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8 de nov de 2013

as cotas e o circo

“As palavras tem poder, presidenta! Arcar com as consequências da escravidão requer de seu governo – e dos futuros, posturas que nenhum outro teve coragem ou interesse em promover. Um bom início de conversa tem relação com sua segunda afirmação: reconhecer o genocídio da juventude negra como ação promovida pelo estado brasileiro. E combatê-lo de fato.

Arcar com as consequências da escravidão passa por reordenar as forças produtivas e econômicas do país. Passa, por exemplo, por inverter a lógica da posse da terra e garantir a titulação dos territórios indígenas e quilombolas. Passa por efetivar a tão protelada reforma agrária ou, em outras palavras, acabar com a força do agronegócio e investir em uma agricultura familiar e socialmente comprometida.

E poderíamos seguir: E quanto aos bancos e seus lucros exorbitantes? E quanto ao setor empresarial privado e seu poder de mando? E quanto aos meios de comunicação? E quanto às mega construtoras e às corporações internacionais? E quanto à taxação das grandes fortunas? E quanto à qualidade da escola pública brasileira, em todos os níveis, à aplicação da Lei 10639 e o acesso às universidades de ponta? E quanto ao modelo de segurança pública?

Arcar com as consequências da escravidão, presidenta, significa colocar xeque os pilares de sustentação do modelo econômico vigente, tudo que o cerca e o alimenta. Mas você está certa. A sociedade brasileira nos deve isso. Como você pensa em começar quitar essa dívida?”


O trecho acima foi retirado DAQUI e refere-se à assinatura do projeto de lei que reserva 20% das vagas em concursos públicos de órgãos do governo federal para negros (reportagem AQUI).

As reações nas redes sociais foram várias. É, no mínimo, engraçado observar como a maioria dos classe-medianos fica ouriçada. Uma parte defende ferrenhamente as cotas, sem maiores reflexões. Argumentos rasos, que sequer percebem a dimensão do debate. Outra parte defende ferrenhamente a si mesmos – racistas ou não, o que fazem é isso: defendendo uma meritocracia ilusória, pensam estar defendendo a si mesmos. Pouca lucidez, de modo geral.

Diante de perguntas como “quem é verdadeiramente branco neste país?”, respostas como “pergunte a um policial que ele sabe diferenciar direitinho”. Nem sempre perguntas e respostas são feitas de má fé, porém. O que vejo bastante é ignorância, pura e simples, seja qual for o tema do debate. O genocídio contra jovens negros da periferia é uma realidade, o fato de que todos viemos da África também. Sigo a ciência, então diria que até prova em contrário, somos todos afro-descendentes, evolucionariamente falando. Esses PMs (e seus 'simpatizantes') eu não classificaria como 'homo sapiens', sim 'homo irracionalis'.

...Disse a loira cansada de argumentar com estatísticas, dados históricos, referências, etc... Confesso meu cansaço argumentativo nesse assunto, assim como em tantos outros. Em geral, as pessoas só vêem o que querem ver. Desculpem, é que sou reaça, embora eu desconfie de qualquer direita. As direitas nos deram Hitler, Mussolini. Também sou esquerdista, embora eu desconfie de qualquer esquerda. Sabe como é, elas pariram Stalin, Mao. Pilhas de corpos, à direita e à esquerda. Pilhas de fodidos, em todas as direções.

Quando falo que sou contra as cotas, sozinhas, sem que medidas sérias sejam paralelamente tomadas, uns me chamam de reaça, outros de esquerdista. Ignoram a palavra ‘sozinhas’. Investimentos sérios para uma educação universal de qualidade, aparentemente, nenhum dos lados quer discutir. Medidas urgentes e necessárias, em todas as áreas, continuarão sendo urgentes e necessárias por quantas outras décadas? Para os ‘istas’ que se acusam mutuamente e não se olham no espelho, dou os parabéns! Após décadas governado por PSDB e PT, o país finalmente se transformou numa Dinamarca. Às avessas, se me permitem opinar.

Em minha opinião, esse país está condenado! Parte do povo é analfabeto funcional e a outra parte é de covardes intelectuais que têm medo de se insurgir contra a "República da Boa Vontade" ou acreditam estar se beneficiando com ela. 

Dica: não se resolvem séculos de escravidão com cotas, sem que outras medidas, urgentes há décadas, sejam implementadas, como, por exemplo, educação universalizada e de qualidade. Infelizmente, por aqui, só se tem interesse pelas medidas de curto prazo que não resolvem as desigualdades no médio e no longo prazos. Assim como não se resolve o problema da saúde pública com importação de médicos, ignorando outras medidas que já são urgentes e necessárias há décadas. Senhores que acreditam na benevolência e nas boas intenções deste governo: bem vindos ao picadeiro. O circo para 2014 está firme e forte. Oremos.

Ademais, o que digo não é de direita ou de esquerda: é apenas lógico. Cotas, sejam do que for, sozinhas, não resolvem. Atenção na sutileza, geralmente ignorada quando outros privilegiados concordam com o que eu disse. Não sou contra cotas: sou contra cotas sozinhas, como tem sido feito - é só essa minha crítica ao apaziguamento de desigualdades históricas pelo sistema de cotas no Brasil. É urgente e é necessário, há décadas, que se tomem medidas sérias e qualitativas na educação de níveis fundamental e médio, e isso continua sendo sistematicamente ignorado por PT, PSDB...

Finalizo essa pequena exposição dizendo algumas coisas para os branquinhos coitadistas que vi reclamando das cotas e falando em meritocracia. Não dá para comparar a opressão e as dificuldades que homens brancos heterossexuais (ainda que pobres!) sofrem, na sociedade atual, com a opressão e as dificuldades que um homem negro heterossexual sofre (a não ser que você acredite na inexistência de racismo, aí dá para comparar qualquer coisa). São coisas incomparáveis! Isso é o mesmo de eu querer comparar a opressão que eu sofro, advinda do machismo, com a opressão que uma lésbica ou uma mulher negra sofrem... São coisas incomparáveis e, assim como eu preciso aceitar e entender que sou uma privilegiada em nossa sociedade, os homens heteros brancos também, pois são ainda mais privilegiados. É difícil entender isso?


Para terminar, um recado para dona Dilma: eu ficaria muito feliz se fosse implementada uma cota de 20% de parlamentares honestos no Congresso Nacional.


Não acredita que o circo está de pé? Prestaram atenção em outro fato interessante dessa última semana? Os senadores derrubaram projeto obrigando a divulgação de gastos e doações nas campanhas eleitorais (leia AQUI). Enquanto isso, os palhaços vão as ruas pedir o fim da corrupção. Justo. Ou esperneiam porque terão menos vagas no seu american dream à brasileira. Focas adestradas aplaudem medidas ineficazes e silenciam quanto às medidas nocivas. Justíssimo.


> Leitura sempre recomendada: O Ovo da Serpente