admiração ou mesmo inveja das redes sociais. A obsessão que algumas pessoas têm em exibir o grande feito de terem viajado lhes fecha a percepção. O importante não é o outro lado da tela quando existem pessoas cara a cara. Sei que exposição ao vivo é complicada de controlar, mas é ela que propicia mudanças, aprendizado.

Em minha última viagem, aprendi que até uma das maiores empresas do mundo (no seu segmento de atuação) pode ser extremamente desorganizada e empregar gente despreparada. Lógica, planejamento e gerenciamento de tempo para quê, se pode-se criar uma versão curta metragem de um reality como No Limite? Bate papo e entrevista olho no olho para quê, se pode-se ficar de cabeça baixa olhando para uma tela de computador e digitando?

Há muito entendi que seleções são, quase sempre, jogos de cartas marcadas. Idéias feministas e sobre sexualidade livre agradam sim – desde que embaladas para serem palatáveis, causar polêmica, estejam sob controle ou não causem choque e estranheza. Eu queria ganhar dinheiro para tirar férias, conhecer o apresentador que não posso dizer o nome (talvez até dizer-lhe certas verdades em rede nacional) e, de quebra, ser ouvida. O problema é que eu e minhas idéias jamais estaríamos sob controle.

Não sigo regras das quais discordo, não faço alianças por interesse, não entro em matilhas, não interpreto personagens. Quais meus maiores defeitos e qualidades? Aí estão – e por isso quem me conhece de perto geralmente me ama ou me odeia. Sabe o que mais se pode adicionar na lista? Sou incapaz de sentir-me a vontade e ter uma conversa solta, franca, com quem não olha nos olhos. Minha sensação é de que a pessoa não está interessada e nem prestando atenção – na maioria das vezes, não está mesmo. Na moral: como você quer conhecer alguém se você sequer olha para a pessoa enquanto fala com ela?

Claramente, não faço parte das cartas marcadas. Seja como for, sempre pago para ver. Não foi diferente agora: paguei. E valeu. Não fosse pelo breve confinamento, não teria conhecido a Luana, as Maris, os dentistas, a fisioterapeuta – pessoas lindas que conversam olhando no olho. Tornaram tudo mais colorido e suportável – até as horas de estômago vazio em uma sala quente. Lamento pelos que genuinamente se de decepcionaram ao ver como as coisas funcionam por dentro e ficaram tristes ao perceber que não são uma das cartas marcadas do jogo. Bem vindos à realidade!

Liberta da ilusão, utilizei a desculpa de uma seleção para viajar. Reforcei laços de uma amizade que perdura há 26 anos. Aprendi que amor por alguém e estar aberto a alguém independe de os defeitos desse alguém serem os mesmos há 26 anos. Revi minha birra com o Woody Allen por meio de uma aula de interpretação da Cate Blanchett. Reencontrei amigos antigos e, por meio deles, conheci novos. Ganhei amiga que certamente levarei para a vida. Refleti sobre mudanças – internas, externas e geográficas.

Não ser uma das cartas marcadas – e saber-se como tal – tem a vantagem de nos permitir aproveitar até mesmo a comprovação de uma tese. Ou teses, à escolha do cliente. Quais sejam: uma pessoa como eu jamais seria escolhida para ser mico adestrado de circo (é, não sou adestrável) e as pessoas por aí, quando viajam, empregam mal seu tempo (despender esforços para conectar-se ao virtual, a imagens? Really?).


Disconnect and be happy people! A fábrica de ilusões, seja ela qual for, é só isso: uma fábrica de ilusões. Desconectar-se disso e viver a realidade, conhecer pessoas e lugares, embriagar-se de cheiros, sabores, sons, idéias... Vale a pena e recomendo. Mas se você gosta, almeje sem culpa ser um produto descartável e seja feliz à sua maneira.

8 de nov de 2013

as cotas e o circo

“As palavras tem poder, presidenta! Arcar com as consequências da escravidão requer de seu governo – e dos futuros, posturas que nenhum outro teve coragem ou interesse em promover. Um bom início de conversa tem relação com sua segunda afirmação: reconhecer o genocídio da juventude negra como ação promovida pelo estado brasileiro. E combatê-lo de fato.

Arcar com as consequências da escravidão passa por reordenar as forças produtivas e econômicas do país. Passa, por exemplo, por inverter a lógica da posse da terra e garantir a titulação dos territórios indígenas e quilombolas. Passa por efetivar a tão protelada reforma agrária ou, em outras palavras, acabar com a força do agronegócio e investir em uma agricultura familiar e socialmente comprometida.

E poderíamos seguir: E quanto aos bancos e seus lucros exorbitantes? E quanto ao setor empresarial privado e seu poder de mando? E quanto aos meios de comunicação? E quanto às mega construtoras e às corporações internacionais? E quanto à taxação das grandes fortunas? E quanto à qualidade da escola pública brasileira, em todos os níveis, à aplicação da Lei 10639 e o acesso às universidades de ponta? E quanto ao modelo de segurança pública?

Arcar com as consequências da escravidão, presidenta, significa colocar xeque os pilares de sustentação do modelo econômico vigente, tudo que o cerca e o alimenta. Mas você está certa. A sociedade brasileira nos deve isso. Como você pensa em começar quitar essa dívida?”


O trecho acima foi retirado DAQUI e refere-se à assinatura do projeto de lei que reserva 20% das vagas em concursos públicos de órgãos do governo federal para negros (reportagem AQUI).

As reações nas redes sociais foram várias. É, no mínimo, engraçado observar como a maioria dos classe-medianos fica ouriçada. Uma parte defende ferrenhamente as cotas, sem maiores reflexões. Argumentos rasos, que sequer percebem a dimensão do debate. Outra parte defende ferrenhamente a si mesmos – racistas ou não, o que fazem é isso: defendendo uma meritocracia ilusória, pensam estar defendendo a si mesmos. Pouca lucidez, de modo geral.

Diante de perguntas como “quem é verdadeiramente branco neste país?”, respostas como “pergunte a um policial que ele sabe diferenciar direitinho”. Nem sempre perguntas e respostas são feitas de má fé, porém. O que vejo bastante é ignorância, pura e simples, seja qual for o tema do debate. O genocídio contra jovens negros da periferia é uma realidade, o fato de que todos viemos da África também. Sigo a ciência, então diria que até prova em contrário, somos todos afro-descendentes, evolucionariamente falando. Esses PMs (e seus 'simpatizantes') eu não classificaria como 'homo sapiens', sim 'homo irracionalis'.

...Disse a loira cansada de argumentar com estatísticas, dados históricos, referências, etc... Confesso meu cansaço argumentativo nesse assunto, assim como em tantos outros. Em geral, as pessoas só vêem o que querem ver. Desculpem, é que sou reaça, embora eu desconfie de qualquer direita. As direitas nos deram Hitler, Mussolini. Também sou esquerdista, embora eu desconfie de qualquer esquerda. Sabe como é, elas pariram Stalin, Mao. Pilhas de corpos, à direita e à esquerda. Pilhas de fodidos, em todas as direções.

Quando falo que sou contra as cotas, sozinhas, sem que medidas sérias sejam paralelamente tomadas, uns me chamam de reaça, outros de esquerdista. Ignoram a palavra ‘sozinhas’. Investimentos sérios para uma educação universal de qualidade, aparentemente, nenhum dos lados quer discutir. Medidas urgentes e necessárias, em todas as áreas, continuarão sendo urgentes e necessárias por quantas outras décadas? Para os ‘istas’ que se acusam mutuamente e não se olham no espelho, dou os parabéns! Após décadas governado por PSDB e PT, o país finalmente se transformou numa Dinamarca. Às avessas, se me permitem opinar.

Em minha opinião, esse país está condenado! Parte do povo é analfabeto funcional e a outra parte é de covardes intelectuais que têm medo de se insurgir contra a "República da Boa Vontade" ou acreditam estar se beneficiando com ela. 

Dica: não se resolvem séculos de escravidão com cotas, sem que outras medidas, urgentes há décadas, sejam implementadas, como, por exemplo, educação universalizada e de qualidade. Infelizmente, por aqui, só se tem interesse pelas medidas de curto prazo que não resolvem as desigualdades no médio e no longo prazos. Assim como não se resolve o problema da saúde pública com importação de médicos, ignorando outras medidas que já são urgentes e necessárias há décadas. Senhores que acreditam na benevolência e nas boas intenções deste governo: bem vindos ao picadeiro. O circo para 2014 está firme e forte. Oremos.

Ademais, o que digo não é de direita ou de esquerda: é apenas lógico. Cotas, sejam do que for, sozinhas, não resolvem. Atenção na sutileza, geralmente ignorada quando outros privilegiados concordam com o que eu disse. Não sou contra cotas: sou contra cotas sozinhas, como tem sido feito - é só essa minha crítica ao apaziguamento de desigualdades históricas pelo sistema de cotas no Brasil. É urgente e é necessário, há décadas, que se tomem medidas sérias e qualitativas na educação de níveis fundamental e médio, e isso continua sendo sistematicamente ignorado por PT, PSDB...

Finalizo essa pequena exposição dizendo algumas coisas para os branquinhos coitadistas que vi reclamando das cotas e falando em meritocracia. Não dá para comparar a opressão e as dificuldades que homens brancos heterossexuais (ainda que pobres!) sofrem, na sociedade atual, com a opressão e as dificuldades que um homem negro heterossexual sofre (a não ser que você acredite na inexistência de racismo, aí dá para comparar qualquer coisa). São coisas incomparáveis! Isso é o mesmo de eu querer comparar a opressão que eu sofro, advinda do machismo, com a opressão que uma lésbica ou uma mulher negra sofrem... São coisas incomparáveis e, assim como eu preciso aceitar e entender que sou uma privilegiada em nossa sociedade, os homens heteros brancos também, pois são ainda mais privilegiados. É difícil entender isso?


Para terminar, um recado para dona Dilma: eu ficaria muito feliz se fosse implementada uma cota de 20% de parlamentares honestos no Congresso Nacional.


Não acredita que o circo está de pé? Prestaram atenção em outro fato interessante dessa última semana? Os senadores derrubaram projeto obrigando a divulgação de gastos e doações nas campanhas eleitorais (leia AQUI). Enquanto isso, os palhaços vão as ruas pedir o fim da corrupção. Justo. Ou esperneiam porque terão menos vagas no seu american dream à brasileira. Focas adestradas aplaudem medidas ineficazes e silenciam quanto às medidas nocivas. Justíssimo.


> Leitura sempre recomendada: O Ovo da Serpente










7 de nov de 2013

feminismo e relações internacionais

Não há, exatamente, uma teoria feminista das Relações Internacionais; o que há são várias concepções teóricas que chamam a atenção para diferenças sociais baseadas em gênero. Busca-se entender como o universo patriarcal constrói discursos e práticas violentas nas relações entre os Estados e dentro deles.

As perspectivas feministas enxergam a construção histórica das Teorias de Relações Internacionais como uma experiência masculinizada. As fronteiras do Estado, a globalização e a militarização são exemplos de estruturas patriarcais criadas pelo discurso dominante masculino, que é reproduzido e justificado pelas teorias. Dessa forma, expõe-se a exclusão das mulheres do discurso teórico das Relações Internacionais e a construção sexista e androcêntrica das Relações Internacionais.

Parêntese
O que foi dito até aqui serviria, acredito, para qualquer campo teórico-acadêmico. A construção histórica de algum deles inseriu a visão feminina? Ou melhor: inseriu a visão de alguém que não fosse homem, branco, livre? Por isso é importante que os excluídos conheçam sua própria história, para entender o seu presente. Especificamente relacionado a mulheres, escrevi recentemente sobre Grécia e Roma antigas, nossos berços do Ocidente.
Fecha parêntese

O debate sobre a segurança internacional é central nas Relações Internacionais. A perspectiva feminista de segurança questiona a visão tradicional voltada para a relação entre os Estados (e volta a atenção aos indivíduos que são vítimas da violência). O feminismo critica a ausência da ótica feminina dentro dos estudos de segurança internacional, traz a questão do gênero para as discussões e chama atenção para a ideologia patriarcal por trás da violência e dos discursos acadêmicos sobre o tema.

As diversas formas nas quais as mulheres são vítimas de violências internacionais são expostas. As violências podem ser diretas (como no caso de estupros), ou estruturais (quando as mulheres são vítimas da exploração econômica ou são impedidas de tomar decisões sobre si próprias, caso de países que obrigam o controle de natalidade e de países que impedem que elas abortem).

Susan Brownmiller, em Against our Will, chama a atenção para o uso do estupro como instrumento de violência internacional. A Convenção de Genebra reconhece o uso do estupro como arma de guerra. Na Bósnia, ele foi usado sistematicamente como parte da limpeza étnica, por exemplo. O estupro não é somente uma forma de violência de um grupo em relação a outro: é mais uma forma de reafirmação da dominância masculina, que objetifica a mulher e a transforma em pilhagem de guerra.

Além do estupro, também a questão da violência doméstica raramente é expressa em termos de segurança internacional. O avanço da defesa dos direitos humanos em nível internacional, por outro lado, leva à consideração de que o direito da mulher é universal e a violência em seu lar é, desse modo, um tema internacional.

Existem, também, trabalhos de investigação da questão de gênero na construção das estruturas de poder. J.Ann Ticker, em Gender in International Relations, expõe a construção masculino-sexista das concepções realistas, marxistas e liberais das Relações Internacionais, pois elas consideram dadas as estruturas patriarcais sociais do Estado e do sistema internacional. Como alternativa, a autora propõe um processo de inclusão, de baixo para cima, que inclua as experiências femininas dentro do campo da segurança internacional.





> para quem tiver interesse no tema feminismo e relações internacionais, deixo o link para a dissertação de uma colega da minha turma do mestrado: Gênero e Relações Internacionais: uma crítica ao discurso tradicional de segurança


Depois do assunto pesado e antes da nota pesada, um pouco de arte, daquelas que arrepiam!




NOTA – para quem se interessa, autoras feministas pós-Guerra fria:

Cynthia Enloe – um dos grandes nomes do campo feminista das Relações Internacionais. Do seu trabalho, depreende-se que a base para a high politics é dada pelas mulheres como um todo, sejam elas esposas, namoradas, prostitutas, trabalhadoras ou consumidoras.

Sua obra clássica é Banana, bases and beaches. Destaca a experiência das mulheres como centrais ao entendimento das relações internacionais. Mostra uma visão sexista de sete arenas nas quais se realiza a política internacional: turismo, nacionalismo, bases militares, diplomacia, força de trabalho feminina na agricultura, têxteis e serviços domésticos. A autora argumenta que a estabilidade do sistema econômico internacional depende das relações políticas e militares entre os Estados que, por sua vez, dependem de comunidades políticas e militares estáveis que são de responsabilidade de esposas, namoradas, prostitutas e anfitriãs. No turismo, o uso da imagem das mulheres facilita a venda de viagens e o turismo sexual aparece como mais uma forma de dominação masculina internacional. Nas bases militares, as esposas dão suporte aos maridos em longas missões no exterior e, como operárias e consumidoras, sustentam o comércio internacional.

Na obra The morning after: sexual politics and the end of the Cold War, a autora chama a atenção para o papel das mulheres russas no final da Guerra Fria, em que as mães, cansadas dos sacrifícios de seus filhos na Guerra ex-URSS-Afeganistão, passaram a deslegitimar o poder militar soviético. Em relação à Guerra do Golfo, ela quebra com a tradicional visão de aliados x Iraque, para contar a experiência de empregadas domésticas filipinas que, vítimas da pobreza em seu país, foram obrigadas a procurar trabalho no Kuwait e lá foram vítimas de abusos sexuais nas casas de seus patrões. Com a guerra, foram vítimas de estupros cometidos por soldados iraquianos. Apesar de vítima, o Kuwait é criticado por ser um país agressor das mulheres, excluídas da vida política e constantemente vítimas de agressões masculinas.

Jane S. Jaquette – uma leitura interessante de ser feita e, guardadas as devidas proporções, relacionada à situação do Brasil atual, com várias mulheres entrando cada vez mais na política.

Na obra Feminism and the challenges of the post-Cold War, a autora mostra que, apesar da democratização pós-Guerra Fria que em muitos lugares produziu um aumento das mulheres na vida política (especialmente onde foram implementadas cotas), as políticas neoliberais continuam a predominar e as mulheres estão longe de sua emancipação. A preocupação é que o aumento da participação feminina na política ainda não produziu resultados transformadores. Isso seria parcialmente explicado pela agenda político-econômica construída ainda durante a Guerra Fria, na qual as mulheres se tornaram adesistas ou radicalistas (procurando reformas mínimas dentro da estrutura existente ou opondo-se a tudo que saía dos Estados). Para ela, é preciso produzir rapidamente avanços na Teoria Feminista que lidem com as crescentes desigualdades.

5 de nov de 2013

reis do quê mesmo?

Minha irmã gêmea, sobrevivente dos meus 20 e loucos anos, queria escrever uma carta para o "rei do camarote"... mesmo sabendo que ele é muito importante vip e jamais leria qualquer coisa escrita pela plebe. É que a capital do país está cheia de “reis da balada”, desses que acham que toda mulher sonha com uma Ferrari. Há as que sonham... e há as que, como eu, preferem os Porsches (alemãzinha e fã de James Dean, fazer o quê?). Estou falando do carro, não do motorista ok. Carro por carro, quero MEU Porsche e não uma Ferrari. É, sou uma mulher invejosa, mal amada, egoísta: quero as MINHAS coisas, não as alheias. Já sonhos com o motorista...  dependem de quem ele é e independem do que ele dirige (consigo até dirigir meu próprio carro até a casa do gato, vejam só!).

Antes de qualquer outra coisa, devo dar parabéns. À Veja São Paulo, por me dar aquela estranha sensação de vergonha alheia. Juro! Quando me deparo com essas coisas, em veículos de comunicação, tenho vergonha de ter feito graduação em Jornalismo (as bizarrices da Publicidade ficam para outro dia). Parabéns, sobretudo, ao autor dos 10 Mandamentos! Moço, você conseguiu uma façanha dupla! Saudades do Thor Batista! Saudades da Bíblia! Ambos menos risíveis... Sabe como é, chutar cachorro morto é covardia.


Sabe uma coisa? Mas aí eu acho que é pesado falar. Eu já transei com mulher na balada. No banheiro. Fora dele também. E com homem. Sabe como é, já vivi meus 20 e loucos anos. Solteira e monogâmica (na maior parte do tempo, a última opção). Universidade Federal, época de experimentação. De tudo. Sexo, drogas, rock n’ roll. Rodinhas de violão na Praça dos 3 Poderes. Rodinhas de violão no Pontão. Rodinhas de violão everywhere. The Doors, sinuca, fumaça e um CA subterrâneo qualquer. Os pés sujos da vizinhança...

As pessoas faziam sexo. Sem dramas. Foda-se. De vez em quando, aparecia um babaca. Muitos, como em qualquer lugar. Deal with it and no mimimi. Aprende-se cedo que nós, quebrados classe-medianos não herdeiros, temos que ter personalidade. Ou não ter nenhuma e seguir a manada, a depender do caso. Seja como for, me amarão ou me odiarão por quem eu sou – sorry, moça desprovida de bens. Não sei nem como pagarei o cartão de crédito, ou seja...

Nada tenho, senão meu cérebro e meu corpo. Acho que é pesado falar, mas nem toda mulher bonita na balada está à venda. Algumas (e conheço várias!), gostam de se jogar na pixxxta, conhecer gente de verdade, sabe? No mínimo, ganhamos novos amigos. Muita gente prefere uma Hering básica baratinha e gosta de dirigir o próprio carro, inclusive. Champagne é para os fracos, gostamos de Bourbon! Entretanto, te entendo. Eu não sou seu alvo, o tipo de companhia que você busca.

Deve ser difícil ser desinteressante. Você já pensou em fazer análise, terapia? Quais são as causas dessa falta de auto-estima? Suas ações e suas falas entregam o que seu sorriso de botox tenta esconder, meu caro. Não sei se é o caso mencionar, mas acho que você poderia usar um pedacinho do dinheiro que gasta em baladas e fazer análise, terapia... e, se achar isso uma bobagem, ou coisa de invejoso, contrate um personal stylist pelo amor de Cher! É um pecado ter tanto dinheiro, comprar marcas fodas, e, ainda assim, vestir-se tão mal! Por gentileza, mude de esteticista/dermato/cirurgião/whatever: para um milionário de 39 anos, o senhor está bem acabadinho viu?!

Especulações... mas se você pode especular que sou invejosa, posso especular que talvez, se você não tivesse levado aquele fora na quarta série, as coisas tivessem seguido um rumo diferente. Talvez, hoje, você estivesse satisfeito dirigindo algo mais modesto... um Audi? Um TT, pelo que vejo em minha cidade, dispensaria os seguranças, não os interesseiros. Se tens muitos convidados, amigos e mulheres... Afinal, o que há de surpreendente em transar na balada? Não viveste seus 20 e loucos anos?

Talvez você ache surpreendente que alguém queira fazer sexo com você. Tenho cá minhas dúvidas, mas acho que alguém que está acostumado a pagar para ter companhia não deve saber muito do que a palavra tesão é capaz. Ou do que um bom papo é capaz, no caso de amizades que não envolvam sexo. E sabe uma coisa? É meio pesado dizer... eu, assim como outras pessoas, não temos inveja de você. O que temos chama-se pena.

Nada de Veuve Clicquot para impressionar quem não gosta da gente. Somos chatos. Não precisamos impressionar ninguém. E gostaríamos de saber quanto você paga, por exemplo, à sua empregada? Curiosidade, apenas. De alguém que sim, gostaria de ter 50 mil para gastar como quisesse agora – mas que ao menos o faria de forma menos ridícula. Moço, você é rico, pelo amorrrr contrate um assessor pessoal... Quer ser um looser poser? Posa pelo menos de milionário com consciência social... está na moda, sabia? Umas aulinhas de português também pegam bem nesse momento em que se discute a educação no país.


Mim não faz nada. Porém, se mim fizesse alguma coisa, mim te daria um conselho. De grátis (eu sei, você não está acostumado a receber nada gratuito... tente entender como é). Tira férias, vai pra Mikonos e Santorini, Bali, Ibiza... Colega, tens dinheiro até para escalar o Everest! Reflita sobre ser patético e faça algo a respeito, for God fucking sake! Nem todo mundo vai lamber seu saco por causa da sua conta bancária, viu? E os que fizerem isso sem que haja dinheiro envolvido são aqueles com os quais poderá contar > fica a dica.

Ou ignore tudo que eu disse, afinal sou uma pobre invejosa.





NOTA: o que penso sobre as senhoritas que dão ibope para estes “reis das baladas” está implícito em quem sou. E moças: querem ser sustentadas? Ao menos arranjem ricos com cérebro e amor próprio. OH WAIT...







LEITURAS RECOMENDADAS:

Show do ridículo? NESSE TEXTO o autor conseguiu expressar bem o que penso dos pobres Alexandres, reis de camarotes.


Leia ALEXANDER, O GRANDE - E viva o neobarroco brasileiro! É pela ostentação que nos tornamos uma verdadeira catedral de nós mesmos, a ser consagrada por fiéis admiradores.

Caso se interesse por uma leitura mais social do tema – não está claro que gente apanha nas ruas para sustentarmos mais reis do camarote? – aconselho a leitura DESSE TEXTO





UPDATE: 
O babaca do camarote já está dizendo que era tudo brincadeira e que é tudo falso (leia sobre isso AQUIAQUI e AQUI). O que foi? Ficou com vergonha alheia de si mesmo? Fake ou não, deixo o texto exatamente como foi publicado. O motivo é simples: não me importa se esse reizinho em questão é fake ou não, pois já tive o desprazer de conhecer vários que são idênticos (releia o 1º parágrafo do texto). É, eles existem. E esse breve texto, para quem não entendeu, é sobre eles.

Nosso reizinho, para completar, é agressor de mulheres (leia AQUI). Não me surpreende, afinal esse tipo de cidadão trata as pessoas como coisas e costuma não ter nenhum respeito por mulheres, sejam elas daquelas que eles classificam como "interesseiras" ou não. E me dizem que exagero quando afirmo que é para fugir e ficar longe desse tipo de homem...